quarta-feira, 4 de março de 2026

Pitacos em um mundo em convulsão

link: https://youtu.be/3j47MVW6o9A Os (poucos) seguidores desses pitacos perceberam, aliviados, a falta de postagem de pitacos no mês de fevereiro. Não por falta de assuntos ou oportunidades. Muito antes, pelo contrário! Tantas, tão velozes e significativas as situações que despertaram minha vontade de “também querer dar meus pitacos” que confesso ter me ficado perdido frente à sucessão de fatos novos, atropelando eventos que não tiveram tempo de serem observados e avaliados. *** Foi assim com a decisão do COPOM (reunião de final de janeiro), de manter a Selic em 15% anuais, em obediência aos analistas do mercado consultados, em razão das incertezas do ambiente externo e das condições financeiras globais. Isso, apesar de reconhecer o recuo da inflação e do dólar; da desaceleração do nível de atividade econômica e da geração de novos empregos formais. Para atenuar as esperadas e corretas críticas dos agentes da economia real, que produzem, trabalham, vendem e pagam impostos, diferente dos rentistas do mercado financeiro, a Ata do COPOM (de fevereiro) anunciou que, confirmadas as expectativas para o ambiente econômico, começaria o processo de redução, lenta e gradual dos juros no país, sem perder de vista a convergência da inflação real para meta inatingível de 3%. *** Aí veio o carnaval, o desfile da Sapucaí inflando o ego de todos os homenageados, inclusive o de Lula, cuja interferência na opção e no formato de apresentação do resumo da involução recente da política em nosso país só se sustenta para aquela fração da oposição que, acostumada a motociatas, passeios de jet-ski e intensa atividade nas redes sociais desconhece o mundo real, do trabalho. E vieram o recorde de feminicídios, os estupros coletivos, as acusações de assédio por parte das mais altas autoridades do Judiciário, quando não de interesses cruzados rompendo a imparcialidade necessária, ocorrências incapazes de serem lavadas/levadas pelas chuvas torrenciais que provocaram mortes e destruição em cidades da região sudeste, em especial na Zona da Mata mineira, vitimando, principalmente, a população socialmente menos privilegiada. *** Por fim, o agente laranja, fascista, ególatra, falastrão, que gosta de agir como se fosse o dono do mundo que, acossado pelos interesses de autopreservação dos políticos no comando do governo de Israel, dá início a mais uma empreitada beligerante, agora no Oriente Médio, em busca não de armas químicas, mas de armas nucleares, até uma possível bomba. Líder internacional de triste e patética figura, que opta por tirar da inércia seus eventuais inimigos externos, seja para poder sair dos holofotes e manchetes que o vinculam ao caso do predador e abusador sexual Epstein; seja para reverter a sua previsível derrota política nas eleições de meio de mandato, dadas as consequências da política econômica errática que adota, e penalizam o povo americano. *** No Brasil, março inicia com a notícia do crescimento menor do PIB comparados aos anos anteriores, de apenas 2,3%, puxado pela produção e exportações do agro. Sim, o resultado mostra a eficácia do BC para, sob a desculpa de combater a inflação, trabalhar para prejudicar o processo de desenvolvimento econômico e social da economia brasileira; implodir os projetos e planos econômicos do governo; fazer os rentistas ganharem lucros recordes sem arregaçar as mangas e por mãos à obra; atrair fluxos de dólar e provocar a valorização das receitas de nossos produtores do agronegócio e de commodities, cuja receita em real se expande; provocar o sucateamento da nossa indústria, e fazer a economia evoluir para o modelo primário exportador de 100 anos atrás. *** Na outra ponta, o desemprego formal para de ser reduzido; o consumo familiar cai, com a menor demanda desestimulando investimentos privados; e o país cai para a posição de 11ª primeira maior economia do mundo. E analistas econômicos da mídia elegem e combatem a crise fiscal e os gastos sociais, como inimigos públicos nº 1 do país, forma de tirar o foco do principal item de gasto a explicar os déficits públicos: o pagamento de 1 trilhão de juros. *** A mesma mídia que elogia os gastos com planos safra, dedicados à agricultura de soja e milho, gado, frango e ovos, que financiam os grandes empresários do agro ou os gastos com pesquisa e inovação tecnológica que as empresas públicas executam e se espalham para as grandes empresas. Infelizmente, gastos que não atendem ao pequeno produtor agrícola, ao produtor familiar, responsável pela produção de