quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

General com golpismo nas veias; Bolsonaro desdizendo (pela milésima vez) o que disse em meias palavras e o cordão dos puxa-sacos, dos velhos e dos que se diziam NOVO

O que esperar de um militar, hoje general, que serviu como ajudante de ordens do Ministro do Exército Sylvio Frota, o militar linha duríssima que se insurgiu contra o presidente Ernesto Geisel, a quem acusava de ser comunista e responsabilizava pelo "abrandamento do regime militar" e a perda de autoridade que isso acarretava?
Apenas para avivar a memória, isso em uma sociedade que começava a ganhar coragem para exigir a punição dos responsáveis pelos assassinatos de Wladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nos porões da ditadura, então as dependências do DOI-CODI?
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É verdade que o militar na época tinha, como alega, apenas 30 (TRINTA) anos, uma criança... o que tira dele qualquer responsabilidade. Embora ele não negue seu orgulho de ter trabalhado com o ministro demitido.
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O que esperar de um militar, por acaso o mesmo general que, teve a oportunidade de ser o comandante das forças militares da ONU, destinadas a pacificar e restaurar a ordem naquele país?
O que esperar desse comandante que, em busca da captura de um guerrilheiro, considerado líder da oposição, ordenou a invasão de Cité Soleil, bairro pobre da capital Porto Príncipe, que apresentou como resultado a morte do combatente, sete horas de lutas com o disparo de 22 mil balas e a morte de civis, entre os quais mulheres e crianças?
Ação de um herói? Puro e simples massacre como foi classificada a ação por órgãos de imprensa, organizações de direitos humanos, e que levou a um pedido de afastamento do general pela própria ONU?
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Como a memória é falha, esse general é justamente o atual ministro do desgoverno e da desordem patrocinada por esse chefe do Executivo que, entre outras qualidades é muito, muitíssimo bem relacionado com grupos de milicianos.
Classificado entre os seus colegas como alguém de temperamento mais ameno, mais do diálogo, não é de se estranhar que o general do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, tenha insinuado que o povo deveria ir às ruas em defesa do governo de que é empregado, como forma de ameaça.
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Trazendo no sangue o vírus ou DNA do golpista, o que significava a convocação do povo nas ruas, e o Foda-se para o Congresso Nacional, a quem chamou de chantagistas?
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Parafraseando a marchinha de carnaval: "Doutor eu não me engano, esse general não é republicano!"
E se ele que conhece bem com quem tem de lidar no governo falou em chantagem, quem sou eu para discutir com aqueles que conhecem de perto as formas de ação de quem traz o golpe na alma?
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Aí, o guru astrólogo, Olavo de Carvalho, apropriando-se indevidamente (eufemismo para roubo ou pirataria) como fundo musical de música dos Titãs,  posta uma mensagem convocando a população para 'marcharem' em direção ao Congresso e ao Supremo.
Para que, mesmo? Recepcionar os excelentíssimos legisladores e nossa mais elevada magistratura?
Isso, logo em seguida ao foda-se elegante e educado do general de boa paz???
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E então o presidente mais despreparado da história, em todos os sentidos, o amigo do Queiroz e das milícias, com quem costuma se dar muito bem, tanto ele quanto seus filhos, posta em rede social uma convocação para que o povo se dirija às ruas para apoiá-lo?
E isso não tem vinculação alguma com a trama armada por esse grupelho que invadiu nossa política e, infelizmente, conquistou corações e mentes de alguns bem intencionados e de outros tão bem representados pelo mito que os comanda?
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E quem é o vergonhoso Alexandre Garcia que ainda tem a coragem de ir ao ar, para dizer que o presidente não convocou nada, não cita em sua postagem sequer uma instituição que se julgou atacada?
Esse porta-voz minúsculo da ditadura, que se presta, mais uma vez ao papel ridículo de apoiar golpes, vem dizer que o presidente usa do direito de manifestação de opinião??? Que ele não fala em ameaçar os demais poderes! Que as ditas instituições estão fazendo é vitimismo?
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Ora, para que os cidadãos de bem deveriam ser expostos a comentários de um capacho de ditadores?
Por que ainda tem meios de comunicação que cedem seus espaços a tais figuras tristes das sombras de nossa história?
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Aos devotos do mito, é importante deixar claro: não tivesse a intenção do golpe, o presidente não iria tentar voltar atrás, desdizendo o que disse, ou no caso, para maior exatidão, dizendo que não se pronunciou como o presidente, mas apenas como o Jair. Certamente não o Messias, com tanta mentira e jogo de palavras.
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Mas, já afirmei antes, nesse mesmo espaço: eles estão testando nossa paciência e nossos limites. Vai que um dia, entram em nosso terreno, pisam nosso jardim, e cansados de reagirmos já não tenhamos mais forças para ver porque ladram os nossos guardiães, porque ladram os cães, e não tenhamos mais força para nos levantar do sofá.
Aí eles aproveitam e nos roubam a rosa, o sonho, a liberdade, quem sabe até a vida...
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Os avessos à democracia, à desordem do dinamismo da vida, em constante movimento, podem correr para ficar justificando que o seu mito não disse o que quis insinuar.
Esquecem apenas que até isso faz parte do jogo. E mostra que o jogo está sendo jogado. Senão, inteligentes como alguns pretendem ser, não precisariam de vir à luz, em interpretações medíocres, tacanhas, defender o indefensável.
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Mas a história que não deve se repetir parece insistir no replay: dia 15, no dia seguinte à data que se completam dois anos do assassinato de Marielle, quem sabe a população (a acomodada e silenciosa, não essa raivosa, bolsonariana!) não faça como fez em atendimento à convocação de Collor: saia toda de preto. De luto, para expressar o desprezo pelo que o governo insiste em nos impor.
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DUDAMEL: Uma experiência que não deu certo

