quinta-feira, 14 de junho de 2018

14 de junho: três meses da execução de Marielle; início da Copa e de seu torpor e a quem Temer, de fato, serve

14 de junho.
Data que assinala a passagem de 3 meses do assassinato da vereadora carioca, pelo PSOL, Marielle Franco e de seu motorista Anderson.
Assassinato com toda característica de execução e, pior, crime político. 
Com características que mal conseguem disfarçar a participação de integrantes de setores da polícia e de milícias, quando não de ambas as estruturas. 
Ligadas, para o bem e para o mal, às forças de segurança, numa simbiose que Lúcio Flávio Vilar Lírio, o famoso bandido morto em 1975, já criticava abertamente. 
Como consta no filme Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, afinal de contas: "Bandido é bandido, polícia é polícia. Como água e azeite, não se misturam". 
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Mas infelizmente, talvez pelo fato de nossa população ter um conhecimento muito raso da nossa história, as coisas aqui se repetem incessantemente. Monotonamente. 
Como tragédia. Como farsa. Como o ensaio para uma peça nunca concluída. 
E como já naquela época, eram completamente espúrias as ligações entre Lúcio Flávio e Mariel Mariscot, continuam hoje, completamente descabidas e criminosas as ligações entre membros da forças de segurança e os milicianos, que Marielle denunciava. 
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Mais uma vez, em razão do pouco conhecimento de nossa história e sua contínua repetição, parte da população aprova ou não se opõe de forma mais contundente contra as operações das partes podres que infestam os corpos policiais, criados para nos proporcionar o contrário do que entregam: proteção e segurança e não terror, morte e medo. E extorsões. 
Curiosamente, as mesmas ligações que Mariscot, o policial valorizado, reconhecido e corrupto, mantinha com a famosa escuderia Le Cocq e com o Esquadrão da Morte. 
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Como previsto, o bárbaro crime contra Marielle e seus 46 mil eleitores continua irresolvido, por mais que organismos internacionais, e até órgãos de imprensa tenham feito a máxima força para não deixá-lo repousando nas prateleiras do esquecimento. 
E da impunidade. 
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Continua, entretanto, ecoando a frase gritada nas manifestações que seguiram a morte. 
Marielle, PRESENTE. 
Anderson, PRESENTE.
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Apenas para concluir o pitaco, e em referência à falta de conhecimento da história pela grande maioria do nosso povo, o que permite e facilita que se generalize a frase famosa sobre a falta de memória de nós brasileiros, duas observações.
A primeira delas: não é verdadeira a frase da falta de memória. Ninguém pode se esquecer daquilo que nunca teve ciência ou informação.
A alegada falta de memória é, na verdade, apenas uma forma de se transferir para o próprio cidadão, a responsabilidade que é de nossos políticos, de nossas autoridades, ou melhor, de nossos PODEROSOS  de sempre, que nunca se interessaram em informar, esclarecer e criar as condições necessárias para a participação do povo no que constitui a sua própria vida. 
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A razão é óbvia: vai que o povo gosta de saber e resolve tomar os seus desígnios em suas mãos...
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A segunda observação tem a ver com o movimento de interesses obscuros e não democráticos sob todos os aspectos, da proposta de Escola sem partidos. 
A denominação do movimento revela bem os seus reais interesses, de criar uma escola incapaz de discutir a existência de interesses. 
Uma escola sem partidos é uma escola sem história. 
Um povo sem história é um povo destinado a ser apenas massa de manobra de interesses, em geral, contrários aos dos indivíduos que são seus integrantes. 
Uma escola sem história é uma escola sem verdade. Ou com a verdade dos poderosos e eternos exploradores e expropriadores da população. 




14 de março e tem início a Copa

E com a Copa, o país parece entrar em um estado de torpor, destinado a permitir que o tempo possa arrefecer os ânimos e ímpetos mais aguerridos de parte da população. 
Em certo sentido conseguindo, ainda que momentaneamente, desviar o foco dos problemas e das graves questões que o país atravessa e cujo governo, imerso na maior inépcia, não consegue tratar. Quanto mais tentar resolver. 
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Deste ponto de vista, ao desviar a atenção de grande parte do povo, e dos eleitores, a Copa tem a capacidade de fazer adormecerem as tensões e, dessa forma, aliviarem o ambiente, contribuindo para desarmar os espíritos dos grupos que, cada vez mais têm levado as discussões políticas para o campo das ofensas e agressões pessoais. O que caracteriza a criação de um ambiente propício à explosões e manifestações que trazem em germe a violência e o desrespeito, principalmente às opiniões contrárias. 
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Que a Copa, como outros eventos esportivos do porte, por exemplo, das Olimpíadas, além da característica de criar condições para o enriquecimento, ainda maior e mais cheio de pequenos (e grandes) delitos, consegue servir para distrair o povo, não se discute. 
É fato sobejamente conhecido. 
A ponto de ter dado origem a hipóteses, mesmo as sem muito sentido, como aquela defendida por David Nasser, o jornalista, compositor, para quem toda vez que o Brasil conquistava uma Copa do Mundo, o nível de satisfação da população atingia patamares que acabavam se transferindo para o próprio governo de ocasião. 
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Pois bem, sem questionar o acerto ou o absurdo da observação do contraditório jornalista, a verdade é que eventos como a Copa sempre serviram como o circo romano, ou como o ópio do povo ao lado da religião, como a considerava Hegel, por exemplo. 
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O que me faz lembrar de uma tarde trágica para nós brasileiros, que passa para a história conhecida pelo seu resultado: a tragédia do Sarriá, em distante 5 de julho de 1982.
Justamente a tarde em que a melhor seleção de futebol do mundo, na ocasião, montada pelo mestre Telê Santana, foi derrotada pela briosa e valente, e mais disposta e guerreira seleção italiana e seu avante Paolo Rossi. 
Lembro-me que, no abatimento que dominou o país e sua torcida, que já se considerava vitoriosa, o governo aproveitou para anunciar a inflação do mês de junho anterior, próxima dos 8% ao mês. 
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Confesso que a memória não me ajuda, passados tantos anos daqueles dias, mas não me lembro de o anúncio do movimento descontrolado dos preços ter a repercussão que merecia, em especial e justamente por parte de todos aqueles que eram prejudicados por tal descontrole, quando comparado com a decepção e o sentimento de perda nacional que invadiu a todos nós. 
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Repete-se, agora, a criação do mesmo ambiente de euforia, contagiante, emblemático, até. 
Embora, pesquisas indiquem uma queda do interesse, ao menos antes do início da disputa, da população pela Copa, o que demonstra talvez certo amadurecimento. 
Reflexo do distanciamento da vida de nababos dos jogadores de futebol, confrontado com a vida miserável do povo brasileiro, trabalhador e pouco reconhecido.
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E Temer, do alto de sua inexpressividade revela a que veio

Começa a Copa, em momento em que a popularidade do usurpador e golpista Temer é o mais baixo de toda a história. 
E em que Temer é mais uma vez alvo de suspeitas cada vez mais difíceis de ignorar. 
O que o leva a mostrar total falta de sintonia com a vida dos brasileiros que, desgraçadamente e de forma ilegítima, ele governa. Afinal os jornais (mais especificamente a Folha em sua edição de ontem), anunciam que, em cerimônia de assinatura da regulamentação do código da mineração, ele foi capaz de afirmar que, segundo um ranking de preferência dos investidores estrangeiros, o país passou da sétima para a quarta posição nos últimos dois anos. 
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Ou seja: não bastava o Brasil ter voltado, 20 anos em 2, como o ato falho da propaganda oficial deixou a nu. 
Nem vale a pena ir conferir que pesquisa de preferência é essa, e sua existência, se real ou não. 
Interessa mais destacar que 72% da população consultada em pesquisa do Datafolha revela que, para eles, a situação econômica do país piorou nos últimos meses.
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Tampouco é possível se ignorar e deixar de mencionar a greve dos caminhoneiros e seus reflexos. Principalmente, e mais uma vez, para mostrar a falta de confiança da população no tal presidente, incapaz de honrar qualquer dos compromissos acertados com a categoria que o chantageou. 
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E não vou falar, por significar pura covardia, que apenas 3% da população aprovam seu governo. Mais que o ridículo do índice, é importante assinalar que o golpista e mau caráter comemora que os investidores estrangeiros, seus verdadeiros patrões, o aprovam e indicam ter melhorado o grau de satisfação com esse senhor que deveria, ao deixar o cargo que não tinha o direito de ocupar, ser julgado por lesa pátria. 
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É isso. 

