terça-feira, 16 de junho de 2026

Da arte da Política, da politicagem e das raposas e das galinhas

No youtube o link é: https://youtu.be/7uPiVsTA-h4 Tem início hoje mais uma reunião do COPOM, o Comitê formado pela Diretoria Colegiada do Banco Central, com a finalidade de definir a taxa básica de juros – a Selic – a vigorar em nossa economia pelos próximos 45 dias. O objetivo, como exaustivamente difundido, é fixar uma taxa de juros que permita à Autoridade Monetária levar a inflação do país ao centro da meta – fantasiosa por excessivamente ambiciosa – de 3%. Economistas de competência reconhecida insistem em demonstrar o irrealismo da meta fixada pelo governo Lula, como meta contínua, o que significa que, a cada novo mês (por exemplo, junho de 2026), a inflação medida para o período de 12 meses - de julho de 2025 a junho de 26 – deverá ficar em 3%. *** Em economia como a brasileira, onde mecanismos de indexação insistem em transferir a inflação passada para preços futuros (como a prática de se corrigir uma série de preços pela inflação passada, inclusive salários, alugueis e serviços públicos), apenas uma vez – julho de 2009, a meta foi alcançada. Feito alcançado quando a meta era maior e a meta devia ser obtida a cada ano. A tais mecanismos, devem ser somados outros fatores capazes de afetarem a inflação. É o caso das guerras que afetam os preços de gás e petróleo, combustíveis, e insumos agrícolas, como fertilizantes. Outro importante fator é consequência de fatores e desastres climáticos, que afetam os preços dos alimentos e o custo de vida de toda a população. Ou ainda a estrutura da economia brasileira, exportadora de matérias primas e bens de pouco grau de transformação e importadora de bens muito mais caros, como manufaturados, máquinas e equipamentos, em situação onde os fluxos de capitais e controles cambiais são praticamente inexistentes. *** Para todos estes fatores que realimentam o processo de elevação da espiral de preços, a visão clássica adotada pelo Banco Central recomenda a retirada de dinheiro de circulação (enxugamento de liquidez) de forma a impedir a expansão dos gastos da demanda do conjunto de agentes econômicos, seja em bens de consumo ou investimento. É essa restrição monetária que torna o dinheiro raro e caro, e se manifesta por elevação da taxa de juros. Os raros leitores perceberão que a manutenção de taxas elevadas de juros não será capaz de combater elevações de preços cujas causas passam longe de excesso de gastos, tanto privados quanto públicos. *** Aqui há que se destacar: com preços elevados por fatores alheios à um excesso de gastos pela população, os juros altos apenas aumentam o endividamento das famílias e o seu grau de inadimplência, exigindo que o governo amplie os seus gastos sociais, de forma a permitir um mínimo de condições dignas de vida pela ampla maioria da população. Gastos que a grande imprensa e os analistas do mercado financeiro criticam como gastança desenfreada. Por seu aspecto curioso, vale a pena registrar: o desgoverno anterior e a gestão do liberal Guedes, para reduzir custos, deu sequência e aprofundou a destruição em andamento do programa de manutenção de estoques reguladores de alimentos e preços de produtos agrícolas. Só no governo anterior 27 armazéns foram fechados, cuja retomada é acusada de gastança desnecessária. *** A elevação da Selic, determinada pelo Banco Central, não causa problemas de endividamento apenas para as famílias. Também o governo é afetado por tal política inócua para combater a inflação e sua multiplicidade de causas. De longe, com pagamento de mais de 1 trilhão de reais, os juros pagos sobre a dívida pública é, de longe o maior e mais nocivo gasto do governo. E aumenta o endividamento ao tempo que provoca a queda do nível de atividade e do PIB do país. Em resumo: amplia o grau de endividamento do governo, o que leva os financiadores da dívida pública – os agentes financeiros – a exigirem juros maiores para continuarem rolando a dívida. Com isso, as expectativas de juros e preços não convergem para o centro da meta no longo prazo e o BC aumenta os juros, que