sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"A luz do sol é o melhor dos detergentes" (Juiz norte americano Louis Brandeis, 1913)

À disposição também no Youtube pelo link: https://youtu.be/YNNb-0bA6kU ou no Instagram:#paulocmf55 O mesmo diretor a quem me referi em pitaco anterior me perguntou certo dia: você está subindo a pé para a Praça do Papa (no alto da Av. Afonso Pena, em BH). Eu passo de carro, te vejo e ofereço carona. Você vai negar minha oferta? Com base em nossas divergências? Mais tarde, trabalhando como fiscal - de ICMS e de instituições financeiras - aprendi, desde o primeiro momento, o perigo de não querer saber a origem ou a razão de qualquer unidade monetária inesperada, depositada em minha conta. Eu sempre ia pedir explicação ao gerente de minha conta. Procurava me proteger. (Nunca recebi dinheiros suspeitos). Em minha casa, aprendi de pequeno que o ato do roubo é um só, variando só o seu resultado. *** Diferente do diretor, cuja carona visava me poupar da caminhada, Vorcaro oferecia e dava carona em aviões, emprestava seu jatinho, arranjava ingressos para shows no exterior e jogos de campeonatos esportivos. Alma iluminada e generosa, pagava de hospedagem em praias do Nordeste para parentes de “amigos” a ternos em Brasília. Contratava assessoria de agentes poderosos independente da necessidade de utilizá-los: várias vezes, para livrá-los de um ostracismo precipitado. E não se negava a ajudar os filhos de pessoas influentes, novatos na carreira, semeando para o futuro. *** Puro, puritano, mantinha relações financeiras com templos. Sempre disposto a agradar, patrocinava orgias e bacanais – suruba no popular -, em Trancoso. Ou no cosmos, a julgar pelos trajes de astronautas. Não das moças, por óbvio (acho). Como todo bom estelionatário, aparentava ser simpático, afável e confiável aos olhares dos incautos: as personagens vaidosas que, se sentindo importantes ou poderosos, acreditam merecer as homenagens e salamaleques que lhe são prestados. Afinal, construíram essa posição de distinção. Merecem. Fizeram por merecer. *** Poderia parecer que a excessiva simpatia, empatia ou encenação dos estelionatários induz suas vítimas a pensar e agir como se fossem capazes de inverter os papeis: de vítimas sentiam-se as exploradoras. E, como se predadoras, abusavam da benevolência dos ingênuos que lhes doavam recursos. Sem perceber que eram os verdadeiros lesados. Escroque por compulsão, Vorcaro agia como a aranha que lanças suas teias para atrair insetos e pequenos animais desavisados, que passam a se sentirem protegidos e seguros naquela construção que, à primeira vista, parece mero emaranhado de fios. *** Por desprendimento, contratou escritório de advocacia em troca de verba milionária. Escritório cuja finalidade era se unir ao pelotão de assessores jurídicos e advogados empregados de seu império empresarial. Contrato de 130 milhões de reais, para protegê-lo, quem sabe, nas próximas vidas futuras de uma reencarnação renegada por sua crença. Talvez por razões cármicas, foi assombrado uma segunda vez pelo número mágico de 130 milhões. Mais exatamente, 134 milhões de reais para financiar tanto um pangaré medíocre quanto ao seu irmão desempregado, vítima das tarifas impostas à importação de carne brasileira que reduziram as vagas de emprego para chapeiro de hambúrguer nos States. *** De acordo com o juiz americano de nosso título, se se deseja fazer uma faxina que promova a limpeza, o brilho e o brio de nossas instituições e autoridades; se se quer passar o país a limpo ainda antes das eleições, a solução é dar transparência e publicidade a toda a investigação, realizada ou em curso. Evitando vazamentos seletivos e favorecimento de qualquer um dos lados envolvidos. Ou seja: a solução é trazer tudo à luz do sol e para que sua poderosa energia promova a necessária higienização. Isso significa abrir o sigilo de ministros e autoridades do governo, atuais e anteriores; filhos, irmãos, parceiros; bancas e escritórios contratados; usuários e caroneiros de aviões e jatos; convidados para eventos internacionais ou surubas nacionais; beneficiários de ternos ou de mimos mais singelos. E não cair na lábia dos aprendizes de estelionatários, que venham a alegar ser dinheiro privado o do financiamento obtido, realizado sem contrato e qualquer formalidade. Razão de não ser alcançado por eventual fiscalização *** Por esta lógica, todo pagamento feito por Vorcaro teve caráter privado, o que exige tratamento semelhante a todos eles, já que a mentira que cola pra Chico, deve colar para o Francisco e até para o Chiquinho. Em especial, importa que seja exposto ao público o porquê da doação de 71 milhões de reais como parte do financiamento de um filme, com orçamento para desbancar os maiores vencedores de Oscars de todos os tempos. E a razão de um valor tão elevado para um filme cujo conteúdo história, personagem não merece nem um gasto de 3 centavos, nem plateia de mais que algumas poucas pessoas, mesmo sabendo que estivessem estes espectadores dispostos a assistir ao filme, rezar para pneus ou se reunirem à noite em praça pública, para atrair ETs com as luzes de seus celulares. De preferência, na companhia de outros bovinos simpatizantes de suas distopias cognitivas. *** Não desejamos ver sangue e punições em praça pública. Tampouco é nossa preocupação a defesa de a ou b, magistrado, político eleito ou ocupante de cargos. Desejamos é que a justiça, cega, não se intrometa e influencie o processo eleitoral em curso. Que deixe a população escolher, entre os nacionais e os brasileiros que defendem seu país, os que considerem os melhores na defesa dos interesses do Brasil. Não os auto proclamados patriotas. Desde logo, lembramos outra famosa, de Samuel Johnson: "O patriotismo é o último refúgio do canalha". No lamaçal em que nos encontramos, não devemos nos esquecer que a origem ilícita do dinheiro do ex-banqueiro contamina, contagia a tudo e a todos que tiveram contato com ele. E perceber que, para essa situação, esquecer não é vacina. Nem rir, o melhor remédio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Minas e a Educação: a que futuro levam essas trilhas?