E vamos à Copa e à maratona de jogos. Enquanto o Galo descansa na vice-liderança e o futebol brasileiro já sinaliza que será vítima da maior onda de evasão de jogadores dos últimos anos. 
É esperar para ver e confirmar. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

É preciso falar de racismo. É preciso discutir a arte.

Começo tratando de algo que parece a mim muito sério e preocupante: a reação de vários grupos à indicação de Fabiana Cozza para viver D. Ivone Lara, a grande dama do samba, no teatro.
Reação que confesso desconhecer, por ter se dado principalmente por meio de redes sociais às quais não tenho acesso.
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Motivo suficiente para que eu, como várias outras pessoas, talvez preferisse não abordar, por uma série de razões, algumas das quais bastante aceitáveis, como por exemplo, pelo fato de o assunto ter chegado ao meu conhecimento já liquidado. Já resolvido. É bem verdade, em minha opinião, da forma mais lamentável possível: a desistência de Fabiana de aceitar o papel. Desistência anunciada por meio de suas redes sociais, às quais só tive conhecimento também por jornais. Mais especificamente pelas reportagens publicadas pela Folha de São Paulo.
Ou seja, toda a informação que detenho pode ser classificada como parcial, a terceira razão para não me manifestar.
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Mas...
É preciso afirmar que a indicação de Fabiana, por familiares da figura central da peça, a que se pretende homenagear, se deve à consideração, amizade e respeito que todos reconhecem que Fabiana sempre manifestou junto à Dona Ivone, parece-me que ainda enquanto viva.
Também importa afirmar que Fabiana já gravou com destaque músicas da sambista, tendo colhido elogios. O que a capacitaria como intérprete da homenageada.
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Finalmente, D. Ivone, sabemos todos era negra. E Fabiana é filha de pai negro, ostentando pele que as estatísticas classificariam de parda.
Ok. A pele de Fabiana é bem mais clara que a de D. Ivone, o que nem impediu a amizade entre as duas, nem a indicação pela família, nem a escolha pela produção da peça para o papel.
Mas foi o suficiente para disparar um movimento que foi classificado como uma grande pressão, via redes sociais, no sentido de condenar a indicação de Fabiana. Pressão patrocinada por vários movimentos sociais que lutam em favor da causa negra.
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Críticas tantas, não às qualidades vocais ou pessoais ou artísticas de Fabiana. Mas à falta de maior quantidade de melanina em sua pele.
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Nesse ponto faço uma interrupção em relação a esse assunto, para poder repercutir o absurdo que é o número de assassinatos cometidos no Brasil em apenas um ano ano, estatística contida no Atlas da Violência 2018, elaborado pelo IPEA e anunciado no dia de ontem, terça, 5 de junho.
O Atlas revela que foram mortos no país, no ano de 2016, 62,5 ou sessenta e dois mil e quinhentas pessoas, arredondando, em apenas um ano, o que dá a média absurda de 30,3 mortes para cada cem mil habitantes. Isso apenas no ano de 2016.
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São 172 pessoas assassinadas por dia, mais de 7 por hora. Muito maior número que a mesma estatística para a Europa. Isso em um país que vende a eterna ilusão de ser pacífico, amistoso. De boa, como dizem os mais jovens...
Mais que apenas a observação a respeito da escalada da violência, já que o número vem apresentando tendência de crescimento nos anos anteriores a 2016, o que mais choca é o fato de que 71,5% dos homicídios foram de jovens, pretos ou pardos.
Apenas em relação aos negros, o Atlas revela que a média supera os 40 por 100 mil habitantes.
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Falar que a maior parte dessas mortes se dá em Estados do Nordeste ou Norte do país, é uma informação relevante. Lembrar que os números mostram a escalada justo nos anos em que a crise da economia brasileira se tornou mais aguda também pode dar alguma contribuição para o entendimento da questão.
Mas não é suficiente para explicar porque mais de 70% das vítimas são jovens. São pretos. São pobres. Pode-se até arriscar: moradores em comunidades da periferia.
Um verdadeiro e autêntico genocídio.
Do mesmo tipo que já foi colocado em prática no Brasil colônia, em relação aos negros escravos, embora isso não fosse considerado preocupante por um país que cada vez mais quer eternizar o poema de Affonso Romano de Sant'anna, que afirma que há 500 anos matamos índios e mulheres e pobres e pretos. Especialmente jovens, pobres e pretos, como eu mesmo já comentei nesse espaço em postagem de 2017.
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Ainda agora no portal UOL há uma chamada de que até 5 mil índios e estudantes quilombolas podem ser obrigados a interromperem os estudos, por força de cortes de gastos nas bolsas permanência.
O que significa apenas a manutenção, especialmente dos quilombolas, como uma categoria de cidadãos de segunda classe.
Claro, o que alcança também à população indígena.
Coisas do des-governo temer.
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Aliás, antes de retornar ao tema cujo tratamento deu início ao pitaco de hoje, devo dizer que vou voltar a grafar o nome de Temer com maiúscula. A razão é simples: um reconhecimento de que nunca vi tanta incompetência. tanta inépcia, tanta prepotência juntas, essa última travestida, como é comum em que se arvora em forte, de insegurança.
O que faz Temer a qualquer instante ou problema que surja e que ele deve administrar, correr para a farda dos soldados, para fazer  uma analogia com aqueles meninos que, a qualquer mínima ameaça, correm para a saia das mães.
Temer, além de tudo, vai sair do governo e, diga-se de passagem, investigado e sujeito à condenação. Até por não ter feito nada em seu des-governo, além de dar asa a muita imaginação quanto a abusos em relação aos cofres públicos. Seu amigo coronel da reserva, PM Lima que o diga, flagrado com mais de 23 milhões em contas bancárias, isso depois da corridinha esperta de Loures, seu menino de recados.
A esperança que nutro é a de que para ele, nem se fala, nem se aventa em qualquer concessão de indulto. O que é uma garantia para nossa sociedade.
Por tudo isso, o mais corrupto governo, superando até mesmo o de seu companheiro de partido, Sarney, passo a respeitar sua distinção - nula- e volto a grafar Temer, com maiúscula.
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Mas comecei o pitaco com Fabiana, para voltar ao assunto da reação dos movimentos negros.
Acho que eles têm sim, que fazerem toda a manifestação do mundo possível, para resguardar os direitos que sempre lhe são devidos.
Toda essa postagem mostra esse quadro, e por isso, todos esses movimentos contam com minha mais irrestrita solidariedade.
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Exceto em relação à negra, de pele mais clara, Fabiana. Que me lembra do caso que aconteceu no início dos anos 60, talvez 61 ou 62, quando os concursos de miss eram tão famosos, em todo o país e no mundo.
Naquele ano, foi eleita miss Brasil, a mineira Stael Abelha, linda morena que, conta a lenda, não desejava viajar aos Estados Unidos para disputar o título máximo de miss Universo, como nossa representante, por temer ser desclassificada, como foi. Na época, a versão é que a desclassificação se deu por ter algum traço de sangue negro.
Outra versão diz que foram ciúmes de seu namorado que a fizeram abdicar do título nacional.
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Volto a Fabiana, não por achar ridícula a manifestação, em defesa de direitos negros, contra uma negra.
Mas por que os tais movimentos que merecem meu respeito, se equivocaram.
Afinal, o que é um teatro?
Uma busca na internet diz que é uma forma de arte em que um conjunto de atores interpretam ou representam uma história. Local onde o público vai para ver.
Ver arte!
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E o que é a arte?
Da mesma forma precária, poderíamos definir como a manifestação estética, de sentimentos, emoções, que se deseja transmitir para expressar ideias, percepções, que induzam a uma tomada de consciência, etc...
Está lá no google.
Como está lá também o fato de que, na Grécia antiga, onde a mulher não era considerada pessoa, ela não podia participar das representações das peças encenadas.
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E, por isso mesmo, os atores, homens, usavam personas, máscaras, que serviam para permitir melhor compreensão de sua fala, mas também para mostrar que, dependendo da figura da máscara, uma mulher ou outra, estivesse se manifestando.
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Minha memória é falha, mas acredito que foi em Marx (não me lembro em que passagem do texto, nem de que texto), que aprendi que persona do grego era usado apenas para representação do que se desejava mostrar.
Na passagem que a memória me traz, ele afirmava que  não tratava das figuras do capitalista ou do operário, exceto como personas. Sem entrar no mérito do juízo de valor individual de cada um. Tratava-os como as máscaras do teatro grego, para expressarem a representação de interesses de um grupo social.
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Pois bem, se desde a origem do teatro, e desde a Grécia, máscaras eram utilizadas pelos atores, para expressarem diferentes pessoas na peça, não haveria qualquer problema em se usar alguém branco e de sexo masculino, para representar D. Ivone Lara, se deixado claro que se colocava aquele ator, no papel de uma mulher negra genial.
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Foi assim que, quero crer, ninguém exigiu que se proibisse a representação nos espetáculos de ópera italianos, das figuras e vozes femininas, por jovens rapazes, submetidos até à tortura: os castrati.
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Ou seja, ao agir com agiu, os movimentos negros, demonstram antes de mais nada, uma ausência de conhecimento do que é cultura. O que apenas agrava a questão do preconceito e da falta de respeito.
Respeito à arte, e sua mensagem.
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Por isso, acho que um filme de Lars von Trier, com Nicole Kidman, chamado Dogville é um primor de filme. Apenas ou até mesmo porque faz toda uma representação de uma cidade, das casas, etc. a partir de marcações a giz dos ambientes, que são apenas imaginados.
E olhe que é um filme espetacular, e dos mais violentos, na representação do que é o ser humano, a que já assisti.
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Concluo: na arte, não há necessidade de o negro ser negro, nem do homem ser homem ou da mulher ser mulher; da criança ser criança, como os Autos de Natal nos mostram bem, na representação de soldados, Maria e José e até dos reis magos, por meio de crianças.
É isso.
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Mais poder aos negros. Mais respeito. Mais dignidade. Aos jovens, aos pobres, aos que vivem nas comunidades. Mais respeito também à arte. E à denúncia a que ela pode servir, mesmo que para denunciar o genocídio contra os negros, sendo a representação dessa realidade moderna, feita por atores/atrizes brancos. Brancos, mas conscientes de que somos todos iguais.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Senado aprova medida que adia a solução que passa pela alteração da política de preços da Petrobrás

