quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Dilma, Temer e o golpe: prenúncio de uma luta civil?

Gostaria de começar esse comentário dizendo que votei em Dilma no segundo turno das eleições para presidente no ano passado e, nem bem tinha saído o resultado dessa que foi a mais encarniçada eleição do período recente do nosso país, já experimentei a sensação de arrependimento.
Para isso, bastou a indicação do nome de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, cuja maior credencial era já ser egresso dos quadros da diretoria do Bradesco, além de já ter integrado os quadros do governo federal e ter sido secretário do Rio de Janeiro.
Devo deixar claro que nada tenho para opinar em relação à pessoa do ministro, a quem considero ser um homem bem intencionado. Mas, o fato de ter saído do setor financeiro já fez acender, para mim, o sinal de alerta.
Pouco depois, as suas primeiras falas, sempre a favor de um ajuste fiscal feito a ferro e fogo, e de medidas destinadas a, de um só golpe, promover o acerto de todas as situações contábeis precárias ligadas ou derivadas de petróleo, combustíveis, energia elétrica, juros etc. me levaram a temer pela saúde da evolução da economia brasileira nesse 2015.
Pior, em meio a todas as pregações a favor de ajustar as contas públicas, situação que, em  tese, ninguém em sã consciência pode ser contrário, começamos a assistir uma série de medidas de elevação de alíquotas de impostos e cortes de gastos, sempre em prejuízo da população, sempre em prejuízo dos trabalhadores, sempre em prejuízo, e aqui ainda mais, do funcionalismo público.
Enquanto isso, para mostrar a autonomia que tantos cobraram não ter sido demonstrada no primeiro mandato de Dilma; para mostrar que não se sujeitava a pressões políticas e não era o covarde que não se manisfestava, como andaram insinuando no primeiro mandato (vide o apelido Pombini, que lhe foi atribuído) o presidente do Banco Central, Tombini e sua diretoria colegiada resolveram promover a elevação desvairada das taxas de juros, adotando o receituário tradicional de combate à inflação de demanda, muito embora não tivéssemos AINDA sob um descontrole inflacionário, e caso a inflação se elevasse seria provocada por outros motivos: a inflação administrada.
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Os amigos que acompanham esses pitacos sabem que desde o primeiro momento, tornei-me crítico do modelo de administração da economia adotado por Levy, que apenas não se esqueceu de mexer nas contas relativas ao pagamento dos juros, estratosféricos, aos titulares da dívida pública, que começou a apresentar crescimento espetacular, ou deu continuidade ao movimento que já vinha acontecendo, em relação a sua participação no PIB.
Mas, não apenas os interesses dos credores (leia-se os grandes investidores institucionais, os aplicadores e especuladores financeiros, os bancos e instituições financeiras, nacionais ou estrangeiros) foram sempre privilegiados e poupados do facão. Todas as desonerações concedidas aos empresários sob a forma de incentivos, subsídios, juros especiais, tudo foi poupado ou continuou sendo seguido à risca, para não levar o governo a ser acusado de quebra de contratos, o pior dos mundos no mercado financeiro.
Quebra de contratos em relação aos programas de assistência social, aos trabalhadores, etc. essas sempre são toleradas, a bem da economia nacional. Ou seja, sempre é citada a necessidade de se fazer algum sacrifício para que a economia possa corrigir seus problemas. Desde, claro, que o sacrifício seja dos outros. Dos que têm menos. Dos que podem menos e insistem, ainda assim, em sobreviver e vir infernizar a vida dos que merecem viver bem.
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Mas, Dilma continuou nos traindo e ao voto dado, fazendo uma política de loteamento dos cargos do governo que me levou a dizer aqui que, embora fossem 39 os ministros escolhidos, apenas uma meia dúzia de 3 ou 4 se sobressaiam. Entre eles, brilhava Patrus Ananias.
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Antes de prosseguir, é importante dizer que meu arrependimento, incontestável não significa que poderia ter votado em Aécio.
Continuo com a minha opinião, desde aquela oportunidade até agora, que esse seria ainda pior. Se está mal com Dilma, com o senador por Minas que se apresenta e que gosta de se portar como menino do rio, o que mostra a sua responsabilidade com aqueles que nele acreditaram, seria ainda mil vezes pior.
Talvez então, preferível fosse agir como fiz em 2010, em que anulei o voto no segundo turno, já que entre o ruim e o ruim, não havia muita diferença.
Serra merece, ao menos, meu respeito, como intelectual e professor que é. Cada vez mais, no entanto, vai perdendo qualquer fascínio que possa ter exercido em quem conhece sua obra. Cada vez mais, se apequena, por querer ser o maior, ao menos o maior e primeiro dos funcionários públicos: o presidente.
Mas Aécio não! E ele tem demonstrado o acerto de minhas opiniões, rasgando e traindo a história e trajetória e a memória de seu avô, que conservador que fosse, era antes um democrata.
Com sua fisionomia de pancake (parafraseando José Simão), com sua fisionomia inchada de felicidade, cada vez mais ele faz jus ao apelido, ainda não lhe posto, de Aécinho Flu-Flu, adepto do tapetão como desavergonhadamente tem se mostrado.
Por mais estranho que possa parecer, fica cada vez mais claro que o menino do Rio, mimado, cria do avô, e birrento transforma-se em alguém que se não tem o brinquedo desejado faz pirraça, esperneia e não respeita nenhum limite até que possa obter o mimo que não conseguiu de formas mais nobres.
Aécio e o tapetão: tudo a ver. Aécio e a derrota: que derrota, se podemos dar o golpe.