https://youtu.be/xm8gnWMGKBQ O pitaco de hoje, que não se refere à bet para exploração da ingenuidade de nosso povo, nem mera aposta se baseia, e faz citações literais de “As Parcerias na Educação Mineira: um estudo sobre o Programa Trilhas de Futuro” (de autoria de Vagno Emygdio Machado Dias e Bruno Leandro Silvério Morais, acessado nesta data em https://www.scielo.br/j/edreal/a/3mMqh3my3jX36RZzkZ3cmsv/?lang=pt. Nosso objetivo: conhecer mais o programa Trilhas do Futuro que, junto à proposta de adoção do modelo de escolas cívico militares – ao que parece para criar oportunidades de maior empregabilidade para tantos militares candidatos – é a marca da Educação nos últimos anos em Minas. *** São conhecidas as concepções políticas, econômicas e ideológicas do NOVO, “voltadas ao livre mercado, à pauta moral-conservadora e à defesa do Estado Mínimo.” O partido, que para tragédia de nosso estado, ocupou o governo com o risível Zema, por acreditar na maior eficiência da iniciativa privada na prestação de serviços públicos, comparada ao Estado, “defende … privatização dos serviços públicos … parcerias público-privadas como solução.” (Antes de seguir, um esclarecimento: respeitamos, mesmo não concordando, com o que cada um pensa, especialmente se empresário ou origem abastada). Daí que o plano de governo para a educação “mostra as claras intenções mercantis do governo …, como o famoso voucher: “[...] programa de bolsas em escolas particulares para alunos do ensino público …” De seu folclórico governante, candidato de si mesmo à presidência, apenas recordar que aceitou receber 8,7 bilhões, em 37 anos, da dívida da União com o Estado, em razão da Lei Kandir, estimada em 135 bilhões. *** Quanto ao financiamento do Trilhas de Futuro, foram recursos públicos da Quota Estadual do Salário Educação (QESE) e do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB) que foram transferidos a instituições privadas, no total de R$ 790.437.396,45 (nov.2021 a dez. 2022). Tal repasse, contrário ao Plano de Educação - PEE/MG , representa o Estado “não investir na sua própria rede de ensino, além de priorizar, de imediato, a oferta de parte significativa da educação profissional para a rede privada” em … “nítida terceirização do serviçoeducacional público”. Quanto à lisura, o “governo se utilizou de um mecanismo de contrato que dispensa o processo licitatório, em um nítido movimento de privatização da educação profissional de forma exógena (Borghi, 2018)”; “ou seja, o governo compra cursos das instituições privadas de ensino para promover a ampliação da educação profissional.” *** Em síntese: o programa representa que o “governo decide não investir na sua própria rede de ensino, priorizando a transferência dos recursos públicos para instituições privadas, em clara opção pela privatização” o que transforma o “ensino profissional … (na) porta de entrada dos interesses mercantis que veem na educação pública estatal a possibilidade de alavancar seus lucros e ampliar seu mercado.” É este programa que o candidato Matheus Simões apresenta na propaganda eleitoral, se gabando de ser seu criador. Da mesma forma que se gaba de ter ajudado a colocar a folha de pagamento do funcionalismo em dia, com recursos vindos da suspensão autorizada pelo STF, do pagamento da dívida do Estado, solicitada pelo governo anterior. Além dos recursos das indenizações obtidas em razão das tragédias minerárias que atingiram o Estado. E mais alguma quantia dos primeiros dos 37 anos do encontro de contas com o Governo Federal. *** Envergonhada, sua propaganda não aborda o aumento linear de 5,4% concedido aos funcionários, nem o aumento de 300% dado ao governador e seus secretários, nem da concessão de 19,4 bilhões de reais de benefícios fiscais em 2025 (era 6,1 bilhões em 2019), ou o fabuloso aumento dos presentes aos amigos do rei (inclusive empresas de Zema), estimados em 22,5 bilhões neste 2026. E não precisa falar, pois não nos esquecemos, da grosseria e falta de educação e civismo, praticada com Ângelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto no dia de Tiradentes. Para envergonhar, a nós, povo mineiro, basta um só. Não precisa de seu subordinado (vassalo no sistema feudal). *** Não poderíamos deixar de tocar no golpe tentado, mais uma vez nessa última semana pelo ministro do Supremo terrivelmente golpista, este sim vassalo e cúmplice, de tudo que a política brasileira conseguiu gerar desde nossa República. E embora não tenhamos maior apreço por seu adversário na Corte, o autoritário e prepotente Moraes – trazido ao STF por outro golpista mór, o temerário Temer (aquele a quem se destinavam os recursos da mala de rodinha com que seu assessor Loures foi flagrado, cuja imagem todos vimos) – há que reconhecer e dar-lhe o mérito de agir com rigor contra os golpistas do 8 de janeiro de 2023). *** Não é difícil tomar posição entre os envolvidos, quando um age – sob a supervisão ou não do agente laranja americano que pretende nos recolonizar – em favor da continuidade do golpe e da desmoralização das instituições nacionais; ou sem qualquer pudor escancara sua proteção ao candidato vinculado às milícias, às organizações do crime organizado, aos milhões de dólares do escândalo de seu “irmão” ex-banqueiro e suas apostas em cavalo chucro. Do outro lado, outro ministro que, por mais graves que sejam suas relações amistosas com o gangster banqueiro – um comprando proteção ou prestígio, o outro vendendo sua autoimagem de deus Supremo- passa a ser a defesa contra o golpe continuado. O que não impede de concluir e cobrar: queremos quebrados os sigilos de todos os envolvidos. *** E, antes que me esqueça, o golpe tem nome, sobrenome e, nos dias de hoje se apresenta como defensor da moral, dos bons costumes e da honestidade, apesar de ser o maior hipócrita que tem frequentado nossas casas: o impostor, ladrão e golpista mau caráter, Flávio, tarifa rachadinha, boçal nato.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Em política - nem sempre a novidade é nova ou capaz de trazer melhorias. O que é melhorar?