Em sessão marcada pela pressa, como já está se tornando normal no Senado, foi aprovado ontem à noite naquela casa, o projeto que aprovado na Câmara que propõe a reoneração da folha de pagamento das empresas.
De carona no projeto, foi aprovada também a redução para zero da alíquota da CIDE e a do PIS/COFINS, incidentes sobre os combustíveis.
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Importa aqui destacar algumas questões, como a levantada pela senadora Vanessa Grazziotin, entre outras líderes dos partidos da oposição, relativa à já costumeira pressa para que votações sejam realizadas, sem que as questões importantes que estejam sendo tratadas, possam ser mais bem discutidas.
Ou seja: votam-se matérias importantes no escuro. Sem que se aprofunde nas causas dos problemas e nas soluções possíveis. O que deve ser reconhecido, não é culpa apenas do Congresso.
Em especial no caso presente, dos caminhoneiros, grande parte da responsabilidade recai sobre os ombros do Planalto, avisado antecipadamente das reivindicações da categoria dos transportadores, e que deu de ombros, não levando as ameaças de paralisação a sério.
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Sem demonstrar qualquer aptidão para governar, exceto ficar fazendo política rasteira e negociando verbas em troca de manter-se no cargo, brecando as investigações necessárias em relação a suas decisões, principalmente em relação ao Porto de Santos, temer ainda demorou-se demais a reagir. E quando o fez, foi para mostrar ao país sua total falta de autoridade.
Tanto que Pedro Parente, mero presidente da Petrobras, fez de temer gato e sapato, primeiro afirmando que não modificaria a política de preços dos combustíveis em vigor, para depois vir a público afirmar que decidira reduzir em 10%, por 15 dias.
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Que Pedro Parente, representante dos interesses do capital e dos investidores estrangeiros na Petrobrás e na estratégica questão da exploração do pré-sal, tenha costas largas para peitar o usurpador que ocupa o Planalto, não é de se estranhar.
Mas mostra como temer e nada é, como diz a Globo golpista, tudo a ver.
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Mas, discutido e aprovado às pressas ou não, também deve-se reconhecer que, à exceção do líder do governo, o outro indiciado e homem das grandes surubas, Romero Jucá, a maioria dos líderes partidários quando do encaminhamento do voto de seus pares, deixavam claro que recomendavam o voto favorável por respeito e por darem crédito à palavra de Eunício de Oliveira, presidente da Casa.
Exceto os líderes da oposição, contrários ao projeto, os demais, ditos dos partidos da base, deixavam claro não terem qualquer respeito e nem darem crédito a temer, o golpista.
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Quanto a Jucá, não se fez de rogado e admitiu a possibilidade de veto do usurpador ao projeto, afirmando que a matéria era, como de fato é, inconstitucional.
Afinal, sem dizer a fonte de onde viriam os recursos, foi a Câmara que propôs a medida de zerar o PIS/COFINS, o que altera o orçamento.
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Altera o orçamento e retira recursos de destinação obrigatória à Seguridade Social. O que significa amplificar os problemas que a Previdência Social do país apresenta, mesmo que não a questão do déficit da Previdência, da forma enganosa que o executivo costuma calcular e divulgar.
Porque, a bem da verdade, desde a implantação do caixa único no governo, esses recursos com previsão constitucional de serem obrigatoriamente destinados à Seguridade acabam, como todos sabemos, indo pagar despesas do governo, como as emendas parlamentares, negociadas como moeda de troca para salvar o mandato do suspeito de corrupção que usurpou e ocupa o Planalto.
Quando não os juros dos grandes interesses financeiros do país e internacionais, que aqui aplicam, e que são os principais interessados na manutenção dessa sombra decadente que é o atual ocupante do Planalto.
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Tanto o país se encontra, efetivamente acéfalo, que Pedro Parente já definiu que não vai alterar a política de preços adotada, e que findos os 15 dias de sua promessa, vai voltar a acompanhar a oscilação dos preços internacionais do óleo cru e do câmbio. E vai espetar a conta no governo, exigindo a reposição das perdas geradas pela decisão de temer, de expandir o prazo da redução do preço do diesel para 60 dias, e da alteração posterior da política de preços para os caminhoneiros.
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Que ninguém se iluda. Há no meio dos caminhoneiros muita gente que deseja ver o circo pegar fogo e aproveitando a inépcia de temer, está apostando no agravamento da situação social, até que seja justificada uma intervenção militar.
Essa, já cansamos de afirmar, é a pior saída. A pior medida. O pior dos mundos.
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Já afirmamos nesse blog, tanto quanto os políticos, e os profissionais de outras áreas de atuação, os militares não são, nem nunca foram vestais. Não são a representação da honestidade em abstrato, como não são transformados em santos, apenas por vergarem fardas.
Se parece serem puros é apenas por estarem na posse de armas. E assim podem silenciar, como já o fizeram em vários momentos de nossa história, aqueles que descobrem seus crimes e seus pecados, entre os quais o da corrupção, do enriquecimento ilícito e do favorecimento, de que não estão imunes.
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E existem caminhoneiros que, como alguns outros que clamam pela intervenção militar, não puderam, não tiveram tempo ou interesse em estudar história do Brasil.
Rodando pelas estradas sempre precárias que cortam nosso país, é compreensível que os caminhoneiros não tenham tido tempo de se informarem das torturas, da ruptura dos direitos individuais e sociais, patrocinados pelos maus militares. Nem dos crimes de assassinato de quem lhes fazia oposição. Vários desses opositores na cadeia, indefesos.
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Por isso, a preocupação legítima de deputados na nossa Câmara, em relação à possibilidade de um golpe vir a depor temer.
Afinal, como parece ser a ideia de Rodrigo Maia, ruim com temer, pior sem ele, se for para seu substituto usar uniforme e dragonas.
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Mas, ainda voltando à paralisação dos caminhoneiros, é justo que alguns, mesmo que a minoria, continue seu movimento paredista.
Porque pouca atenção tem sido dada a sua reivindicação real. Eles querem, como toda a população, uma política de preços dos combustíveis que não os impeça de trabalharem, gerarem renda e viverem com dignidade. Ou sobreviverem, no mínimo.
Não lhes interessa uma solução provisória para seu problema, como a de zerar a alíquota do PIS/COFINS até o final do ano.
Porque o ano acaba, e o problema volta a afligi-los.
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Isso sem contar que, até lá, se para recuperar as perdas orçamentárias representadas pela medida de exceção for necessário aumentar a tributação sobre outros produtos, não há qualquer certeza de que eles não serão alcançados pela elevação dos impostos.
Ou seja, eles poderão ter que dar com uma mão, o que estão recebendo nesse instante, na outra mão.
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Por isso, a senadora Grazziotin estava coberta de razão: a aprovação do projeto devia ser feita depois de longa discussão sobre as fontes de recursos que seriam usadas para bancar a perda estimada de entre 9,5 e 13 bilhões de reais por esse governo e seus técnicos, que apenas são eficientes em bater cabeça.
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A discussão prioritária a ser feita, a da alteração da política de preços da Petrobrás, essa nem pensar. O que não resolve nada. Apenas remete para 2019 a necessária solução do problema.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Caminhoneiros, temer e um grito que devemos fazer ecoar: Militares nunca mais.

