terça-feira, 8 de setembro de 2026
Na Política - Em país de Brás Cubas, nem todo machado racha
link youtube: https://youtu.be/xcsqroNWocI
É digna de um pitaco a evolução do setor de pets em nosso país: 3º maior mercado no ranking mundial do setor; 3ª maior população de pets; faturamento da ordem de 78 a 80 bilhões de reais com taxa de crescimento esperada e constante, de 9,6% ao ano. Do faturamento, 54% corresponde ao setor de pet food (alimentos e rações).
Entre os fatores apontados para a tendência de crescimento, citam-se a humanização dos pets, cada vez mais tratados por seus tutores, muitas vezes solitários, como “alguém da família”. Soma-se a esse movimento, a profissionalização do segmento de saúde e atendimento veterinário, objeto de recursos institucionais e a preocupação com o bem-estar e saúde, que provoca forte alta na procura por clínicas especializadas, planos de saúde animal, farmácias veterinárias e serviços de estética avançados.
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Também não poderíamos deixar de falar do mascote nacional, o cachorro caramelo ou vira-lata – sem raça definida -, resultado de um mosaico genético e considerado o mais popular e amado do país, um verdadeiro símbolo cultural.
Símbolo de campanhas contra o abandono animal e maus tratos, o Caramelo por sua inteligência e sociabilidade, caráter brincalhão e capacidade de se afeiçoar aos cuidadores dá origem à difusão de falsos mitos, que tornam invisíveis os vários sofrimentos a que estão expostos: a fome, o frio, atropelamentos, doenças e maus-tratos.
Situação que explica porque, em várias cidades, vizinhos e comerciantes atuam como tutores comunitários, oferecendo água, comida e abrigos improvisados, o que os torna os pets patrimônio de toda a comunidade.
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O que me lembra um tipo muito peculiar de pet, com terreno fértil para se expandir, de forma constante e descontrolada em nosso país, criação genial e inesquecível de Jô Soares, no programa Viva o Gordo dos anos 80: o Corrupto.
Crítica ácida e humorada à política e políticos do Brasil, o quadro ironizava a imagem da figura corrupta na época: um “bicho raro”, que rejeitava comida comum e se alimentava com notas de dólar; cujo hábito era atacar florestas, bancos, caderneta de poupança e, normalmente tranquilo, apresentava alterações de humor e comportamento agitado, que tinha como gatilho algumas palavras e expressões, como cana, pena, banco, Suíça, etc.
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No quadro, sempre mantido em uma gaiola coberta por um pano preto que impedia que fosse visto, o personagem reforçava a ideia de que podia circular por vários ambientes sem ser identificado, permitindo continuar agindo nas sombras.
Dos anos do Viva o Gordo para cá, a evolução tecnológica, capaz de afetar tempos e costumes, permitiu que o país passasse por um número sem fim de mudanças significativas, apesar de insuficientes para a eliminação do pet corrupto. Classe de pet que movimenta hoje, mais que cães e gatos, valores que superam os 6 bilhões do assalto aos fundos de pensão; os 41 bilhões de assalto ao FGC; mas que, nem por isso, abandonam as oportunidades de movimentar somas menores, como 71 milhões de reais de pangarés hollywoodianos, ou capazes de permitir a compra de 52 imóveis em dinheiro à vista, ou o sustento no exterior de párias e traidores de todo o tipo de escória.
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Tamanha a sanha e voracidade por avançar em recursos alheios, que não abrem mão nem mesmo de valores de viagens em jatos cedidos, ou das passagens aéreas, pagas por empresários, sem falar nos milhões distribuídos para liberar ativos minerários alcançados pela Operação Rejeito da PF, ou outros empréstimos para questões particulares.
Isso sem tratar da indústria que mais cresce no país, a de lavanderia e equipamentos para lavar dinheiro, por meio de canais ligados ou não às siglas sempre lembradas nesse período de horário eleitoral: CV, PCC e tantos outros Ps em campanha.
Mas, como diz a sabedoria popular, cada um tem seu pet de estimação, o direito a ter seu “bandido, mau caráter” de estimação. E até de votar nele. Só não pode reclamar depois, já que o Código de Defesa do Consumidor não trata o caso.
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Em homenagem ao saudoso Sérgio Porto e ao Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País – vale destacar que o político mais preocupado em promover a distribuição de renda (em seu gabinete, rachando e coletando parcela de salários de seus funcionários), se faz passar como o mais preocupado com segurança pública, vinculada, pasme!, à soberania. Dele é a frase de efeito, vinculando segurança e soberania: “Nós perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, sua bolsa, nossa casa…”. Fato: alguns funcionários de gabinete não têm soberania nem sobre o próprio salário.
Isso se aceitarmos tamanha redução do conceito de soberania – de Estado, para o aspecto individual, típico do domínio dessa visão neoliberal, individualista. Ou se esquecermos que a questão da segurança pública é responsabilidade de esfera administrativa diferente dos defensores de nossa soberania.
Só mesmo em um país que não é para amador, onde o “errado é que é o certo” (goleiro Cafunga), um deputado que mantém na folha de pagamento de seu gabinete, como funcionárias fantasmas, a mãe e esposa de um miliciano assassino, o mesmo que estando preso, foi condecorado com a mais alta medalha legislativa do Rio por proposta do deputado que, agora candidato, promete classificar organizações criminosas como narcoterroristas, como forma de iludir aos grupos que oram para pneus, ou acendem celulares para Ets.
Ou seja: “alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial” (Caetano), como o retorno do partido nazista na Alemanha, e um político envolvido com tudo de podre em nossa política, estar prometendo transformar o país em um lugar de amplo saneamento - até para ajudar no combate ao aquecimento exacerbado do clima; ou ainda para um outro candidato misógino, vender a imagem de pureza em ambiente de Rejeito, talvez pela bondade e tolerância da população que o acolhe nas redes sociais, como aos pets da modernidade.
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Um comentário:
Que beleza! Seu texto traz o fino humor e ironia cáustica de volta. Descessário mesmo dar nome ao boi, afinal as cores e pegadas deixadas são por mesmo reveladoras. Mais de 40 anos se passaram desde o quadro do "currupto" e a única coisa que mudou foi a hábil capacidade evolutiva deste famigerado ser, como você bem retratou. Acabei de ler o 1o volume de "Imperium" trilogia que trata da biografia romanciada de Cícero, em plena decadência da República de Roma...fase em que há culto à personalidade do Gen. Pompeu, aos subornos de Crasso e à sutileza de Júlio César... Uma intricada trama que vai minando a República e lentamente pavimentando o caminho para o autoritarismo, por destruir o Estado por dentro... qualquer semelhança não é mera coincidência.
Fernando Moreira
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