quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Em política - nem sempre a novidade é nova ou capaz de trazer melhorias. O que é melhorar?

Link do youtube: https://youtu.be/lWelkjf-Kso ou instagram: #paulocmf55 Certa ocasião, conversando sobre concepções políticas com o diretor da área em que eu trabalhava, ele trouxe a seguinte questão: os dois lados da disputa não têm o mesmo objetivo? Não estão interessados em criar um país melhor, com maior crescimento, mais desenvolvido? Se têm o mesmo interesse, o que os diferencia não é a forma como cada qual deseja alcançar este objetivo? Gastei algum tempo refletindo sobre as perguntas, até perceber o quanto eram enganosas, pelo grau de generalização envolvida e, pior, pela hipótese simplória que servia de ponto de partida e que condicionava o raciocínio e a resposta. *** De fato, se “Minas são muitas”, de faces conhecidas por muitos poucos, conforme Guimarães Rosa, o mesmo se aplica ao país e sua realidade, desde o diagnóstico de seus males até as inúmeras soluções de cura. Assim, o problema da miséria - consequência primeira da escravidão e do tratamento dispensado pelos senhores de terras aos povos escravizados, que se agrava além do limite do tolerável a partir do fim da escravidão -, está na origem de questões tão diferentes quanto a necessidade de políticas afirmativas, ou outras ligadas ao rigor no controle das condições e à própria extensão desumana da jornada de trabalho, a baixa produtividade do trabalho, ou a uma suposta indolência inata que faz o trabalhador preferir viver às custas de benefícios pagos por toda a sociedade. *** A dificuldade de a elite dominante tratar essa situação como herança da dívida histórica contraída junto ao povo antes escravizado, em geral preto mas não só, impede a adoção de soluções além da fixação das cotas de reparação das políticas afirmativas. O que justifica o preconceito das elites, que está na raiz dos projetos de nosso desenvolvimento e que, adotando o viés econômico, alega visar a melhor alocação de recursos escassos ao elaborar programas voltados à expansão da educação ou à ampliação da participação do trabalhador em programas de qualificação. Programas que privilegiam aqueles capazes de aproveitar melhor seu conteúdo, em geral os filhos das classes mais abastadas e que mais tarde, no mundo do trabalho, justificarão o pagamento de remunerações aviltadas para a maioria de trabalhadores, fruto de sua baixas capacitação e produtividade. Funcionando como instrumento da depreciação acelerada das classes trabalhadoras, essa baixa remuneração produz o efeito perverso que realimenta o estado de miséria e degradação de ampla parcela da população, cada vez mais excluídas das políticas voltadas para o estudo, a qualificação, a saúde, condições de habitação e mobilidade dignas de que deveriam ser o público preferencial e adotadas como prioritárias e urgentes. Isso se essa situação de reprodução da miséria não fosse benéfica, por permitir o aumento da taxa de exploração do trabalho e, por extensão, dos lucros da classe empresarial. *** Tal visão contraria frontalmente aos setores mais poderosos da sociedade, já suficientemente críticos de qualquer programa de ajuda às classes menos favorecidas, desde as cotas até os programas de assistência e transferência de renda, vistos como desperdício de gastos públicos e irresponsabilidade fiscal. Afinal, a elite forma sua cosmovisão com base na cartilha de inspiração neoliberal, baseada na valorização dos esforços individuais como forma de acesso às melhores condições materiais de vida, seja este resultado fruto de sacrifícios pessoais da geração atual ou herança abençoada de antepassados exitosos, que alcança filhos, netos, sobrinhos e até genros. *** Por isso, assistir a um candidato ao governo de Minas prometer, ao mesmo tempo, reduzir a carga de impostos extorsivos pagos pela população e melhorar a qualidade da prestação de serviços públicos a todos, é o tipo de mágica que nem mesmo Houdini se atreveria a arriscar. O