Link do youtube: https://youtu.be/lWelkjf-Kso ou instagram: #paulocmf55 Certa ocasião, conversando sobre concepções políticas com o diretor da área em que eu trabalhava, ele trouxe a seguinte questão: os dois lados da disputa não têm o mesmo objetivo? Não estão interessados em criar um país melhor, com maior crescimento, mais desenvolvido? Se têm o mesmo interesse, o que os diferencia não é a forma como cada qual deseja alcançar este objetivo? Gastei algum tempo refletindo sobre as perguntas, até perceber o quanto eram enganosas, pelo grau de generalização envolvida e, pior, pela hipótese simplória que servia de ponto de partida e que condicionava o raciocínio e a resposta. *** De fato, se “Minas são muitas”, de faces conhecidas por muitos poucos, conforme Guimarães Rosa, o mesmo se aplica ao país e sua realidade, desde o diagnóstico de seus males até as inúmeras soluções de cura. Assim, o problema da miséria - consequência primeira da escravidão e do tratamento dispensado pelos senhores de terras aos povos escravizados, que se agrava além do limite do tolerável a partir do fim da escravidão -, está na origem de questões tão diferentes quanto a necessidade de políticas afirmativas, ou outras ligadas ao rigor no controle das condições e à própria extensão desumana da jornada de trabalho, a baixa produtividade do trabalho, ou a uma suposta indolência inata que faz o trabalhador preferir viver às custas de benefícios pagos por toda a sociedade. *** A dificuldade de a elite dominante tratar essa situação como herança da dívida histórica contraída junto ao povo antes escravizado, em geral preto mas não só, impede a adoção de soluções além da fixação das cotas de reparação das políticas afirmativas. O que justifica o preconceito das elites, que está na raiz dos projetos de nosso desenvolvimento e que, adotando o viés econômico, alega visar a melhor alocação de recursos escassos ao elaborar programas voltados à expansão da educação ou à ampliação da participação do trabalhador em programas de qualificação. Programas que privilegiam aqueles capazes de aproveitar melhor seu conteúdo, em geral os filhos das classes mais abastadas e que mais tarde, no mundo do trabalho, justificarão o pagamento de remunerações aviltadas para a maioria de trabalhadores, fruto de sua baixas capacitação e produtividade. Funcionando como instrumento da depreciação acelerada das classes trabalhadoras, essa baixa remuneração produz o efeito perverso que realimenta o estado de miséria e degradação de ampla parcela da população, cada vez mais excluídas das políticas voltadas para o estudo, a qualificação, a saúde, condições de habitação e mobilidade dignas de que deveriam ser o público preferencial e adotadas como prioritárias e urgentes. Isso se essa situação de reprodução da miséria não fosse benéfica, por permitir o aumento da taxa de exploração do trabalho e, por extensão, dos lucros da classe empresarial. *** Tal visão contraria frontalmente aos setores mais poderosos da sociedade, já suficientemente críticos de qualquer programa de ajuda às classes menos favorecidas, desde as cotas até os programas de assistência e transferência de renda, vistos como desperdício de gastos públicos e irresponsabilidade fiscal. Afinal, a elite forma sua cosmovisão com base na cartilha de inspiração neoliberal, baseada na valorização dos esforços individuais como forma de acesso às melhores condições materiais de vida, seja este resultado fruto de sacrifícios pessoais da geração atual ou herança abençoada de antepassados exitosos, que alcança filhos, netos, sobrinhos e até genros. *** Por isso, assistir a um candidato ao governo de Minas prometer, ao mesmo tempo, reduzir a carga de impostos extorsivos pagos pela população e melhorar a qualidade da prestação de serviços públicos a todos, é o tipo de mágica que nem mesmo Houdini se atreveria a arriscar. O que não impede reconhecer – e exige - o peso excessivo, NA MÉDIA, que cada cidadão deve pagar em impostos. Carga que corrói parcela importante do poder de compra de toda a população, não só a mineira. Porém, reconhecer a verdade dessa situação, nos obriga a mostrar o que ela esconde, o que não é dito: que os mais privilegiados, mais ricos e poderosos não apenas pagam muito pouco, como ainda se beneficiam de incentivos e subsídios que os tornam praticamente isentos. Isso obriga a que, a distribuição da mesma carga total por um número menor de contribuintes seja compensada por cargas individuais maiores. Em geral pagas pelos mais pobres. A pergunta do milhão de dólares deveria ser qual a solução mais justa: reduzir os impostos pagos por todos, na média e em geral? Ou aumentar os impostos daqueles que, podendo, pagam menos ou não os pagam? A esta pergunta junta-se outra: sem recursos para atender aos gastos públicos, que cortes deverão ser feitos: nos subsídios e incentivos aos empresários ou em gastos em saúde e educação, que beneficiam os mais necessitados ou mais ineptos? *** Seria interessante ter as respostas de Cleitinho, cujo projeto, de cunho populista, promete lutar pela melhoria das condições de vida de todos, independentemente de sua ideologia. O mesmo se aplica à proposta do conceituado escritor Augusto Cury que visa, corretamente, solucionar o sério problema da polarização que divide nossa sociedade, esgarça nosso tecido social e nos impede de avançar em conjunto. Sem o uso de drones e de inteligência artificial, suponho. Em linha com nossa questão inicial, todos queremos a paz e um projeto de desenvolvimento econômico