quarta-feira, 4 de março de 2026

Pitacos em um mundo em convulsão

link: https://youtu.be/3j47MVW6o9A Os (poucos) seguidores desses pitacos perceberam, aliviados, a falta de postagem de pitacos no mês de fevereiro. Não por falta de assuntos ou oportunidades. Muito antes, pelo contrário! Tantas, tão velozes e significativas as situações que despertaram minha vontade de “também querer dar meus pitacos” que confesso ter me ficado perdido frente à sucessão de fatos novos, atropelando eventos que não tiveram tempo de serem observados e avaliados. *** Foi assim com a decisão do COPOM (reunião de final de janeiro), de manter a Selic em 15% anuais, em obediência aos analistas do mercado consultados, em razão das incertezas do ambiente externo e das condições financeiras globais. Isso, apesar de reconhecer o recuo da inflação e do dólar; da desaceleração do nível de atividade econômica e da geração de novos empregos formais. Para atenuar as esperadas e corretas críticas dos agentes da economia real, que produzem, trabalham, vendem e pagam impostos, diferente dos rentistas do mercado financeiro, a Ata do COPOM (de fevereiro) anunciou que, confirmadas as expectativas para o ambiente econômico, começaria o processo de redução, lenta e gradual dos juros no país, sem perder de vista a convergência da inflação real para meta inatingível de 3%. *** Aí veio o carnaval, o desfile da Sapucaí inflando o ego de todos os homenageados, inclusive o de Lula, cuja interferência na opção e no formato de apresentação do resumo da involução recente da política em nosso país só se sustenta para aquela fração da oposição que, acostumada a motociatas, passeios de jet-ski e intensa atividade nas redes sociais desconhece o mundo real, do trabalho. E vieram o recorde de feminicídios, os estupros coletivos, as acusações de assédio por parte das mais altas autoridades do Judiciário, quando não de interesses cruzados rompendo a imparcialidade necessária, ocorrências incapazes de serem lavadas/levadas pelas chuvas torrenciais que provocaram mortes e destruição em cidades da região sudeste, em especial na Zona da Mata mineira, vitimando, principalmente, a população socialmente menos privilegiada. *** Por fim, o agente laranja, fascista, ególatra, falastrão, que gosta de agir como se fosse o dono do mundo que, acossado pelos interesses de autopreservação dos políticos no comando do governo de Israel, dá início a mais uma empreitada beligerante, agora no Oriente Médio, em busca não de armas químicas, mas de armas nucleares, até uma possível bomba. Líder internacional de triste e patética figura, que opta por tirar da inércia seus eventuais inimigos externos, seja para poder sair dos holofotes e manchetes que o vinculam ao caso do predador e abusador sexual Epstein; seja para reverter a sua previsível derrota política nas eleições de meio de mandato, dadas as consequências da política econômica errática que adota, e penalizam o povo americano. *** No Brasil, março inicia com a notícia do crescimento menor do PIB comparados aos anos anteriores, de apenas 2,3%, puxado pela produção e exportações do agro. Sim, o resultado mostra a eficácia do BC para, sob a desculpa de combater a inflação, trabalhar para prejudicar o processo de desenvolvimento econômico e social da economia brasileira; implodir os projetos e planos econômicos do governo; fazer os rentistas ganharem lucros recordes sem arregaçar as mangas e por mãos à obra; atrair fluxos de dólar e provocar a valorização das receitas de nossos produtores do agronegócio e de commodities, cuja receita em real se expande; provocar o sucateamento da nossa indústria, e fazer a economia evoluir para o modelo primário exportador de 100 anos atrás. *** Na outra ponta, o desemprego formal para de ser reduzido; o consumo familiar cai, com a menor demanda desestimulando investimentos privados; e o país cai para a posição de 11ª primeira maior economia do mundo. E analistas econômicos da mídia elegem e combatem a crise fiscal e os gastos sociais, como inimigos públicos nº 1 do país, forma de tirar o foco do principal item de gasto a explicar os déficits públicos: o pagamento de 1 trilhão de juros. *** A mesma mídia que elogia os gastos com planos safra, dedicados à agricultura de soja e milho, gado, frango e ovos, que financiam os grandes empresários do agro ou os gastos com pesquisa e inovação tecnológica que as empresas públicas executam e se espalham para as grandes empresas. Infelizmente, gastos que não atendem ao pequeno produtor agrícola, ao produtor familiar, responsável pela produção de gêneros alimentícios que saciam a fome do povo. Ou seja: para os ricos, tudo é possível e tolerado. *** Duas outras questões devem ainda ser tratadas, de forma rápida: A proposta de redução da jornada de trabalho de 6 x 1, considerada eleitoreira, e que, mais uma vez, coloca de mesmo lado e reúne, a grande imprensa e os grandes interesses econômicos - o agronegócio, a indústria, até do setor de serviços que tanto poderá se beneficiar –, permitindo mais horário para os trabalhadores se dedicarem à família, ao lazer, à educação, ao descanso. E há economistas que defendem o interesse dos mais poderosos, destacando o efeito prejudicial da medida em nosso país, dada a baixa produtividade