Uma semana de greve dos caminhoneiros e, apesar de todo o temor, seja em relação à possibilidade de desabastecimento, seja de questões mais delicadas, como a  da deflagração de uma convulsão social, da queda de governo e até de intervenção militar, parece que, aos poucos, o nível de estresse vai diminuindo e algumas soluções vão sendo encontradas, tendo em vista o retorno à realidade. 
Não em razão do governo e do usurpador temer, que apenas mostrou, mais uma vez, o quanto era incompetente para assumir o cargo que o golpe, do qual foi participante ativo, lhe jogou no colo. 
E ainda tem gente que, na ignorância de como funcionam nossas instituições, ou como não funcionam, em especial nosso sistema político, argumenta que temer foi eleito por aqueles mesmos que elegeram Dilma. 
Como se, em nosso país, a escolha de um vice não fosse meramente protocolar, ou pior, para negociar tempo e base de apoio junto às casas legislativas. Apoio nunca suficiente e nunca efetivo, o que impõe e implica na necessidade da realização de todas as negociações espúrias de que somos testemunhas passivas. 
Então, quem elegeu Dilma não elegeu temer, quem votou no projeto (se é que havia algum) de Dilma e do seu partido, não votou no projeto de um político abjeto, fruto do que há de pior no ambiente político de nosso país. 
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Alegar que temer é fruto de quem elegeu Dilma, ainda que no segundo turno, é dar espaço que seja dito que quem colocou temer lá foi o eleitor de aécio, o senador mineiroca que, por puro despeito ou orgulho de playboy ferido, irá passar para a história como aquele que fez valer o que era a intenção de Carlos Lacerda, em relação a Getúlio: se candidato não deverá assumir, se assumir não deverá governar... 
Pois bem, e é curioso que Tancredo, o avô do menino mimado  que descobriu-se ser empregadinho embora muito bem remunerado da JBS, foi um adversário tão aguerrido de Lacerda e de sua udenista golpista, para agora, esse seu neto cheio de acusações e más intenções, repetiu o político carioca, de quem parece copiar o perfil. 
Afinal, se Lacerda como político nada valia, tampouco aecim, essa figura sem qualquer brilho. 
E os eleitores de aecim, os mesmos que circularam dizendo que não tinham culpa no desgoverno ou no estelionato eleitoral aplicado por Dilma, são também a base de apoio de quem prometeu e cumpriu a promessa de derrubar um governo democraticamente eleito pelo povo, apenas por não saber conviver com o contrário. 
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Se os eleitores de Dilma foram os que elegeram temer, foram os incautos eleitores de aecim que, sem conhecer sua face autoritária urdiram o golpe. Inventaram um crime de responsabilidade fajuto, baseado em uma situação corriqueira nos governos anteriores, as tais pedaladas, e comemoraram com dancinhas e camisetas com as cores da corrupta CBF, a retomada do poder e da hegemonia só permitida com o retorno dos privilegiados ao poder.
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E foi isso que temer, o medíocre, ousou fazer. Correr para bajular e tentar manter sua sobrevivência, agradando não à maioria do povo brasileiro, mas aos interesses de alguns poucos capitalistas nacionais, umbilicalmente articulados aos interesses de grandes capitais internacionais. 
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E devo ressaltar: não foi uma política voltada para os interesses nem mesmo do grosso do empresariado nacional, embora esse grupo alimentasse uma ilusão de que estaria sendo beneficiado pelas medidas que, no fundo também afetam a todos eles, de forma negativa, como a reforma trabalhista, a lei do teto dos gastos, e principalmente essa política de juros que sob a argumentação de estar a serviço do combate à inflação, fez saltar os níveis de desemprego e provocou a recuperação mais lenta da economia brasileira em toda sua história. 
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Tudo começou com a indicação de Pedro Parente para a Petrobrás e o desejo de promover a recuperação da lucratividade e concomitantemente,  privatizar a exploração do pré-sal. Para ambos os objetivos, contribuía o alinhamento do preço do petróleo, até então usado como instrumento da política de desenvolvimento e da normalidade do funcionamento da economia brasileira, com o preço internacional. 
Ao atrelar o preço de nosso produto, ao de uma "commodity" que é objeto constante de manipulação nas bolsas de todo mundo; ao vincular o nosso óleo ao de uma mercadoria que é das mais voláteis no mercado internacional, por força de ter sido sempre transformada em arma de interesses de estratégia geo-política; ao estabelecer nossos preços no mesmo patamar de um produto que, além de tudo é cotado em dólar, o que o senhor Pedro Parente, com o beneplácito do inútil temer conseguiu foi fazer nosso produto depender, basicamente de dois fatores, sobre os quais não temos qualquer controle. 
Mas isso não importa, para quem conseguiu atingir o objetivo de recuperar a lucratividade da companhia, agradando aos grandes investidores internacionais, entre os quais se encontram, justamente aqueles que se prestaram a adquirir o direito de exploração do pré-sal. Com lucros fabulosos. 
Enquanto isso, nossos combustíveis sobem a níveis estratosféricos, e os lucros dos acionistas estrangeiros, detentores do que já foi um dia distante, o petróleo nosso. 
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O plano seguiu com Parente, ao adotar a nova política de preços, abrir espaço para que petróleo importado chegasse aqui, ao nosso país, com preços mais reduzidos, situação que acabaria levando à redução da utilização de nossas instalações e da nossa capacidade de refino.  
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E culminou com a elevação, determinada por temer em julho de 2017, dos impostos incidentes sobre combustíveis, para cobrir o rombo do caixa que só se elevou com sua política econômica e com a quantidade de renúncias que foi sendo obrigado a fazer, para curvar-se à Câmara, aos deputados que lhe permitiram escapar de duas investigações, e à aprovação do saco de maldades que os empresários lhe exigiam. 
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A facilidade em  elevar as alíquotas de combustíveis para tentar minorar o rombo das contas públicas, dado que a política de recessão impedia a recuperação da produção e, com ela, a elevação da carga tributária, foi outro dos motivos que alimentaram o movimento dos caminhoneiros. 
Afinal, a elevação de impostos, e a variabilidade dos preços do diesel, foram os principais motivos, embora não os únicos alegados por parte dos caminhoneiros para reagirem. 
E, diga-se que eles, demoraram a reagir. E ainda enviaram ao Planalto uma correspondência em que já cobravam a adoção de medidas que os favorecessem, sob a ameaça de entrarem em greve a partir de 21 de maio. 
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A inépcia do governo, sua descrença na ameaça, as preocupações mais em se safar e locupletar-se, talvez, tenham soado mais importantes do que tratar da potencial ameaça dos homens responsáveis pelo transporte de 2/3 de nossas riquezas. 
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Até entende-se que um presidente que ao deixar o cargo deverá ir parar atrás das grades, se preocupe mais em como se safar. E diga-se de passagem, temer tem tentado não precisar acertar suas contas com a justiça. Primeiro tentando se candidatar, ainda na vã ilusão de que seria possível se candidatar e, novamente, sabujo que é, representar os interesses da minoria dona de grandes fortunas. Depois, tentando indicar alguém de sua equipe, ao qual transferiria o ínfimo apoio de seus 5% de índice de satisfação junto ao povo. 
Percebe-se que, temer tem sim, motivos e assuntos mais importantes para lhe assombrar e para tratar. Daí deixar de cuidar dos problemas do país e dos caminhoneiros em particular. 
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Como também não tratou por covardia e falta de qualquer estofo moral, de punir aos militares, a quem adula, mesmo que esses já estejam praticando o motim, ou a quebra da hierarquia que, em muitas outras ocasiões já teriam tido consequências mais drásticas. 
Um presidente pinóquio, segundo o dizer do tenente coronel da Polícia de Goiás; um governo sem mando, aos olhos do brigadeiro Dias, apenas segue o mesmo rumo do general Olímpio Mourão ou do candidato da excrecência total, o senhor capital da reserva Bolsonaro. 
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Mas não apenas ainda tem gente que prefere não acreditar em como o candidato militar não é preparado nem tem qualquer condição de dirigir um país, pelas agressões de que sempre foi protagonista, contra mulheres, negros, gêneros de toda espécie e contra a própria democracia. Pior, ainda tem gente que acha mesmo que esse caminho, da autoridade ou autoritarismo é o melhor para tirar o país do caos, e levá-lo à ordem e ao progresso. 
Gente que acredita que a farda transforma o ser humano em santo, assim como outrora fora a batina que tenha encarnado essa condição. Pois bem, hoje sabemos que a batina esconde toda uma série de atos onde talvez, a pedofilia seja apenas mais um, de menor gravidade. (Afinal, já se incendiou muitas mulheres na fogueira da ignorância!). 
Falta descobrir que a farda também não redime quem a usa, nem transforma as almas ruins em boas. 
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Para comprovar isso, basta recordar o recente período de regime militar, e todas suas roubalheiras, concentração de renda, privilégios, enriquecimento ilícito, mortalidade, torturas e outras ações que não dá mais para esconder. 
Não é que apenas devemos lutar e gritar que TORTURA NUNCA MAIS. 
Precisamos de ser menos ignorantes ou menos iludidos para gritarmos com todas as nossas forças: MILITARES NUNCA MAIS.
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Pelo bem do Brasil. E dos brasileiros como um todo. E não de alguns brasileiros ricos e seus abnegados bajuladores.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Cardim de Carvalho e os pós keynesianos; os juros e a reação do mercado e Polícia - para quem precisa de polícia

