Em meio às repercussões e perplexidades provocadas pelo discurso proferido por Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU, objeto de destaque em todos os meios de comunicação do país e do mundo, a coluna de Hélio Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo de ontem, optou por tratar de tema, em minha opinião, menos constrangedor, mas nem por isso menos importante.
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Antes, é necessário deixar claro minha compreensão com a preocupação do colunista: talvez a coluna já estivesse pronta antes do discurso. Talvez a opção tenha sido propositadamente a de esperar algum tempo, suficiente para que, distante do calor do momento em que foram proferidas, as palavras e a mensagem de Bolsonaro pudessem ser filtradas e analisadas, levando em conta a forma como foram recebidas e interpretadas.
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Ainda assim, devo dizer que concordo com a opção de Schwartsman em focar a decisão da "sinistra" Damares, de solicitar a abertura de processo das autoras de reportagem sobre o aborto, publicadas na revista AzMina, sob o argumento de apologia à prática de um crime.
Inclusive sou capaz de afirmar que acredito tratar-se de uma questão mais importante que a do discurso feito na ONU.
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Primeiro, pelo comportamento de alguém que ocupa cargo de expressão no governo federal, mesmo sem merecê-lo, liderar mais uma vez, um ataque à Constituição Federal, especialmente no que diz respeito à agressão ao direito de liberdade de expressão, à liberdade à imprensa e, por fim, ao próprio estado democrático de direito.
Segundo porque, como já divulgado, a matéria sobre o tema que tanto causa temor à sinistra, e que, a princípio só deveria dizer respeito à mulher e ao inalienável direito sobre o que fazer com seu próprio corpo, apenas reproduz material de ampla divulgação internacional, elaborado pela Organização Mundial da Saúde, com recomendações relativas à questão de saúde públicas vinculadas ao aborto seguro.
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Corretamente Schwartsman aborda a questão como sendo, no fundo, a da criação de um novo crime, não previsto anteriormente em lei: o crime de tradução de documentos internacionais. Por mais corretos e científicos que sejam os argumentos apresentados.
Ou seja: no fundo, trata-se tão somente da prática de censura. Mais uma. Ou mera intimidação covarde, com vistas a gerar um clima de pânico e insegurança, capaz de levar a sociedade à adoção de procedimentos de auto-censura - a pior forma de prática deste crime contra a liberdade.
***
Embora já suficientemente percebido e comentado, vale a pena deixar o meu registro quanto a como é curioso que um governo que apresenta-se como tão liberal, do ponto de vista de questões econômicas pode, concomitantemente, ser tão invasivo, tão controlador, tão impositivamente conservador em questões ligadas a comportamentos e aos costumes sociais.
O que nos leva a refletir que a linha central desse (des)governo não seja, de fato, uma filosofia liberal, individualista, senão seu inverso.
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O governo do ex-capitão se bate e se guia pela lógica da ordem unida da qual ninguém pode se afastar. Conservadora. Tosca. Terraplanista. Anticientífica. Obtusa.
Pior: fascista. Antinatural e contrária ao Homem e seu desenvolvimento e evolução.
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Dentro de tal norma de comportamento, como parte integrante de tal princípio de governo, a Economia e seu ministério passa a impressão de que é muito menos liberal do ponto de vista da lógica do funcionamento, ainda que questionável, dos mercados.
Cheira muito mais à adoção de medidas intencionalmente destinadas a ampliarem o fosso entre o povo, a população e seus valores pessoais, individuais e interesses, muito vezes classificados como muito permissivos, lascivos, repulsivos, e uma classe de pessoas de elite.
Uma elite branca, rica, parasitária, e cujo comportamento se guia por uma falsa moral, um discurso aético que se traduz em fazer o contrário do que prega para os demais.
Onde a liberdade só existe para os integrantes dessa raça superior, de iguais nos abusos que prática, no ódio que destila e na exploração que patrocinam.
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Schwartsman conclui sua coluna com a observação de que se esse desgoverno que está instalado no país além de desprezar informações científicas para a elaboração de políticas públicas passar a censurá-las, caberá apenas que nós, a parte da sociedade que deseja viver em regimes democráticos, "pegar em armas contra o obscurantismo deste governo."
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O articulista não menciona em sua coluna, mas enquanto a sinistra se preocupava em acionar sua equipe para ocupar inutilmente o Ministério Público com solicitações com tal conteúdo de mesquinharia e autoritarismo, a menina AGATHA, de apenas 8 anos de idade era fuzilada no Rio.
Por uma Polícia que em nada honra as tradições de outras épocas, em que seu comandante chefe não ficava pulando e dando socos no ar, para comemorar a morte de um bandido, na verdade um pobre coitado desajustado, portador de problemas mentais, levado ao ato insano por pressões do ambiente que o cerca.
***
No caso da menina, o governador em solenidade na mesma data, dizia que a população de seu estado não concordava mais em conviver com aqueles personagens que levavam insegurança, e atiravam aleatoriamente, atentando contra a vida de cada um de nós.
Esses, tinham que ser tratados, segundo a linha de pensamento do governador, em conformidade com a lei do abate.
Mereciam ser mortos antes de colocarem em risco a vida de quem quer que fosse.
***
Para cumprir fielmente as ordens do governador do Rio, ele deveria ser o primeiro a levar o tiro disparado pela parte de sua polícia formada por sádicos e monstros.
***
Entretanto, tanto o comportamento desse capacho que é o ex-juiz Witzel, governador do Rio, quanto o de Damares, ou de Paulo Guedes, ou dos ministros menos cotados do Meio Ambiente ou da Educação, apenas reforçam a lógica que o governo Bolsonaro persegue e deseja implantar, como mostrado em seu discurso na ONU.
***
Como se percebe, a lista de ministros acima não contém o nome de Sérgio Moro, o ex-juiz cujo comportamento cada vez mais se comprova apartado da lei e, desse ponto de vista mais amplo, criminoso.
Moro pode ser herói, como mencionado por Bolsonaro, para que tem o capitão como mito. Hoje em dia, a julgar por recente pesquisa IBOPE, quase ninguém. Ou muito pouca gente.
***
Mas o ex-juiz, patrocinador da licença para matar por parte da Polícia, travestida da proposta de excludente de ilicitude para mortes provocada por policiais em ambiente e circunstâncias sob efeito de forte emoção ou temor não merece nem entrar na lista de puxa-sacos, lambe-botas de seu patrão, reproduzindo o comportamento de seu mito em relação a Trump.
E não merece porque não consegue manter nem mesmo a dignidade pessoal que se exige minimamente de qualquer pessoa vítima da fritura a que o presidente o submeteu publicamente.
***
Mais uma vez vale a pena lembrar que moro, essa figura que se prestou tanto a se deixar diminuir que as minúsculas se agigantam para tratar dele, também era o autor da ideia de se aceitar e considerar provas obtidas mesmo que por meios ilícitos.
Que agora ele rechaça.
Prova de que o feitiço volta, sim, contra o feiticeiro.
***
Já Guedes, o suspeito de comportamentos ilícitos no trato com fundos de investimentos, ou de proximidade espúria com interesses vinculados à educação privada e as instituições privadas que comercializam diplomas, esse mantém ao menos o nariz empinado.
Talvez por saber que se concordar em baixar a cabeça como o fez moro, poderá sentir náuseas do cheiro que subir do local onde estava postado.
***
Chegamos então ao discurso de Bolsonaro na ONU.
Discurso que parece redigido pelo guru dessa lástima de governante - infelizmente eleito, democraticamente, ressalve-se, que é Olavo Carvalho.