de nossa mão de obra. Para eles, menores horas de trabalho provocariam queda acentuada da produção, da oferta e aumento de preços. Ignoram que um trabalhador mais feliz, mais tranquilo, mais respeitado, trabalha mais e melhor, com mais eficiência. Sequer aventam a possibilidade de aumento do número de contratações. *** Outros, para agradar aos patrões, sugerem que os empresários deixem de pagar a Contribuição à Previdência Social. Com isso, propõem romper o esquema de financiamento da Previdência em nosso país, criado a partir do sistema de solidariedade tripartite, onde empregados, patrões e governo contribuiriam em partes iguais. Curioso é que não falam o porquê de a mera redução do custo do empresário conseguir melhorar a produtividade do trabalhador. Melhora o lucro do patrão. Mas com a produção do país, parecem não se preocupar. *** O segundo ponto é o escândalo do Banco Master e seu proprietário, Daniel Vorcaro, que resultou em prejuízo de mais de 50 bilhões ao mercado, alimentado por crimes financeiros de gestão temerária e má gestão. Tratamos este assunto e do papel da fiscalização do Banco Central na live de 23 de fevereiro do programa de Cláudio Porto, Da Prática Política (https://www.youtube.com/live/lzppiWfvZkc?si=lfXB7ACHTxCc3HjQ). E tem gente bem intencionada que ainda defende a total autonomia do Banco Central, sua separação completa do governo, para permitir que sua direção e corpo funcional possam vir a se tornar meros prepostos do mercado financeiro, como a teia de maus feitos e de cumplicidade armada por Vorcaro permite imaginar. Daí, NÃO À PEC 65, e à privatização do BC. É isso.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Um mês de Agnotologia e de distopia: a criação do mundo da fantasia.

link: https://youtu.be/8tyAitqmt0Y Tive a oportunidade e o prazer de assistir, uma vez, uma palestra da professora Nayla Lopes da UFMG (palestra que recomendo e gostaria de contratar!), sobre o tema de sua tese de doutorado, a AGNOTOLOGIA. Ou o estudo da produção intencional da ignorância e das políticas de produção de ignorância. Acho que não há nada mais apropriado para o início deste ano de 2026 que a referência à produção e difusão propositada do desconhecimento, de forma a embaralhar a realidade, confundir e tornar normal qualquer absurdo ou barbaridade que se queira. E tirar proveito da criação dessa distopia. *** Porque é por meio das lentes da agnotologia (Dr. Robert Proctor, e ainda o livro 1984, de Orwell) que vejo o ano de 2026, já quase terminado seu primeiro mês. Afinal, bastou que fossem abertos os arquivos do pervertido Epstein, vindo a público fotos de Trump beijando e apalpando ninfetas de forma luxuriosa que, para desviar a atenção, o agente laranja praticou ato de guerra sem qualquer declaração formal anterior de guerra. (Em 1970, o filme Tora! Tora! Tora!, sobre o ataque japonês a Pearl Harbor, tratava a ausência deste comunicado como ato de traição! A 3 de janeiro, o agente laranja, de alta toxicidade, desrespeitando todo o direito internacional, invadiu, bombardeou e sequestrou o presidente (ditador) da Venezuela, Nicolás Maduro, levando-o para prisão e julgamento fictício, semelhante às armas químicas do Iraque de Sadam Hussein. *** Estima-se que mais de 150 civis morreram no ato de agressão americana, justificado como medida para libertar o povo venezuelano da ditadura de Maduro, mero pretexto para avançar sobre as riquezas minerais do país com maior reserva de petróleo do mundo. (Só para lembrar, regimes ditatoriais, autoritários e até chefiados por reconhecidos assassinos continuam tendo não só o apoio do agente laranja que, inclusive, recebe com tapete vermelho o assassino na Casa Branca). A curta duração do ato covarde, dada a ausência de reação das autoridades e forças militares da Venezuela, levou à necessidade da fabricação de outra crise fake, com a ameaça de controle e até invasão da Groenlândia, ilha sob o controle legal da Dinamarca. *** A firme reação das nações da OTAN levou o agente laranja a procurar criar outra situação problema, dando sequência à operação abafa, da conduta imoral de Trump; da alta da inflação americana, como consequência do disparate do tarifaço; e de carona nas ameaças de Israel e seu líder extremista Netanyahu, ao Irã. No caso israelense, o fictício cessar fogo em Gaza, exigia que Netanyahu continuasse alimentando conflitos fora do país, ameaçando o Irã, desviando a atenção da mídia internacional das acusações internas que pesam sobre ele, e da selvageria da matança indiscriminada contra crianças e civis, ainda presentes em Gaza. *** Mas Netanyahu é amigo e protegido de Trump que faz vistas grossas à ação de limpeza étnica que libera a faixa – rica – do solo de Gaza para que o agente laranja ali instale ressortes de um empreendimento imobiliário faraônico. O que levou Trump a propor a criação de um Conselho de Gestão de Gaza permanente, sem a presença “incômoda” de palestinos que o transformaria em presidente soberano e vitalício. Assim, para infelicidade do povo americano, que assiste aterrorizado à selvageria contra imigrantes e até de americanos, Trump parece procurar, tal como Hitler, expandir o espaço vital do território americano. *** No Brasil, além da apresentação de estatísticas