quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Declarações grotescas: até quando vamos assistir calados? Em solidariedade a Patrícia Campos Mello, a agredida da vez

Se fosse realizada uma pesquisa de opinião pública visando determinar a característica mais marcante desse desgoverno Bolsonaro, sem dúvida, o ritmo vertiginoso de ataques frontais à democracia e aos valores de uma sociedade fundada no convívio social seria, de longe, a opção mais citada.
Porque o conjunto de trapalhadas, de medidas anunciadas em um dia e desmentidas no dia seguinte pelo presidente ou seus auxiliares mais próximos, a quantidade sem fim de confusões, de declarações estapafúrdias, grosseiras, misóginas, preconceituosas, desrespeitosas e tantos outros adjetivos que se queira utilizar para mostrar o nível reles com que o presidente trata os assuntos públicos é tão constante, que fica difícil conseguir acompanhar e dar qualquer pitaco.
Sob pena de os pitacos ficarem completamente defasados e, por isso, reabilitando fatos já caídos na vala do esquecimento.
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A saraivada de asneiras, tolices, desperdício de oportunidades de ficar calado, ou apenas situações que seriam, em outros tempos não tão remotos, motivos de ações de crime de responsabilidade ou falta de decoro, se reproduzem com tamanha voracidade que, cada vez mais este comportamento alimenta minhas mais temerárias suspeitas, reforçando o conjunto mais recôndito de teorias conspiratórias que insisto em ir cultivando.
A esse respeito volto a seguir.
Mas essa introdução é para dar uma satisfação a um dos raros leitores desses pitacos que, não satisfeito em ler meus comentários, ainda sugere temas para minha análise.
Pois bem, Lorran, embora pareça já ter passado um tempo imenso, foi ainda no dia 7 último que você me pediu para comentar o caso José de Abreu e Regina Duarte, e o bate-boca que o ator provocou pelas redes.
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Começo por afirmar que não me surpreendi nem um pouco com a decisão de Regina Duarte, dita namoradinha do Brasil, de aceitar o convite e vir integrar o governo Bolsonaro.
Afinal, se a atriz de Malu Mulher preferiu passar à memória nacional como a personagem de viúva Porcina, isso é problema pessoal dela que, como uma cidadã já deixou claro, certa vez, que tinha muito medo do que estava por vir no nosso país.
Assim, em minha opinião, não há nada de mais, ou de criticável em que essa mulher tão medrosa, tão incapaz de lidar com a divergência, tão pouco afeita à vida e à luta democrática, pudesse deixar-se enfeitiçar pelo discurso de um candidato, autoproclamado de formação militar, com um discurso de segurança e militarizaçao,  e tutela da sociedade,  a ponto de vir a contribuir com esse despautério que é o governo atual.
Como disse, problema dela. Como foi uma vez problema da atriz Marília Pera fazer a apologia do governo Collor, ou de Cláudia Raia, naquele mesmo governo(?).
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De Zé de Abreu, o que vi é que ele teria dado uma declaração de que sabe o que eles fizeram na casa dela, acho que na Barra. E já vou dizendo que eu não sei, nem quero saber. Eu não estava naquela casa, e nem me interessa saber o que se passa na casa de quem quer que seja, apenas por ser artista global.
Mas, se aconteceu alguma coisa que levou o ator a mencionar o fato, como se fosse uma ameaça, boa coisa não deve ter sido, e ator ou não, petista ou não, em minha opinião, o Zé apenas mostra um lado rançoso de ciúme(?), rancor(?), falta de caráter (?), vai saber!!!
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Na oportunidade, ouvi dizer que ao criticar  a colega (?), o ator sofreu imediato bombardeio pelas redes sociais, a maior parte das cobranças e ataques fazendo referência a seu comportamento preconceituoso em relação à mulher.
Ora, se ele atacou a amiga/colega/desafeto Regina, que adotava posição que ele não aprovava, porque daí classificá-lo como se misógino fosse?
Soube então que ele enviou um áudio à Mônica Bérgamo, em que afirmava com uma grosseria digna de qualquer membro da família Bolsonaro, que fascista não tinha sexo.
Era fascista e, por isso, nem passível de ser classificado como ser humano.
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Opinião do Zé de Abreu e manifestação, tão digna de repulsa quanto a do presidente que insinua que a repórter que lhe investigava os maus feitos de campanha tinha intenções outras, de cunho sexista.
Quero deixar claro que não estou tratando da expressão agressiva para o contexto em que foi utilizada (vagina – termo que nada tem de agressivo em minha opinião, não fosse o contexto em que foi empregado; termo usado na frase, “vagina não transforma um fascista em ser humano” ).
Para mim, o Zé de Abreu se igualou ao clã que critica, por considerar que um fascista não seja um ser humano. Por pior que seja adotar uma postura fascista. Por maior que seja a distância que gostaria de manter de pessoas com tal comportamento. Fascistas são pessoas humanas. De péssima formação, mas ainda humanos.
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Nesse sentido, o Zé poderia ter sido mais elegante e, simplesmente ter dito que seu comentário e crítica era em relação ao ser político, e não à mulher. Porque não há mesmo uma correlação, nem grau de determinação que vincule ser fascista com ser do sexo masculino. Ou feminino.
