segunda-feira, 15 de junho de 2026

A arte da Política e a PEC 65, aprovada na CCJ do Senado

no youtube: https://youtu.be/7JwsJK3rtoE Entre as lendas que povoam o imaginário popular e vão se tornando uma tradição com o passar do tempo, sem dúvida deve ser incluída a da sabedoria ou astúcia mineira em relação ao domínio da arte de se fazer política. Vários são os fatos, os causos, as nuvens de diferentes formatos acompanhadas de mudanças de opinião e argumentos que embasam decisões, e que asseguram ao matreiro político mineiro estar sempre do lado vencedor, ao lado da decisão adotada. *** Não à toa, buscando inspiração para iniciar este pitaco e em dúvida quanto ao uso do termo matreirice, recorri ao Google, e o mestre à indefectível “Visão geral criada por IA”, que desconfio ser muito pouco infalível. De qualquer forma, está lá: “O termo é frequentemente associado à política mineira (especialmente na Primeira República), onde a "matreirice" descrevia a habilidade dos líderes de usar o jogo de cintura, a sutileza e a persuasão para contornar rivalidades e moldar as situações a seu favor. “ Ou seja: a esperteza de, ficando rouco de tanto ouvir, acabar sempre se aproveitando da lei de Gerson, aquela de levar vantagem em tudo, vendendo a ideia de, por não se manifestar de forma clara, estar sempre da ideia ou da melhor opinião ou solução para alguma situação problema. *** É verdade que a fama decorre da República Velha, dos coronéis da política do café com leite que, com a chegada da Revolução de 1930 ao poder, tiveram que se adaptar, sob outra roupagem, sem, contudo, perderem o poder que nunca deixaram de exercer. Mesmo nos regimes militares ditatoriais. Como também é verdade que a experiência autoritária gerou, como não surpreende a ninguém, a perda do vigor e do aprendizado que apenas o processo de eleições democráticas permite desenvolver. O que permitiu que, na virada do novo milênio, Minas elegesse golpistas cuja única referência era uma suposta tradição de família ou, mais recentemente, empresários sem qualquer brilho empresarial, social ou intelectual. *** Na antiga tradição mineira, dizia-se que só se inicia uma reunião para votar aquilo que já foi decidido antecipadamente. E que não se leva nenhum assunto à discussão e votação, se houver uma mínima chance de derrota. Foi não levar a sério a advertência mineira que fez o governo Lula e sua liderança, amargarem a derrota que lhe foi imposta na CCJ do Senado, na semana passada, pela oposição ao Brasil, com a aprovação simbólica da PEC 65, que dá ao Banco Central o estatuto de 4º Poder do Estado Brasileiro. *** Muito já foi dito do mal que a independência do Banco Central representa para a sociedade brasileira e seus mecanismos de exercício democrático do poder, via processo eleitoral, livre de influências do poder econômico e dos interesses dos grandes grupos, seja da grande imprensa tradicional, seja das big techs e das redes sociais que comandam. No entanto, o poder do sistema financeiro e suas instituições, todas aplaudindo e apoiando a independência do Banco Central; a capacidade de exercerem o poder de financiamento de campanhas por formas oblíquas, ao arrepio das leis; a bancada de seus defensores entre os parlamentares do Legislativo, nunca exagerada como o caso Master não nos deixa esquecer, todo o peso de um setor empresarial que ânsia por dominar e deter a chave do Banco Central, capaz de emitir dinheiro, acabaram se impondo e exigindo a imediata votação, em plenário, da PEC da Privatização do Banco Central. *** Foi um Rothschild da família dos banqueiros quem disse “"Permitam-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação, e não me importarei com quem faça suas leis." Para quem deseja apenas obter mais dinheiro do uso de dinheiro, sem nenhum benefício de produção real (gerador de bens, utilidades ou empregos), sem contribuir para o PIB, para o desenvolvimento social inclusivo e harmônico do país, nada melhor que ter controle sobre a fábrica de dinheiro do país. E é isso que a PEC faz, transfere para o Banco Central, sob a fiscalização e controle do Congresso, os ganhos provenientes de se emitir dinheiro por parte do governo: a senhoriagem. *** Sob a falácia de se promover uma modernização na nossa Autoridade Monetária, capaz de equipará-la a outros Bancos Centrais internacionais, ou pior ainda, de visar tornar o Banco Central independente da política e dos interesses politiqueiros que podem vir a contaminar seu trabalho, buscam afastá-lo completamente do governo, do Estado e da sociedade, que no Estado de Direito nele se faz representar. Não por acaso, Rothschild queria apenas ter o poder de emitir, sabendo que o controle legislativo é uma piada de mau gosto. *** Se o Estado perde, o governo fica sem condições de fazer política econômica e de desenvolvimento social, se perdem os poucos empresários que ainda se preocupam em produzirem riqueza real não contaminada pelas meras aplicações financeiras, se perde a população, quem se beneficia com a PEC 65? Os banqueiros que poderão continuar controlando as taxas de juros e impondo suas previsões e expectativas ao Banco Central, sob a pretensa defesa da missão de combate à inflação do Banco. Todos os que estimulam a permanência da divisão profunda da sociedade em distintas classes, em que a uma minoria tudo é permitido, enquanto à maioria tudo é dificultado, com o acesso à saúde, educação e a bens coletivos sendo liberado apenas aos poucos que puderem pagar por eles. *** Talvez a uma minoria de funcionários do Banco Central, ao menos nos sonhos que acalentam de poder ter o direito de decidirem quanto irão passar a ter de remuneração, livre de tetos e quem sabe, também, no futuro, até de empregos, já que regidos pela legislação madrasta da CLT e eventuais futuras reformas. Estes, além do risco ao seu emprego, poderão deixar de ver seu trabalho e a qualidade dele respeitados. Mas isso pode não incomodar aos que sonham em frequentar o ir e vir da porta giratória dos regulados e reguladores.

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