Dudamel e a legião estrangeira no Galo. Que o Galo aprenda em meio ao sofrimento e ao terrível vexame a que, mais uma vez, foi exposto.
Ainda assim, a insistência do técnico venezuelano com Di Santo tem explicação: o atacante se esforça, tenta se movimentar. Além do que fala a mesma língua do treinador: a língua do futebol sem magia, sem inovação, sem qualquer paixão.
A mesma língua que usava o Rui Costa que, também vai encher os bolsos da grana da indenização e vai embora.
Dudamel, de bolso cheio vai tirar o time.
Antes ele tivesse posto o time em campo, nesse início de temporada em que só temos visto e convivido com vexames.
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O NOVO, cada vez mais velho


Medo das forças de segurança, especialmente quando se sabe que elas detém o poder das armas, não tem nada de novo.
Por esse motivo a história do Brasil é repleta de movimentos e sedições militares, sempre seguidas de conquistas militares, inclusive financeiras, perdão e anistia.
Foi assim com os militares tenentistas, depois em Jacareacanga e Aragarças, até mesmo com a Lei da Anistia de 79.
Nós temos medo. A sociedade sempre teve medo e aprendeu isso com a militarização crescente das nossas polícias, pós 64.
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Assim não é surpresa que, mesmo sem dinheiro, mesmo sem conseguir pagar o funcionalismo público em dia, até sem pagar o que é de direito inalienável deles, o governador do Novo corre para atender as reivindicações dos militares.
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Alegar que foi honesto, que não queria fazer politicagem. Que não ia submeter os cofres do Estado e o povo mineiro a uma aventura e um descalabro, representado pelo aumento de gastos para todo o funcionalismo em instante de crise infinda, é apenas retórica.
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De novo, o governador só tem a forma de apresentar sua covardia. De dourar a pílula. De fazer o que em discurso diz que não poderia fazer, para não prejudicar mais aos mineiros que seriam privados de serviços públicos de mínima qualidade.
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Zema é o velho renovado. Assim como seu partido.

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E ainda mais velha(ca)rias



E falando de velharias, ou velhacarias, não há como não abordar a reação de Ciro, e de seu destrambelhado irmão Cid, o do 'Lula tá preso, babaca'.
Cid não merecia o ataque de que foi vítima, que deve ser tão condenado como condenei aqui mesmo o ataque sofrido em campanha por Bolsonaro.
Mas Cid não merecia nem o papelão que se prestou a representar!
Coisa típica de militarzão (general), ou coronel do interior, que prende e arrebenta. Ou sobe na retroescavadeira e avança contra os pele-vermelhas.
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Ciro, de tão velho se esquece que foi se esconder em Paris, para depois poder voltar cobrando, qualquer que fosse o eleito, do governo que o povo lhe negou nas urnas.
A covardia de Ciro, mal calculada, ajudou a construir o governo que está aí hoje.
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Mesmo achando que sua palavra não iria ter valor algum, se ele manifestasse apoio a Haddad, a história poderia ser outra. (Insisto: eu duvido, mas sempre fica a dúvida)!
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Tal qual Ciro, se encontra outro político, digno de meu voto, em anos anteriores: Cristóvam Buarque, que um dia foi excelente ministro da Educação, e um grande político.
Mas, não dá para viver de passado, quando os golpistas estão na soleira da porta.








quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Pitacos filosofais e uma dúvida pertinente: de onde emana o cheiro de golpe militar presente na nossa atmosfera?

Algumas pessoas não nos surpreendem. São o que são.
Há que aceitá-las ou afastá-las.
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Outras há que são vítimas de nós mesmos. Da imagem que fazemos delas e que, invariavelmente se revelam falsas.
Essas pessoas, mesmo inconscientemente, são capazes de nos provocarem decepções profundas.
Mais ainda em uma sociedade que, de repente, desperta o monstro mantido tanto tempo adormecido em suas entranhas.
Monstro que habita as profundezas do que há de mais sórdido, mesquinho, mais tenebroso guardado em nosso interior e que corresponde a nossa porção animalesca, selvagem, ao mesmo tempo que mais natural. O que exige de nós um constante trabalho de domesticação de nossa vontade e de nossos desejos, travestido do que chamamos de educação ou processo de socialização.
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Afinal, se nascemos indivíduos isolados, solitários e livres na acepção mais ampla do significado de liberdade, por outro lado não há como sobrevivermos sem o apoio, a proteção, o cuidado e a atenção de outros indíviduos com que, desde o primeiro sopro de vida, deveremos conviver.
Desnecessário registrar que não somos frutos de geração espontânea, ou “filhos de chocadeira”, o que nos lembra de que até para nascermos dependemos da existência de outra pessoa, aquela que sofre as dores do parto, responsável por nossa alimentação.
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Não é demais reafirmar que o homem é, por natureza, um animal social, como já nos ensinava Aristóteles. Nascemos para viver em sociedade.
Convém também lembrar o significado de sociedade, o grupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua.
Logo, as manifestações do monstro terrível a que fiz referência antes representam ou a visão canhestra, limitada, de todos aqueles que se julgam capazes de sobreviverem independente da presença do outro, por mais que essa relação seja conflituosa, ou o que é pior, é expressão tão somente do caráter autoritário, daquele que quer impor sua vontade, sua opinião, sua visão de mundo, sua forma de comportamento a todos que ousam divergir de suas ideias arbitrárias.
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Não à toa, nosso país atravessa um período de conflagração aberta, de desrespeito e de intolerância, seja religiosa, seja em termos de orientação sexual, de comportamento social, de posicionamento político, ideológico, etc.  A ponto, de cada vez mais, as rupturas de nosso frágil tecido social estarem dando lugar a um tal esgarçamento que torna-se  difícil imaginar a possibilidade futura de sua recomposição.
A consequência: a falta de respeito à divergência já autoriza e dá vazão a que grupos mais afoitos partam para a agressão pura e simples que nos remete à besta-fera que trazemos conosco.
Pior ainda: tais comportamentos produzem cicatrizes que se estendem à própria alma.
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Insisto no tema: assistimos hoje, a certos grupos que se autodefinem como arautos e defensores da família, da educação, das relações entre familiares, da moral e dos costumes, até da nacionalidade e patriotismo.
Bem entendido: defensores dos valores que eles decidiram, por todos os demais, e sem procuração ou autorização para tanto, que devem ser preservadas, custe o que custar.

