quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Economia estável a passos mais lentos, juros ainda em órbita, dívida e populismo e os interesses da grande imprensa

link youtube: https://youtu.be/wpI70rvrQUU Em A Elite do Atraso (2025), ao tratar de mudanças cruciais herdadas dos anos 90 do século passado, como a transformação do capital financeiro em fração hegemônica do capital, Jessé Souza assinala a importância dessa evolução, e seus impactos para o desmonte do Estado de bem-estar do pós guerra e para a corrosão da base financeira de sustentação do Estado. Para o autor, a tributação no Estado de bem-estar apresentava ao menos duas características: uma base econômica constituída por empresas de grande porte, com grandes plantas industriais e massas de capital fixo; e adotava uma visão distributivista, onde quem tem mais paga mais impostos. Já o capital financeiro, sem amarras ou grilhões pode se deslocar em instantes de um lugar para outro, o que incentiva a fuga de capitais e alimenta chantagens e ameaças aos Estados. Essa nova realidade, agravada por cada vez mais importante concentração de renda, permite aos privilegiados ficarem livres do pagamento de impostos e arruína a base financeira do Estado, que, sem forças para cobrar os recursos necessários para cumprir sua função junto à sociedade, opta por obter estes recursos se endividando junto ao 1% de sua população mais rica. Substitui-se o Estado fiscal pelo Estado devedor. *** No Brasil, embora as estatísticas indiquem algum espaço para o aumento da arrecadação, o que se confirma pelos recordes divulgados a cada mês, o Estado amplia seus gastos em velocidade muito maior. O que dá material suficiente para críticas pesadas e constantes feitas pela grande mídia: ou pela fúria arrecadadora, ou pela irresponsabilidade fiscal, de natureza populista. O que a imprensa não aborda de forma isenta, é que o crescimento da receita se dá em razão de ampliação da base, dado o crescimento (embora cada vez mais reduzido) do PIB, e o aumento do nível de ocupação e emprego e do nível de renda; além do surgimento de novas atividades econômicas, passíveis de tributação, até para evitar seus efeitos danosos à população, como as apostas on-line. Quanto aos gastos exorbitantes, cobrar imparcialidade dos grandes oligopólios e grupos empresariais do setor de comunicações e mídia seria ingenuidade e pedir demais. Eles teriam que falar do 1 trilhão de gastos com pagamentos de juros, aos privilegiados que não pagam impostos; ou dos mais de 525 bilhões de reais em renúncias fiscais para grandes empreendimentos empresariais (alguns até pagam impostos e depois recebem a devolução); ou de valores destinados pelo governo ao Plano Safra, de 525 bilhões apenas na faixa de agricultura empresarial. Muito mais cômodo, para não lhes afetar a lucratividade do negócio, criticar os gastos do programa Desenrola e sua prorrogação – MERAMENTE ELEITORAL; os gastos com bolsa família e outros programas previdenciários atrelados ao salário mínimo e, como tal, reajustados acima da inflação. Todos gastos com os menos privilegiados ou a ralé, que ampliam o déficit primário (quando os gastos para funcionamento da máquina do governo e outros destinados às camadas menos favorecidas são maiores que receitas). Note-se que o déficit primário não considera os juros pagos aos que pouco pagam de impostos. *** A imprensa não fala da prévia da inflação de 0,06% em junho; não se lembra de falar da criação de mais de 145 mil vagas formais de carteira assinada em junho, que totalizam 48 milhões de vínculos ativos; do aumento do salário médio. Divulga que os números estão perdendo força, a economia mais enfraquecida, a indústria apresentando queda expressiva, sem considerar que a causa principal desse desaquecimento é a pornográfica taxa de juros, baixada ontem em 0,25%, para o patamar de 14%, ainda 9% acima da inflação. Juros que os ricos que emprestam e compõem a elevadíssima e recorde Dívida Pública recebem e com cinismo ou falta de vergonha, recebem satisfeitos, mesmo criticando a perda de controle do governo em sua gestão, o que lhes permite cobrar mais juros para dívidas de prazo mais longo. Alegam risco de o governo não conseguir pagar. A cara de pau é tanta, que escondem que a dívida é na moeda que o governo é quem cria. Ou seja, basta criar mais se quiser trocar dívida que paga juros (em títulos), por dívida em moeda, que não paga juros. *** Para a mídia, gastos com a ralé são os que incomodam e são os populistas, já que não são direcionados a seus bolsos. A economia está bem, o ambiente é tranquilo e positivo, em crescimento, mesmo que dando sinais de desaquecimento. A pauta do fim da jornada de 6 x 1, obrigatória para dar mais liberdade e dignidade ao trabalhador e permitir que passe mais tempo com a família, para o lazer, sem perda de salários, o que seria uma nova etapa em direção ao fim da escravização é tratada sempre de forma viesada, dando voz a industriais, comerciantes, empresários e financistas. Essa pauta fundamental poderá, inclusive provocar aumento da produtividade do trabalhador mais feliz e saudável. *** Embora a leitura de Keynes seja sempre deturpada por interpretações equivocadas e míopes, que o apresentam como o pai da ideia da gastança do Estado, para aumentar a demanda agregada e o emprego, mas gerando apenas inflação, essa interpretação carece de fundamento e verdade. Para ele, na interpretação da abordagem pós-keynesiana, o papel do Estado é criar e manter um ambiente de negócios que permita ao empresário criar expectativas positivas. Essas expectativas é que o estimularão a investir, já que acreditarão que terão mais demanda e aumentos de vendas, em um mercado sempre cheio de incertezas. Ao Estado compete reduzir as incertezas e volatilidades o que poderá, no limite, tomar a forma de aumento de seus gastos. *** Embora pareça estarmos vivendo uma economia dominada pela monotonia, o que o governo Lula tem feito é preservado essa estabilidade. Daí que o país cresce, apesar dos pesares e dos juros pesados. Incertezas vêm de fora, de bravatas e arroubos dignos do império decadente, patrocinados pelo poder destruidor de agentes laranjas. Foi o fanfarrão alaranjado americano que iniciou gratuitamente a agressão ao Brasil e ao mundo, inclusive aliados, com tarifação comercial. Foi ele que voltou a tarifar o país, de forma autoritária, cuja única negociação ou acordo possível seria a capitulação. Foram eles que deixaram clara a intenção de interferir no processo eleitoral de um país amigo. Que chantageiam e cortam vistos de representantes diplomáticos. Mas a imprensa, a mídia e grupos empresariais desejam é que nos curvemos de joelhos, para não terem seus interesses particulares prejudicados. E criticam o governante que mostra um mínimo de amor próprio e noção de dever com a ampla maioria dos que não têm outro país para chamar de seu.

Um comentário:

Simone disse...

Excelente artigo! Parabéns!