que mostram crescimento da economia, redução do desemprego para nível recorde (ou situação de pleno emprego), expansão de políticas sociais exitosas, com mais de 1,5 milhão de pessoas saindo do Bolsa Família, em razão do aumento de renda, o que se vê são interpretações da grande imprensa da irresponsabilidade fiscal do governo, com projeções de estouro do indicador Dívida Pública em relação ao PIB. O indicador Dívida Bruta/ PIB sobe, mas a agnotologia leva os agentes do mercado financeiro a criticarem, com a mídia sempre lhes dando voz e espaço, as políticas públicas destinadas a reduzirem, minimamente, a desigualdade. E ainda criticam a fala do ministro Haddad, responsabilizando os juros pornográficos de 15% ao ano, de serem o principal responsável pelo maior item de gasto do governo, as despesas financeiras – fora do teto ou do arcabouço. *** Com juros elevados a ponto de tornarem o Brasil o país com segunda maior taxa de juros acima da inflação no mundo (mais de 10%), a economia mostra sinais de paralisia, andando de lado. Por esse motivo, e não necessariamente pelo mecanismo de transmissão dos juros, os preços sobem menos e assistimos a uma desinflação (inflação a níveis cada vez menores). O BC assinala e comemora a convergência para a meta absurda da inflação no horizonte relevante. E mantém a Selic e as ameaças de que poderá não iniciar o processo de redução das taxas, dada a incerteza no ambiente, para a qual pouco contribuímos. *** Pergunto-me, mais uma vez, se o BC é que decide o comportamento a ser adotado pelos agentes financeiros ou se é o Banco que obedece às determinações do mercado, que já precificava: ontem não teria alteração e até o fim do ano a Selic chega a pouco mais de 12%. Que o Banco deve explicações não há dúvida: do porquê manter a meta irreal de inflação de 3%; de porque deixou o caso do Banco Master, já suficientemente comentado no mercado assumir as proporções e valores que tomou; de porque o presidente anterior, Campos Neto, não agiu para liquidar um banco insolvente, ilíquido, que não cumpria o compulsório e com ativos falsos; porque o Banco se arvora e arbitrar o que é “good bank” ou a parte podre, sem punir, imediatamente ao gestor. É verdade, o escroque do Vorcaro tinha meia república na mão ou em sua contabilidade. Entre agentes do mercado e do Estado, criou uma blindagem que serve para criar várias justificativas. Todas de acordo com a agnotologia. *** Para escapar de dar as devidas explicações em relação ao comportamento das Igrejas no escândalo do desvio do dinheiro dos aposentados do INSS, Nikolas Ferreira, o deputado virtual, faz peregrinação e um fenômeno da natureza ajuda a distrair a atenção. Para não aparecer na condição de presidiário sem mais qualquer importância, o ex-presidente golpista, lança seu filho candidato à presidência. Ao menos o sobrenome continua na berlinda. E o chocolateiro rachadinha, da sua mansão de milhões em Brasília, procura dar sequência à atuação de sua familícia e dos sabujos que cercam seu pai, estes com apoio dos agentes financeiros do mercado e de toda a grande imprensa. O que sinaliza a direção perigosa que o andar de cima deseja para o Brasil e seu projeto de descarrilamento.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Última reunião do Copom em meio a continuidade dos golpes a nossa democracia

link: https://youtu.be/4lffaPTiUm4 Nesta quarta-feira, 10 de dezembro, realiza-se a última reunião do ano do Comitê de Política Monetária – COPOM, o colegiado composto pelos Diretores do Banco Central, que detêm a missão de fixar a taxa básica de juros da economia, a Selic. Frase que passa a falsa impressão de que os diretores do BC, 7 deles indicados por Lula, inclusive seu presidente, decidem a taxa básica de juros, que afeta o custo do capital e do crédito e, dessa forma, influenciam as decisões de investimento produtivo e consumo. Trágico engano. *** Na verdade, o Copom é apenas uma marionete, e age como ventríloquo dos interesses rentistas do mercado financeiro que decidiram, no início deste ano, que a Selic deveria ficar nos pornográficos 15% ao ano, mais de 10% de juros acima da inflação prevista pelos agentes do mercado financeiro. Como são poucos os negócios honestos com lucratividade acima de 10% (apesar de todo o trabalho e incertezas que caracterizam o ambiente econômico), o patamar é um convite para que os donos do capital apliquem seus recursos na riqueza fictícia dos títulos financeiros. E com isso a economia pare de produzir, crescer e gerar empregos. *** Verdade que a economia política permite a existência de escolas de pensamento e teorias que sustentam a surrada e mais que criticada ideia de que o único remédio para a inflação é a alta de juros, por sua capacidade de reduzir a demanda (investimentos mais consumo). Recomendam a paz dos cemitérios: a febre, sintoma de desajuste, é combatida com remédios que matam o organismo doente. E, nisso, não há nada de técnico. Há apenas política, e decisões de se favorecer a uma parcela mínima da população: o grupo que pode pagar por pareceres, consultorias e seminários e homenagens aos egos dos arautos de seus interesses especulativos. *** A mesma escola que critica a gastança e o endividamento irracional do governo, vendendo