Curioso: começamos justo pelo conceito de família, o grupo social cujas relações entre pais e filhos, ou de forma mais ampla, onde todos os laços familiares já se encontram dilacerados desde há muito tempo, a ponto de já terem sido objeto de análises, estudos, publicações que remontam ao século XIX.
Grupos onde seus integrantes cada vez mais representam meras peças de uma engrenagem, instrumentos de acesso a alguma fonte adicional de renda, independente de sua idade, condição de saúde, grau de educação, capacidade mental, o que transforma o sujeito mais e mais em mera mercadoria, insumo, peça, parte ou componente de um processo de produção, de que são alijados como alvos ou consumidores.
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Claro, basicamente estou me referindo às famílias dos assalariados de ontem, transformados hoje em “seres portadores de invisibilidade social”, excluídos socialmente e marginais, em todos os sentidos suportados pela expressão. Seres que vivem de bicos, pendurados nas comunidades periféricas dos núcleos urbanos.
Famílias cuja configuração sofre mutações constantes, em decorrência da sua decomposição, em razão dos custos que sua manutenção implica para quem tem de vender o almoço, cada vez mais, apenas para ter forças para venderem também a janta.
Daí a quantidade de famílias desfeitas, de lares desfeitos, de mulheres heroínas solitárias, cumprindo a tripla tarefa de chefes de família e provedoras, mãe e cuidadoras dos afazeres domésticos, a a jornada de trabalhadora aviltada.
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Famílias com traços diferentes, mas não muito, das relações experimentadas pelas  pelas famílias ditas de classe média, ou das classes mais abastadas, onde a mulher ocupa posição de inferioridade, que lhes cassa desde a potencialidade produtiva, até o direito de se trajar como desejam e se sentem à vontade. Quando o corte não toma a forma de mutilação de desejos, de autonomia de seu corpo, de sua sexualidade.
Ah! Mas isso não conta, e talvez apenas seja mais uma forma de mimimi.
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Afinal, para essa família mais abastada, machista, preconceituosa, já de há muito o esporte predileto dos machos é a caça indiscriminada às filhas de todos os que trabalham para seu conforto. Quando não expandem seu diversão para a arte da sedução mútua de suas próprias mulheres.
Em relação à educação, basta verificarmos a defesa, no nosso ambiente social, de ideias tão retrógradas quanto à teoria criacionista, seja em sua versão mais secular, seja na nova vestimenta do "design criativo". Ou da ideia do terraplanismo, ou dos males das vacinas (tão modernas quanto na época de Oswaldo Cruz!). Ou ainda na visão negacionista em relação às mudanças climáticas. 
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No entanto, sempre há que se dar importância a que o aluno mantenha sua orelha descoberta, para que o conteúdo do aprendizado possa alcançá-lo de forma mais contundente. E que a disciplina e a ordem (unida) possam juntas, formar um homem mais sadio, para cumprir a máxima latina “mens sana in corpore sano”.
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Quanto ao patriotismo, vale sempre lembrar alguns truísmos: primeiro aquele atrelado à frase célebre atribuída a Samuel Johnson, para quem o “que diz que o patriotismo é  o último refúgio do canalha”.
Um segundo truísmo é o que nos informa os livros de economia que nos ensinam que o capital não tem pátria. Especialmente em tempos de globalização e financeirização.
Como se sabe, o capital visa o lucro, segue o lucro, esteja na esfera ou na localidade em que o lucro se manifeste e possa ser realizado, valorizando o valor original.
Além do mais, os limites do mercado, cada vez mais ampliadas, mostram claramente que as concorrências de capitais nacionais são cada vez mais páginas de tratados de história – principalmente econômica, considerados já desatualizados.
Resta então, a difusão do sentimento nacionalista, como forma de, mais uma vez, se impor restrições e limites à possibilidade de sobrevivência dos trabalhadores.
A esses, interessa defender o mercado, cada vez mais exíguo e disruptivo, de mão de obra, frente às ameaças representadas por grupos de refugiados famélicos.
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Ordem? Progresso?
Como diria o Tonto, o amigo do Zorro, para quem, “cara pálida”?
Seria tal dístico positivista (incompleto!) válido para um general como o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, um verdadeiro “gentleman”, característica normalmente atribuída aos rapazes formados na caserna?
Afinal, como ministro de um governo eleito em um regime democrático e militar que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República, como deve ser interpretada a frase de que o Congresso (aquele outro Poder do Estado de Direito), chantageia o Executivo? Como entender, à parte a elegância, o uso do hoje tão popular até na literatura “foda-se”, com que ele inadvertidamente pode parecer sugerir que o presidente conclame o povo para ir às ruas, para não ficar acuado!?!!?
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General ministro, que serve a um governo com sérias suspeitas de vinculação às milícias, com a experiência e a responsabilidade do general ministro de nosso GSI, ainda que em tom de desabafo privado, emitir sinais que podem ser interpretados como de aprovação de quaisquer manifestações favoráveis à desordem pública, é sinal de que? Apenas cansaço? Algo mais?  Não pergunto com segundas intenções, e nem precisa explicar. É que eu apenas queria entender, como o macaco Sócrates do Planeta dos Homens de Jô Soares.
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Afinal, sempre pode dar origem a interpretações equivocadas e muitas dúvidas, a quantidade de generais que cerca o presidente mais tosco de nossa vida política, detentor de patente inferior àquela ostentada por seus auxiliares a que lidera.
Especialmente quando as manifestações desses auxiliares, tornando-se públicas, podem alimentar comportamentos que utilizam a desordem como instrumento de pressão.
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Ou tais declarações representam apenas um ato falho do general, desejoso de retomar o projeto militar de poder sempre presente em nossa República, seja como resgate da imagem de triste figura deixada pelo ditadura militar dos anos 60, seja por sua presunção (também questionável) de serem os maiores conhecedores dos problemas nacionais?
A ver. Antes que o movimento ganhe as ruas para outras tantas dezenas de anos de obscuridade e tragédias.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Declarações grotescas: até quando vamos assistir calados? Em solidariedade a Patrícia Campos Mello, a agredida da vez