gêneros alimentícios que saciam a fome do povo. Ou seja: para os ricos, tudo é possível e tolerado. *** Duas outras questões devem ainda ser tratadas, de forma rápida: A proposta de redução da jornada de trabalho de 6 x 1, considerada eleitoreira, e que, mais uma vez, coloca de mesmo lado e reúne, a grande imprensa e os grandes interesses econômicos - o agronegócio, a indústria, até do setor de serviços que tanto poderá se beneficiar –, permitindo mais horário para os trabalhadores se dedicarem à família, ao lazer, à educação, ao descanso. E há economistas que defendem o interesse dos mais poderosos, destacando o efeito prejudicial da medida em nosso país, dada a baixa produtividade de nossa mão de obra. Para eles, menores horas de trabalho provocariam queda acentuada da produção, da oferta e aumento de preços. Ignoram que um trabalhador mais feliz, mais tranquilo, mais respeitado, trabalha mais e melhor, com mais eficiência. Sequer aventam a possibilidade de aumento do número de contratações. *** Outros, para agradar aos patrões, sugerem que os empresários deixem de pagar a Contribuição à Previdência Social. Com isso, propõem romper o esquema de financiamento da Previdência em nosso país, criado a partir do sistema de solidariedade tripartite, onde empregados, patrões e governo contribuiriam em partes iguais. Curioso é que não falam o porquê de a mera redução do custo do empresário conseguir melhorar a produtividade do trabalhador. Melhora o lucro do patrão. Mas com a produção do país, parecem não se preocupar. *** O segundo ponto é o escândalo do Banco Master e seu proprietário, Daniel Vorcaro, que resultou em prejuízo de mais de 50 bilhões ao mercado, alimentado por crimes financeiros de gestão temerária e má gestão. Tratamos este assunto e do papel da fiscalização do Banco Central na live de 23 de fevereiro do programa de Cláudio Porto, Da Prática Política (https://www.youtube.com/live/lzppiWfvZkc?si=lfXB7ACHTxCc3HjQ). E tem gente bem intencionada que ainda defende a total autonomia do Banco Central, sua separação completa do governo, para permitir que sua direção e corpo funcional possam vir a se tornar meros prepostos do mercado financeiro, como a teia de maus feitos e de cumplicidade armada por Vorcaro permite imaginar. Daí, NÃO À PEC 65, e à privatização do BC. É isso.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Um mês de Agnotologia e de distopia: a criação do mundo da fantasia.

link: https://youtu.be/8tyAitqmt0Y Tive a oportunidade e o prazer de assistir, uma vez, uma palestra da professora Nayla Lopes da UFMG (palestra que recomendo e gostaria de contratar!), sobre o tema de sua tese de doutorado, a AGNOTOLOGIA. Ou o estudo da produção intencional da ignorância e das políticas de produção de ignorância. Acho que não há nada mais apropriado para o início deste ano de 2026 que a referência à produção e difusão propositada do desconhecimento, de forma a embaralhar a realidade, confundir e tornar normal qualquer absurdo ou barbaridade que se queira. E tirar proveito da criação dessa distopia. *** Porque é por meio das lentes da agnotologia (Dr. Robert Proctor, e ainda o livro 1984, de Orwell) que vejo o ano de 2026, já quase terminado seu primeiro mês. Afinal, bastou que fossem abertos os arquivos do pervertido Epstein, vindo a público fotos de Trump beijando e apalpando ninfetas de forma luxuriosa que, para desviar a atenção, o agente laranja praticou ato de guerra sem qualquer declaração formal anterior de guerra. (Em 1970, o filme Tora! Tora! Tora!, sobre o ataque japonês a Pearl Harbor, tratava a ausência deste comunicado como ato de traição! A 3 de janeiro, o agente laranja, de alta toxicidade, desrespeitando todo o direito internacional, invadiu, bombardeou e sequestrou o presidente (ditador) da Venezuela, Nicolás Maduro, levando-o para prisão e julgamento fictício, semelhante às armas químicas do Iraque de Sadam Hussein. *** Estima-se que mais de 150 civis morreram no ato de agressão americana, justificado como medida para libertar o povo venezuelano da ditadura de Maduro, mero pretexto para avançar sobre as riquezas minerais do país com maior reserva de petróleo do mundo. (Só para lembrar, regimes ditatoriais, autoritários e até chefiados por reconhecidos assassinos continuam tendo não só o apoio do agente laranja que, inclusive, recebe com tapete vermelho o assassino na Casa Branca). A curta duração do ato covarde, dada a ausência de reação das autoridades e forças militares da Venezuela, levou à necessidade da fabricação de outra crise fake, com a ameaça de controle e