Nesse caso, o Zé até valorizou mais a mulher, no sentido de que se antes ela não podia ter opinião ou adotar posturas ligadas ao comportamento político, voltada que estava para os afazeres e obrigações domésticas, ela agora é cidadã. E como tal adota e manifesta os comportamentos que quiser adotar em nossa sociedade.
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Alguns tentaram defender o Zé, sob a alegação de que não dá mais para ficar bordando de flores e cores róseas a postura fascista, nazi-fascista de certos setores de nossa sociedade. Mais ainda quando se comemora aniversário da libertação de prisioneiros de Auschwitz.
Outros alegaram que esse tinha de ser mesmo o tom usado por quem quisesse se opor ao que vem acontecendo no Brasil, que caminha tão aceleradamente para o autoritarismo, para radicalismo, para a insanidade, a ponto de Bolsonaro com seu discurso tosco e comportamento completamente estúpido ser aclamado como Mito. Mercê de suas reiteradas grosserias e seus maus modos.
Não concordo com esses argumentos.
Em minha formação, aprendi a cultivar a moral burguesa, por mais limitada que seja, ou mais direcionada ou manipulada.
Aprendi que o Zé poderia, de forma mais elegante, se referir ao fato de que ele não falava de  mulher, gênero. Mas de postura política.
Para mim, ele apelou. E sou de opinião que apelou, perdeu.
Mas o limitado sou eu. E minha moral tacanha.
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Daí porque acho que a insinuação do presidente em relação à profissional repórter, de reconhecida competência e respeito entre os colegas, também não pode ser tolerada.
E falta de decoro é falta de decoro, por mais que o presidente, sem admitir o erro ainda tenha a desfaçatez de perguntar se ele promoveu alguma agressão de cunho sexual à jornalista.
A resposta é uma só: não presidente. O senhor agrediu a todos os brasileiros. A todos os que prezam os valores democráticos. A todos os cidadãos de bem. Pais de meninas que não foram uma fraquejada...
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Mudando os exemplos, sem mudar o tom de lástima de tantas declarações atabalhoadas, esse desgoverno tem sido pródigo em armar armadilhas para si mesmo.
Está aí o Guedes e suas declarações ou comparações do funcionalismo público e os parasitas. Logo ele, que em sua pretensa cartilha liberal, deve evocar com tanta ênfase a questão da meritocracia.
Ah! Ajudante de ordens de Pinochet, fantoche de ditadores sanguinários, todo funcionalismo público é composto daqueles seres que foram capazes e competentes para obterem uma aprovação em concurso público.
Por mérito.
Diferentes de sua passagem pelo governo, sempre a convite, já que se houve algum concurso que o senhor tenha se prestado a fazer foi o concurso de investigados por gestões fraudulentas, altamente questionáveis, em fundos de previdência e fundos de investimento, conforme denúncias do MPF e do Tribunal de Contas.
Espertamente, e por méritos seus, sinistro, o senhor não amargou os prejuízos que causou, do alto de seu saber. Mas isso não o impediu de ter benefícios pessoais.
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E tem ainda a outra declaração, completamente preconceituosa, contra a mulher trabalhadora que representa nossa população: a doméstica.
Sabe, sinistro: a mulher doméstica não é uma mulher pobre e sem direitos de viver sonhos e realizá-los. Ela tem todo esse direito. O que ela não tem é condição de tentar melhorar de vida, por falta de educação, que o governo de que o senhor faz parte, boicota. Por falta de emprego, questão que o senhor tem sido incapaz de resolver, embora atribuição sua.
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Mas o senhor está mais preocupado em trazer de volta o AI-5 ou ameaçar a sociedade civil que não se comporta como o senhor gostaria com ele. O senhor está mais preocupado em reduzir os direitos trabalhistas, para ajudar os poderosos de sempre, a quem o senhor adula.
Porque, convenhamos, ser participante de um governo como o de Pinochet, que deu tão errado como as manifestações recentes no Chile têm mostrado, não é sinal de ser tão liberal assim.
Ou por outra: liberal nos mercados e na crença no poder divino do mercado e da grana (essa mesma que “ergue e destroi coisas belas”) e nenhum traço liberal na vida social e no respeito ao Indivíduo.
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Nesse meio tempo, tivemos Weintraub errando a redação de postagens em português. O que me leva a crer que o ministro usa dialeto próprio.
Tivemos a desfaçatez de o Conselho de Ética, sem qualquer pudor ético, arquivar o processo aberto contra o secretário da Comunicação Wajngarten sob a  denúncia da prática de advocacia administrativa.
Tivemos, mais um militar, ou dois, nomeados para ocuparem cargos no Planalto.
Esse tema, acho importante tratar em outro pitaco.
Afinal, várias patentes militares, representando a imagem da instituição que tanto prezam, todos no governo, subordinados a um indivíduo que não tem condição e estatura moral para ser recruta, é no mínimo, uma questão de hierarquia que merece ser mais bem analisada.
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Também fica para depois dar pitacos sobre o miliciano amigo do Bolsonaro e de seus filhos. A queima de arquivo que Bolsonaro se dispôs a defender, porque o capitão miliciano “não tem nenhuma sentença transitada em julgado”.
O que une os dois temas: militares no Planalto e milicianos no governo e no poder. Até quando essa convivência vai funcionar?