O pensador que pensa, em nada de útil, senão que seja a reencarnação de Deus.
***
Não vou abordar a quantidade de fakenews, de dados falsos ou meias verdades ditas por Bolsonaro.
Nem tampouco o tom patriótico de sua mensagem.
Afinal, como já foi dito pelo inglês Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio do canalha.
Claro, a frase aceita plural: canalhas.
O que Bolsonaro fez foi criar uma atmosfera belicosa, rancorosa, quase paranoica, de alguém que reage com agressividade a injusta agressão. Agressão inexistente, fantasiosa.
Feita de encomenda para que a questão da soberania possa ser levantada como bandeira e um patriotismo tosco possa ser insuflado no povo que, mesmo sendo o grupo de pessoas que mais tem a perder com as medidas desse governo, é quem mais facilmente pode servir de massa de manobra.
Sem contar que, de longe é o maior contingente de pessoas da sociedade.
***
Povo que pode perfeitamente servir de Exército Urbano de Reserva, já que há muito não tem mais emprego para ser denominado de Exército Industrial.
***
O discurso de Bolsonaro foi isso. Coerente com a falta de qualquer ação política destinada a melhorar a forma de convívio social. Coerente com tudo que o presidente já falou, em campanha, ou depois de eleito. Ele que não tem qualquer conteúdo para expressar que faça ou tenha significado.
Daí trazer de volta a questão da guerra fria.
Ele que mostra claramente completa falta de sintonia com os tempos modernos.
***
Por isso ele reabilita a figura mitômana e midiática do General Custer.
E agride os índios, mentindo sobre o número de agressões, invasões e mortes de que os nativos são vítimas.
O que serve também para transmitir o recado de que ações desse tipo, contra as tribos ainda existentes, serão toleradas. E não serão objeto de mensuração, não farão parte de estatísticas, nem mereceram qualquer punição.
***
O Custer brasileiro quer matar os índios não por ataques traiçoeiros, aproveitando a saída dos guerreiros machos do acampamento, em busca de caça.
Nosso Custer quer instilar nos povos indígenas a ideia da cobiça, do consumo, da riqueza, para que eles possam aceitar se submeterem à exploração predatória das riquezas contidas no território que lhes foi assegurado pela Constituição.
Reconhecimento ao direito dos donos primitivos.
***
Mais uma vez, a pílula é dourada mas nem de ouro, nem doce.
Aceita pela sociedade a proposta de exploração pelos índios dos recursos naturais de suas terras, e convencidos os povos nativos que tal atividade econômica lhes permitirá obter a fonte de poder e riquezas que lhes permitirão ter uma vida de conforto e maior prazer material, os índios irão amargar um processo de aculturação sem precedentes.
A consequência a prazo não muito longo será seu desaparecimento como povo, como cultura, o desaparecimento de suas tradições sob a ação livre de mercado dominada pela especulação em torno das terras que, mais cedo do que pensam, estará na mão dos grandes grupos de interesses econômicos.
***
A sociedade não pode permitir que nossos índios desapareçam, sob pena de sacrificar sua própria história.
E sob pena de amanhã a vítima ser os trabalhadores urbanos, a pequena burguesia que compõe a classe média e até mesmo profissionais liberais, de classes mais elevadas de poder aquisitivo.
***
Por esse motivo o discurso de ódio às manifestações, classificadas equivocadamente como colonialistas, em defesa de nossa floresta.
Ora, é sabido que, quando for a hora e se for o caso, se a sobrevivência dos Estados Unidos ou outros povos aliados e ricos estiver ameaçada pela questão do aquecimento global e pela destruição de nosso grande ecosistema capaz de por em risco a preservação da própria água doce no planeta, não haverá aliados ou amigos que impeçam de a Amazônia ser invadida e dominada à força.
Exemplos disso já foram dados na invasão do Iraque em função de armas químicas nunca encontradas, mas de um petróleo que continua jorrando na região.
***
Mas, além da questão indígena que atormenta nosso Custer, ou da questão do desmatamento para gerar a expansão das atividades do capital de exploração predatória predominantemente de cunho primário, com destaque para as atividades do agronegócio e da pecuária, resta a postura de guardião dos valores da moral e dos costumes.
Postura de defensor da liberdade religiosa, da crença cristã, mero eufemismo para ganhar pontos com as igrejas evangélicas que o apoiam e que têm entre parte de seus rebanhos, grupos prontos a não aceitarem o convívio com outros tipos de credos e crenças.
***
O trecho que prega contra a perseguição religiosa, então, não pode ser levada em consideração, exceto como um grito falso, suspenso no ar, contra ataques terroristas, de fundamentalistas que, felizmente, ainda não têm ocorrido em nosso país.
Não por culpa de nossa segurança ou de nossa cultura democrática de aceitação e respeito à tudo que vai contra o que pensamos e acreditamos, como o comprova Damares.
***o
Se não existe terrorismo no nosso país, o que é uma falácia, é porque o terrorismo aqui é patrocinado pelo próprio Estado, que estabelece o monopólio do terror, como o comprova Witzel e as propostas de moro.
***
Daí a solução é mesmo aquela proposta por Schwartzman: a de pegar em armas.
Concretamente, sem perceber a existência de condições objetivas para se deflagrar um movimento nas ruas e praças e comunidades do nosso país, que leve a manifestações populares de maior expressão e peso, interpretando o pegar em armas, da forma de cada um cidadão consciente lutar com as armas que possui, contra o autoritarismo e alguns borrões de fascismo que podem ser percebidos em nossa sociedade.
Por uma minoria esclarecida, fazendo uso de uma maioria manipulável.
***
Que possamos em nossa luta diária pela sobrevivência, encontrarmos e criarmos sempre oportunidades para lutar pelos ideais de liberdade e respeito.
Eu continuarei a luta. Em sala de aula, com minha arma de ideias e palavras.
É isso.
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Presidente calado, semana sem sobressaltos. Exceto pelos filhos e pela epopeia da CPMF, o retorno
A internação e a posterior cirurgia de Bolsonaro trouxeram, novamente, uma semana de tranquilidade no cenário político nacional, como há algum tempo não se via.
Sossego benéfico, necessário, quebrado apenas pela necessidade que a família do presidente tem de se manter nas mídias, custe o que custar.
***
Não por outro motivo, exceto o de aparecer e se manter em evidência, a tropa de choque ou o BOPE - Batalhão de Operações Estapafúrdias, particular de Bolsonaro, composto por seus 01, 02 e 03, age sempre de forma a causar, para usar um modismo.
A propósito desse batalhão formado pelos filhos do presidente, não posso me furtar a fazer um comentário.
Afinal, quando tanto se critica a transformação de seres humanos em apenas números e estatísticas; quando há um movimento que busca a individualização, a personalização, o respeito à identidade das pessoas e o respeito a sua individualidade é, no mínimo sintomático que o Messias que comanda nosso país aja, justamente, na contramão de tal tendência.
***
Sintomático, não estranho.
Não deve causar estranheza que uma medida de reconhecimento de valores pessoais dos indivíduos e de respeito à dignidade da pessoa humana, sua origem, sua história, sua trajetória de vida seja ignorada pelo presidente democraticamente eleito em nosso país.
Como é de conhecimento de todos, e a ninguém é pode ser permitido alegar desconhecimento, o presidente, ao longo de toda sua trajetória política em toda oportunidade que teve, demonstrou desprezo por valores que celebrem o respeito à dignidade humana.
Agora, eleito presidente e sob a influência do pretenso filósofo e seu guru Olavo de Carvalho, não seria razoável esperar mudança de seu comportamento.