Se fosse realizada uma pesquisa de opinião pública visando determinar a característica mais marcante desse desgoverno Bolsonaro, sem dúvida, o ritmo vertiginoso de ataques frontais à democracia e aos valores de uma sociedade fundada no convívio social seria, de longe, a opção mais citada.
Porque o conjunto de trapalhadas, de medidas anunciadas em um dia e desmentidas no dia seguinte pelo presidente ou seus auxiliares mais próximos, a quantidade sem fim de confusões, de declarações estapafúrdias, grosseiras, misóginas, preconceituosas, desrespeitosas e tantos outros adjetivos que se queira utilizar para mostrar o nível reles com que o presidente trata os assuntos públicos é tão constante, que fica difícil conseguir acompanhar e dar qualquer pitaco.
Sob pena de os pitacos ficarem completamente defasados e, por isso, reabilitando fatos já caídos na vala do esquecimento.
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A saraivada de asneiras, tolices, desperdício de oportunidades de ficar calado, ou apenas situações que seriam, em outros tempos não tão remotos, motivos de ações de crime de responsabilidade ou falta de decoro, se reproduzem com tamanha voracidade que, cada vez mais este comportamento alimenta minhas mais temerárias suspeitas, reforçando o conjunto mais recôndito de teorias conspiratórias que insisto em ir cultivando.
A esse respeito volto a seguir.
Mas essa introdução é para dar uma satisfação a um dos raros leitores desses pitacos que, não satisfeito em ler meus comentários, ainda sugere temas para minha análise.
Pois bem, Lorran, embora pareça já ter passado um tempo imenso, foi ainda no dia 7 último que você me pediu para comentar o caso José de Abreu e Regina Duarte, e o bate-boca que o ator provocou pelas redes.
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Começo por afirmar que não me surpreendi nem um pouco com a decisão de Regina Duarte, dita namoradinha do Brasil, de aceitar o convite e vir integrar o governo Bolsonaro.
Afinal, se a atriz de Malu Mulher preferiu passar à memória nacional como a personagem de viúva Porcina, isso é problema pessoal dela que, como uma cidadã já deixou claro, certa vez, que tinha muito medo do que estava por vir no nosso país.
Assim, em minha opinião, não há nada de mais, ou de criticável em que essa mulher tão medrosa, tão incapaz de lidar com a divergência, tão pouco afeita à vida e à luta democrática, pudesse deixar-se enfeitiçar pelo discurso de um candidato, autoproclamado de formação militar, com um discurso de segurança e militarizaçao,  e tutela da sociedade,  a ponto de vir a contribuir com esse despautério que é o governo atual.
Como disse, problema dela. Como foi uma vez problema da atriz Marília Pera fazer a apologia do governo Collor, ou de Cláudia Raia, naquele mesmo governo(?).
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De Zé de Abreu, o que vi é que ele teria dado uma declaração de que sabe o que eles fizeram na casa dela, acho que na Barra. E já vou dizendo que eu não sei, nem quero saber. Eu não estava naquela casa, e nem me interessa saber o que se passa na casa de quem quer que seja, apenas por ser artista global.
Mas, se aconteceu alguma coisa que levou o ator a mencionar o fato, como se fosse uma ameaça, boa coisa não deve ter sido, e ator ou não, petista ou não, em minha opinião, o Zé apenas mostra um lado rançoso de ciúme(?), rancor(?), falta de caráter (?), vai saber!!!
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Na oportunidade, ouvi dizer que ao criticar  a colega (?), o ator sofreu imediato bombardeio pelas redes sociais, a maior parte das cobranças e ataques fazendo referência a seu comportamento preconceituoso em relação à mulher.
Ora, se ele atacou a amiga/colega/desafeto Regina, que adotava posição que ele não aprovava, porque daí classificá-lo como se misógino fosse?
Soube então que ele enviou um áudio à Mônica Bérgamo, em que afirmava com uma grosseria digna de qualquer membro da família Bolsonaro, que fascista não tinha sexo.
Era fascista e, por isso, nem passível de ser classificado como ser humano.
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Opinião do Zé de Abreu e manifestação, tão digna de repulsa quanto a do presidente que insinua que a repórter que lhe investigava os maus feitos de campanha tinha intenções outras, de cunho sexista.
Quero deixar claro que não estou tratando da expressão agressiva para o contexto em que foi utilizada (vagina – termo que nada tem de agressivo em minha opinião, não fosse o contexto em que foi empregado; termo usado na frase, “vagina não transforma um fascista em ser humano” ).
Para mim, o Zé de Abreu se igualou ao clã que critica, por considerar que um fascista não seja um ser humano. Por pior que seja adotar uma postura fascista. Por maior que seja a distância que gostaria de manter de pessoas com tal comportamento. Fascistas são pessoas humanas. De péssima formação, mas ainda humanos.
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Nesse sentido, o Zé poderia ter sido mais elegante e, simplesmente ter dito que seu comentário e crítica era em relação ao ser político, e não à mulher. Porque não há mesmo uma correlação, nem grau de determinação que vincule ser fascista com ser do sexo masculino. Ou feminino.
Nesse caso, o Zé até valorizou mais a mulher, no sentido de que se antes ela não podia ter opinião ou adotar posturas ligadas ao comportamento político, voltada que estava para os afazeres e obrigações domésticas, ela agora é cidadã. E como tal adota e manifesta os comportamentos que quiser adotar em nossa sociedade.