mentiras quanto à elevação do risco de calote e a capacidade de pagamento da dívida acumulada. Não dizem é que o governo é o responsável por emitir o dinheiro para pagar a tal dívida. O que faz o tal risco de crédito virar fumaça. Também não dizem que o efeito da emissão de dinheiro pelo governo, que não paga juros, ou a emissão de título da dívida pública é o mesmo, apenas que o título paga juros elevado, para a classe mais privilegiada, que pode financiar o governo. O que ajuda a entender a razão de a dívida crescente e juros nas alturas, ser um mecanismo perverso de concentração de renda e riqueza. *** Ao contrário, vendem a ideia ao emitir dinheiro, o governo gera inflação. Sem considerar que a grande maioria do dinheiro em circulação no país é o dinheiro criado pelas operações de empréstimos feitos pelos bancos. Que injetam dinheiro e depois cobram que o governo enxugue a liquidez, para o que os juros devem ser elevados. Não apenas a economia é política e as decisões têm lado. Nossa estrutura econômica injusta, desigual e iníqua ainda recebe a contribuição de um sistema tributário que isenta os mais ricos do pagamento de impostos, onerando os mais pobres e a atividade produtiva que lhe permite ter o emprego e a renda para sua sobrevivência. *** Esse conjunto de desigualdades, que coloca o Brasil em 5º lugar em concentração de renda no cenário mundial é que causa o desajuste que gera a luta distributiva expressa pela inflação. E ainda tem jornalistas e jornais (Folha), que criticam as ideias de o Estado ser o responsável pela criação de um bom ambiente de negócios, procurando reduzir as incertezas, ou seja, agindo como indutor do desenvolvimento. Como sempre aconteceu nas grandes nações que conseguiram superar o subdesenvolvimento. Que pregam a prática do livre mercado e da meritocracia, criticando os gastos sociais, enquanto fecham os olhos para os gastos tributários, com isenções e incentivos, sustentado por uma rede de amizades influentes nas estruturas corrompidas do poder. E, por fim, criticam as indicações de Lula para a diretoria do BC e a adoção de políticas ligadas ao rentismo, sem perceber as forças a que estão sujeitos, sob a influência da teoria da captura e do pote de ouro do lado de lá da porta giratória. *** Sob o domínio e a influência dos interesses econômicos mais poderosos, mesmo que de origem questionável ou desonesta, estamos longe e ficamos cada vez mais distantes de uma sociedade democrática, voltada para o atendimento dos interesses da maioria da sua população. O que alimenta um ambiente de frustração e desespero, que descamba para aventuras autoritárias, fascistas e onde as tentativas de golpe se acumulam, gerando golpes continuados. *** Golpe como o do presidente da Câmara e a votação da lei que reduz penas de todos os condenados pela tentativa frustrada de derrubada do Estado Democrático de Direito: um projeto de lei urdido, discutido, aprovado e ordenado de dentro da cadeia, para mostrar toda a fragilidade de nosso sistema prisional, pelo líder maior da organização criminosa que, infelizmente, infesta o país. E que mostra o poder da corrupção que invade e domina as instituições do país. Corrupção que culmina com a agressão covarde, dentro do plenário da Câmara, de deputados que não se dobram e insistem em honrar a representação popular de que foram investidos, com risco à própria vida e segurança, como o caso do deputado Glauber Braga e outros deputados a ele solidários, e os interesses republicanos que teimam em respeitar. É isso aí.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Paradoxos do Brasil, em meio à polarização de uma sociedade dominada pelo medo e pela insegurança e violência: institucional ou não

https://youtu.be/EbtiP4wgKtI A economia brasileira cresce; de carona nos transportes, o setor de serviços apresenta 8 meses de um crescimento vigoroso, qualquer que seja a base de comparação (setembro 25 sobre 2024, no acumulado no ano ou de 12 meses). O desemprego mantém-se estável no menor nível da série histórica e o rendimento médio mensal apresenta viés de alta. Enquanto isso, a inflação de 0,09% em outubro é a menor para o mês, em 27 anos, dado o recuo do preço administrado da energia elétrica (redução do nível da bandeira tarifária) e da baixa do preço, por razões climáticas, de alimentos importantes (arroz, leite longa vida). *** Não é a teimosia do Banco Central em manter a Selic em 15% ao ano, nem a fixação dos juros pornográficos de mais de 10% acima da inflação que tem domado a inflação, fenômeno que está longe de ser explicado pela pressão de excesso de demanda sobre nossa capacidade produtiva. Mas se os juros não são A EXPLICAÇÃO para o comportamento dos preços, em favor da população, poucos irão negar que são a causa da elevação do indicador Dívida Bruta/PIB, instrumento de terror, pressão e tortura feita pelos agentes do mercado financeiro, e da mídia em geral, e das críticas descabidas feitas a eventual gastança do governo ou desordem fiscal. *** Ou seja, se juros exorbitantes são incapazes de beneficiar a população levando os preços a caírem, asseguram a captura do Banco Central pelos interesses dos rentistas que vivem de juros – o mercado financeiro, seus agentes e instituições - que, desde o início do