Ainda mais se tratamento distinto pudesse ser vinculado a esse marxismo cultural que insiste em invadir, não a realidade, mas os piores pesadelos de Jair.
***cVai daí que, mesmo no recesso de seu lar, vê-lo tratando seus filhos como meros números, como em uma fila indiana, apenas mostra que, como dizia minha vó, "é de pequeno que se torce o pepino/'. Ou ainda outra: " pau que nasce torto..."
***
Assim, dada a impossibilidade de o presidente se manifestar e ocupar o lugar privilegiado do palco dessa comédia pastelão a que vimos assistindo; dada a impossibilidade momentânea de prosseguir nos expondo ao ridículo com suas falas escatológicas, piadas sem qualquer graça, seu total descompromisso com a realidade e com interesses dignos de chamarem a atenção de quem ocupa o cargo que está ocupando, temos é fotos de Eduardo no hospital, acintosamente mostrando a arma que carrega em sua cintura.
***
Aqui não quero discutir se Eduardo pode ou não andar armado, se tem ou não porte, ou se faz ou não propaganda para indústrias de armas.
Também não interessa discutir se poderia ou deveria estar em um apartamento de hospital armado. Como já foi tratado, compete ao Gabinete de Segurança Institucional avaliar o nível de risco tal situação pode trazer ao presidente, se algum.
Parece-me que, no caso do 03, pela relação peculiar filial que ele mantém com o presidente, o porte é tolerado.
***
Mas que me instiga a curiosidade saber o que poderia temer Eduardo, ao entrar naquele quarto, capaz de justificar estar armando, isso não posso negar.
E de fato, até por ser filho, Eduardo sabe no quarto de quem estava entrando.
***
Problema maior, em minha opinião é que esse é o filho a quem Jair reservou o filé. É Eduardo que terá seu nome indicado para ocupar a embaixada do Brasil nos Estados Unidos.
É esse o indivíduo que terá a incumbência de nos representar diplomaticamente, ainda que ele já tenha declarado abertamente sua preferência entre o uso de argumentos e ideias e as armas.
***
Fico imaginando o que poderia acontecer com Eduardo, mesmo que longe das chapas de hamburguer, confortavelmente instalado nas poltronas dos jardins da Casa Branca de Trump, portando uma arma. Será que a segurança do presidente americano consideraria o revólver parte da indumentária convencional do nosso embaixador???
***
Fora Eduardo, Carlos, o filho vereador também decidiu praticar o esporte que mais atrai sua atenção e interesse: provocar problemas e atacar as instituições, as leis em vigor no país e o regime democrático em que vivemos.
Tenha apenas dado uma satisfação a seus apoiadores, que lhes cobram maior efetividade e maior velocidade na realização das mudanças políticas prometidas pelo pai, ou tenha mesmo aproveitado a oportunidade para lançar um balão de ensaio, a fim de aferir o apoio para a tentativa de dar um golpe, o fato é que as postagens e comentários de Carluxo são e devem ser encaradas como são: um lixo. Um verdadeiro despautério, como diria uma amiga.
***
Sim, é verdade que as democracias implicam no respeito às opiniões divergentes. É fato que para que possam ser tomadas e adotadas, as decisões devem ser acordadas entre os grupos de interesses sentados à mesa de negociação, depois de todos terem tido o espaço justo para se manifestarem.
É verdade que tal processo de escuta das distintas opiniões demanda tempo e que as decisões são mais lentas.
Assim, não se discute que em democracias todas as mudanças se dão em um ritmo diferente, menos intenso do que aquele que talvez fosse necessário ser adotado.
***
Mas essa a beleza da democracia que levou Churchill a acreditar se tratar da melhor forma de governo, apesar de ser um regime muito ruim.
Tão ruim que na opinião do primeiro ministro, bastaria conversar cinco minutos com o eleitor mediano para ficar contra ela.
Ou modernizando o argumento, o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com algum bolsonarista.
***
Bem, o diplomata da família correu em defesa do irmão e da frase matreira e idiota que ele postou. E comparou a fala do irmão à de Churchill.
Como se fosse possível comparar um golpista despreparado com um estadista da envergadura de Churchill. E sua visão de que a alternativa ao regime democrático seria o autoritarismo.
Pior ainda se tal autoritarismo se travestisse, não necessariamente da forma de um golpe, mas de uma democracia da maioria, incapaz de respeitar as opiniões das minorias.
Mais uma vez, outra invenção do marxismo cultural.
***
A Volta da CPMF e a queda de Cintra
Mudando de assunto, também a Economia e questões afetas a essa área de conhecimento humano foram objeto de destaque na semana.
Aqui a novidade fica por conta do incansável Marcos Cintra, ex-professor, ex-assessor de Maluf, ex-deputado e agora, felizmente, ex-Superintendente da Receita Federal.
Acompanho, como ex-aluno, a trajetória de Cintra já de longa data.
E tenho de admitir que me admira sua tenacidade na implantação de seu sonho de toda vida: a implantação de um imposto único.
Imposto que iria substituir todos os demais, cobrado sobre uma base mais ampla, as transações financeiras.
***
Imposto que carrega inúmeras desvantagens para um tributo: é cumulativo; não é equãnime; não consegue respeitar o princípio da capacidade contributiva, já que todos os extratos sociais pagam o mesmo, independente de sua faixa de rendimentos.
Pior, em minha avaliação, tal imposto ainda impede qualquer utilização do instrumento consagrado na teoria macroeconômica, de Política Fiscal, pelo lado tributário, para administração da demanda agregada e dos problemas da economia.
***
Suas vantagens, como a simplificação da arrecadação, são muito limitadas, frente a tudo aquilo que o administrador público tem de abrir mão para sua implantação.
Exceto para Marcos Cintra Cavalcante Albuquerque, para quem a passagem por Chicago foi tão marcante que todo seu pensamento se volta tão somente para afastar o Estado e a administração pública de qualquer ingerência ou intromissão no funcionamento divinatório do mercado.
Ou pior: para quem não tem qualquer outro interesse em governar para os ricos, para as raposas, já que como o gol para Parreira, o povo é apenas um mero detalhe.
A ser suprimido, preferencialmente.
***
Em minha opinião, positivo mesmo na CPMF seria, desde que com algumas compensações como descontos e abatimentos no imposto de renda a pagar pelos indivíduos, a possibilidade de se identificar e rastrear todo e qualquer contribuinte, toda e qualquer movimentação financeira, mitigando a possibilidade de operações ilegais como caixa dois ou sonegação, etc.
O que ainda é pouco, já que pode-se esperar que, se não seria possível deixar de fora da tributação atividades como as igrejas, entidades assistencialistas, certamente dariam logo um jeito de dar a tais atividades, ou ao menos às de interesse algum tipo especial de compensação.
***
Inegavelmente a arrecadação para compensar a perda de outros impostos, deveria se dar a alíquotas elevadas, o que mais uma vez oneraria sobremaneira os mais pobres. O que poderia paralisar o processo de inclusão financeira que o país vem tentando implementar, e rapidamente levar a uma completa desintermediação financeira, na contramão de todo o mundo.
***
Mas, não nos iludamos: Cintra foi defenestrado por que falou demais, na hora errada, sem dar tempo para que o idiota que acreditou e votou em Bolsonaro pudesse Ja Ir se acostumando.
Porque foi o próprio Guedes que falou também do retorno da CPMF, em apoio à tese de seu subordinado.
E, ainda na semana passada, o próprio Bolsonaro admitia a possibilidade do retorno desse tributo, desde que acompanhado de compensações....
