quinta-feira, 23 de março de 2023

Analisando o Comunicado do Copom e a manutenção da taxa SELIC: o que está por trás da decisão de ontem?

 



link do Youtube: https://youtu.be/kkQ1jK6JtSQ

Anunciada ao final do dia de ontem, a manutenção pelo COPOM da taxa básica de juros da economia brasileira – a taxa Selic -  no elevado patamar de 13,75% não causou qualquer surpresa aos analistas do mercado.

De acordo com  o comunicado, a decisão unânime da Diretoria Colegiada do Banco Central  corresponde à fixação de uma taxa de juros real (desconsiderada a inflação esperada) variando entre 7,3 e 7,5%.

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O cálculo da taxa real exige uma explicação.

Ao contrário do que se poderia supor, ela não se dá pela simples diferença entre a taxa Selic e a inflação esperada. Como todo o cálculo financeiro, parte-se da hipótese de existência de uma quantia de 100 reais.

Aplicada essa quantia à taxa de juros de 13,75%, expressa em sua forma decimal de 0,1375 (=13,75/100), ao final de um ano o valor resultante será de 113,75 (= 100 + 0,1375). Dividindo este valor por 100, ao final do período de tempo considerado, a quantia corresponde a 1,1375 vezes a quantia inicial.

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Aplicado o mesmo raciocínio à taxa esperada de inflação, segundo o comunicado de 6% pela pesquisa Focus, ou 5,8% pelo cenário de referência do Colegiado chegamos, respectivamente a uma quantia maior que a inicial de 1,06 ou 1,058.

Agora sim, podemos dividir o valor de 1,1375 (o ganho com a Selic) pelo ganho de 1,06 ou 1,058, dado pela inflação.

Ou a calculadora de meu notebook está errada ou não chegamos ao valor de 6,94% que órgãos de imprensa estão divulgando, mas a um intervalo de 7,3 (=1,1375/1,06) a 7,5 (=1,1375/1,058).

A taxa real mexicana em fevereiro era de 5,3.  

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Ainda do comunicado do Copom, é importante destacar algumas questões.

Logo no início argumenta que o ambiente externo se deteriorou, referindo-se a episódios envolvendo bancos. Para logo em seguida, afirmar que  a “política monetária nas economias centrais segue avançando em trajetória contracionista”.

Ora, a causa principal admitida para o problema financeiro que teve origem no Silicon Valley Bank e que se estendeu para outras instituições, foi exatamente a elevação dos juros praticada pelo Federal Reserve – o FED (o Banco Central americano), além do risco natural envolvido em uma instituição dedicada a financiar negócios de risco, como startups inovadoras.

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Ou seja, a causa principal da deterioração externa é a política contracionista que o Copom parece insistir em seguir. Será que repetindo os passos do FED o Copom espera resultados diferentes?

Ou há a uma intenção macabra de provocar deterioração de nosso ambiente interno?

Afinal, o comunicado traz explícito que, no cenário doméstico, “ o conjunto dos indicadores mais recentes de atividade econômica segue corroborando o cenário de desaceleração”.

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Se já há desaceleração reconhecia pelo Copom e indicado pela decisão de paralisação da produção e concessão de férias coletivas pelas principais montadoras de automóveis, qual a razão da manutenção da taxa elevada de juros?

Ou o Banco Central não respeita a legislação que define como seu objetivo “assegurar a estabilidade de preços” ao lado da busca pelo pleno emprego.

Fica claro que o tratamento dispensado pelo Banco aos seus objetivos fica desequilibrado, quando o comunicado afirma que a decisão não prejudica seu “objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, (essa decisão) também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

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Uma segunda observação é relativa ao fato de a única referência ao panorama fiscal ou à política fiscal tratar da redução da “incerteza de resultados fiscais a curto prazo”.

O que não impede o Copom de considerar a “alta volatilidade dos mercados financeiros”.

O que serve para nos indicar quais os interesses que, de fato, estão na mira do Banco Central: o mercado financeiro e seu apetite por ganhar rendimentos elevados (comportamento “rent seeking” ou de obter ganhos a qualquer custo).

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O leitor atento do documento do COPOM vai perceber que as expectativas de inflação são as apuradas pela pesquisa Focus, que servem de base ao cenário de referência adotado pelo colegiado (“a trajetória para a taxa de juros é extraída da pesquisa Focus ... e a taxa de câmbio...”)

E a admissão/confissão que tal pesquisa trata de expectativas de mercado, caracterizando projeções do mercado, não do BC.

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Obediente aos interesses de seus patrões – o mercado financeiro – e querendo mostrar força e autonomia ou independência em relação ao governo, a diretoria colegiada do BC é capaz apenas de promover ameaças, de maior aperto monetário, apesar de reconhecer a possibilidade de maior desaceleração da atividade econômica, aqui ou no resto do mundo.

terça-feira, 21 de março de 2023

Pitacos em pastilha ou drops: tentando esclarecer alguns conceitos fundamentais



link do Youtube: 

Supondo uma pessoa que tivesse recursos em quantidade suficiente, caso ela desejasse obter um rendimento de 12 000 reais ao ano (ou mil reais por mês) e a taxa de juros fosse de 10% ano ano, ela deveria adquirir um título no valor de 120 000 reais. (120 000 multiplicados por 0,10 ao ano, em 1 ano = 120000 * 0,10 *1 = 12 000)

Em linguagem popular, ela deveria investir ou comprar ativos financeiros de 120 mil.