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Alguns tentaram defender o Zé, sob a alegação de que não dá mais para ficar bordando de flores e cores róseas a postura fascista, nazi-fascista de certos setores de nossa sociedade. Mais ainda quando se comemora aniversário da libertação de prisioneiros de Auschwitz.
Outros alegaram que esse tinha de ser mesmo o tom usado por quem quisesse se opor ao que vem acontecendo no Brasil, que caminha tão aceleradamente para o autoritarismo, para radicalismo, para a insanidade, a ponto de Bolsonaro com seu discurso tosco e comportamento completamente estúpido ser aclamado como Mito. Mercê de suas reiteradas grosserias e seus maus modos.
Não concordo com esses argumentos.
Em minha formação, aprendi a cultivar a moral burguesa, por mais limitada que seja, ou mais direcionada ou manipulada.
Aprendi que o Zé poderia, de forma mais elegante, se referir ao fato de que ele não falava de  mulher, gênero. Mas de postura política.
Para mim, ele apelou. E sou de opinião que apelou, perdeu.
Mas o limitado sou eu. E minha moral tacanha.
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Daí porque acho que a insinuação do presidente em relação à profissional repórter, de reconhecida competência e respeito entre os colegas, também não pode ser tolerada.
E falta de decoro é falta de decoro, por mais que o presidente, sem admitir o erro ainda tenha a desfaçatez de perguntar se ele promoveu alguma agressão de cunho sexual à jornalista.
A resposta é uma só: não presidente. O senhor agrediu a todos os brasileiros. A todos os que prezam os valores democráticos. A todos os cidadãos de bem. Pais de meninas que não foram uma fraquejada...
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Mudando os exemplos, sem mudar o tom de lástima de tantas declarações atabalhoadas, esse desgoverno tem sido pródigo em armar armadilhas para si mesmo.
Está aí o Guedes e suas declarações ou comparações do funcionalismo público e os parasitas. Logo ele, que em sua pretensa cartilha liberal, deve evocar com tanta ênfase a questão da meritocracia.
Ah! Ajudante de ordens de Pinochet, fantoche de ditadores sanguinários, todo funcionalismo público é composto daqueles seres que foram capazes e competentes para obterem uma aprovação em concurso público.
Por mérito.
Diferentes de sua passagem pelo governo, sempre a convite, já que se houve algum concurso que o senhor tenha se prestado a fazer foi o concurso de investigados por gestões fraudulentas, altamente questionáveis, em fundos de previdência e fundos de investimento, conforme denúncias do MPF e do Tribunal de Contas.
Espertamente, e por méritos seus, sinistro, o senhor não amargou os prejuízos que causou, do alto de seu saber. Mas isso não o impediu de ter benefícios pessoais.
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E tem ainda a outra declaração, completamente preconceituosa, contra a mulher trabalhadora que representa nossa população: a doméstica.
Sabe, sinistro: a mulher doméstica não é uma mulher pobre e sem direitos de viver sonhos e realizá-los. Ela tem todo esse direito. O que ela não tem é condição de tentar melhorar de vida, por falta de educação, que o governo de que o senhor faz parte, boicota. Por falta de emprego, questão que o senhor tem sido incapaz de resolver, embora atribuição sua.
***
Mas o senhor está mais preocupado em trazer de volta o AI-5 ou ameaçar a sociedade civil que não se comporta como o senhor gostaria com ele. O senhor está mais preocupado em reduzir os direitos trabalhistas, para ajudar os poderosos de sempre, a quem o senhor adula.
Porque, convenhamos, ser participante de um governo como o de Pinochet, que deu tão errado como as manifestações recentes no Chile têm mostrado, não é sinal de ser tão liberal assim.
Ou por outra: liberal nos mercados e na crença no poder divino do mercado e da grana (essa mesma que “ergue e destroi coisas belas”) e nenhum traço liberal na vida social e no respeito ao Indivíduo.
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Nesse meio tempo, tivemos Weintraub errando a redação de postagens em português. O que me leva a crer que o ministro usa dialeto próprio.
Tivemos a desfaçatez de o Conselho de Ética, sem qualquer pudor ético, arquivar o processo aberto contra o secretário da Comunicação Wajngarten sob a  denúncia da prática de advocacia administrativa.
Tivemos, mais um militar, ou dois, nomeados para ocuparem cargos no Planalto.
Esse tema, acho importante tratar em outro pitaco.
Afinal, várias patentes militares, representando a imagem da instituição que tanto prezam, todos no governo, subordinados a um indivíduo que não tem condição e estatura moral para ser recruta, é no mínimo, uma questão de hierarquia que merece ser mais bem analisada.
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Também fica para depois dar pitacos sobre o miliciano amigo do Bolsonaro e de seus filhos. A queima de arquivo que Bolsonaro se dispôs a defender, porque o capitão miliciano “não tem nenhuma sentença transitada em julgado”.
O que une os dois temas: militares no Planalto e milicianos no governo e no poder. Até quando essa convivência vai funcionar?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Eleição de Bolsonaro, razões da corrupção na política nacional e porque o PT não é, nem pode ser a representação idealizada de um MAL que é muito mais amplo