Comentei rapidamente no facebook a notícia da morte, em Portugal, do professor Fernando Cardim de Carvalho, professor da UFRJ, participante do grupo de Estudos da Moeda do Instituto de Economia daquela instituição acadêmica e coordenador de um dos livros mais adotados de Economia Monetária e Financeira dos cursos de Economia Monetária em nossas escolas.
Pós-Keynesiano, considerado como um heterodoxo em nosso país, o que o coloca em linha de choque com o pensamento novo-clássico dominante em nossas instituições, a divulgação de seu falecimento em Portugal, na quarta feira da semana passada mereceu uma notícia que considerei algo acanhada na Folha de São Paulo. Até mesmo por sua linha contrária ao pensamento hegemônico que domina mentes e corações de nossa academia, neoliberal e de seus pilares, os economistas que se curvam em orações e preces ao deus mercado.
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Na nota da Folha, curiosamente há uma referência ao fato de que ele achava importante haver aqui no país, um espaço maior para discutir-se uma abordagem mais heterodoxa, o que era uma vantagem em relação aos demais centros de estudo.
Pois bem, como aconteceu em outras ocasiões com outros autores e economistas de viés mais crítico, parece que tal conquista não era tão robusta, a julgar pelo tratamento dispensado a sua perda.
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Entende-se, Cardim de Carvalho ajudou a divulgar em nosso país, passagens de quem, como Keynes, dizia ser no mínimo estranho que em um mundo em que a moeda estava presente em todas as transações, a moeda fosse ignorada, junto a seus possíveis efeitos, na análise da vida econômica.
Por outro lado, ajudou a difundir Minsky e sua importante contribuição para a justificativa da presença do 'Big Government', para resolver a instabilidade que é algo inerente ao sistema capitalista., como está proposto em Estabilizando uma Economia Instável.
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A Fernando Cardim de Carvalho, meu agradecimento, pelo pouco que pude aprender estudando seus textos e livros.
E que descanse em paz.
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Juros e Comportamento do Dólar