ano previam, ou ordenavam (?) que a Selic deveria estar a 15% no fim do ano. Dado o crescimento do endividamento referido, a despesa de pagamentos de juros aos detentores dos títulos públicos aumenta o total de gastos – a tal gastança. Ou seja, se os juros são incapazes de beneficiarem a maioria da população, não há dúvidas de que beneficiam a parcela mais rica da população que empresta ao governo. *** O que cria uma situação paradoxal: apesar de a economia, o país, as condições de vida da população apresentarem melhoras, a grande imprensa, unida à maioria dos membros do Congresso Nacional (cuja baixíssima qualidade ética e moral causa perplexidade jamais vista) apenas destacam e divulgam as críticas, narrativas ou mentiras que visam fragilizar o apoio da maior parte da população ao governo. Assim, omitem a melhoria das condições de vida, aproveitando da desinformação para a adoção de medidas voltadas ao interesse personalista, da política rasteira, eleitoreira, longe dos mais relevantes interesses nacionais. *** Por trás da polarização do país, é possível identificar, sob novas roupagens, o ressurgimento da surrada luta de classes, agora entre milionários e pobres; entre os rentistas do capitalismo financeiro e os setores capitalistas voltados à geração de riqueza real; entre os patrões e empregados, ou sob nova face, patrões e autônomos, explorados, cuja por meio da utilização de plataformas tecnológicas disfarçadas pela imagem falaciosa do empreendedorismo. Inclui-se nessa luta, aquela entre a população dos bairros mais nobres e privilegiados das cidades e as camadas penduradas nas comunidades, nas periferias, nas favelas – lugar de pobres, muitos deles pretos, sem educação, sem saberes, sem saúde e sem oportunidades. *** Nesses morros, abandonados há muito pelos equipamentos e agentes do aparelho de governo, a ausência do Estado cria um vácuo que abre espaço ao surgimento de facções, organizações criminosas, milícias. Afinal, é senso comum que não há espaço vago na âmbito da política: alguém vai ocupar o poder. Se vai usá-lo segundo regras estabelecidas, contratadas, de convivência, fruto do consenso e do respeito mínimo à dignidade de todos e de cada um ou, ao contrário, em benefício próprio, que acarreta a redução do outro a mera peça na engrenagem da exploração, onde vigoram regras pessoais, flexíveis e instáveis, conforme interesses circunstanciais, voltadas à submissão do outro e à anulação de sua dignidade e sua humanidade, é que vai fazer a distinção. *** Thomas Hobbes desde há muito falava da consequência do vazio do poder, da selvageria e barbárie: em que o homem é o lobo do homem. Nas favelas e morros abandonados, sempre surgirão aqueles que vão tentar se impor aos demais vizinhos, por sua força, barbárie e brutalidade, muitas vezes sanguinária. Elementos que exploram, torturam, abusam, matam, escorcham seus vizinhos amedrontados, em espiral sem fim. Pessoas que sabem que seu poder exige a manutenção da tensão, da ameaça, do medo e da violência por meio de execuções sumárias: dos desafetos, dos comparsas de lealdade duvidosa, ou dos recalcitrantes. *** Assim fazem um inferno da vida dos demais, e não é de se admirar que aqueles explorados passem a nutrir o sentimento de ódio, vingança, o que os leva a aplaudir e aprovar atitudes de barbárie idêntica, adotada contra seus algozes. Se a violência visando sua libertação é patrocinada pelo Estado, ainda melhor, já que creem que as regras garantidas pelo Estado, em tese de alcance e garantia impessoais são mais permanentes, menos instáveis e mais respeitadas. Infelizmente não sabem que, nessas situações, a utilização do aparato de segurança, policial-militar do Estado, não vai eliminar, exceto momentaneamente, seu pesadelo. E que, passado o primeiro momento de violência institucionalizada e aceita, o aparato do Estado não vai se estabelecer e sua presença se fazer frequente para assegurar sua segurança, até por força de contenção de gastos sociais, em visão fiscalista tosca. O que significa que, caídas no esquecimento, as operações policiais de desocupação de morros, apenas reproduzem o vácuo, em que outros, ainda piores, irão se instalar. *** E a questão central dessas reflexões ainda nem sequer foi tangenciada. Não cabe ao Estado matar, cabe punir. Não cabe ao Estado decidir sobre a vida ou morte de quem quer que seja. Não cabe ao Estado torturar, amedrontar. Não cabe, aos representantes eleitos pelo povo, decidir quem pode viver e quem deve ser eliminado de forma bárbara e sanguinária. Aos governantes não cabe matar, atitude típica, e reconhecida no Código Penal, dos assassinos.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

15 anos de pitacos, sem bailes de comemoração ou uma valsa envolvente