que não impede reconhecer – e exige - o peso excessivo, NA MÉDIA, que cada cidadão deve pagar em impostos. Carga que corrói parcela importante do poder de compra de toda a população, não só a mineira. Porém, reconhecer a verdade dessa situação, nos obriga a mostrar o que ela esconde, o que não é dito: que os mais privilegiados, mais ricos e poderosos não apenas pagam muito pouco, como ainda se beneficiam de incentivos e subsídios que os tornam praticamente isentos. Isso obriga a que, a distribuição da mesma carga total por um número menor de contribuintes seja compensada por cargas individuais maiores. Em geral pagas pelos mais pobres. A pergunta do milhão de dólares deveria ser qual a solução mais justa: reduzir os impostos pagos por todos, na média e em geral? Ou aumentar os impostos daqueles que, podendo, pagam menos ou não os pagam? A esta pergunta junta-se outra: sem recursos para atender aos gastos públicos, que cortes deverão ser feitos: nos subsídios e incentivos aos empresários ou em gastos em saúde e educação, que beneficiam os mais necessitados ou mais ineptos? *** Seria interessante ter as respostas de Cleitinho, cujo projeto, de cunho populista, promete lutar pela melhoria das condições de vida de todos, independentemente de sua ideologia. O mesmo se aplica à proposta do conceituado escritor Augusto Cury que visa, corretamente, solucionar o sério problema da polarização que divide nossa sociedade, esgarça nosso tecido social e nos impede de avançar em conjunto. Sem o uso de drones e de inteligência artificial, suponho. Em linha com nossa questão inicial, todos queremos a paz e um projeto de desenvolvimento econômico e social para chamar de nosso. Será? *** Será nosso projeto semelhante ao do candidato que deseja nos transformar em mero vagão da composição puxada pela locomotiva carcomida, desatualizada e atrasada tecnologicamente, da economia americana? Sob as bençãos da bandeira do Tio Sam e, de quebra, Israel? Ou nosso projeto é voltado para nossa independência e autonomia, mesmo que relativas e limitadas, dado nosso papel de economia do sul global e periférico? Na segurança, temos os mesmos objetivos dos que propõem soluções que desrespeitam os direitos humanos, como o uso da pena de morte – ainda que não prevista em lei e sem julgamento justo -, como punição aos criminosos? E que limites estabelecer para poder distinguir crimes cruéis de outros tipos, que podem vir a incluir crimes coo o de não ter nascido em berço de ouro, beneficiados por genética de estirpe nobre? Temos objetivos semelhantes àqueles que idolatram ditadores fascistas, criminosos como Bukele, e os tomam como exemplo, no altar dos heróis, ao lado dos nazistas da Alternativa alemã? Seria possível a convivência respeitosa desses grupos com aqueles que acreditam na aplicação do espírito das leis a todos, independente de posição social, cargo ou serviços prestados anteriormente a nossa sociedade? Seria interessante ver as propostas de Cury para reunir no mesmo ambiente, pessoas com interesses tão significativamente distintos para, após algum tempo - que poderia ultrapassar a duração de uma vida -, conduzir os dois lados a um ponto comum. De preferência democrático, permitindo a coexistência de ambos os lados. É isso.

Um comentário:

Anônimo disse...

A cantiga da tributação excessiva é repetida por todo lado, às vezes com rompante de tributarista notório. Aliás a propaganda de analistas, supostasmente isentos, é vasta. O que confirma a suspeita de haver pouca ou nenhum esforço em esclarecer o público a respeito Suspeito que até correção da tabela do IRRF é ignorada. como constatei recentemente com pessoas do meu círculo social. Afinal desinformar é adubar o senso comum permitindo que o gado paste... literal e metaforicamente. Prova maior está nas promessas estafúrdias do candidato "paladino de Minas" (como se não bastassem 8 longos anos do kid cascadebanana) e no plano nacional o coach... que coacha soluções mirabolantes, sem sequer corar...
Fernando Moreira