Justo na ocasião em que o dólar dá sinais de que está rompendo limites previstos, em razão de motivos de natureza alheias a nossa vontade, o COPOM anuncia, também na quarta feira passada, a manutenção da taxa de juros básica da nossa economia, a SELIC.
A manutenção que contraria e, como é óbvio, deve ter imposto perdas aos analistas do mercado, que já contavam com mais uma redução da taxa básica de juros, foi motivo de crítica de toda a comunidade financeira.
Como se o fato de a Autoridade Monetária não ter obedecido ao seu patrão natural - o mercado financeiro, não o povo - fosse um absurdo inominável.
Tal comportamento, algo meio histérico, chegou ao ponto de criticar o presidente do Banco Central que preside o Comitê da Política Monetária, como se ele estivesse vendo e evitando fantasmas debaixo de sua cama.
E fez-me lembrar de outra ocasião - agosto de 2011, quando o presidente do Banco Central, na oportunidade Tombini, em regresso de encontro internacional sob os auspícios do FMI, foi convencido de que a situação de crise internacional, de recessão, alcançaria níveis muito elevados, o que demandava a adoção de medidas imediatas.
Ao chegar ao Brasil, na reunião do COPOM, a provável divulgação dos temores dos analistas internacionais, levou o COPOM a providenciar a imediata queda das taxas de juros, de forma a se antecipar a possível depressão no horizonte.
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Na ocasião, também Tombini foi vítima de críticas pesadas dos analistas que diziam que ele tinha perdido sua autonomia e a do órgão que dirigia e que seguia as ordens da presidenta Dilma, em sua desesperada tentativa de manter os níveis de crescimento do governo que lhe antecedeu: o de seu criador, Lula.
A história da obediência do BC e do COPOM, chegou inclusive a esquecer o fato de que o Comitê é composto de todos os membros da Diretoria Colegiada do Banco, com a presença de membros vindos do mercado e de linhas diferentes de formação e pensamento.
Nas críticas mais ácidas, o nome pelo qual o presidente do Banco Central era tratado era o de Pombini, em uma referência ao fato de que o que deveria ser sempre um "falcão" ("hawk") ter virado um pombo...
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Agora o mesmo acontece com o tão homenageado e cantado em verso e prosa, Ilan, o homem do mercado.
Acusado de estar dando ao problema, mais uma vez de origem externa, uma importância que é muito maior que sua verdadeira dimensão.
Afinal, muito da explosão do dólar nos principais mercados de câmbio, provocando a desvalorização de grande parte das moedas das moedas das economias mais fortes, inclusive a brasileira, deve-se a dois fatos principais: a política monetária americana, que sinaliza uma inflexão maior, para a elevação das taxas de juros, já que suas autoridades já se preocupam com a possibilidade de uma elevação da inflação, em razão dos níveis de crescimento da produção e a redução da taxa de desemprego estar indicando uma aproximação de uma situação de pleno emprego. A segunda, o problema da crise no Oriente Médio e nos países árabes, produtores de petróleo, o que vem levando o barril da "commodity" a alcançar níveis recordes.
Importante lembrar que até mesmo a crise naquela região do mundo tem muito a ver com a política ou as medidas de Trump, em apoio ao Estado de Israel, como a transferência da embaixada americana para Jerusalém, a saída do acordo nuclear com o Irã.
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Bem, Trump deve isso aos seus eleitores, certamente. O que o leva a adotar medidas provocativas, que ao invés de solucionar o conflito, apenas atiça ainda mais o fogo que arde, em terreno tão cheio de material combustível.
Assim, ao invés de promover a paz; exigir a devolução das terras ocupadas por Israel, ou a paralisação e destruição de todos os assentamentos irregulares; em lugar de usar de todo o peso e prestígio e força de sua nação, para finalmente dar início à formação do Estado palestino, o que ele faz é sinalizar àquele país agressor, sua concordância com a política de tolerância com atos de morte contra o povo árabe.
Ou seja, dá aval a uma política que, de há muito deixou de ser de defesa da sobrevivência israelense, para se tornar quase um genocídio, logo por quem deveria ter se tornado, por tudo que passou e sofreu de horrores, o povo que mais lutaria contra tal comportamento.
Enfim, em Israel, na região ocupada, na faixa de Gaza, parece que matar árabes a cada dia, está se tornando um esporte. Sob as mais diversas alegações, incapazes de justificarem a barbárie promovida.
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Mas no Brasil, a situação é de inflação abaixo da meta. Economia incapaz de reagir, exceto pela contribuição sempre positiva e recorde, proveniente da agroindústria, o que assegura uma taxa de crescimento do PIB de não menos de 1%, não mais que uns 2%, isso se a proximidade das eleições e seu ambiente de incertezas não reduzir ainda mais as previsões.
Por isso, e contando com reservas de mais de 375 bilhões de dólares, o país não deveria estar tão temeroso a possíveis explosões do preço do dólar, ainda que tal fato pudesse servir para elevar alguns pontos percentuais em nossa inflação.
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Afinal, não há como esquecer que se nossa indústria não reage, como não vem reagindo, deve muito desse comportamento à doença holandesa, das taxas de juros elevadíssimas ainda da época de Meirelles no Banco Central do governo Lula, que provocou a perda de competitividade de vários setores nacionais, incapazes de competirem com preços internacionais mais baixos.
Agora, com setores das cadeias produtivas com maior grau de participação de conteúdo importado, a alta dos juros poderia trazer algum ressalto, mesmo que pequeno, na inflação.
Mas não é apenas isso, em minha opinião, que move o Banco Central, já que a inflação subir um pouco até parece ser desejo da Autoridade Monetária, já que encontra-se abaixo do limite inferior da faixa de tolerância do regime de metas.
No fundo a questão é ainda manter os influxos de capitais internacionais, evitando uma fuga para os Estados Unidos, em momento que o dólar em alta, limita o ganho cambial nos donos dos grandes capitais internacionais.
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Ou seja: mesmo que as apostas feitas pelo mercado financeiro nacional e seus analistas fossem desastrosas, com a manutenção dos juros, a verdadeira intenção das autoridades é sustentar a entrada dos dólares ou sua permanência, para evitar que uma fuga, em momento de sua valorização representasse perdas no chamado risco cambial para os grandes interesses financeiros internacionais.
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Mas Ilan experimenta agora, a mesma ira de Tombini, e se quiser pode extrair lições desses analistas e consultores de mercado, fartos em elogios, especialmente se as políticas adotadas asseguram os ganhos de suas operações.
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Mais novidades das atrocidades do período militar

Divulga-se hoje no Bom dia Brasil, da Globo, documento da CIA, indicando que desde o seu início o governo da ditadura militar sanguinária do Brasil sabia da verdadeira história do atentado ao Riocentro em 1981.
O que era um segredo de Polichinelo, já que todos sabiam ou sempre souberam que a bomba que explodiu no colo do sargento era mais uma das atitudes desesperadas dos setores militares, desejosos de criarem tumulto e impedirem o processo de redemocratização em curso.
Embora ainda tenha inocentes ou mal intencionados que acreditem que os militares não seriam capazes disso, já que são tão bonzinhos...
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Entre alguns que questionam porque tais notícias só surgem agora, quando o medíocre ex-capitão bolsonaro está na liderança da disputa eleitoral, desde que o impeachment antecipado de Lula parece decretado; e outros que acreditam que tudo não passa de armação ou farsa "fake news" patrocinado pela esquerda, vemos ganhar corpo a tese de que policial bom é o que reage e mata bandidos.
Afinal, como o afirmou o governador de São Paulo, uma agressão à farda é uma agressão equivalente à agressão ao próprio policial em sua integridade.
Com isso, parece-me está dada a ordem para que, ao estilo de James Bond, o 007 famoso de Ian Fleming, também nossos valorosos policiais militares adquiriram o direito de matar...
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Que os policias à paisana possam estar armados, uma exigência de sua própria função e sua segurança, ninguém há de negar. Mas que ao começarem a agir, e reagir, chegando até a matar bandidos, e serem premiados por tal comportamento, o que temo é que a corrente que demanda a liberdade de andar armado para sua segurança pessoal ganhe força e adeptos.
Afinal, porque o policial, mesmo em trajes e agindo como civil pode???
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O meu temor é que, tal reforço para a campanha de fim da lei do desarmamento, possa fazer de nosso pais, e nossas escolas o campo de extermínio que as escolas americanas vêm se tornando.
Enfim... há sempre gente que não está nem aí para essas tragédias tipicamente americanas...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Matança dos militares e novos castigos indicados por Bolsonaro para aplicação nos filhos desobedientes