Completamos neste 7 de outubro, 15 anos do blog Também quero dar pitaco (link tambemquerodarpitaco.blogspot.com). Neste dia, ia começar recordando a apresentação feita na ocasião, em que dizia que achava que pudesse ter algum conteúdo a abordar, alguma coisa a dizer ou a escrever, de algum interesse. Afirmava: “No fim das contas, uma certeza eu tenho. Mesmo que não te acrescente nada, alguma coisa que eu postar vai te incomodar. E as dores mais incômodas nos fazem parar e refletir.” *** No texto que rascunhei tratando desse período, abordava a deterioração de nossa qualidade de vida, do apodrecimento de nossas relações sociais e humanas, do esgarçamento de nosso tecido social, acarretando o aumento da barbárie urbana, da violência e a banalização da vida, em especial de jovens adolescentes, pretos, pobres, moradores das periferias. Constatava a ampliação do descaso pela vida, pelo respeito e dignidade; a naturalização dos sinais de exclusão e invisibilidade social; o aumento de todo tipo de radicalismo, como o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância religiosa, exemplos de formas de negação da alteridade e não aceitação das diferenças. *** No cenário internacional, atentados, golpes, guerras frias e quentes, passaram a ocupar cada vez mais nossa atenção, sob as desculpas mais inescrupulosas e fajutas, como a existência de armas químicas ou nucleares, os narcoestados, o patrocínio de atos terroristas. Inertes, acompanhamos o ressurgimento de partidos e filosofias proscritas, ocupando espaços públicos e provocando o protagonismo de governos de inspiração fascista, nazista, autoritários. Sob um silêncio cúmplice e omissão criminosa, assistimos até mesmo ao genocídio, à aniquilação ou solução final de todo um povo, praticada por aqueles que, há pouco tempo, foram vítimas de tal infâmia. *** Em nossa sanha inconsequente e irresponsável, agredimos e destruímos o nosso meio ambiente, nossa casa, nossa terra, nosso planeta, nosso alimento e nossa salvação. Observar e refletir sobre tais mazelas não é, nem pode ser considerado, desespero ou ato de desestímulo. Ao contrário, deve servir como marco de tomada de consciência e ponto de partida para que retomemos nosso ímpeto e nossas lutas. Afinal, compete a cada um de nós lutar para preservar e manter vivo aquilo por que mais nos interessamos: a qualidade de nossa vida. *** Sempre sem deixar perder a fibra e disposição e, de forma cândida ou panglossiana, optando por ter em mente a lição de Gonzaguinha: viver e não ter a vergonha de ser feliz. Porque: “É a vida, é bonita e é bonita”.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O discutível impacto dos juros sobre preços de alimentos e mapa da fome e a falácia da austeridade

https://youtu.be/-ons166y51A. Atribuir à política monetária - de juros pornográficos – do Banco Central parte da responsabilidade, ainda que subsidiária, da redução da alta dos preços dos alimentos, em razão da criação de um ambiente de estabilidade de preços fruto de uma política monetária responsável, como o faz Paulo Gala em seu artigo “Inflação de Alimentos e mapa da fome: Impacto Social e o Papel do Banco Central”, publicado em 26 de setembro último em seu site, expressa muito mais que apenas boa vontade com o Banco Central e sua diretoria. Professor de Economia da FGV-SP, além de gestor de fundos e CEO de instituições do mercado financeiro, a abordagem do professor quanto ao papel do Banco e ao efeito da elevação da Selic na contenção da inflação entre 2021 e 2023, provocando a estabilidade de preços e reduzindo a alta de preços dos alimentos de 14% ao ano para menos de 3% em 2024 merece cautela. *** Afinal, defender a política esquizofrênica de juros praticada no Brasil, que interessa e beneficia apenas aos agentes do mercado financeiro, permite ao professor defender a sua manutenção futura, sob o argumento de risco de “nova aceleração dos preços de alimentos”, que deve ser monitorado com atenção redobrada. Embora se reconheça a existência de uma correlação negativa entre taxas de juros e níveis de preços, com preços e juros se movendo ao mesmo tempo, isso não assegura a existência de causalidade dos juros para os preços. Ou, a elevação dos juros não provoca, necessariamente, queda de preços, que podem responder a outras causas implícitas. O professor e seus colegas do mercado sabem disso. No entanto, o senso comum diz que “business is business”. *** Partindo da informação do peso relevante do gasto com alimentação no orçamento das famílias mais pobres (algo próximo a 47% da população ou cerca de 100 milhões de pessoas), o professor argumenta que mesmo variações reduzidas nestes preços podem ter consequências em seu poder de compra, sua percepção de bem estar e até na avaliação do governo e na confiança no chefe do Executivo, o que representa um risco para a manutenção da estabilidade política. Com base nesse raciocínio, o professor atribui um papel importante à inflação dos alimentos para a segurança alimentar da população, apontando à redução de preços dos alimentos entre 2022 e 2024, a explicação para a saída do país do mapa da fome, e a redução do número de pessoas em insegurança alimentar grave, de 33 milhões para 18 milhões de pessoas. *** Aqui a análise do professor avança em terreno movediço ou escorregadio, uma vez que atribui papel de relevância nesse combate à fome, ainda que coadjuvante, à política de juros praticada pelo Banco Central. O professor não deixa de reconhecer papel preponderante ao conjunto de políticas públicas praticadas pelo governo, visando expandir o crescimento econômico e elevar o nível de emprego e renda, catalisadas por políticas sociais e programas de transferência de renda, como a política de aumento real do salário mínimo e o programa