beneficiam apenas os donos dos títulos públicos. *** Trato desse tema em razão de a finalidade primeira do Banco Central ser sempre considerada o combate à inflação, não levando em conta outros importantes objetivos, como a manutenção do nível de emprego, a estabilidade do sistema financeiro, a manutenção da solvabilidade dos bancos e outras instituições financeiras. Como visto, a política adotada, dependente apenas de juros altos está mais próxima de se tornar um fracasso, não tendo apresentado os resultados desejados. O que resta então ao Banco Central? Regular o sistema financeiro e seus agentes, para evitar casos como o escândalo do Banco Master e o prejuízo causado à população. Fiscalizar as instituições financeiras, dentro da boa técnica de que quem regula e estabelece as normas, o faz visando objetivos voltados para o fortalecimento e desenvolvimento deste importante setor de financiamento do crescimento de toda a sociedade. Daí decorre que quem regula é que deve fiscalizar as instituições e suas operações. *** Fui funcionário do Banco Central nos idos dos anos 90 e na virada dos anos 2000. Naquela época, o mercado era infestado por boatos, intrigas e balões de ensaio que davam conta de pressões dos bancos e as associações de seus representantes, visando dividir aquele órgão público, permitindo que ao Banco que sobrevivesse, fosse reservada a função do exercício da gestão de política monetária e controle da inflação, com seus juros altos. Quanto à atividade de fiscalização, seria exercida por um mecanismo de autorregulação: os bancos fiscalizando a si mesmo e sua atuação. A raposa gerindo o clube de raposas e cuidando das galinhas. Mas eram outros tempos. Tempos que a PEC 65 pode resgatar, depois de aberta a porteira (tanto a giratória quanto aquela que permite aos bancos não se submeterem a quaisquer controles). Esse é um resultado que a PEC 65, se aprovada, tem potencial para colocar em curso. Depois de retirar o Banco do aparelho de que ele faz parte por sua própria origem: o aparelho do Estado e de privatizar o dinheiro que ele, por este motivo, é o responsável pela emissão. Ou ainda apoderar-se das reservas internacionais do país e de seus rendimentos. Não à PEC 65.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A arte da Política e a PEC 65, aprovada na CCJ do Senado

no youtube: https://youtu.be/7JwsJK3rtoE Entre as lendas que povoam o imaginário popular e vão se tornando uma tradição com o passar do tempo, sem dúvida deve ser incluída a da sabedoria ou astúcia mineira em relação ao domínio da arte de se fazer política. Vários são os fatos, os causos, as nuvens de diferentes formatos acompanhadas de mudanças de opinião e argumentos que embasam decisões, e que asseguram ao matreiro político mineiro estar sempre do lado vencedor, ao lado da decisão adotada. *** Não à toa, buscando inspiração para iniciar este pitaco e em dúvida quanto ao uso do termo matreirice, recorri ao Google, e o mestre à indefectível “Visão geral criada por IA”, que desconfio ser muito pouco infalível. De qualquer forma, está lá: “O termo é frequentemente associado à política mineira (especialmente na Primeira República), onde a "matreirice" descrevia a habilidade dos líderes de usar o jogo de cintura, a sutileza e a persuasão para contornar rivalidades e moldar as situações a seu favor. “ Ou seja: a esperteza de, ficando rouco de tanto ouvir, acabar sempre se aproveitando da lei de Gerson, aquela de levar vantagem em tudo, vendendo a ideia de, por não se manifestar de forma clara, estar sempre da ideia ou da melhor opinião ou solução para alguma situação problema. *** É verdade que a fama decorre da República Velha, dos coronéis da política do café com leite que, com a chegada da Revolução de 1930 ao poder, tiveram que se adaptar, sob outra roupagem, sem, contudo, perderem o poder que nunca deixaram de exercer. Mesmo nos regimes militares ditatoriais. Como também é verdade que a experiência autoritária gerou, como não surpreende a ninguém, a perda do vigor e do aprendizado que apenas o processo de eleições democráticas permite desenvolver. O que permitiu que, na