Segundo domingo, 13 de maio. Para o comércio e a mídia, ambos desesperados com a reação arrastada e tímida da economia brasileira, o Dia das Mães. A segunda data mais festejada e a vice-líder de vendas, situada atrás apenas do Natal. 
O que é, no mínimo, curioso, em se tratando da homenagem a que se dedica: afinal, embora batida a afirmação, o dia da mãe é todo dia. 
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Depois de saído do útero para o mundo exterior, o filho invade o cérebro, já dominado de há muito tempo, o coração da mãe, nos ensina a vida. 
E é assim com todas as mães, mesmo aquelas que, dominadas pelo desespero e o medo da incapacidade de ser mãe, busca a felicidade do filho, pela negação de seu direito a passar anos a fio de sofrimento, penúria, humilhações. Ou seja, de não vida. 
Mas essas mães são, felizmente, exceção. 
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Por acaso, quis o destino que se comemorasse também nesse domingo, a abolição da escravatura no país. A data da assinatura da lei Áurea, figurativamente a mãe da liberdade de todos os negros do país. 
Liberdade dada, sempre diferente da liberdade conquistada, especialmente nos limites de sua concessão. No caso dos negros do país, em minha opinião, uma liberdade para se tornar mercadoria, embora uma mercadoria de segunda qualidade, dado seu pouco preparo (qualificação) e a ausência de preocupação de sua valorização sob qualquer forma que fosse capaz de aproximar a qualidade dessa mercadoria, o trabalho, daquela de propriedade dos antigos homens livres do país. 
***
Ao negro, sempre coube o trabalho mais vinculado apenas ao aproveitamento da força física, o trabalho em atividades consideradas menos dignas, de remunerações menos capazes de permitir ao menos uma condição de vida menos degradada. 
Libertos, saídos dos empregos onde tinham assegurado, ainda que em condições precárias, ao menos um teto para si e sua família. Tendo sigo treinados para trabalhar (um sacrifício) apenas sob o estalar da chibata e a ameaça de castigos, tendo percebido que o cuidado com máquinas e ferramentas era apenas a forma de manter sob bom estado o instrumento de sua opressão, os negros não tinham a necessária disciplina para o exercício do trabalho assalariado, em que sua remuneração representava antes de mais nada um custo para o seu empregador. 
A consequência: a tentativa de rebaixamento do valor pago, comercializado em condições sempre desfavoráveis aos negros, já prejudicados por, em uma tacada só, provocarem uma grande pressão no mercado de trabalho, com o aumento da oferta de uma tacada só. 
***
Criada e homenageada como a mãe da liberdade dos negros, a Lei Áurea foi menos mãe, muito mais madrasta daquelas dos contos de fada, cada vez mais distantes das chamadas madrastas das modernas famílias, cada vez mais comuns em nossos dias. 
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Mas, volto à data festiva do dia das mães, apenas para poder homenagear algumas mães que já não se encontram entre nosso convívio, como a estilista Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel, morto pelas forças da repressão militar. 
Embora com riscos para sua própria sobrevivência, a estilista, amparada por seu prestígio e pelo fato de ter sido casada com um cidadão  americano,  fez tudo que lhe estava ao alcance para ter o direito de reaver o corpo de seu filho. 
Em uma dessas tentativas de mãe desesperada, procurou o general Geisel, aquele que não gostava do Chico Buarque, apesar de sua filha gostar, e que acabava de ser indicado e assumir o posto de novo presidente ditador do Brasil. 
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A título de curiosidade e para não deixar passar batido, conta a história que o nome indicado para o cargo de presidente-ditador teria sido o do general Orlando Geisel, poderoso ministro do Exército do governo Médici que, por problemas de saúde tramou para que seu irmão, Ernesto fosse o eleito. 
Eleito Ernesto, a verve cômica do povo brasileiro, criou imediatamente a versão da história que circulava em círculos restritos e sob cochichos. 
Pela versão jocosa, listaram os principais generais de exército e pediram a um computador que selecionasse aqueles mais inteligentes e capazes. Da lista gerada, pediram que computador indicasse o mais honesto. Ao que o computador depois de um tempo longo de análises cuspiu a solução afinal adotada. Dizia o bilhete impresso: não tem honesto. Não serve Ernesto?
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Conto a anedota, não apenas por motivo de recordações, mas para deixar claro que, mais que a questão da tortura e barbárie, a visão das autoridades militares, e de seu governo era, ao contrário do que hoje muitos acreditam ter sido o caso, de total bagunça, total desmando, falta de autoridade até, além de muita corrupção e roubalheira. 
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Nas palavras de Elio Gaspari, em sua coluna de ontem, "para as vivandeiras e napoleões de hospício de hoje, o documento da CIA ensina que na ditadura praticaram-se crimes, e aquilo que pretendia ser ordem era uma enorme bagunça." 
Para reforçar outro argumento utilizado em meu texto, também do mesmo colunista, "o general (Geisel) sabia que havia uma matança, autorizou que continuasse e os americanos acharam que ele a controlaria". Ledo engano. 
De onde se conclui que nem autoridade vigorava, como se acredita, naquele período. 
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Para deixar bem claros minha posição e meu pensamento; onde a disciplina e a hierarquia contam mais que a liberdade e a capacidade de criticar, sugerir e escolher, aí é que a sociedade já perdeu sua característica de soberania e de dignidade. Nesses casos, está aberto o espaço para que todo o tipo de barbaridade possa ocorrer, sem que seja dado o direito a ninguém de se opor a exercer seu mais elementar e fundamental direito: o de ter uma vida digna e produtiva. 
Ao contrário do que pensam os que se iludem com o poder divulgado pelos militares, que na verdade é apenas a renúncia que cada um desses cidadãos, de boa fé, faz dos seus desejos, das ações necessárias e da vontade de alcançá-los, sempre trabalhosas e sempre enfrentando a oposição de outros que têm visão distinta do que deveria ser a sociedade. Em síntese, são pessoas que se acovardam das lutas, discussões e dos argumentos para convencer e aceitar que a sociedade seja uma construção coletiva. Onde todos têm direito a opinar e sugerir o que desejam. E o funcionamento das coisas. 
Razão da noção de que a democracia é uma grande bagunça. 
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Como se vê, não maior que a bagunça e oportunidades de atitudes desonestas das autoridades hierarquizadas, militarizadas, e que usam do poder e da força para manterem essa ideia falsa. 
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Dia das mães. A descoberta dos documentos da CIA e sua difusão para o grande público. a presença de um ex-militar como bolsonaro na corrida eleitoral, ocupando o primeiro lugar nas pesquisas sem a inclusão do nome de Lula, a vinda do candidato militar a Belo Horizonte e suas frases, são todos eventos que guardam uma relação em especial. Até pelas declarações de bolsonaro. 
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Em sua passagem por Belo Horizonte, o ex-militar, cuja folha no exército é cheia de censuras e punições, declarou que, tal como o PT e Dilma teria usado o governo para dar cargos a vários de seus companheiros de subversão, também ele, se eleito, iria privilegiar seus ex-colegas de farda no preenchimento dos postos do ministério. 
Que militares ocupem cargos no ministério, não há qualquer originalidade, tantos foram os ministérios que ocuparam sem qualquer êxito, no período da ditadura militar. 
Logo, a sua indicação de que terá 15 militares, no mínimo em sua equipe, apenas serve para deixar claro que teremos a volta dos militares ao poder, o que somado ao fato de terem as armas a sua disposição, nos aproxima cada vez mais de um golpe autoritário em potencial. Com nova longa noite de horrores, já que até nesse quesito, entre um Castelo ou mesmo um Geisel e um bolsonaro, esse último nem mesmo tem qualquer predicado daqueles assassinos anteriores. Com  a possibilidade de, ao fim, ele mesmo se tornar também um criminoso do tipo. 
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A segunda frase, confesso que levanta várias dúvidas em meu espírito. Afinal ao afirmar que todo pai já deu palmada no bum-bum do filho e depois, certamente, se arrependeu, o que esse bossal nato quis dizer: que as mães cuja data o comércio comemorava, deviam deixar de dar palmadas no bum-bum dos filhos e passar a torturá-los com pau de arara e choques elétricos? Que deveriam matar os meninos mais recalcitrantes, jogando-os de aviões na Baía da Guanabara?
Que deveriam matá-los e esconder o corpo em vala comum, impossibilitando-os de serem identificados?
Ou que as mães deveriam consultar o general Figueiredo ou outro qualquer que estivesse vivo, para que a punição aos filhos fosse autorizada devidamente?
***
Então, pais e mães já perceberam que a ausência tão reclamada de limites na educação dos filhos pode sim, ser revertida, pelo enquadramento dos pequenos por tortura, ou por mera finalização ou matança dos meninos. 
***
Para qualquer pai, ou mãe, a visão que se apresenta é a de que, há certo arrependimento na tomada desse tipo de decisões de castigo, mas... esse é o preço do combate à desordem e o valor da disciplina. 
Para que no futuro, as famílias reduzidas ao casal possam em paz comemorar a ordem e o progresso. 
***
bossal nato tem tudo a ver, com o dia das mães. Ainda mais se lembrando que, por culpa de outra coincidência, a data esse ano coincide com a de 13 de maio, onde na Cova de Iria, a Igreja católica comemora a aparição de Nossa Senhora de Fátima para os irmãos e primos portugueses. 
Como que a nos indicar que, com a perspectiva de eleição de um ex-militar, capaz de sugerir os novos castigos acima indicados, a solução mesmo é deixar o país e ir aparecer em Portugal. 
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Valha-nos Deus. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A decisão do foro no STF: eu só queria entender. Lúcio Vieira Lima, o santo vira réu. E desabamento moral, sobre como pais formam as opiniões dos filhos