***
Que compensações e para quem é que deveria estar nos intrigando. Porque o Superintendente caiu, mas a ideia continua de pé.
Talvez mais forte que antes...
Sossego benéfico, necessário, quebrado apenas pela necessidade que a família do presidente tem de se manter nas mídias, custe o que custar.
***
Não por outro motivo, exceto o de aparecer e se manter em evidência, a tropa de choque ou o BOPE - Batalhão de Operações Estapafúrdias, particular de Bolsonaro, composto por seus 01, 02 e 03, age sempre de forma a causar, para usar um modismo.
A propósito desse batalhão formado pelos filhos do presidente, não posso me furtar a fazer um comentário.
Afinal, quando tanto se critica a transformação de seres humanos em apenas números e estatísticas; quando há um movimento que busca a individualização, a personalização, o respeito à identidade das pessoas e o respeito a sua individualidade é, no mínimo sintomático que o Messias que comanda nosso país aja, justamente, na contramão de tal tendência.
***
Sintomático, não estranho.
Não deve causar estranheza que uma medida de reconhecimento de valores pessoais dos indivíduos e de respeito à dignidade da pessoa humana, sua origem, sua história, sua trajetória de vida seja ignorada pelo presidente democraticamente eleito em nosso país.
Como é de conhecimento de todos, e a ninguém é pode ser permitido alegar desconhecimento, o presidente, ao longo de toda sua trajetória política em toda oportunidade que teve, demonstrou desprezo por valores que celebrem o respeito à dignidade humana.
Agora, eleito presidente e sob a influência do pretenso filósofo e seu guru Olavo de Carvalho, não seria razoável esperar mudança de seu comportamento.
Ainda mais se tratamento distinto pudesse ser vinculado a esse marxismo cultural que insiste em invadir, não a realidade, mas os piores pesadelos de Jair.
***cVai daí que, mesmo no recesso de seu lar, vê-lo tratando seus filhos como meros números, como em uma fila indiana, apenas mostra que, como dizia minha vó, "é de pequeno que se torce o pepino/'. Ou ainda outra: " pau que nasce torto..."
***
Assim, dada a impossibilidade de o presidente se manifestar e ocupar o lugar privilegiado do palco dessa comédia pastelão a que vimos assistindo; dada a impossibilidade momentânea de prosseguir nos expondo ao ridículo com suas falas escatológicas, piadas sem qualquer graça, seu total descompromisso com a realidade e com interesses dignos de chamarem a atenção de quem ocupa o cargo que está ocupando, temos é fotos de Eduardo no hospital, acintosamente mostrando a arma que carrega em sua cintura.
***
Aqui não quero discutir se Eduardo pode ou não andar armado, se tem ou não porte, ou se faz ou não propaganda para indústrias de armas.
Também não interessa discutir se poderia ou deveria estar em um apartamento de hospital armado. Como já foi tratado, compete ao Gabinete de Segurança Institucional avaliar o nível de risco tal situação pode trazer ao presidente, se algum.
Parece-me que, no caso do 03, pela relação peculiar filial que ele mantém com o presidente, o porte é tolerado.
***
Mas que me instiga a curiosidade saber o que poderia temer Eduardo, ao entrar naquele quarto, capaz de justificar estar armando, isso não posso negar.
E de fato, até por ser filho, Eduardo sabe no quarto de quem estava entrando.
***
Problema maior, em minha opinião é que esse é o filho a quem Jair reservou o filé. É Eduardo que terá seu nome indicado para ocupar a embaixada do Brasil nos Estados Unidos.
É esse o indivíduo que terá a incumbência de nos representar diplomaticamente, ainda que ele já tenha declarado abertamente sua preferência entre o uso de argumentos e ideias e as armas.
***
Fico imaginando o que poderia acontecer com Eduardo, mesmo que longe das chapas de hamburguer, confortavelmente instalado nas poltronas dos jardins da Casa Branca de Trump, portando uma arma. Será que a segurança do presidente americano consideraria o revólver parte da indumentária convencional do nosso embaixador???
***
Fora Eduardo, Carlos, o filho vereador também decidiu praticar o esporte que mais atrai sua atenção e interesse: provocar problemas e atacar as instituições, as leis em vigor no país e o regime democrático em que vivemos.
Tenha apenas dado uma satisfação a seus apoiadores, que lhes cobram maior efetividade e maior velocidade na realização das mudanças políticas prometidas pelo pai, ou tenha mesmo aproveitado a oportunidade para lançar um balão de ensaio, a fim de aferir o apoio para a tentativa de dar um golpe, o fato é que as postagens e comentários de Carluxo são e devem ser encaradas como são: um lixo. Um verdadeiro despautério, como diria uma amiga.
***
Sim, é verdade que as democracias implicam no respeito às opiniões divergentes. É fato que para que possam ser tomadas e adotadas, as decisões devem ser acordadas entre os grupos de interesses sentados à mesa de negociação, depois de todos terem tido o espaço justo para se manifestarem.
É verdade que tal processo de escuta das distintas opiniões demanda tempo e que as decisões são mais lentas.
Assim, não se discute que em democracias todas as mudanças se dão em um ritmo diferente, menos intenso do que aquele que talvez fosse necessário ser adotado.
***
Mas essa a beleza da democracia que levou Churchill a acreditar se tratar da melhor forma de governo, apesar de ser um regime muito ruim.
Tão ruim que na opinião do primeiro ministro, bastaria conversar cinco minutos com o eleitor mediano para ficar contra ela.
Ou modernizando o argumento, o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com algum bolsonarista.
***
Bem, o diplomata da família correu em defesa do irmão e da frase matreira e idiota que ele postou. E comparou a fala do irmão à de Churchill.
Como se fosse possível comparar um golpista despreparado com um estadista da envergadura de Churchill. E sua visão de que a alternativa ao regime democrático seria o autoritarismo.
Pior ainda se tal autoritarismo se travestisse, não necessariamente da forma de um golpe, mas de uma democracia da maioria, incapaz de respeitar as opiniões das minorias.
Mais uma vez, outra invenção do marxismo cultural.
***
A Volta da CPMF e a queda de Cintra
Mudando de assunto, também a Economia e questões afetas a essa área de conhecimento humano foram objeto de destaque na semana.
Aqui a novidade fica por conta do incansável Marcos Cintra, ex-professor, ex-assessor de Maluf, ex-deputado e agora, felizmente, ex-Superintendente da Receita Federal.
Acompanho, como ex-aluno, a trajetória de Cintra já de longa data.
E tenho de admitir que me admira sua tenacidade na implantação de seu sonho de toda vida: a implantação de um imposto único.
Imposto que iria substituir todos os demais, cobrado sobre uma base mais ampla, as transações financeiras.
***
Imposto que carrega inúmeras desvantagens para um tributo: é cumulativo; não é equãnime; não consegue respeitar o princípio da capacidade contributiva, já que todos os extratos sociais pagam o mesmo, independente de sua faixa de rendimentos.
Pior, em minha avaliação, tal imposto ainda impede qualquer utilização do instrumento consagrado na teoria macroeconômica, de Política Fiscal, pelo lado tributário, para administração da demanda agregada e dos problemas da economia.
***
Suas vantagens, como a simplificação da arrecadação, são muito limitadas, frente a tudo aquilo que o administrador público tem de abrir mão para sua implantação.
Exceto para Marcos Cintra Cavalcante Albuquerque, para quem a passagem por Chicago foi tão marcante que todo seu pensamento se volta tão somente para afastar o Estado e a administração pública de qualquer ingerência ou intromissão no funcionamento divinatório do mercado.