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No entanto, se a taxa de juros paga pelo título fosse de apenas 5%, o rendimento desejado de 12 mil exigiria a realização de um investimento de 240 mil reais. (240 000 * 0,05 ao ano * 1 ano = 12 000)

Não é difícil perceber que com um taxa mais elevada, de 20% ao ano, o investimento necessário seria apenas de 60 mil reais.

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Essas contas de matemática financeira, a princípio simples de serem efetuadas, estão por trás de um raciocínio que pode parecer complicado para o cidadão comum.

Por uma razão que vale a pena explicar: se a pessoa comprou um título no valor de 120 mil reais, para obter o rendimento desejado de 12 mil, com a alta dos juros ela só poderia vender seu título, no caso de necessitar de dinheiro, pelo preço de 60 mil (a metade do valor gasto originalmente).

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Afinal, as pessoas compram e pagam o título, pelo valor do rendimento que ele promete gerar e, agora, a mesma quantia de 12 mil poderia ser obtida por um título de 60 mil.

Ninguém iria pagar o valor de custo do título(de 120 mil), sabendo que poderia obter o mesmo rendimento com um título de 60 mil.

Em resumo: um título de 120 mil que paga 10%, tem o mesmo valor de mercado que um título cujo custo foi de 60 mil, com juros de 20%.

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Extrai-se desse raciocínio uma conclusão que deveria ser óbvia: se os juros sobem o preço dos títulos caem ou ficam menor, caso seu detentor tenha a necessidade de vendê-lo por qualquer motivo.

Traduzindo: passado algum tempo, se o investidor precisa de dinheiro em mãos (=liquidez) e tem de vender seu título ao valor de mercado ele só venderá o título por um preço menor que o que pagou para comprá-lo (terá uma perda ou prejuízo).

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Em linguagem mais sofisticada, há uma relação inversa (contrária) entre o preço dos títulos a taxa de juros: os títulos valem menos quando os juros sobem e sobem de preço (dão ganhos) se os juros caem.

Sendo fruto da aplicação de matemática, a regra funciona sempre, exigindo apenas uma condição: a de que o investidor não precisasse de vender o título antes de ele chegar ao seu prazo final.

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Aqui, outra explicação é necessária: em geral o título, por exemplo, um título do Tesouro, promete pagar juros de 10% ano ano, por um período determinado, digamos 5 anos. Findos os 5 anos de prazo, o título atingiu sua maturidade. Diz-se que ele venceu.

Então, caso o investidor tenha necessidade de fazer dinheiro antes do vencimento do título, estará sujeito a negociá-lo, no mercado, pelo valor do mercado.

Mas, se puder manter o título até o vencimento, receberá justo o valor que aplicou ao final do prazo (além dos juros que recebeu no tempo em que segurou o título em seu poder).

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Interrompo aqui a discussão da matemática financeira, para tratar de outra questão, sujeita a muita confusão: a definição de investimento.

Define-se investimento de forma ampla, como o gasto de 1 real no dia de hoje, visando a obtenção de algum rendimento futuro.

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Tal definição se aplica ao investimento real ou PRODUTIVO, em que o gasto se dá para comprar instalações físicas, máquinas e equipamentos, compra de matérias primas e contratação de trabalhadores (com o pagamento de seus salários); até a produção de mercadorias (combinação desses elementos adquiridos), a realização da venda e a apuração do lucro (preço de venda =  custo para produzir mais a margem de lucro que o empreendedor espera obter).

Mas também se aplica a quem ‘gastou’ 120 mil reais para comprar um título. Ou aplicou financeiramente essa quantia, visando um rendimento que é dado pelo juros.

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De imediato se vê que, caso se entenda que o investimento significa a criação de mais riqueza (fábricas, máquinas, mercadorias), a aplicação em títulos dos 120 mil reais significa apenas a transferência de ganhos de uma pessoa para outra, com o ganho de um, sendo a perda do outro.

Embora essa transferência possa ter justificativas socialmente aceitas (seguro ou proteção contra imprevistos, etc.), a aplicação financeira nada mais é que atividade especulativa.

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E em um mundo onde as taxas de juros são tão elevadas que todas as pessoas passam a aceitar como normal que aplicar dinheiro a juros é mais rentável e tranquilo que ter as dores de cabeça e os riscos de produzir e tentar vender seus produtos no mercado, superando a concorrência, então a lógica da financeirização passa a dominante no ambiente econômico.

Com as consequências de queda da produção, da riqueza, do emprego e da renda.

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Como a redução do nível de atividade gera perda de valor das empresas, caem os preços de ações e títulos privados.

Apenas os títulos públicos serão procurados e negociados no mercado. E a elevação da dívida pública será a forma de garantia da manutenção da atividade financeira especulativa, no âmbito interno.

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Mas esse pitaco, que já vai se estendendo, não poderia se encerrar sem uma observação fundamental: os bancos, os compradores privilegiados (e, portanto, os aplicadores) de títulos públicos, muito raras vezes precisam de vender sua carteira de títulos para fazer dinheiro.

Na maior parte das vezes, mantêm a carteira até o vencimento dos títulos. Logo, nada perdem com variações de juros.

Mas ganham sempre, uma vez que a variação dos juros serve para que se decidam por aplicar mais recursos em títulos por um lado, enquanto se aproveitam para subir as taxas que cobram nas operações de crédito com seus clientes.

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Por isso, juros podem asfixiar e matar a economia como afirmou ontem, o  Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, em evento patrocinado pelo BNDES.

Mas, vai explicar isso para o Banco Central, cada vez mais agente regulador dos interesses dos agentes do sistema financeiro, e aos agentes do mercado financeiro.