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Dilma é antipática e péssima política. Parece destrambelhada, o que se confirma com uma dezena de tolices que ela andou protagonizando, com declarações que provam que não existe a categoria da mulher sapiens. Embora na do Homo Sapiens, existem mulheres mais inteligentes e capazes que muitos homens.
Em política, conduz-se tão mal, que não conseguiu se cercar de nenhum assessor capaz de lhe dar conselhos políticos que rompessem o nó que a eleição apertada anunciava que estava sendo, cada vez mais aplicado e apertado.
Foi assim na eleição da Câmara, em que por não aceitar se compor, teve de engolir Cunha vencedor. E adversário.
Ora, Cunha é daquele tipo de pessoa que ninguém pode querer ter como inimigo. Como amigo, estando próximo, já é suficientemente perigoso tamanha sua falta de caráter. Distante, como inimigo, revela-se mais que um adversário desleal. Revela-se um gangster.
E o facínora não perdeu nenhuma oportunidade para mostrar à presidenta do que era capaz. Só para atazanar.
E tome pauta bomba. E tome reações do governo, todas de infelicidade extrema. E tome Dilma fazendo biquinho e falando bobagem, e jogando mal.
Diz-se que ela não quis se sujeitar à chantagem do Congresso e dos partidos da base aliada, que nem base de sustentação eram, e muito menos aliada.
Aliada a quem? Ao poder?
Então tá.
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Culmina com o que ela fez com o vice, tratando-o como todos os vices sempre foram tratados na história do país: todos sabem que vice não vale nada. A menos que...
É tradicional que o vice seja apenas um enfeite, tendo sempre assento nos conselhos onde se discute e decide a vida do país, embora com voz e não com voto. Menos ainda com poder de veto.
Mas, mais uma vez, agindo de forma politicamente incorreta, Dilma deu a Temer protagonismo, chamando para ajudá-la na coordenação junto aos parlamentares. Ou seja, colocou a raposa para negociar no galinheiro.
E, temendo o protagonismo, e acatando a opinião de parte de seus assessores, para quem Temer representaria um perigo, jogou Temer no vazio. Deixou o vice no centro do palco, sem luz, sem texto, mas com platéia.
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Talvez o próprio Temer não tivesse a condição ou vontade de representar um Ricardo III, mas, já que o cavalo passou montado, vale mais a pena manter o cavalo próximo. Até para trocar por um reino.
Temer também teve a oportunidade de revelar-se, e ao fazê-lo realçou a figura de Dilma.
Sedento pelo poder, Temer mostrou que a questão do impeachment só está na pauta do país porque Dilma é antipática.
E golpes e mais golpes vêm sendo brandidos por aqueles que mostram sua ausência de caráter ou ausência de outro predicado senão o de sendo brasileiros, honrarem a lei injustamente conhecida como Lei de Gerson, aquela que manda levar vantagem em tudo.
Li, não sei se de fonte confiável, por não me  recordar, que Hélio Bicudo, o ex-petista que é um dos autores da proposta de impedimento, que ele ficou revoltado com o seu ex-partido, depois de não ter obtido uma indicação de cargo internacional que almejava.
Na própria família de Bicudo, cujo nome inspira a comparação com os tucanos, tem filhos que não concordam com o comportamento do pai.
O PSDB quer apenas punir quem lhes venceu, no uso da mesma tática que líderes que eles devem admirar, como Auro Moura Andrade, sempre usou. O golpe e a mentira.
Tucanos de alta plumagem e cores que chamam a atenção, além do bico longo, são animais que por sua natureza são considerados como potenciais predadores.
Do PMDB, nada a declarar. Todos sabem o monte de podridão que a sigla contém.
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É assim que se legitima um pedido que não passa pelo crivo jurídico sob qualquer análise. Ou assim que se vota, abrindo um precedente perigoso, a eleição da indicação dos membros do Conselho Especial que irá tratar da primeira fase de aceitação ou não do impeachment. A escolha que os líderes decorativos deveriam fazer, mas que os seus liderados lhes cassaram o direito. Tudo isso que Temer nos afirma ser legítimo, embora não seja essa, a princípio a opinião de Fachin, ministro da Suprema Corte. Coisa que não abala nossa digníssimo vice, para quem é tudo normal.
Por isso afirmei que sem Dilma, devemos Temer o que vem por aí.
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Eu vi e fiquei abismado com o que vi ser a sessão legítima da Câmara, na opinião de Temer. Sem direito a qualquer debate, negado por Cunha.
O mesmo debate que, no Conselho de Ética, faz arrastar a decisão de levar avante ou não a investigação contra o próprio Cunha.
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Não gosto de Dilma. Arrependi de ter votado nela. Não gosto e critico sua política, muitas vezes de truculência, e que está levando o país aonde o mercado sempre desejou, para poder defenestrá-la: ao caos.
Mas que Dilma não pode ser acusada de ter cometido crimes para dar início ao impeachment, isso é óbvio.
Que querem transformar, mais uma vez, o Congresso em circo, para o que não faltam palhaços, é também nítido.
Que há golpe em deslanchar um processo que não deveria ter sido iniciado, para que o curso político o leve avante, é claro.
Meu medo é que no embate das ruas, se acirre ainda mais o que já foi uma baixaria e agressões gratuitas, feitas de forma virtual pelas redes sociais, que foi o clima das eleições.
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A irresponsabilidade de uns que só pensam em seus interesses próprios podem estar nos levando a deflagração de uma guerra civil.
De minha parte, embora temendo as lutas que poderão vir, continuo achando que a arma da luta política tem nome: voto.
Mas, há quem não se contente com essa arma, por não poder tê-la, ou ao menos em maioria.

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