virada do novo milênio, Minas elegesse golpistas cuja única referência era uma suposta tradição de família ou, mais recentemente, empresários sem qualquer brilho empresarial, social ou intelectual. *** Na antiga tradição mineira, dizia-se que só se inicia uma reunião para votar aquilo que já foi decidido antecipadamente. E que não se leva nenhum assunto à discussão e votação, se houver uma mínima chance de derrota. Foi não levar a sério a advertência mineira que fez o governo Lula e sua liderança, amargarem a derrota que lhe foi imposta na CCJ do Senado, na semana passada, pela oposição ao Brasil, com a aprovação simbólica da PEC 65, que dá ao Banco Central o estatuto de 4º Poder do Estado Brasileiro. *** Muito já foi dito do mal que a independência do Banco Central representa para a sociedade brasileira e seus mecanismos de exercício democrático do poder, via processo eleitoral, livre de influências do poder econômico e dos interesses dos grandes grupos, seja da grande imprensa tradicional, seja das big techs e das redes sociais que comandam. No entanto, o poder do sistema financeiro e suas instituições, todas aplaudindo e apoiando a independência do Banco Central; a capacidade de exercerem o poder de financiamento de campanhas por formas oblíquas, ao arrepio das leis; a bancada de seus defensores entre os parlamentares do Legislativo, nunca exagerada como o caso Master não nos deixa esquecer, todo o peso de um setor empresarial que ânsia por dominar e deter a chave do Banco Central, capaz de emitir dinheiro, acabaram se impondo e exigindo a imediata votação, em plenário, da PEC da Privatização do Banco Central. *** Foi um Rothschild da família dos banqueiros quem disse “"Permitam-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação, e não me importarei com quem faça suas leis." Para quem deseja apenas obter mais dinheiro do uso de dinheiro, sem nenhum benefício de produção real (gerador de bens, utilidades ou empregos), sem contribuir para o PIB, para o desenvolvimento social inclusivo e harmônico do país, nada melhor que ter controle sobre a fábrica de dinheiro do país. E é isso que a PEC faz, transfere para o Banco Central, sob a fiscalização e controle do Congresso, os ganhos provenientes de se emitir dinheiro por parte do governo: a senhoriagem. *** Sob a falácia de se promover uma modernização na nossa Autoridade Monetária, capaz de equipará-la a outros Bancos Centrais internacionais, ou pior ainda, de visar tornar o Banco Central independente da política e dos interesses politiqueiros que podem vir a contaminar seu trabalho, buscam afastá-lo completamente do governo, do Estado e da sociedade, que no Estado de Direito nele se faz representar. Não por acaso, Rothschild queria apenas ter o poder de emitir, sabendo que o controle legislativo é uma piada de mau gosto. *** Se o Estado perde, o governo fica sem condições de fazer política econômica e de desenvolvimento social, se perdem os poucos empresários que ainda se preocupam em produzirem riqueza real não contaminada pelas meras aplicações financeiras, se perde a população, quem se beneficia com a PEC 65? Os banqueiros que poderão continuar controlando as taxas de juros e impondo suas previsões e expectativas ao Banco Central, sob a pretensa defesa da missão de combate à inflação do Banco. Todos os que estimulam a permanência da divisão profunda da sociedade em distintas classes, em que a uma minoria tudo é permitido, enquanto à maioria tudo é dificultado, com o acesso à saúde, educação e a bens coletivos sendo liberado apenas aos poucos que puderem pagar por eles. *** Talvez a uma minoria de funcionários do Banco Central, ao menos nos sonhos que acalentam de poder ter o direito de decidirem quanto irão passar a ter de remuneração, livre de tetos e quem sabe, também, no futuro, até de empregos, já que regidos pela legislação madrasta da CLT e eventuais futuras reformas. Estes, além do risco ao seu emprego, poderão deixar de ver seu trabalho e a qualidade dele respeitados. Mas isso pode não incomodar aos que sonham em frequentar o ir e vir da porta giratória dos regulados e reguladores.