até invasão da Groenlândia, ilha sob o controle legal da Dinamarca. *** A firme reação das nações da OTAN levou o agente laranja a procurar criar outra situação problema, dando sequência à operação abafa, da conduta imoral de Trump; da alta da inflação americana, como consequência do disparate do tarifaço; e de carona nas ameaças de Israel e seu líder extremista Netanyahu, ao Irã. No caso israelense, o fictício cessar fogo em Gaza, exigia que Netanyahu continuasse alimentando conflitos fora do país, ameaçando o Irã, desviando a atenção da mídia internacional das acusações internas que pesam sobre ele, e da selvageria da matança indiscriminada contra crianças e civis, ainda presentes em Gaza. *** Mas Netanyahu é amigo e protegido de Trump que faz vistas grossas à ação de limpeza étnica que libera a faixa – rica – do solo de Gaza para que o agente laranja ali instale ressortes de um empreendimento imobiliário faraônico. O que levou Trump a propor a criação de um Conselho de Gestão de Gaza permanente, sem a presença “incômoda” de palestinos que o transformaria em presidente soberano e vitalício. Assim, para infelicidade do povo americano, que assiste aterrorizado à selvageria contra imigrantes e até de americanos, Trump parece procurar, tal como Hitler, expandir o espaço vital do território americano. *** No Brasil, além da apresentação de estatísticas que mostram crescimento da economia, redução do desemprego para nível recorde (ou situação de pleno emprego), expansão de políticas sociais exitosas, com mais de 1,5 milhão de pessoas saindo do Bolsa Família, em razão do aumento de renda, o que se vê são interpretações da grande imprensa da irresponsabilidade fiscal do governo, com projeções de estouro do indicador Dívida Pública em relação ao PIB. O indicador Dívida Bruta/ PIB sobe, mas a agnotologia leva os agentes do mercado financeiro a criticarem, com a mídia sempre lhes dando voz e espaço, as políticas públicas destinadas a reduzirem, minimamente, a desigualdade. E ainda criticam a fala do ministro Haddad, responsabilizando os juros pornográficos de 15% ao ano, de serem o principal responsável pelo maior item de gasto do governo, as despesas financeiras – fora do teto ou do arcabouço. *** Com juros elevados a ponto de tornarem o Brasil o país com segunda maior taxa de juros acima da inflação no mundo (mais de 10%), a economia mostra sinais de paralisia, andando de lado. Por esse motivo, e não necessariamente pelo mecanismo de transmissão dos juros, os preços sobem menos e assistimos a uma desinflação (inflação a níveis cada vez menores). O BC assinala e comemora a convergência para a meta absurda da inflação no horizonte relevante. E mantém a Selic e as ameaças de que poderá não iniciar o processo de redução das taxas, dada a incerteza no ambiente, para a qual pouco contribuímos. *** Pergunto-me, mais uma vez, se o BC é que decide o comportamento a ser adotado pelos agentes financeiros ou se é o Banco que obedece às determinações do mercado, que já precificava: ontem não teria alteração e até o fim do ano a Selic chega a pouco mais de 12%. Que o Banco deve explicações não há dúvida: do porquê manter a meta irreal de inflação de 3%; de porque deixou o caso do Banco Master, já suficientemente comentado no mercado assumir as proporções e valores que tomou; de porque o presidente anterior, Campos Neto, não agiu para liquidar um banco insolvente, ilíquido, que não cumpria o compulsório e com ativos falsos; porque o Banco se arvora e arbitrar o que é “good bank” ou a parte podre, sem punir, imediatamente ao gestor. É verdade, o escroque do Vorcaro tinha meia república na mão ou em sua contabilidade. Entre agentes do mercado e do Estado, criou uma blindagem que serve para criar várias justificativas. Todas de acordo com a agnotologia. *** Para escapar de dar as devidas explicações em relação ao comportamento das Igrejas no escândalo do desvio do dinheiro dos aposentados do INSS, Nikolas Ferreira, o deputado virtual, faz peregrinação e um fenômeno da natureza ajuda a distrair a atenção. Para não aparecer na condição de presidiário sem mais qualquer importância, o ex-presidente golpista, lança seu filho candidato à presidência. Ao menos o sobrenome continua na berlinda. E o chocolateiro rachadinha, da sua mansão de milhões em Brasília, procura dar sequência à atuação de sua familícia e dos sabujos que cercam seu pai, estes com apoio dos agentes financeiros do mercado e de toda a grande imprensa. O que sinaliza a direção perigosa que o andar de cima deseja para o Brasil e seu projeto de descarrilamento.