do Bolsa Família, que permitiram às famílias recuperarem seu poder de compra e terem um acesso mais efetivo aos alimentos. Assim, atribuir um papel auxiliar à política de juros pornográficos do Banco Central, parece mais uma preocupação em amenizar os efeitos da política de juros praticada, que o professor classifica com política monetária responsável. *** Fosse verdadeira a conclusão, os preços dos produtos agrícolas e outros como carne, ovos, e até energia teriam se mantido em baixa desde 2022 até 2024, quando os juros passaram a ser elevados. Não foi esse o comportamento dos preços dos produtos citados em 2024, reflexo do resultado de efeitos perversos da crise ambiental, das mudanças climáticas, dos desastres naturais que provocaram a redução de suas ofertas e aumento dos preços dos produtos, de que são exemplos as enchentes no Rio Grande do Sul; a escassez hídrica ou efeito de queimadas que afetaram a cultura do milho, do café; ou a crise da gripe aviária nos Estados Unidos ou a quebra de safra em outros países, afetando olivais, a produção de azeite, etc. Às tragédias naturais, somam-se a destruição, posta em marcha no governo anterior, das políticas de formação de estoques reguladores, somadas ao desmonte da infraestrutura de estocagem, função da política de caráter liberal de privativação e venda dos armazéns da Conab, de resultados desastrosos. *** Embora os juros não tivessem declinado nesse ano de 2025, os produtos citados passaram a experimentar uma queda em seus preços – embora ainda em patamares elevados – em função do reequilíbrio das condições climáticas, com a normalização do regime de chuvas e a redução danosa de eventos de natureza catastróficas. O que indica que a redução não se deu por influência dos juros e confirma que o movimento simultâneo, em direções contrárias, de juros e preços, não implica necessária causalidade entre elas, mas a presença de variáveis outras, não consideradas no modelo teórico explicativo. *** Admitir um efeito positivo aos juros é adotar a visão dos agentes do mercado financeiro, que se beneficiam da manutenção de juros elevados, às custas dos efeitos disruptivos dos juros sobre variáveis como investimentos, nível da atividade econômica e de emprego, renda, gastos públicos, receitas públicas, resultado primário e resultado nominal, dívida bruta, câmbio, e até mesmo custos (financeiros) e seus impactos nos preços, além da produtividade; e sobre outros importantes setores da economia como o industrial, ou ações de desenvolvimento científico e tecnológico. *** Em acréscimo, os juros elevados aumentam os gastos financeiros do governo, elevando o déficit nominal e afetando o indicador Dívida Bruta/PIB. Assim, alimenta a falsa sensação de descontrole de gastos do governo, o que reforça a demanda de toda a mídia conservadora e da sociedade por adoção de políticas de austeridade, e corte de gastos sempre voltados à redução dos gastos sociais e transferência de renda. Anula-se assim o esforço governamental da adoção de políticas públicas que visam a desconcentração da renda no país. *** Sem esquecer o engodo que o conceito de austeridade contém, considerado a receita infalível para se atingir uma hipotética e falaciosa posição equilíbrio estável, a ser alcançado e se manter em uma economia instável, pois dinâmica por excelência. No fundo, a ideia liberal de austeridade não significa nada mais que a criação de mecanismos que perpetuem e ampliem o grau de exploração do trabalhador e o impeçam de se apropriar dos frutos de seu trabalho - seja pela ampliação do nível de desemprego, seja pela fragilização de sua posição de negociação de salários e direitos. Apropriação dos frutos do trabalho que se transformarão nos lucros dos patrões. Ou seja, a austeridade significa criar mecanismos para perpetuar e ampliar o grau de exploração do trabalhador, possibilitando uma maior apropriação, por parte dos patrões e sob a forma de lucros, dos frutos resultantes de seu trabalho.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Galípolo, a coerência de sua trajetória e a (in)coerência na defesa da PEC 65

https://youtu.be/fXeaKof1ED0 Presidente Galípolo, o chamado menino de ouro do Lula, em razão de ser o mais jovem economista a ocupar a presidência do Banco Central é bem mais que essa referência carinhosa. E já é portador de uma experiência bem significativa, apesar da pouca idade. Mestre pela PUC-SP, professor, coautor de livros em parceria com intelectuais renomados como o professor Belluzzo, conta com experiências exitosas na administração paulista, além de se qualificar ao maior cargo da Autoridade Monetária, por sua passagem pelo mercado financeiro, na presidência do Banco Fator e por sua atuação em processos de privatização. *** Tem, portanto, importante bagagem e formação adequada dentro do espírito econômico dominante. Ao reconhecimento de sua trajetória deve-se acrescentar sua indicação, pelo atual governo, para o cargo de Diretor de Política Monetária, efetivamente o mais importante cargo em uma instituição cujo papel é o de servir de Autoridade Monetária. Embora Lula tenha criticado severamente ao seu antecessor Roberto Campos Neto, jamais deve ser desprezada a responsabilidade de Galípolo na decisão de elevar em mais de 4% - e