Ou pior: para quem não tem qualquer outro interesse em governar para os ricos, para as raposas, já que como o gol para Parreira, o povo é apenas um mero detalhe.
A ser suprimido, preferencialmente.
***
Em minha opinião, positivo mesmo na CPMF seria, desde que com algumas compensações como descontos e abatimentos no imposto de renda a pagar pelos indivíduos, a possibilidade de se identificar e rastrear todo e qualquer contribuinte, toda e qualquer movimentação financeira, mitigando a possibilidade de operações ilegais como caixa dois ou sonegação, etc.
O que ainda é pouco, já que pode-se esperar que, se não seria possível deixar de fora da tributação atividades como as igrejas, entidades assistencialistas, certamente dariam logo um jeito de dar a tais atividades, ou ao menos às de interesse algum tipo especial de compensação.
***
Inegavelmente a arrecadação para compensar a perda de outros impostos, deveria se dar a alíquotas elevadas, o que mais uma vez oneraria sobremaneira os mais pobres. O que poderia paralisar o processo de inclusão financeira que o país vem tentando implementar, e rapidamente levar a uma completa desintermediação financeira, na contramão de todo o mundo.
***
Mas, não nos iludamos: Cintra foi defenestrado por que falou demais, na hora errada, sem dar tempo para que o idiota que acreditou e votou em Bolsonaro pudesse Ja Ir se acostumando.
Porque foi o próprio Guedes que falou também do retorno da CPMF, em apoio à tese de seu subordinado.
E, ainda na semana passada, o próprio Bolsonaro admitia a possibilidade do retorno desse tributo, desde que acompanhado de compensações....
***
Que compensações e para quem é que deveria estar nos intrigando. Porque o Superintendente caiu, mas a ideia continua de pé.
Talvez mais forte que antes...
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Tortura nunca mais? Tortura no discurso, no elogio, no supermercado, no retorno da escravidão e até a tortura de Moro (essa merecida!)
Embora pesquisa do instituto Datafolha indique a manutenção da aprovação e do apoio da população ao ministro da Justiça Sérgio Moro, agora é a cúpula da Polícia Federal que já considera um pedido de demissão do ministro como uma saída honrosa para o herói de Curitiba.
E já começam a se manifestar sobre o assunto, engrossando o coro que passa a ser integrado, também pelo ex-presidente Fernando Henrique.
***
Como já havia afirmado em nossa última postagem, não morro de amores por Moro e, pelo contrário, acredito que ele esteja apenas colhendo o que plantou.
Mas, em minha avaliação, não há dúvida que vem sendo alvo de mais que uma fritura, uma verdadeira humilhação por parte dessa verdadeira excrecência a quem a população brasileira decidiu entregar o destino da nação, no limite, até 2022.
***
No entanto, o misto de juiz-soberano e divindade de Curitiba, parece não se incomodar ou faz de tonto, para prosseguir em sua "missão" que, a essa altura, já não consegue nem mesmo ser enunciada. Afinal, a alegação do juiz usada para justificar a troca da confortável posição de magistrado pela aceitação do convite para o ministério era, originariamente, a de ter mais poder para elaborar, fazer aprovar e implementar um plano ou pacote de medidas anti-crimes, favorecendo, especialmente a ampliação da segurança pública e o combate ao crime organizado e à corrupção.
***
Nunca ficou claramente manifesta a vocação política ou a ambição por obtenção de cargos eletivos nas ações do juiz, agora cada vez mais evidentes. E que, por esse motivo mesmo, o reduzem a alvo preferencial do presidente a que se dispôs a servir de forma tão rastejante.
Mas, a verdade é que, mesmo não afetando sua avaliação pela população, as mensagens vazadas pela Vaza Jato desnudam aquilo que todos já desconfiavam e alguns poucos já davam como certo: responsável pela operação Lava Jato, o juiz agia todo o tempo de forma político-partidária, influenciando investigações, silenciando-se sobre investigações sobre aliados, tendo como principal objetivo menos o de passar o país a limpo, mas o de eliminar da política nacional um partido específico, ou todo um espectro de ideias do jogo democrático.
***
Assim, independentemente de, em sã consciência, não acreditar que possa haver qualquer cidadão consciente politicamente, honesto e íntegro que seja contra a Lava Jato, em seu principal objetivo, também não consigo concordar, nem em pesadelos, com a ideia de que alguém com os predicados listados para o cidadão acima, possa ser a favor da forma, do como a operação foi operacionalizada até aqui.
Particularmente, a questão é que não concordo, não posso admitir que os fins justifiquem os meios, e se para pegar possíveis criminosos o Estado, o aparelho policial, a procuradoria, e até a magistratura rompe e ultrapassa os limites legais, o que temos não é apenas o fato de atos criminosos estarem sendo utilizados para desvendar possíveis crimes.
Passamos a assistir à disputa de gangues de criminosos, ao controle do crime por outros criminosos que se investiram da força da lei e da ordem, a que não respeitam.
Algo muito próximo do que temos visto ampliar sua força e seu raio de ação em nosso país: a atuação de milícias.
***
Moro e os procuradores de Curitiba, longe de ser heróis, são apenas criminosos com mais acesso ao poder institucionalizado, que não hesitam em utilizar discriminadamente na defesa de seus interesses.
***
E, se agindo com interesses políticos, Moro já havia sido sondado e até aceito, ao menos intimamente, se tornar ministro de alguém com a estatura moral (ínfima) de Bolsonaro, todas as suas ações e decisões deveriam passar por nova análise, novo crivo e, aquelas suportadas por medidas de exceção ou ilegais, todas culminarem em anulação de processos viciados.
***
Talvez mordido pela mosca azul do poder, ou pela promessa de uma cadeira ainda mais tranquila de ministro do Supremo, esse ministrinho vendeu sua alma ao diabo.
E agora, justamente, paga por seu atrevimento.
***
O que mostra, além de seu comportamento muito próximo ao de qualquer mau caráter, uma incapacidade de avaliação de situações e de pessoas assombrosa.
Afinal, foi combater crimes como o de formação de milícias, exatamente no meio em que tais criminosos encontram guarida e proteção.
Se não tiverem mais que apenas apoio...
***
Dessa forma, o pacote anticrime de Moro, pleno de medidas e propostas de caráter autoritário, como o de excludente de ilicitude para o exagerado e desnecessário uso da força policial; o de aceitação de provas obtidas de forma não convencional, ou de forma ilegal em processos criminais; ou a possibilidade de, através do uso da ameaça velada e da chantagem conseguir quebrar a resistência de algum investigado, através de um possível reconhecimento de cometimento de crime, em troca de delações e punições simbólicas, a tal "plea bargain", caminha melancolicamente pelos corredores da Câmara.
Aos olhos da imprensa, o pacote está sendo desidratado, aos poucos, o que não é de todo ruim.
***
Sem força no Congresso, desrespeitado e humilhado pelo capitão que lhe reserva a posição de ordenança, sem qualquer atitude mais digna em defesa daquelas instituições a quem compete defender e zelar, Moro só continua com apoio público, por força da identificação do público que lhe dá apoio.
Explico: os mesmos que ainda apoiam o ex-juiz, e agora até ex-Ministro, ao menos com M maiúsculo, são aqueles que, desiludidos, ou iludidos, ou apenas desinformados, elegeram _ alguns agora até arrependidos, o presidente Bolsonaro.
É o mesmo público que acreditava em mitos e agora se depara com a verdade em sua pureza: não existem mitos.