Em minha opinião, não há dúvidas que grande parte dos 57 milhões de eleitores que levaram Bolsonaro à presidência não são pessoas que poderiam ser enquadradas na categoria de perfil político ultra-conservador, ou situado mais à direita do espectro político, menos ainda, ultra-direitistas ou liberticidas.
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Talvez pudessem ser classificados como posicionados mais ao centro, no máximo em uma faixa de centro direita, guiados por valores e princípios conservadores, tanto na esfera da vida privada, no que se refere aos comportamentos e costumes, quanto no espaço da vida pública.
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Se votaram como e em quem votaram, o fizeram muito mais movidos pela desilusão com o Partido dos Trabalhadores, encarado como o núcleo dinâmico de irradiação da corrupção que se instalou no país, e principalmente no governo. Espaço privilegiado para a criação, teste e desenvolvimento de um arsenal de mecanismos destinados a criar as oportunidades e disseminar a roubalheira cuja finalidade seria a de solapar as  bases tradicionais de sustentação da sociedade, terminando por perpetuar o projeto de poder dos líderes ou caciques do partido.
Dessa forma, para grande parte do eleitorado, as alternativas que se apresentavam eram votar na manutenção da roubalheira e da corrupção, ou votar contra, no caso específico, votar em Bolsonaro.
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Pois bem, para esses que acreditaram na versão que apresentava o PT como a encarnação de todo o Mal na face da política nacional, vejo-me na obrigação de fazer uma indicação de leitura.
Afinal, nada como poder ter em mãos um “montão de amontoado de muitas coisas escritas”, esse objeto de prazer a que chamamos de livro. Principalmente quando o livro em pauta pode ser considerado um autêntico “triller”, de qualidade indiscutível.
Refiro-me ao livro de Bruno Carazza, “Dinheiro, Eleições e Poder: As engrenagens do sistema político brasileiro”, editado pela Cia. Das Letras.
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De início, vale dizer que o livro contém a tese de Doutorado em Direito pela UFMG do autor, que também é mestre em Economia pela UNB, Ao lado da carreira acadêmica, Bruno é servidor público da carreira de Especialista em Políticas Públicas, tendo trabalhado na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda e como coordenador da ESAF -Escola de Administração Fazendária. Além disso, é colunista do jornal Valor Econômico.
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Em seguida, devo reconhecer que é muito difícil a postura de recomendar um texto de alguém de competência muito superior à de quem recomenda. Bruno escreve bem, tem uma redação leve, estilo ágil, dinâmico, sem perder a qualidade, a consistência e a profundidade de análise e sem abrir mão do emprego de vasta quantidade de dados e informações estatísticas e de outros documentos.
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É forçoso reconhecer que a massa de dados com que Bruno trabalhou está à disposição do público, no acervo do Tribunal Superior Eleitoral, e na própria Câmara dos Deputados, nas Comissões e nos arquivos do STJ e do STF. 
Mas, a paciência, a diligência, a pesquisa, a localização dos dados, a capacidade de trabalho com ferramentas estatísticas, de modo a formar um conteúdo capaz de embasar a sua análise por si só, já merecem os maiores elogios.  
Quanto aos arquivos dos Tribunais, e da Câmara, há uma exaustiva pesquisa de declarações, depoimentos, autos de delações premiadas, etc, vídeos, áudios, de que Bruno se serviu com vigor e disposição inesgotáveis. 
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E tudo isso com a finalidade de entender o que ele chama, na esteira de outros pesquisadores, de presidencialismo de coalizão, ou seja, descobrir em que consiste tal arranjo, como ele se mantém, a fonte de recursos de que dispõe e, por fim, a finalidade última da utilização de tais recursos. Ou seja: quem financia a quem, e com que interesses futuros? Quem se beneficia do acesso a tais recursos e como ao ser eleito, tal beneficiário age, no exercício do mandato, em defesa dos interesses do financiador.
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Com tal objetivo, Bruno tenta mensurar o ônus, para a sociedade brasileira, do esquema responsável pela transformação da frágil democracia brasileira, em instrumento dos principais grupos empresariais do país em conformidade com sua postura de “rent seeking” (busca de lucros pela manipulação do ambiente político, social, etc.
Antes de mais nada, para aqueles que desejarem ampliar seus conhecimentos, é importante lembrar que Bruno não cai na visão simplista de que os empresários são os corruptores perversos que conduzem os políticos e funcionários de todas as organizações, não apenas públicas, mas também privadas, para o caminho do mal.
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Bruno sabe que as relações que se estabelecem caracterizam uma simbiose, uma conjugação de interesses de ambos os lados envolvidos, o que não nos permite sermos condescendentes com qualquer dos lados sentados à mesa.
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Adicionalmente, o livro serve para mostrar que nem o PT era o guardião das chaves onde estavam guardadas as forças de domínio do MAL, nem o novo presidente tem condições de alterar o esquema  que circunda, circundou sua própria eleição.
O que nos permite concluir, ao final, que não há virgens em puteiro.
E que a escolha de nosso inimigo na luta contra a corrupção depende de seleção anterior daquele que é  nosso bandido predileto.
É isso.  