e social para chamar de nosso. Será? *** Será nosso projeto semelhante ao do candidato que deseja nos transformar em mero vagão da composição puxada pela locomotiva carcomida, desatualizada e atrasada tecnologicamente, da economia americana? Sob as bençãos da bandeira do Tio Sam e, de quebra, Israel? Ou nosso projeto é voltado para nossa independência e autonomia, mesmo que relativas e limitadas, dado nosso papel de economia do sul global e periférico? Na segurança, temos os mesmos objetivos dos que propõem soluções que desrespeitam os direitos humanos, como o uso da pena de morte – ainda que não prevista em lei e sem julgamento justo -, como punição aos criminosos? E que limites estabelecer para poder distinguir crimes cruéis de outros tipos, que podem vir a incluir crimes coo o de não ter nascido em berço de ouro, beneficiados por genética de estirpe nobre? Temos objetivos semelhantes àqueles que idolatram ditadores fascistas, criminosos como Bukele, e os tomam como exemplo, no altar dos heróis, ao lado dos nazistas da Alternativa alemã? Seria possível a convivência respeitosa desses grupos com aqueles que acreditam na aplicação do espírito das leis a todos, independente de posição social, cargo ou serviços prestados anteriormente a nossa sociedade? Seria interessante ver as propostas de Cury para reunir no mesmo ambiente, pessoas com interesses tão significativamente distintos para, após algum tempo - que poderia ultrapassar a duração de uma vida -, conduzir os dois lados a um ponto comum. De preferência democrático, permitindo a coexistência de ambos os lados. É isso.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Na Política - Em país de Brás Cubas, nem todo machado racha

link youtube: https://youtu.be/xcsqroNWocI É digna de um pitaco a evolução do setor de pets em nosso país: 3º maior mercado no ranking mundial do setor; 3ª maior população de pets; faturamento da ordem de 78 a 80 bilhões de reais com taxa de crescimento esperada e constante, de 9,6% ao ano. Do faturamento, 54% corresponde ao setor de pet food (alimentos e rações). Entre os fatores apontados para a tendência de crescimento, citam-se a humanização dos pets, cada vez mais tratados por seus tutores, muitas vezes solitários, como “alguém da família”. Soma-se a esse movimento, a profissionalização do segmento de saúde e atendimento veterinário, objeto de recursos institucionais e a preocupação com o bem-estar e saúde, que provoca forte alta na procura por clínicas especializadas, planos de saúde animal, farmácias veterinárias e serviços de estética avançados. *** Também não poderíamos deixar de falar do mascote nacional, o cachorro caramelo ou vira-lata – sem raça definida -, resultado de um mosaico genético e considerado o mais popular e amado do país, um verdadeiro símbolo cultural. Símbolo de campanhas contra o abandono animal e maus tratos, o Caramelo por sua inteligência e sociabilidade, caráter brincalhão e capacidade de se afeiçoar aos cuidadores dá origem à difusão de falsos mitos, que tornam invisíveis os vários sofrimentos a que estão expostos: a fome, o frio, atropelamentos, doenças e maus-tratos. Situação que explica porque, em várias cidades, vizinhos e comerciantes atuam como tutores comunitários, oferecendo água, comida e abrigos improvisados, o que os torna os pets patrimônio de toda a comunidade. *** O que me lembra um tipo muito peculiar de pet, com terreno fértil para se expandir, de forma constante e descontrolada em nosso país, criação genial e inesquecível de Jô Soares, no programa Viva o Gordo dos anos 80: o Corrupto. Crítica ácida e humorada à política e políticos do Brasil, o quadro ironizava a imagem da figura corrupta na época: um “bicho raro”, que rejeitava comida comum e se alimentava com notas de dólar; cujo hábito era atacar florestas, bancos, caderneta de poupança e, normalmente tranquilo, apresentava alterações de humor e comportamento agitado, que tinha como gatilho algumas palavras e expressões, como cana, pena, banco, Suíça, etc. *** No quadro, sempre mantido em uma gaiola coberta por um pano preto que impedia que fosse visto, o personagem reforçava a ideia de que podia circular por vários ambientes sem ser identificado, permitindo continuar agindo nas sombras. Dos anos do Viva o Gordo para cá, a evolução tecnológica, capaz de afetar tempos e costumes, permitiu que o país passasse por um número sem fim de mudanças significativas, apesar de insuficientes para a eliminação do pet corrupto. Classe de pet que movimenta hoje, mais que cães e gatos, valores que superam os 6 bilhões do assalto aos fundos de pensão; os 41 bilhões de assalto ao FGC; mas que, nem por isso, abandonam as oportunidades de movimentar somas menores, como 71 milhões de reais de pangarés hollywoodianos, ou capazes de permitir a compra de 52 imóveis em dinheiro à vista, ou o sustento no exterior de párias e traidores de todo o tipo de escória. *** Tamanha a sanha e voracidade por avançar em recursos alheios, que não abrem mão nem mesmo de valores de viagens em jatos cedidos, ou das passagens aéreas, pagas por empresários, sem falar nos milhões distribuídos para liberar ativos minerários alcançados pela Operação Rejeito da PF, ou outros empréstimos para questões particulares. Isso sem tratar da indústria que mais cresce no país, a de lavanderia e equipamentos para lavar dinheiro, por meio de canais ligados ou não às siglas sempre lembradas nesse período de horário eleitoral: CV, PCC e tantos outros Ps em campanha. Mas, como diz a sabedoria popular, cada