manter - os juros básicos da economia. *** Não é justo tirar de Galípolo o mérito de estar presidindo o órgão responsável pela rubrica do maior gasto público atual, com pagamento de juros, e a elevação da dívida pública nominal. Aquela dívida e a gastança exagerada que as Atas do Copom utilizam para justificar a manutenção de juros pornográficos de 10% em termos reais. *** Mas seu bom mocismo, apesar da ausência de coerência com o discurso de desenvolvimento econômico e social do governo que integra, não se revela apenas pelos efeitos estrutivos que a política de juros que conduz provoca sobre o nível de emprego, de renda, de crescimento da atividade produtiva. A contradição torna-se mais clara ao assumir a defesa da PEC 65 que, sob o argumento de dar maior autonomia financeira e orçamentária ao Banco, advoga a completa independência do Banco em relação ao governo, tornando o órgão um 4º poder da República. *** Isso implica que, bem ao sabor do ideário neoliberal e dos interesses do mercado financeiro, o Banco Central fica livre de interferências políticas do governo para exercer sua missão, embora submetido às pressões e chantagens – POLÍTICAS – feitas pelo mercado na defesa de seus resultados, advindos do rentismo. E tudo sob aplausos dos grandes empresários e da mídia, também ela dominada por grandes capitais. *** Em corte postado em redes sociais, de evento em defesa da PEC, Galípolo faz uma digressão da origem e evolução a proposta, citando na abertura de sua manifestação, a fala a frase célebre de ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos, para quem a luz do sol é o melhor desinfetante. A partir daí, apresenta um histórico da PEC, como resultado de “… vários anos, anos mesmo de discussão com o relator, … ouvir bastante servidores aqui da casa, se chegou a um texto” … que não era pautado por falta de concordância do governo. *** A seguir relata “várias reuniões e vários diálogos” em que houve pessoas que discordaram totalmente, outras parcialmente, até com argumentos jurídicos de vício de origem em proposta apresentada no Senado com alteração na estrutura administrativa do governo. E prossegue dizendo que depois de conversas em que o governo admitiu apoiar a autonomia do Banco, chegou-se a um impasse: o governo não admite a mudança de regime do Banco, de autarquia regida pelo Direito Público, para um tipo de “estrovenga” do Direito Privado nem a alteração do regime trabalhista dos servidores, do RJU para a CLT. *** Tal impasse levou o Senado a afirmar que não colocaria a proposta em pauta e votação, sem a concordância do governo. Por outro lado, como o projeto sofreu alterações em relação ao que havia sido “dialogado com os servidores e os representantes dos servidores” aqui da casa, para que o governo aprovasse a proposta, o presidente reuniu-se com os chefes de Departamento, que ficaram irredutíveis quanto a não acatar a proposta do governo, com base na visão de que a mudança do status jurídico da instituição deve ser considerado o cerne da proposta. *** Infelizmente o breve histórico feito contém distorções, penumbras, sombras ou trevas que impedem a ação detergente da luz do sol. Por exemplo, o diálogo com os servidores não pode se reduzir aos chefes de departamentos ou ao grupo de servidores comissionados, com interesses bastante claros, e lícitos de, como celetistas, passarem a ter remuneração a nível de mercado. Bem além dos limites de tetos que devem respeitar hoje, no serviço público. Se houve reuniões de apresentação da proposta para os servidores, com participação muito efetiva dos diretores Aílton e Rodrigo, de Fiscalização e Administração respectivamente, o diálogo foi interditado, com as reuniões se prestando mais a vender a ideia da redenção de um corpo de servidores que vem sofrendo corrosão salarial há anos, e vendo crescer as diferenças entre carreiras de Estado de mesma importância, classificadas como típicas de Estado como as do Banco. *** Há por certo, servidores da ativa que, não satisfeitos com resultado de votação eletrônica com participação de toda a categoria, em que 74% rechaçaram a integralidade da proposta, sem admitir alterações superficiais, se batem pela PEC e a defendem, e são os que têm voz e encontros agendados com a Diretoria do Banco. Mas estão longe de serem os representantes dos servidores, tarefa que cabe ao Sinal, o sindicato oficial reconhecido legalmente. E, por mais que o Sinal enviasse ofícios e solicitações de agendamento de reuniões, nunca foram recebidos para tratar do tema. *** Pior: reunião com servidores inativos, veementemente contrários à proposa, sugerida e agendada pela própria Diretoria, foi cancelada por falta de horário na agenda(?). Argumento, no mínimo falacioso, senão cômico. Na verdade, a PEC é contra o Banco Central, contra o Governo e o Estado e contra a sociedade brasileira. Esse o verdadeiro motivo da desfaçatez daqueles que a defendem. Afinal, se são legítimas as reivindicações de remunerações mais elevadas e mais próximas daquelas obtidas por outras carreiras típicas de Estado, com o mesmo nível de qualidade de serviços prestados, a solução mais solar é uma negociação mais realista e criteriosa com o governo, visando reduzir as assimetrias externas (e internas!!!) ao banco.