Bolsonaro e a criação de um campo de segregação na Amazônia

"Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la".
As frases que expressam verdades absolutas, irrefutáveis, universais, caracterizam-se por uma dificuldade notável: adotadas por empréstimos nos discursos de várias personalidades, dificultam a referência ao seu autor original, passando a ter sua autoria atribuída a esses outros autores.
Como não poderia deixar de ser, também a afirmação que serve de abertura ao pitaco de hoje, incorre dessa dificuldade, tendo sido atribuída a autores tão distintos como Marx, Che Guevara, Edmund Burke, e até mesmo ao filósofo espanhol, Jorge Agustin Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás, que usava o pseudônimo de George Santayana.
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Para não cometer qualquer equívoco, uso-a sem a devida citação autoral, para tratar do governo do militar Eurico Gaspar Dutra, presidente de nosso país de 1946 a 1951, período que coincide com o início da Guerra Fria.
Por essa razão, do ponto de vista de suas relações externas, o governo Dutra foi forçado a escolher um lado a quem se alinhar, rompendo com a União Soviética e adotando medidas de franca aproximação com os Estados Unidos. (Apenas para não perder a oportunidade, a ruptura com a União Soviética teve como um de seus desdobramentos, o cancelamento do registro do Partido Comunista do Brasil e a cassação de seus representantes, em 1947).
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Do ponto de vista da sociedade e da economia, em seus primeiros anos e sob forte influência americana, houve a adoção de um conjunto de políticas e de medidas de cunho liberal.
Dentre tais medidas destaco, em primeiro lugar, a interferência nos direitos trabalhistas, com alterações em pontos consagrados da CLT, como o que regulava do direito de greves.
Assim,  criaram-se as Limitações do Direito de Greve, restringindo o número de setores que permaneciam com esse direito.
A perda de direitos deu origem a manifestações e à decretação de algumas greves por parte dos trabalhadores afetados, que deram origem a violenta repressão, fechamento de sindicatos e várias prisões de lideranças.
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Do ponto de vista do setor externo, a postura francamente favorável à política americana levou à promoção de uma abertura para o mercado estrangeiro que, ao tempo em que estimulava e adotava medidas de atração ao capital externo, promoveu a liberalização do comércio, com destaque para a importação de produtos americanos.
Os incentivos à instalação de empresas estrangeiras em nosso país, somados à manutenção de um câmbio fixo, e ao grande interesse despertado por um mercado consumidor com o potencial do brasileiro, levou a que se desse uma grande elevação das importações, gerando desaceleração da indústria nacional, profundo desequilíbrio da balança comercial, e rápida elevação da dívida externa do país.
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Um esclarecimento se faz necessário: no período de guerra, a destruição da indústria dos maiores países produtores de bens manufaturados acabou impedindo a manutenção do ritmo e nível de nossas importações.
Embora também as exportações de nossos produtos se tornassem menores, o fato de sermos país exportador de produtos primários, como minérios, algodão, alimentos, acabaram por nos beneficiar: a desaceleração das vendas foi menor que a das importações, permitindo o acúmulo das reservas já referido.
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No entanto, em pouco tempo de exposição à sanha dos produtores e comerciantes estrangeiros, além do desequilíbrio nas contas externas, do endividamento externo causado, houve um completo esvaziamento das reservas internacionais do país.
Situação que obrigou Dutra a dar uma guinada em sua política rompendo com a política liberal nos anos finais de seu mandato.
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Ou seja: o experimento liberal que o país conheceu em meados do século XX terminou com a inflexão da situação externa, saindo de uma posição confortável para uma situação de ampliação de nossa dependência externa.
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Se acreditava que contaria com financiamento oficial do governo americano para compensar sua situação devedora, também nesse aspecto o governo Dutra se frustrou, já que o Brasil não era um dos países de interesse para os Estados Unidos, cada vez mais às voltas com a Guerra Fria.
A esse respeito, vide o excelente artigo de introdução de Demóstenes Madureira Pinho Neto, no livro publicado pelo BNDES, em comemoração aos 50 Anos do Plano de Metas.
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Mais experimentos liberais em 60

Com o golpe da tomada do Estado em 1964, que contou com o apoio explícito de Dutra, assumiram a responsabilidade da área econômica do governo da ditadura militar implantada Gouveia de Bulhões (Fazenda) e Roberto Campos (Planejamento), dispostos a adotarem políticas de cunho liberal, sob a alegação de promoverem um saneamento da economia brasileira e promover um combate vigoroso contra a aceleração inflacionária.
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Várias medidas de realismo de mercado, juros em elevação, saneamento de empresas, sobrevivência dos mais aptos, etc. foram adotadas, culminando em dois anos de verdadeira eliminação de empresas e indústrias nacionais, geração de desemprego, recessão e níveis elevados de ociosidade da indústria.
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Do ponto de vista das políticas ligadas ao trabalho e ao trabalhador, promoveu-se um verdadeiro arrocho do salário mínimo, medidas de proibição do direito de greves, perseguição e fechamento de sindicatos, além de prisão, tortura, e mortes, de alguns dos líderes populares.
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Agora Bolsonaro