um tem seu pet de estimação, o direito a ter seu “bandido, mau caráter” de estimação. E até de votar nele. Só não pode reclamar depois, já que o Código de Defesa do Consumidor não trata o caso. *** Em homenagem ao saudoso Sérgio Porto e ao Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País – vale destacar que o político mais preocupado em promover a distribuição de renda (em seu gabinete, rachando e coletando parcela de salários de seus funcionários), se faz passar como o mais preocupado com segurança pública, vinculada, pasme!, à soberania. Dele é a frase de efeito, vinculando segurança e soberania: “Nós perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, sua bolsa, nossa casa…”. Fato: alguns funcionários de gabinete não têm soberania nem sobre o próprio salário. Isso se aceitarmos tamanha redução do conceito de soberania – de Estado, para o aspecto individual, típico do domínio dessa visão neoliberal, individualista. Ou se esquecermos que a questão da segurança pública é responsabilidade de esfera administrativa diferente dos defensores de nossa soberania. Só mesmo em um país que não é para amador, onde o “errado é que é o certo” (goleiro Cafunga), um deputado que mantém na folha de pagamento de seu gabinete, como funcionárias fantasmas, a mãe e esposa de um miliciano assassino, o mesmo que estando preso, foi condecorado com a mais alta medalha legislativa do Rio por proposta do deputado que, agora candidato, promete classificar organizações criminosas como narcoterroristas, como forma de iludir aos grupos que oram para pneus, ou acendem celulares para Ets. Ou seja: “alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial” (Caetano), como o retorno do partido nazista na Alemanha, e um político envolvido com tudo de podre em nossa política, estar prometendo transformar o país em um lugar de amplo saneamento - até para ajudar no combate ao aquecimento exacerbado do clima; ou ainda para um outro candidato misógino, vender a imagem de pureza em ambiente de Rejeito, talvez pela bondade e tolerância da população que o acolhe nas redes sociais, como aos pets da modernidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Gastos públicos, dívidas e juros e a vergonhosa seletividade da grande mídia

link youtube: https://youtu.be/mAR0UZ5qlh0 No último pitaco falamos de forma simples do princípio da Demanda efetiva, elaborado por Keynes há 90 anos, para quem o empresário racional investe, cria e amplia empresas, se acreditar que, mais à frente, irá encontrar comprador(es) para vender sua produção. É essa expectativa INCERTA que o faz usar seus recursos para comprar máquinas, gerar emprego e renda, comprar matérias primas e insumos para produzir, e vender com lucro. Como produzir tem custos, o empresário vai preferir não utilizar a capacidade produtiva que possui, se pessimista, ter medo de produzir e não vender sua produção para recuperar o gasto feito, obtendo prejuízo. O comportamento descrito contrariava e criticava o pensamento econômico neoclássico dominante, para quem, depois de gastar montando uma fábrica, o empresário iria SEMPRE, utilizar a capacidade instalada em sua totalidade. *** Entre as várias demandas dos agentes econômicos – de consumo das famílias, em investimento dos empresários, as compras dos clientes do exterior, e os gastos do governo– tratamos da importância da demanda do governo, capaz de permitir criar demandas secundárias. A construção de um porto exige a compra ou contratação de terras, de máquinas e equipamentos, de matérias primas e insumos, de cimento, de material siderúrgico, de serviços de empreiteiras e trabalho especializado ou não, além de tecnologia. Ao efetuar gastos públicos, o governo põe em marcha uma engrenagem e estimula outros setores a investirem e produzir, garantindo demanda e reduzindo a incerteza, gerando efeitos multiplicadores sobre o emprego, a produção e a renda, junto a aumento na arrecadação de impostos. *** Além desses, como sabemos, existem outros gastos públicos também importantes geradores de demanda, pelo trabalho de funcionários públicos, como médicos, enfermeiros, engenheiros, advogados, professores, planejadores, fiscais, assistentes sociais, policiais, garis. E, uma vez que nem todos nascem e têm as mesmas oportunidades de vida em nossa sociedade, muitas pessoas não têm acesso à saúde, a alfabetização, ao ensino, à qualificação e a condições de vida e emprego dignas, obrigando os governos a proporcionar a elas condições mínimas de vida, via pagamento de benefícios sociais. *** Tais benefícios são tão mais vultosos quanto mais desigual nosso país e as condições de vida, saúde e educação. Mas são necessários. E, ao permitirem que grande parcela da população possa consumir, acaba criando demanda e estimulando, além da arrecadação, o crescimento econômico. Ao contrário daquelas pessoas muito ricas, que já têm tudo e quando gastam preferem comprar bens de luxo no exterior. E àquelas pessoas que tendo muita riqueza, preferem gastar, não na compra de bens, mas em compra de papeis ou títulos financeiros, que rendem juros e lhes permite ter muito mais ganhos, com a taxa de juros que o país pratica. Esses constituem os parasitas ou rentistas do mercado financeiro. *** Ao efetuar estes gastos (se maiores do que o que arrecada de impostos), o governo gera déficits e se endivida. Mas é uma dívida em reais, moeda que o governo é quem cria. Logo, sem qualquer chance de que aqueles que têm recursos para emprestar ao governo, levem calote. Desse ponto de vista, porque