Um comentário:

Unknown disse...

Lorran Bortoletto

Sobre as polêmicas falas de Zé de Abreu ditas sobre Regina Duarte,em áudio para Mônica Bergamo merece total repúdio por todos e como escreveu o Paulo Feitosa não existe correlação entre fascismo e gênero masculino ou feminino. Já que fui citado me sinto obrigado a escrever algo sobre o tema, pois, era uma conversa de chat do Facebook, mas como o Paulo trouxe como uma temática para o pitacos de hoje. Toda a polêmica se iniciou com Zé de Abreu tecendo críticas a indicação de Regina Duarte para Secretária/Ministério da Cultura. Saindo dos xingamentos e falas grotescas do ator, no Brasil é mais fácil dizer que gosta ou não gosta de alguém do que levantar as contribuições que cada pessoa pode dar e já ofereceu de relevante a profissão,a sociedade e a cultura. Acredito que o verdadeiro debate não ocorreu a cultura pode realmente ser incentivada de cima para baixo? Os projetos que os artistas apresentam para empresas a "grosso modo" e que decidem apoiar um determinado artista ou projeto, mesmo que uma empresa esteja disposta a disponibilização de recursos para peças de teatro, filmes e festivais a troco de isenção fiscal para a empresa , mas a determinação para aceitar projetos será em consonância com o governo que pode ser de esquerda ou direita. Mas a esquerda ou a direita não a mínima capacidade de dizer o que é cultura. A cultura deve vir do povo brasileiro como expressão de vida, experiência, vivência regional como visto nas obras de Graciliano Ramos,
Guimarães Rosa,Érico Veríssimo e Jorge Amado são exemplos de autores que percebam a cultura real para a literatura. A expressão do artista em músicas, filmes e no teatro não deve ser limitada por um burocrata de esquerda ou direita nomeado por um político e a cultura deve vir de baixo para cima. O grande problema é que os artistas desconhecidos não têm a mesma oportunidade que os "globais" e que as grandes empresas não apoiam os pequenos projetos sabendo que não terá um "global".