Não à toa, Bolsonaro gaba-se de sua formação militar, ele que foi convidado a sair do Exército.
Não à toa, vimos, novamente, seu projeto econômico, entregue ao Posto Ipiranga que atende pelo nome de Paulo Guedes, tomar feição ainda mais liberal.
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Não à toa, direitos trabalhistas são flexibilizados, aprofundando processo iniciado pelo governo golpista de Temer. A precarização das relações contratuais de trabalho é a única explicação razoável por um arremedo de recuperação econômica que, por mais que gritada em prosa e verso nas midias do país, não consegue nem empolgar, nem se mostrar efetiva.
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Assim, o desemprego cai, é verdade, mas ainda encontra-se na casa de 11 milhões de desempregados. Enquanto isso, o IBGE salienta que o número de trabalhadores informais é recorde, idem o número de desalentados.
Se o número de trabalhadores ocupados dá sinais de expansão, e as vendas apresentam indícios de crescimento, ao contrário do que as Pollyanas divulgam e querem nos convencer, a razão é tão somente o refresco da liberação dos recursos do FGTS para os seus proprietários.
Sobe o consumo, em números bem mais modestos do que os divulgados pelas associações de lojistas de shoppings, aumenta o endividamento das famílias, e todos nos contentamos com uma medida que sacrifica cada vez mais o futuro dos trabalhadores, em prol do presente que claudica.
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Por força do nível de trabalhadores informais, a arrecadação da Previdência cai. O país vê o rombo da Previdência cada vez mais elevado, apesar da realização de reformas que apenas penalizam o trabalhador no futuro. Especialmente, privando-o do direito de se aposentar em condições dignas.
Temos, assim, instalado, um ciclo vicioso: a arrecadação da Previdência cai, os gastos se elevam, o rombo aumenta, e isso realimenta o discurso de que a previdência pública faliu.
Como salvação: a previdência privada, para contentar os interesses liberais dos amigos financistas, colegas de Guedes.
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No front externo, declarações de abertura total dos fluxos comerciais ou financeiros de nosso país com o exterior, o que deverá acarretar apenas a quebra ainda mais acelerada de nossa indústria, já obsoleta, sem competitividade e sem apoio para sua recuperação.
Não por acaso, Skaf adota o comportamento de sabujo, tão à propósito dos interesses econômicos de categorias que estão vendo seu poder e prestígio serem cada vez mais solapados.
Enquanto os interesses de capitais rurais, agrários, ou especulativos financeiros são contemplados.
Claro: é tudo apenas a marcha da verdadeira concorrência capitalista: não a concorrência de produtos ou firmas de uma mesma indústria ou setor, mas o embate entre as facções de capitais, o financeiro contra o industrial, contra o comercial, etc.
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Há, no entanto, os que acreditam nas mensagens otimistas dos meios de comunicação e do governo, e que se preparam para se tornarem empreendedores, micro empresários, etc.
Não percebem que esse empreendedorismo de araque nada mais revela que a transformação da mão de obra assalariada em sem salários, mas com a manutenção de todos os riscos, ônus e encargos sociais, de que os patrões desejam se livrar.
Não percebem que, apenas terão êxito, se algum, enquanto agirem como os lacaios serviçais do grande capital hegemônico: os magnatas do capital financeiro, sem pátria.
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Nesse meio tempo, os juros baixam, seguindo movimento adotado pela política monetária de todos os principais países do mundo, o capital deixa o país em busca de refúgios mais sólidos e garantidos, o dólar explode seu preço e o governo de Guedes queima nossas reservas, tão duramente reunidas pelos governos anteriores.
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Nossa balança de comércio apresenta o maior déficit para janeiro desde há muitos anos; a conta de transações correntes atinge mais de 50 bilhões de déficit, um recorde; o capital estrangeiro prefere sair que vir ao país.
E nossas reservas de mais de 370 bilhões de dólares vão sendo solapadas, aos poucos, em vendas diretas no mercado físico, para tentar conter a desvalorização de nosso real.
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Ah! sim. A inflação está sob controle e abaixo da meta. Os juros não precisam estar em patamares mais elevados.
Mas se a inflação encontra-se nos níveis atuais, uma das causas, senão a principal é a recessão, o desemprego, a precariedade de emprego e renda da população. Que leva o empresário a não querer investir, ele que já ostenta níveis elevados de ociosidade.
Enquanto isso, o governo não investe, não gasta e a economia patina.
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A política liberal não tem apoio da política mais geral, e desestimula a vinda de capitais dispostos a investirem em produção, movimento que já se nota também nos países mais desenvolvidos, onde a opção financeira é dominante em comparação com a produção real.
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Enquanto isso, agredimos nossos clientes estrangeiros, com o equívoco de adotarmos uma política que nos transforma em capachos da política de Trump e seus Estados Unidos.
Tratamos com desdém os interesses palestinos, chineses, de nossos vizinhos sul-americanos, isolando-nos cada vez mais do mundo.
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E isso, mesmo após várias vezes que Trump fez, prometeu e não cumpriu com nossas aspirações e desejos.
Ao final, se necessário, Guedes e Bolsonaro talvez esperem que recursos oficiais americanos nos tirem do fundo do poço.
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Mas, tudo se dá, enquanto ministros são indiciados, a Polícia os investiga, existe um combate seletivo à corrupção e ao comportamento aético.
O responsável por esse combate adota comportamento de avestruz, ele que é tão igualmente criminoso como muitos de seus colegas, no descumprimento de leis, normas, regras, etc.
A presença de Moro, sem dúvida, é parte da explicação de o ministério ter tantos ministros que não deveriam estar onde estão, como Damares, Weintraub, Ricardo Salles, Marcelo Álvaro Antônio e até de Regina Duarte.
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E assim, chegamos ao dia 400 desse desgoverno, com o presidente agindo cada vez mais próximo de atravessar a linha tênue que separa a brincadeira de mau gosto, ou a tentativa de ir tateando até onde vai a tolerância da sociedade a arroubos autoritários, do crime de responsabilidade: caso da fala que invade área de competência exclusiva dos governadores, o ICMS.
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Ou então, já e cada vez mais claro o já motivo para sua condenação por crime, agora mais grave: a manifestação da vontade de criar campo de segregação na Amazônia, para todos os ambientalistas do país.
Isso não é uma mera brincadeira ou declaração sem fundamento. Isso é crime. Grave.