a grita histérica contra o endividamento público? Por que o dramalhão feito em relação à dívida pública representar 81% da produção do país (o PIB), se países mais avançados, como Japão (249%), Estados Unidos (123%), Canadá (114%), China e Reino Unido terem mais de 90%? Para dar tranquilidade aos credores de que o governo não irá quebrar e dar calote? Ou para forçar a barra e obrigar o governo a cortar gastos em benefício da população mais carente, enquanto mantém e assegura os gastos tributários (incentivos, subsídios) aos mais poderosos, o financiamento de planos do agronegócio, setor que já se beneficiou tanto das pesquisas da Embrapa, pagas pelo governo? *** Há muito que cortar em gastos públicos, para controle da elevação crescente dos gastos e da dívida, quando a meta da inflação é tão ridiculamente baixa, em um país que nos últimos 20 anos teve inflação média superior a 6% ao ano. Por que não trabalhar com um pé na realidade, e meta de 4%, mais o limite de tolerância. Com isso, e corte de gastos em favorecimento dos mais ricos, gastos, dívida e juros cairiam. Até porque, a queda dos juros já reduziria a dívida pública, por ser, de longe, o gasto mais elevado. *** Mudo para questões de política e o vergonhoso tratamento seletivo que a grande imprensa tem patrocinado neste país. Tratamento que permitiu ao editorial da Folha (ou seria Falha de São Paulo?) de domingo, 23 de agosto trouxesse em seu título “Desgastes de Lula e Flávio mantêm a disputa acirrada”. Na linha fina, a chamada: “Petista enfrenta noticiário negativo sobre atividades de seu filho…” Enquanto do lado oposto, dizia que “bolsonarista, após ligação revelada com Vorcaro, fica isolado na direita”. Ou seja, a Falha compara dois candidatos: um com problemas de idoneidade – da prática de “rachadinhas”, à relação com milicianos, até o pedido ao “mermão” , de 134 milhões do dinheiro de golpes financeiros, inclusive contra aposentados, para financiar o cavalo agourento que se desvaneceu, no ar, como a prestação de contas desse dinheiro. Mais um conto do vigário (ou seria vicário?). O outro, é presidente de um governo que investiga tudo, com liberdade, sem trocar comando da PF, para evitar” f… minha família” (ver reunião de 22 de abril de 2020). *** Acusar Lula pelo filho lobista, como se isso fosse exclusividade do governo atual, do PT ou do Brasil é não ter memória – os mais velhos – ou ignorar o escândalo do irmão do presidente americano e prêmio Nobel da PAZ em 2002, Jimmy Carter. Billy Carter, de comportamento excêntrico, recebeu sem declarar financiamento do governo líbio para atuar no caso da liberação dos aviões da Lockheed. Embora Carter tenha sido derrotado, o comportamento da imprensa americana, em um país ainda sob regime reconhecidamente democrático não pode se assemelhar aos abutres que concentram o poder da grande imprensa (Estadão, Folha e Globo). É isso.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O presidente do Banco Central e a proposta de política monetária contracionista: alguns comentários

youtube: https://youtu.be/WRF1HTsPFeg É a demanda, o desejo de gastos dos agentes econômicos, que estimula os empresários a manterem ou ampliarem sua produção e aumentarem a oferta. Sem demanda, o empresário racional não vai correr o risco de investir seus recursos visando lucros. Enquanto a maioria das pessoas demanda e gasta em bens de consumo, para assegurarem um padrão digno de vida, de acordo com sua renda, a demanda dos donos de empresas por investimento, na compra de instalações, máquinas e equipamentos é a base da produção de um país ou de seu crescimento. Quando mais investimento, maior a capacidade produtiva, maior a oferta e maior o crescimento do país. Por isso o investimento é considerado a demanda mais importante para o crescimento de um país, de forma contínua ou sustentada. ao longo do tempo. *** Os gastos públicos constituem uma terceira espécie de demanda ou gastos para garantir o funcionamento do governo (pagamento ao funcionalismo público, de prédios públicos). São gastos que permitem que o governo forneça bens e serviços ao público que, embora necessários à sociedade têm características especialíssimas, que impede ou dificulta sua produção pelo setor privado. (saúde e educação pública, lazer, mobilidade urbana). Em todo o mundo, mas em especial no Brasil, o governo também gasta em investimentos, como a construção de infraestrutura (rede de distribuição de energia e gás, estradas, canais, pontes) e outros feitos para estimular os empresários a investirem, assegurando demanda para seus negócios. Um exemplo disso é a implantação pelas estatais na área de novas fontes de energia, que estimulam a fabricação de material para instalação de pás de moinhos, turbinas, armazenamento da energia gerada, os cabos e fios para sua transmissão, geradores, transformadores, etc. Essa demanda tem o efeito de multiplicar novos empreendimentos e investimentos. *** No Brasil, o crescimento econômico do primeiro mandato de Lula foi apoiado pela demanda de consumo depois de vencida a inflação e assegurado o poder de compra das famílias. Foi também estimulado pelo aumento dos gastos feitos por estrangeiros, em especial comprando os grãos, os minérios aqui gerados (nossas exportações). Dessa forma, ao criticar a fragilidade do processo de crescimento amparado pelo consumo, em evento patrocinado na semana passada por agente regulado pelo Banco Central - o Santander – as afirmações feitas pelo presidente do Banco estavam na direção correta.. Correto também