Uma semana após decidir por maioria a restrição do foro privilegiado para os detentores de mandato eletivo para o Senado ou para a Câmara, o Supremo Tribunal Federal começa a esvaziar suas gavetas, remetendo para as instâncias inferiores da Justiça os inquéritos relativos a atos passíveis de configurarem crimes, de autoria dos membros do Poder Legislativo, em períodos e por motivação alheias ao mandato e à representação popular.
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Tal decisão, de caráter mais seletivo e alcance muito mais limitado que aquele desejado pela sociedade em geral, cujo objetivo é o fim do foro privilegiado para todos os portadores de cargos e para membros de todos os poderes da República, exceto talvez os presidentes dos três Poderes, é uma tentativa de dar maior celeridade aos processos, contribuindo para reduzir a impunidade no país. 
Ressalte-se:  impunidade que não tem absolutamente nenhuma relação com a maioria dos crimes mais comuns ocorridos em nosso país, em que a maioria de seus autores encontram-se já punidos. Alguns já apenados, inclusive com a pena proibida no Brasil legal, da pena de morte - por vingança. Outros já despejados, e esquecidos nas nossas celas, muitas vezes sem nem mesmo um processo formal instaurado.
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Com a decisão, inquéritos e processos têm sido remetidos para os tribunais inferiores, como a imprensa tem noticiado até com alarde, no caso, por exemplo, de políticos como o senador mineiroca aecim, por suposto crime cometido antes de assumir o mandato no Senado. Mas não apenas ele.
De meu ponto de vista, tais decisões do Supremo são apenas uma forma de reconhecimento da falência de nosso sistema judiciário, o reconhecimento da incapacidade de nosso sistema jurídico cumprir o papel que dele se espera: arbitrar os problemas provenientes do convívio social, aplicando as leis em tempo hábil e de forma não seletiva. 
Afinal, quando decisões em causas as mais triviais podem levar a anos de tramitação, entre idas e vindas, passeando por vários tipos de tribunais em várias instâncias, como disse a nossa Procuradora Geral, a Justiça não apenas tarda, mas também falha. 
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E não há quem não conheça ou seja parte ou tenha sido parte em alguma espécie de ação que já tenha durado anos a fio. Afinal, só para citar alguns exemplos, uma rápida busca pelo Google nos ensina que a interposição de um mero Recurso de Revista, em fase já de execução de sentença, demanda um prazo médio de dois anos. Em casos que envolvem órgãos ou a administração pública, onde há o dever de recorrer de ofício contra sentenças desfavoráveis, os processos costumam levar mais de  10 anos. 
É esse, por exemplo, o caso de uma causa instaurada pelo Sindicato que representa os funcionários do Banco Central do Brasil, que se arrasta há mais de 20 anos na Justiça, por seus vários tribunais. 
Trata-se da causa dos 28,86% de aumento que o presidente Itamar Franco concedeu aos militares em 1993. Como a Constituição proíbe a distinção entre aumentos concedidos ao pessoal militar e civil, os servidores de vários órgãos entraram - e ganharam - ao longo do tempo, o direito de receber os valores que lhe foram negados. 
Todos ganharam e já receberam. Exceto os funcionários do Banco Central. 
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Mas, o que esperar de uma corte Suprema, em que um membro pede vistas de um processo e assenta-se sobre o mesmo, por 4, 5 anos, sem tomar qualquer decisão, sem dar qualquer encaminhamento em prejuízo flagrante para os interessados no tema. Exemplo disso é o Ministro Fux, e seus mais de 3 anos de vista para decidir se é válido ou não o pagamento do auxílio moradia dos magistrados, procuradores, etc. 
Enquanto está no limbo, o pagamento continua sendo feito. 
O que permite desenvolver a ideia de que o tal processo irá se movimentar e voltar à pauta apenas se o momento vivido pelo país, politicamente, socialmente, for favorável à ideia de que o ministro, ao invés de árbitro, era advogado ou defensor. 
Isso para pegar leve, e não levantar suspeitas de outros interesse$$$, em movimentar ou não o processo. 
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Também estranho é a decisão do fim do foro, apenas para membros do Poder Legislativo, como se tal medida fosse uma retaliação a tais políticos, ou uma ameaça velada, contra as ameaças de colocar em votação legislação visando acabar com privilégios dos magistrados, ou mesmo da forma de escolha de membros dos tribunais superiores, ou das punições aos juízes, ou ainda do abuso de autoridade!!!
Caso que, no Brasil pode mesmo estar subjacente na medida.
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Apenas, em minha ignorância jurídica, não consegui entender, razão da minha pergunta: em sendo julgado de forma mais célere, em tempo mais reduzido e oportuno, o político que for considerado culpado e for condenado não terá o direito de ... recorrer? Em tal caso, não poderá em alguns bons 5 anos, recorrer até ao próprio Supremo?
E pretende-se que o processo que já estivera na Corte maior, desceu para instâncias de menor alçada, demorou para ser julgado, e retornou à Corte maior para ter finalmente a última palavra, passará a ser mais rápido em sua tramitação?????
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Bem, como diria o macaco do programa antigo do Jô Soares: eu só queria entender...
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Geddel e seu irmãozinho, o puro Lúcio

Nos mesmos telejornais e órgãos da mídia, somos informados da aceitação da denúncia contra a família Vieira Lima, da Bahia: mãe, o deputado Lúcio e o "anão" presente em todas, Geddel. 
Os donos do apartamento que servia de cofre forte para guarda da bagatela de 52 milhões de reais, em dinheiro vivo. Sem origem declarada ou comprovada de fonte lícita. 
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De Geddel, o amigão,  o ministro mais importante do primeiro momento de governo do golpe e de seu principal beneficiário, o usurpador temer, há pouco a falar. Seu caráter já havia ficado bastante claro desde o caso denominado pela imprensa de Caso dos anões do Orçamento. 
Apenas ficou mais evidente e saiu das brumas da memória, quando Caliero mostrou as pressões que o baiano fazia para alterar um parecer de órgão da Cultura, para poder realizar obras que beneficiariam aos seus interesses privados. 
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Retornou depois, com a cena pungente do choro ao depor, e mais ainda, com as gravações do dinheiro em malas e sacos. Cena que, devo admitir, quem chorou foi eu. E a ampla maioria da população brasileira.
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No caso, meu maior interesse é em relação ao ingênuo, puro e doce Lúcio, que tanto criticou Dilma e tanto atacou a presidenta legítima do país, deixando no ar, acusações de má administração de recursos públicos. Até com insinuações de desvios de recursos para interesses privados...
Como não há um dia que não vá ser sucedido por outro, pode-se afirmar que nada como um dia depois do outro. O que é chavão e por isso, peço desculpas aos que têm a paciência de lerem esse pitaco. 
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Desabamento moral

Mas, para minha opinião pessoal, o assunto que mais merece atenção é a coluna, intitulada com o título da chamada acima, publicada na Folha de São Paulo, de ontem, terça 8 de maio, de Vera Iaconelli. 
O texto me pareceu tão importante, que minha intenção seria a de publicá-lo na íntegra. 
Mas vamos resumi-lo: a colunista, psicóloga, visa abordar a função dos pais de criar os filhos e lhes permitir uma primeira interpretação do mundo. Processo que, ao longo do tempo, irá sendo moldado pelo grupo familiar mais amplo, inclusive gerações já ausentes por meio de suas histórias, pela escola em todos os seus níveis. 
Tudo isso, para mostrar que somos nós, os pais, que ajudamos e nomeamos o mundo e a realidade como ela se apresenta aos nossos filhos. E pergunta a autora: que mundo estamos ajudando-os a nomear hoje?
Os boia-frias urbanos, homens puxando carroças como animais, em meio ao trânsito; indigentes usando as fontes públicas e chafarizes como banheiros públicos, chuveiros, privadas? Barracas de camping para abrigo de sem tetos? Prédios ocupados por famílias desesperadas e sem condições de arranjarem sequer um trabalho/
O que mostramos a nossos filhos? Que os errados eram os invasores de prédios abandonados, em geral prédios públicos, sem qualquer condição de ocupação e moradia? 
Que os culpados pelo incêndio e morte são os que são as vítimas do incêndio e implosão do prédio?
E quantos não têm, no íntimo comungado de tais ideias que transferem nossa responsabilidade social e até nossa omissão para as vítimas?
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Mas choca mais não são os dados que a coluna apresenta: segundo o IBGE, a região metropolitana da região mais rica do país tem 700 mil pessoas vivendo em pobreza extrema. 
O que choca é vê-la colocar a nu a grande verdade: "Elas ... (essas pessoas em extrema pobreza) ... não têm condições de se inserir no mercado de trabalho, ainda que houvesse oferta de empregos - que não há. Quem contrataria como faxineira uma mulher maltrapilha, desdentada e faminta?
Inegável a potência das versões como apresentamos a nossa realidade a nossos filhos é que  revela o tipo de pais, cidadãos que somos e que iremos às urnas no final do ano 
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Marielle

Enquanto isso, Marielle continua um retrato e uma dúvida: porque tanto erro nas investigações? Porque queriam matá-la e não querem decifrar o crime e sua conotação política? E o envolvimento dos próprios poderes públicos, milícias e polícias????