quinta-feira, 16 de abril de 2020

Troca de ministros e manutenção do sofrimento de sempre do povo. E você, aceitaria o convite?


Finalmente, chegou ao fim a passagem do deputado médico Luiz Henrique Mandetra pelo cargo de ministro da Saúde do desgoverno Bolsonaro.
Não me entendam mal. Iniciar esse pitaco com o advérbio “finalmente” não deve ser interpretado como expressão de alívio. Antes, revela o desfecho da ilustração mais recente, arrastada e inequívoca do que se convencionou chamar de morte anunciada.  
Queda que, nesse momento, todos os brasileiros devemos lamentar.
Principalmente considerando-se os motivos de sua demissão, em minha opinião, distantes da mera questão de sua competência como médico, da postura técnica adotada conforme recomendação dos principais e mais reconhecidos órgãos de saúde do país e do mundo, OMS à frente, e mais afastada ainda de uma preocupação autêntica com a saúde do povo brasileiro.
Não custa lembrar que Mandetta foi um dos deputados que se aliaram ao golpe contra os interesses do povo, senão de sua totalidade, da maioria que elegeu Dilma presidente, em 2014.
Se vale para Bolsonaro e os estúpidos que lhe servem de claque e apoio o argumento de que Bolsonaro foi eleito democraticamente e, portanto, representa a vontade da maioria, em termos de lógica pura e simples, o mesmo argumento deve valer, ou deveria, para o mandato conquistada por Dilma nas urnas.
Por mais que a presidenta tenha pisado na bola e, no melhor estilo cavalo de pau, tenha dado uma guinada tão feroz em seus planos e sua agenda, que tenha cometido, SIM, um estelionato eleitoral.
Mas, fazendo um breve parênteses, creio que em situações de estelionato, apenas quem se sentiu iludido e enganado tem o direito de prestar queixa e reclamar.
Seguramente não seria esse, nem foi esse o caso dos eleitores do escroquinho Aécio, então o dono da mais brilhante carreira jamais vista em nosso país.
Mas, eleita ou não por uma maioria, a minoria derrotada não deu sossego, não deixou Dilma governar, e acabou patrocinando o golpe que culminou com seu impeachment: águas passadas.
Mas nessas águas, Mandetta nadou de braçada, mostrando que o povo e a vontade popular, para ele, não são tão dignas de respeito e consideração.
Golpista, o médico Mandetta aceitou trabalhar na campanha em prol da candidatura e, depois, das eleições, na equipe de um homem que sempre foi favorável à tortura e à morte.
Não foi Bolsonaro o autor da frase que o problema do golpe de 1964 foi não matar uns 30 mil?
Não foi ele que sempre elogiou a ditadura sanguinária que se implantou em nosso país?
Não foi ele quem, nas oportunidades que teve, elogiou um autor e comandante das torturas?
Em relação a Mandetta, é no mínimo curioso que quem tenha feito o juramento de Hipócrates, em defesa da vida, pudesse estar ao lado, apoiar, e participar de um governo sob tal comando.
Mandetta sai como herói do povo mais oprimido, defensor das causas mais populares talvez por ter, agora no estágio final de sua presença sob holofotes, ter se recordado do juramento feito um dia, e ter ficado do lado da conservação da... Saúde!!!
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O que não o impediu de, ao lado de Bolsonaro, dos ideologopatas, principalmente os da extrema direita que infestam o país, até mais perniciosos que o Covid 19, ter ficado contra o programa Mais Médicos, que ajudou a extinguir.
Nesse caso, convenhamos, grande parte dos médicos brasileiros, com capacitação semelhante até àquela de seus colegas cubanos, adotou a mesma posição, o que valeu o apoio da categoria, de forma maciça ao candidato da morte.
Mandetta, então, está longe de ser o santo, ou o médico preocupado com a saúde no geral, e em especial da população menos favorecida do nosso país, que alguns desavisados agora lhe atribuem.
Foi um político e pode ter aproveitado uma janela de oportunidade para se redimir, ou tão somente, para voltar à política com mais, muito mais respaldo, apoio e força.
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E o que esperar de seu substituto, Teich?
Especialmente sabendo-se que foi nomeado para um cargo de confiança de Messias, o Bolsonaro?
O que esperar depois de terem conversado, a sós, por algum tempo? Será que a ingenuidade de alguém pode fazer supor que o novo ministro tem uma linha de pensamento e foi apresentdo como novo titular da saúde para fazer algo distinto do que seu mestre mandar?
Ora, ele tem um currículo. Sim, respeitável. Em sua especialidade de oncologia, merece todo o respeito.
O mesmo dizem os que o conhecem quanto a sua capacidade como gestor. Afinal, como gestor, alguns tiram do baú a informação e trazem à baila sua amizade com Guedes... Para mim menos um ponto na sua avaliação.
Como gestor, mostra a sua racionalidade suprema, como alguém que, frente a recursos escassos consegue tomar decisões cruas, duras e, talvez necessárias. A ter que gastar recursos escassos com alguma parcela da população, que o seja com os mais jovens.
Afinal, os velhos estão condenados mesmo a apenas cumprirem a trajetória final de sua existência.
Mas..... onde fica mesmo a questão dos conhecimentos e experiências incorporados ao longo da trajetória e que na literatura se convencionou chamar de “learning by doing”?