***
Não existem mitos, como bem o afirmou o ministro da Educação, o analfabeto Weintraub, quando posta em redes sociais o fato de que não existe Saci Pererê, nem terra redonda, nem Kafka, nem Boitatá, nem o boi Tatá, nem Moros ou Bolsonaros.
Como não existe ministro da Educação em nosso país.
Que paga e pagará muito mais caro no futuro por essa presença aparvalhada, puxassaco e esdrúxula.
***
Retorno da Escravidão
De resto, o retorno da escravidão ganha cada vez mais adeptos e, com ela, as penas de castigos corporais.
Cada vez mais respaldados por quem tem em torturadores seus principais ídolos, e capaz de criticar qualquer pessoa ou discurso em defesa de direitos humanos.
Afinal, essa monstruosidade eleita para governar nosso país, deixou claro, várias vezes, que direitos existem apenas para os de sua turma: filhos, chegados, amigos, funcionários fantasmas ou não, policiais, milicianos.
Não existem direitos humanos para bandidos.
Esses devem ser execrados e, mesmo que por fome, mera gula de comer chocolate, ou por simples falta do que fazer, merecem é ser apanhados, retidos, desnudados, e torturados.
***
E todo esse castigo imposto por quem tem a mesma origem, condição social, e até cor do meliante.
Independente do fato de o criminoso de tanta periculosidade ser menor de idade.
E de precisar que dois homens, DOIS, adultos, com algum treinamento como seguranças, sejam e sirvam como os agentes da punição.
***
O que mais me preocuupa é que a reedição da figura dos capitães do mato, ou de capatazes, ainda mais filmada pelos próprios algozes é sintoma de que havia no ar, na cena gravada, no estabelecimento, ou nas redes sociais, a aprovação tácita para que o criminoso hediondo fosse punido. E tratado a chicotadas, para deleite daqueles que de humanos já perderam há muito qualquer atributo.
***
Tortura nunca mais?
Mas, a ação dos seguranças, provavelmente aceita por baixo dos panos por muita gente que se considera honesta, de bons princípios, até cristã... e que causa agora comoção e leva os donos da loja a terem de adotar (constrangidos, talvez?) a medida de demissão nesse mundo de mi-mi-mi e desse inconveniente comportamento politicamente correto, não se dá ou ganha reforço à toa.
***
A origem está no presidente e suas declarações, a favor do torturador e estuprador Ustra, que com seu comportamento desonra até o sobrenome, Brilhante.
De alguém como Stroessner e sua ditadura violenta e sanguinária no Paraguai.
Declarações a favor da repressão da Ditadura e dos porões que, curiosamente ele queria dinamitar, e que lhe valeu a exclusão da Força. (Ah! esses arroubos da juventude do tenentinho!!!)
Declarações a favor, agora, de Pinochet, o mais cruel e sanguinário, mais terrível ditador chileno.
Declarações que são ou podem servir como um salvo conduto a qualquer atitude, por mais bárbara que seja, mais humilhante ou mais abominável, desde que tal atitude seja adotada contra todos os que se posicionem contra suas posições e crenças.
***
Ao defender a tortura, o presidente ofende a dignidade humana, e consegue colocar contra si e o país que infelizmente representa, todas as forças, inclusive as de mesma inclinação ideológica, que acreditam nas ideias como forma última de tentar melhorar a vida das civilizações e dos homens.
Essa a explicação para as reações de Pinera e de toda a direita chilena, como da própria direita mundial.
***
Mas, para desencanto meu, ainda há os que insistem em defender esse estrupício que ocupa o Planalto e dá vexames em escala cada vez mais ampliada.
***
Fico me perguntando o que será da abertura da sessão da ONU, dia 24 agora de setembro, ocasião em que o presidente do Brasil, por convenção é sempre quem pronuncia o primeiro discurso.
***
Já antevejo Bozó alcançando a tribuna e as delegações se levantando e, em sua maioria, abandonando o plenário.
No que seria mais uma derrota vexatória para nosso país, senão a pior de todas.
***
É isso.
E já começam a se manifestar sobre o assunto, engrossando o coro que passa a ser integrado, também pelo ex-presidente Fernando Henrique.
***
Como já havia afirmado em nossa última postagem, não morro de amores por Moro e, pelo contrário, acredito que ele esteja apenas colhendo o que plantou.
Mas, em minha avaliação, não há dúvida que vem sendo alvo de mais que uma fritura, uma verdadeira humilhação por parte dessa verdadeira excrecência a quem a população brasileira decidiu entregar o destino da nação, no limite, até 2022.
***
No entanto, o misto de juiz-soberano e divindade de Curitiba, parece não se incomodar ou faz de tonto, para prosseguir em sua "missão" que, a essa altura, já não consegue nem mesmo ser enunciada. Afinal, a alegação do juiz usada para justificar a troca da confortável posição de magistrado pela aceitação do convite para o ministério era, originariamente, a de ter mais poder para elaborar, fazer aprovar e implementar um plano ou pacote de medidas anti-crimes, favorecendo, especialmente a ampliação da segurança pública e o combate ao crime organizado e à corrupção.
***
Nunca ficou claramente manifesta a vocação política ou a ambição por obtenção de cargos eletivos nas ações do juiz, agora cada vez mais evidentes. E que, por esse motivo mesmo, o reduzem a alvo preferencial do presidente a que se dispôs a servir de forma tão rastejante.
Mas, a verdade é que, mesmo não afetando sua avaliação pela população, as mensagens vazadas pela Vaza Jato desnudam aquilo que todos já desconfiavam e alguns poucos já davam como certo: responsável pela operação Lava Jato, o juiz agia todo o tempo de forma político-partidária, influenciando investigações, silenciando-se sobre investigações sobre aliados, tendo como principal objetivo menos o de passar o país a limpo, mas o de eliminar da política nacional um partido específico, ou todo um espectro de ideias do jogo democrático.
***
Assim, independentemente de, em sã consciência, não acreditar que possa haver qualquer cidadão consciente politicamente, honesto e íntegro que seja contra a Lava Jato, em seu principal objetivo, também não consigo concordar, nem em pesadelos, com a ideia de que alguém com os predicados listados para o cidadão acima, possa ser a favor da forma, do como a operação foi operacionalizada até aqui.
Particularmente, a questão é que não concordo, não posso admitir que os fins justifiquem os meios, e se para pegar possíveis criminosos o Estado, o aparelho policial, a procuradoria, e até a magistratura rompe e ultrapassa os limites legais, o que temos não é apenas o fato de atos criminosos estarem sendo utilizados para desvendar possíveis crimes.
Passamos a assistir à disputa de gangues de criminosos, ao controle do crime por outros criminosos que se investiram da força da lei e da ordem, a que não respeitam.
Algo muito próximo do que temos visto ampliar sua força e seu raio de ação em nosso país: a atuação de milícias.
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Moro e os procuradores de Curitiba, longe de ser heróis, são apenas criminosos com mais acesso ao poder institucionalizado, que não hesitam em utilizar discriminadamente na defesa de seus interesses.
***
E, se agindo com interesses políticos, Moro já havia sido sondado e até aceito, ao menos intimamente, se tornar ministro de alguém com a estatura moral (ínfima) de Bolsonaro, todas as suas ações e decisões deveriam passar por nova análise, novo crivo e, aquelas suportadas por medidas de exceção ou ilegais, todas culminarem em anulação de processos viciados.
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Talvez mordido pela mosca azul do poder, ou pela promessa de uma cadeira ainda mais tranquila de ministro do Supremo, esse ministrinho vendeu sua alma ao diabo.