estava ao afirmar que se a demanda cresce e a oferta não acompanha, ou seja, a capacidade produtiva não cresce, a economia vai alcançar o pleno emprego, situação em que não tendo recursos para aumentar a produção, vai surgir o fenômeno da carestia ou falta de produtos, gerando inflação. Questionável é sua afirmação definitiva de o país estar em pleno emprego, em razão de políticas de crescimento da renda e do crédito acima da produtividade do país. Fala que o aproxima da postura de Fukuyama a respeito do fim da História, ao decretar o encerramento do debate já “que nem os grandes debates teóricos entre economistas deveriam se aplicar. A gente está em um momento de pleno emprego com uma economia que vem crescendo com a demanda acima da oferta … “(conforme artigo de Beatriz de Cicco, no JOTA de 17/08/2026). *** Para em seguida afirmar que “o déficit das ações correntes … a inflação daqueles itens que você não pode importar do resto do mundo – componentes de serviços, por exemplo, que vem rodando bastante acima da meta – (indicam que ser) uma economia que está em pleno emprego já”. E concluir que, como em política monetária, “é óbvio que o mandato é você conseguir reequilibrar oferta e demanda, … é por isso que a gente coloca a taxa de juros num patamar restritivo", e assegurar que “a autarquia não está “pilotando” a política monetária “pensando em colocar para cima, de novo, uma maneira para colaborar com o crescimento, puxado por mais consumo e mais demanda. Está muito mais pensando em colocar um patamar contracionista". Em evento patrocinado por agente para quem os juros elevados geram lucros extraordinariamente elevados, não deveria soar estranho o raciocínio do presidente de um órgão de governo fazendo coro às críticas aos objetivos e ao modelo adotado pelo governo a que serve e com as políticas de quem deveria mostrara mais compatibilidade e coerência, ainda que com autonomia operacional. *** A título de contraponto sobre sua opinião quanto ao pleno emprego: as estatísticas vêm mostrado aumento recorde de pessoal ocupado, principalmente em atividades informais, ligadas à ideia equivocada das vantagens do empreendedorismo. De mais baixa qualificação, a produtividade desses trabalhadores autônomos é menor que a dos que atuam no mercado formal, em especial na indústria. O que permite supor que uma política capaz de expandir o mercado de trabalho com carteira assinada promoveria um aumento da produtividade, da produção e do crescimento, com melhor utilização dos mesmos recursos. Ou seja: o ponto intangível do pleno emprego pode não estar na próxima esquina. Mas isso é impedido pela política contracionista, como mostrou em artigo sobre juros, publicado na Folha de domingo último, o ex-ministro José Dirceu. Em sua análise, Dirceu critica as explicações que responsabilizam os gastos públicos e a demanda sobreaquecida, como causa da inflação e da necessidade dos juros pornográficos determinados pelo Banco Central. Fosse verdadeiro o diagnóstico de elevação da demanda e pressão sobre a capacidade, não teria sido necessário a manutenção de juros elevados em períodos em que o governo apresentou superávits fiscais. os juros não teria sido mantidos elevados como o foram quando o governo. *** Até porque juros mais civilizados permitiriam ao empresariado “ampliar uma fábrica, desenvolver tecnologia, contratar trabalhadores” o que não é estimulado a fazer quando “Compara o retorno incerto da produção com o ganho seguro … dos títulos … aos juros”. Sem querer estimular irresponsabilidade fiscal, o autor aponta características de nosso mercado financeiro, não levadas em conta, em geral, que mereciam atenção do Banco Central: mercado financeiro oligopolizado, sistema financeiro concentrado, dívida pública fortemente ligado à taxa básica de juros. Até porque os juros praticados desanimam o empresário, que poderia correr os riscos de investir, a optar por aplicar no mercado financeiro. E conclui: afinal a “taxa de juros …. Define ganhadores e perdedores, redistribui renda, reorganiza investimentos e condiciona o projeto de país”. Em sua apresentação, Galípolo deixa claro a que proposta se vincula. ,,,,,,,,,,É isso.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Economia estável a passos mais lentos, juros ainda em órbita, dívida e populismo e os interesses da grande imprensa

link youtube: https://youtu.be/wpI70rvrQUU Em A Elite do Atraso (2025), ao tratar de mudanças cruciais herdadas dos anos 90 do século passado, como a transformação do capital financeiro em fração hegemônica do capital, Jessé Souza assinala a importância dessa evolução, e seus impactos para o desmonte do Estado de bem-estar do pós guerra e para a corrosão da base financeira de sustentação do Estado. Para o autor, a tributação no Estado de bem-estar apresentava ao menos duas características: uma base econômica constituída por empresas de grande porte, com grandes plantas industriais e massas de capital fixo; e adotava uma visão distributivista, onde quem tem mais paga mais impostos. Já o capital financeiro, sem amarras ou grilhões pode se deslocar em instantes de um lugar para outro, o que incentiva a fuga de capitais e alimenta chantagens e ameaças aos Estados. Essa nova realidade, agravada por cada vez mais importante concentração de renda, permite aos privilegiados ficarem livres do pagamento de impostos e arruína a base financeira do Estado, que, sem forças para cobrar os recursos necessários para cumprir sua função junto à sociedade, opta por obter estes recursos