Não são os mais velhos que, detentores de conhecimento adquirido pela experiência (“tacitness”) teriam que ser preservados para transmitir e ensinar lições aos tais jovens que o novo ministro acredita serem mais úteis à sociedade e mais merecedores de sacrifícios?
Correndo o risco de ser acusado de estar apelando, quem pensa e se manifesta como o ministro no aúdio que correu as redes sociais na noite de ontem, não está apenas deixando claro que deseja que sempre esteja sendo reinventada a roda?
Onde a evolução? Onde a visão evolutiva que marca a tecnologia, o avanço das técnicas de produção, e até da economia, que Bolsonaro e o ministro parece terem interesse comum e proteger?
E não digo isso nem como idoso, nem como professor. Meus alunos têm muito mais a aprender com outros colegas meus, sem dúvida.
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Mas, vamos nos colocar no lugar do ministro Teich e aplicar o tão propalado conceito de empatia.
Estivesse no lugar do doutor, eu recusaria o convite de ser ministro, coroamento e reconhecimento de toda uma vida de lutas e sacrifícios?
Confesso que, convidado em minha área, a Economia, talvez eu aceitasse me tornar ministro mesmo desse desgoverno.
Mas já vou logo avisando, para adotar a minha linha de ação e pensamento, sem arredar pé em nem um milímetro do que penso ser o correto a fazer.
O que significa que não duraria mais que um ou dois dias no cargo, já qual João Batista, teria logo minha cabeça requisitada, em bandeja de prata pelas Salomé que dominam o mercado financeiro.
E, afinal, não sejamos nem injustos, nem inocentes, dominam todo o poder e sua manifestação política.
Razão porque Bolsonaro não está preocupado, ou não se mostra assim, com a saúde e sobrevivência de seu povo, principalmente dos mais humildes e mais velhos: ele se preocupa com a possibilidade de quebra ou de dificuldades de liquidez ou até mesmo de sobrevivência de seus financiadores, os empresários. Com destaque para o famoso Veio da Havan, e sua preocupação especial com a manutenção do emprego.
Razão porque demitiu ao que se noticia, 11 mil funcionários.
Ou o grande empresário Sílvio Santos cuja mulher é a responsável pela participação do presidente em lives de religiosos na Páscoa.
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Bolsonaro tanto não se preocupa com nossos mais necessitados, que declara que o gasto já está orçado em 600 bilhões e pode chegar a 1 trilhão, a continuar no ritmo que apresenta.
Se você tivesse que gastar até o fundo do tacho para dar ao menos uma morte melhor, com mais conforto a sua mãe, o que você faria? Deixaria a senhora na enfermaria para aplicar o dinheiro em títulos de maior rentabilidade no mercado?
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Triste o país em que sua população opta por salvar os negócios, em prejuízo da saúde e dos negócios.
Afinal com todos na pindaíba, quem iria depois se eximir de ajudar a recuperar, caso salvo por atitudes e decisões heroicas da morte certa e infalível?
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A esse respeito fico pensando: nos anos 1918-1920, deve ter havido a mesma discussão, por ocasião da gripe espanhola.
O que aprendemos, depois de tanto tempo, em relação à questão da recuperação – e crescimento exponencial da economia em todo o mundo?
O que aprendemos em termos de saída da crise derivada da pandemia? O mundo tornou-se mais humano, mais solidário, depois dos anos 20? Ou o capitalismo se implantou definitivamente com força propulsora de toda nossa vida, para o bem ou para o mal?
É importante destacar que a sociedade humana nunca antes viu e se aproveitou de tamanha opulência.
Em contrapartida, nunca a desigualdade foi tão feroz e a consideração da pessoa do outro, a tal alteridade, tão frustrada?
Para que pensar no coletivo, se eu estou bem, e os iguais a mim me acompanham?
É isso.



Um comentário:

Anônimo disse...

Acredito que ninguém deveria aceitar esse convite. Qualquer ministro que entrar nesse momento, vai ter que se sujeitar a servir de fantoche, e ser o bode expiatório para as medidas totalmente irracionais, propostas por um presidente inábil para essa função, mas que, como você bem alertou no pitaco, são medidas para tentar salvar os grandes financiadores. Mas não se preocupem, se ajudar os empresários vai ser coincidência, pois o objetivo principal das medidas é pensando na saúde da população... Grande besteira que alguns ainda acreditam.
Nesta semana o meu pai me questionou sobre o meu voto na última eleição para presidente. Ele não me perguntou de forma direta em quem eu votei, até porque isso não faz o estilo dele, sempre foi muito misterioso e restrito quando o assunto é eleição. Mas ele me fez a seguinte pergunta: "Você se arrependeu?". E como alguns falam que os pais conhecem os filhos apenas no olhar, o meu nao seria diferente. E sem eu responder qualquer palavra ele devolveu em um tom de voz baixo: "Eu também...". Talvez essa sensação de arrependimento esteja se espalhando em nosso país na mesma velocidade (ou até maior) que essa tal "gripinha".

Grande abraço professor!

Igor Caixeta