E agora, justamente, paga por seu atrevimento.
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O que mostra, além de seu comportamento muito próximo ao de qualquer mau caráter, uma incapacidade de avaliação de situações e de pessoas assombrosa.
Afinal, foi combater crimes como o de formação de milícias, exatamente no meio em que tais criminosos encontram guarida e proteção.
Se não tiverem mais que apenas apoio...
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Dessa forma, o pacote anticrime de Moro, pleno de medidas e propostas de caráter autoritário, como o de excludente de ilicitude para o exagerado e desnecessário uso da força policial; o de aceitação de provas obtidas de forma não convencional, ou de forma ilegal em processos criminais; ou a possibilidade de, através do uso da ameaça velada e da chantagem conseguir quebrar a resistência de algum investigado, através de um possível reconhecimento de cometimento de crime, em troca de delações e punições simbólicas, a tal "plea bargain", caminha melancolicamente pelos corredores da Câmara.
Aos olhos da imprensa, o pacote está sendo desidratado, aos poucos, o que não é de todo ruim.
***
Sem força no Congresso, desrespeitado e humilhado pelo capitão que lhe reserva a posição de ordenança, sem qualquer atitude mais digna em defesa daquelas instituições a quem compete defender e zelar, Moro só continua com apoio público, por força da identificação do público que lhe dá apoio.
Explico: os mesmos que ainda apoiam o ex-juiz, e agora até ex-Ministro, ao menos com M maiúsculo, são aqueles que, desiludidos, ou iludidos, ou apenas desinformados, elegeram _ alguns agora até arrependidos, o presidente Bolsonaro.
É o mesmo público que acreditava em mitos e agora se depara com a verdade em sua pureza: não existem mitos.
***
Não existem mitos, como bem o afirmou o ministro da Educação, o analfabeto Weintraub, quando posta em redes sociais o fato de que não existe Saci Pererê, nem terra redonda, nem Kafka, nem Boitatá, nem o boi Tatá, nem Moros ou Bolsonaros.
Como não existe ministro da Educação em nosso país.
Que paga e pagará muito mais caro no futuro por essa presença aparvalhada, puxassaco e esdrúxula.
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Retorno da Escravidão
De resto, o retorno da escravidão ganha cada vez mais adeptos e, com ela, as penas de castigos corporais.
Cada vez mais respaldados por quem tem em torturadores seus principais ídolos, e capaz de criticar qualquer pessoa ou discurso em defesa de direitos humanos.
Afinal, essa monstruosidade eleita para governar nosso país, deixou claro, várias vezes, que direitos existem apenas para os de sua turma: filhos, chegados, amigos, funcionários fantasmas ou não, policiais, milicianos.
Não existem direitos humanos para bandidos.
Esses devem ser execrados e, mesmo que por fome, mera gula de comer chocolate, ou por simples falta do que fazer, merecem é ser apanhados, retidos, desnudados, e torturados.
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E todo esse castigo imposto por quem tem a mesma origem, condição social, e até cor do meliante.
Independente do fato de o criminoso de tanta periculosidade ser menor de idade.
E de precisar que dois homens, DOIS, adultos, com algum treinamento como seguranças, sejam e sirvam como os agentes da punição.
***
O que mais me preocuupa é que a reedição da figura dos capitães do mato, ou de capatazes, ainda mais filmada pelos próprios algozes é sintoma de que havia no ar, na cena gravada, no estabelecimento, ou nas redes sociais, a aprovação tácita para que o criminoso hediondo fosse punido. E tratado a chicotadas, para deleite daqueles que de humanos já perderam há muito qualquer atributo.
***
Tortura nunca mais?
Mas, a ação dos seguranças, provavelmente aceita por baixo dos panos por muita gente que se considera honesta, de bons princípios, até cristã... e que causa agora comoção e leva os donos da loja a terem de adotar (constrangidos, talvez?) a medida de demissão nesse mundo de mi-mi-mi e desse inconveniente comportamento politicamente correto, não se dá ou ganha reforço à toa.
***
A origem está no presidente e suas declarações, a favor do torturador e estuprador Ustra, que com seu comportamento desonra até o sobrenome, Brilhante.
De alguém como Stroessner e sua ditadura violenta e sanguinária no Paraguai.
Declarações a favor da repressão da Ditadura e dos porões que, curiosamente ele queria dinamitar, e que lhe valeu a exclusão da Força. (Ah! esses arroubos da juventude do tenentinho!!!)
Declarações a favor, agora, de Pinochet, o mais cruel e sanguinário, mais terrível ditador chileno.
Declarações que são ou podem servir como um salvo conduto a qualquer atitude, por mais bárbara que seja, mais humilhante ou mais abominável, desde que tal atitude seja adotada contra todos os que se posicionem contra suas posições e crenças.
***
Ao defender a tortura, o presidente ofende a dignidade humana, e consegue colocar contra si e o país que infelizmente representa, todas as forças, inclusive as de mesma inclinação ideológica, que acreditam nas ideias como forma última de tentar melhorar a vida das civilizações e dos homens.
Essa a explicação para as reações de Pinera e de toda a direita chilena, como da própria direita mundial.
***
Mas, para desencanto meu, ainda há os que insistem em defender esse estrupício que ocupa o Planalto e dá vexames em escala cada vez mais ampliada.
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Fico me perguntando o que será da abertura da sessão da ONU, dia 24 agora de setembro, ocasião em que o presidente do Brasil, por convenção é sempre quem pronuncia o primeiro discurso.
***
Já antevejo Bozó alcançando a tribuna e as delegações se levantando e, em sua maioria, abandonando o plenário.
No que seria mais uma derrota vexatória para nosso país, senão a pior de todas.
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É isso.
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Moro cada vez mais valendo menos e as queimadas: o que quer Bolsonaro com o discurso de soberania ferida? Uma nova Malvinas?
Em minha opinião, Moro colhe o que plantou. O que não deveria ser novidade para ninguém, muito menos para os habitantes de um país cuja principal atividade econômica está ligada à agricultura, ao agronegócio.
Assim, não nutro qualquer sensação de solidariedade ou simpatia por esse ex-juiz, cuja arrogância assumiu proporções tão gigantescas que, junto com o poder que o cargo de juiz lhe proporcionava, acabou por inebriá-lo.
***
Como responsável pela operação Lava Jato, sempre adotou um comportamento em que foi mais que juiz, um justiceiro. Aplaudido e incensado pela mídia; por todos os políticos que não tinham vinculação estreita com o PT, independente do tipo de comportamento delituoso ou pleno de indícios de ilegalidades; transformado em herói nacional por uma parcela da população, muitas vezes sem condições de analisar de forma isenta e criticamente qualquer que fosse a novidade repercutida pelos meios de comunicação ou pior, alardeada pelas redes sociais, Moro rompeu por várias vezes o limite da legalidade.
Cínico, para justificar as arbitrariedades e ilegalidades cometidas, sempre que cobrado apresentou suas escusas mais singelas, sempre alegando algum tipo de descuido, algum tipo de engano no envio ou na publicação do que quer que fosse, o que é curioso em uma pessoa que, na maior parte das vezes mostrou-se extremamente cuidadoso e cioso de suas responsabilidades.
***
Lembre-se que ele se encontrava em gozo de férias, no exterior, quando ao saber da decisão de um desembargador de plantão que concedia "habeas corpus" a Lula, imediatamente se pronunciou contrário à decisão, entrando em contato com autoridades da PF, orientando quanto ao descumprimento da ordem de soltura, ou seja, mostrando estar, mesmo em seu descanso, sempre atento ao que ocorria em seu domínio.