se endividando junto ao 1% de sua população mais rica. Substitui-se o Estado fiscal pelo Estado devedor. *** No Brasil, embora as estatísticas indiquem algum espaço para o aumento da arrecadação, o que se confirma pelos recordes divulgados a cada mês, o Estado amplia seus gastos em velocidade muito maior. O que dá material suficiente para críticas pesadas e constantes feitas pela grande mídia: ou pela fúria arrecadadora, ou pela irresponsabilidade fiscal, de natureza populista. O que a imprensa não aborda de forma isenta, é que o crescimento da receita se dá em razão de ampliação da base, dado o crescimento (embora cada vez mais reduzido) do PIB, e o aumento do nível de ocupação e emprego e do nível de renda; além do surgimento de novas atividades econômicas, passíveis de tributação, até para evitar seus efeitos danosos à população, como as apostas on-line. Quanto aos gastos exorbitantes, cobrar imparcialidade dos grandes oligopólios e grupos empresariais do setor de comunicações e mídia seria ingenuidade e pedir demais. Eles teriam que falar do 1 trilhão de gastos com pagamentos de juros, aos privilegiados que não pagam impostos; ou dos mais de 525 bilhões de reais em renúncias fiscais para grandes empreendimentos empresariais (alguns até pagam impostos e depois recebem a devolução); ou de valores destinados pelo governo ao Plano Safra, de 525 bilhões apenas na faixa de agricultura empresarial. Muito mais cômodo, para não lhes afetar a lucratividade do negócio, criticar os gastos do programa Desenrola e sua prorrogação – MERAMENTE ELEITORAL; os gastos com bolsa família e outros programas previdenciários atrelados ao salário mínimo e, como tal, reajustados acima da inflação. Todos gastos com os menos privilegiados ou a ralé, que ampliam o déficit primário (quando os gastos para funcionamento da máquina do governo e outros destinados às camadas menos favorecidas são maiores que receitas). Note-se que o déficit primário não considera os juros pagos aos que pouco pagam de impostos. *** A imprensa não fala da prévia da inflação de 0,06% em junho; não se lembra de falar da criação de mais de 145 mil vagas formais de carteira assinada em junho, que totalizam 48 milhões de vínculos ativos; do aumento do salário médio. Divulga que os números estão perdendo força, a economia mais enfraquecida, a indústria apresentando queda expressiva, sem considerar que a causa principal desse desaquecimento é a pornográfica taxa de juros, baixada ontem em 0,25%, para o patamar de 14%, ainda 9% acima da inflação. Juros que os ricos que emprestam e compõem a elevadíssima e recorde Dívida Pública recebem e com cinismo ou falta de vergonha, recebem satisfeitos, mesmo criticando a perda de controle do governo em sua gestão, o que lhes permite cobrar mais juros para dívidas de prazo mais longo. Alegam risco de o governo não conseguir pagar. A cara de pau é tanta, que escondem que a dívida é na moeda que o governo é quem cria. Ou seja, basta criar mais se quiser trocar dívida que paga juros (em títulos), por dívida em moeda, que não paga juros. *** Para a mídia, gastos com a ralé são os que incomodam e são os populistas, já que não são direcionados a seus bolsos. A economia está bem, o ambiente é tranquilo e positivo, em crescimento, mesmo que dando sinais de desaquecimento. A pauta do fim da jornada de 6 x 1, obrigatória para dar mais liberdade e dignidade ao trabalhador e permitir que passe mais tempo com a família, para o lazer, sem perda de salários, o que seria uma nova etapa em direção ao fim da escravização é tratada sempre de forma viesada, dando voz a industriais, comerciantes, empresários e financistas. Essa pauta fundamental poderá, inclusive provocar aumento da produtividade do trabalhador mais feliz e saudável. *** Embora a leitura de Keynes seja sempre deturpada por interpretações equivocadas e míopes, que o apresentam como o pai da ideia da gastança do Estado, para aumentar a demanda agregada e o emprego, mas gerando apenas inflação, essa interpretação carece de fundamento e verdade. Para ele, na interpretação da abordagem pós-keynesiana, o papel do Estado é criar e manter um ambiente de negócios que permita ao empresário criar expectativas positivas. Essas expectativas é que o estimularão a investir, já que acreditarão que terão mais demanda e aumentos de vendas, em um mercado sempre cheio de incertezas. Ao Estado compete reduzir as incertezas e volatilidades o que poderá, no limite, tomar a forma de aumento de seus gastos. *** Embora pareça estarmos vivendo uma economia dominada pela monotonia, o que o governo Lula tem feito é preservado essa estabilidade. Daí que o país cresce, apesar dos pesares e dos juros pesados. Incertezas vêm de fora, de bravatas e arroubos dignos do império decadente, patrocinados pelo poder destruidor de agentes laranjas. Foi o fanfarrão alaranjado americano que iniciou gratuitamente a agressão ao Brasil e ao mundo, inclusive aliados, com tarifação comercial. Foi ele que voltou a tarifar o país, de forma autoritária, cuja única negociação ou acordo possível seria a capitulação. Foram eles que deixaram clara a intenção de interferir no processo eleitoral de um país amigo. Que chantageiam e cortam vistos de representantes diplomáticos. Mas a imprensa, a mídia e grupos empresariais desejam é que nos curvemos de joelhos, para não terem seus interesses particulares prejudicados. E criticam o governante que mostra um mínimo de amor próprio e noção de dever com a ampla maioria dos que não têm outro país para chamar de seu.