***
Mas, sem querer, por um lapso, pelo qual se desculpou, gravou sem autoridade para tanto e, pior, divulgou mensagens de comunicação trocados entre a presidente da República e políticos (notadamente Lula!), além de ter repetido o engano, ao gravar e divulgar mensagens privadas de Lula e seus familiares.
Aqui, nesse caso, se necessária a gravação de Lula e suas conversas com familiares, manda o respeito e o bom senso que não se divulgue o conteúdo sem relação com o objeto de investigação.
***
Mas, o juizinho de Curitiba se achava cada vez mais próximo de ser Deus. E aos deuses, é permitido tanto frequentar recepções e festividades em que estão presentes personalidades que poderão vir a ser objeto de seu julgamento futuro, ainda na mesma operação Lava Jato; quanto é permitido errar, ou pior, agir de forma criminosa ou ilegal ou aética, por sentimentos às vezes tão torpes quanto a vingança.
Afinal, para os que frequentam o Olimpo, tudo é permitido, exceto falhar.
***
Como todo ser humano, a soberba o dominou e a mosca azul do poder mais amplo deve tê-lo picado de forma trágica.
A história todos sabem: antes mesmo da eleição de Bolsonaro, em segundo turno, Moro foi sondado para abandonar o cargo de magistrado e vir a se tornar ministro da Justiça. Um superministro, como se dizia na ocasião. Com superpoderes para implantar um pacote anticrimes e corrupção, cheio de abusos, como por exemplo, o da utilização de provas - conseguidas de que forma fossem obtidas, em processos de investigação criminal. Ou o ponto que tenta implantar o excludente de ilicitude para policiais no exercício de suas atividades e missões.
***
E aqui, devemos deixar claro que sempre a legítima defesa fez parte do nosso direito, apenas que quando tal ação de defesa se faz com as mesmas armas e intensidade do ataque devido.
Afinal, uma pessoa armada que invade um ambiente e coloca em risco a todos que ali se encontravam, pode e deve até, ser tratada como alguém que ameaça a vida de outros e, como tal, ser recebida a tiros. Ninguém irá receitar que se jogue chinelos em tal pessoa. Ou que se tente desarmar tal pessoa com um canivete ou faca.
Mas, daí a permitir que uma pessoa com armada, ameaçando outras pudesse levar um tiro, à queima roupa, na nuca. Ou que, se estivesse, por exemplo, nas ruas de alguma cidade pudesse ter um carro atirado em sua direção, parece-me incabível. Caracterizaria muito tranquilamente o uso de força excessiva na reação.
***
A situação ficaria ainda mais estranha se o policial em missão fosse o agente autorizado a atirar e matar, com uso de uma desculpa de excludente como o mero risco ou a emoção do momento.
Ora, não bastasse a aparência de que alguns policiais parece ter verdadeiro prazer sádico em matar, como o confirmam as vítimas - pobres, pretas, jovens, de comunidades da periferia - de balas perdidas, por exemplo, no Rio.
Vá lá, é uma minoria, felizmente.
***
Mas, supondo que essa forma de conduta seja algo incentivado dentro das academias ou cursos de formação militar, o que podemos esperar dos jovens militares lançados às ruas?
***
Mas, supondo que essa forma de conduta seja algo incentivado dentro das academias ou cursos de formação militar, o que podemos esperar dos jovens militares lançados às ruas?
E se essa conduta ainda for acompanhada de postura como a de governador do Rio, antigo juiz, parece que também acreditar-se integrante da categoria dos semideuses, comemorando a morte de um jovem com problemas psiquiátricos, abatido - segundo o que consta, no caso corretamente, nos protocolos e manuais- sem apelação.
***
Ora, para uma polícia com membros que acreditam que bandido bom é o bandido morto, o excludente de ilicitude é uma ameaça.
Mas, pior para Moro foi, em seu pacote, a questão da legalidade de obtenção de provas.
Como o feitiço tende sempre a voltar-se contra o feiticeiro, com gravações que podem não ter sido obtidas legalmente, ou seja as provas que ele sempre desejou usar, ficamos sabendo de suas ações injustas e irregulares, criminosas mesmo, na operação Vaza Jato.
***
Dito tudo isso, há que se comemorar, as atitudes de total desrespeito que "nosso presidente" vem adotando em relação ao seu ministro.
O que, em minha opinião, revela ao menos algum resultado positivo dessa gestão tão caótica e desequilibrada.
Bolsonaro formatou e definiu Moro com a estatura que o juizinho merecia: minúscula.
Como toda pessoa que é rancorosa e ressentida, enquanto pode usar o juiz, o capitão o usou. Foi assim que conseguiu que Moro, a poucos dias da eleição em segundo turno, mais uma vez viesse a público, divulgando fatos em ocasião mais que inoportuna, de delação cometida por palocci.
Eleito, aproveitou para navegar na popularidade sem fundamento de seu ministro. Mas com medo da sombra em que o juiz poderia se transformar, e conhecedor da personalidade pouco confiável do juizinho, antes de ser traído pelo ministro, tratou de divulgar as negociações que fizeram Moro abdicar de uma situação de total tranquilidade para o risco total do jogo político.
Tendo deixado a magistratura, no futuro Moro seria indicado para o Supremo. Precedente já teria, no governo Collor, com Francisco Rezek.
***
Foi aí que Moro embarcou, ou mordido pela mosca azul, na aventura de se tornar o candidato de Bolsonaro para sucedê-lo, em 2022.
Mas Bolsonaro não irá entregar a rapadura com tanta facilidade e Moro corre o risco de, desmoralizado, nem ir para o Supremo, nem tornar-se candidato. Menos ainda de continuar ministro.
Especialmente se a desmoralização de seu ministro fizer parte de um esquema de turmas de milicianos, e organizações criminosas de tal perfil, elaborado para enterrar qualquer possibilidade, até por vingança, de que um juizinho arrogante, creia ser possível endurecer penalidades e enquadrar criminosos de alta periculosidade. Alguns deles, muito bem relacionados no Planalto.
***
Só espero que, em meio a sua desventura, Moro não saia e Bolsonaro não chame para substituí-lo ao seu dileto amigo, Queiroz.
***
Queimadas e Amazônia
Chamar o planeta de nossa casa, é algo tão natural, como chamar a terra de nave mãe, considerar a todos nós como parte de uma mesma viagem.
Chamar a Amazônia de nossa casa também é algo que não deveria escandalizar a qualquer pessoa que lembre que essa região do mundo não é apenas brasileira. Vários povos, nações, países têm territórios na região da selva.
Inclusive a França, e sua Guiana.
Tratar essa forma de expressão como algo que, ao contrário de servir de alerta e de solidariedade, ou de disposição de ajudar a resolver problemas com algum sinal de desejos de ataque à soberania brasileira, só pode ser coisa de algum paranoico. Maluco total.
***
Macron, como presidente da França tem toda a razão em se preocupar com a questão das queimadas na selva, que poderão em breve atingir seu próprio território.
Tem toda a razão em querer discutir em nível internacional - no âmbito do G7, medidas que poderiam trazer alguma ajuda, por menor que fosse, especialmente em termos de recursos escassos, como dinheiro.
Os países do G7, também preocupados, disponibilizarem recursos para ajudar no combate às queimadas no Brasil em montante de 90 milhões de reais, aproximadamente, é algo a se comemorar.
Exceto se o presidente do Brasil se chamar Bolsonaro. E se, ao que parece, sua política externa é toda traçada com o objetivo de nos desmoralizar e, desfazendo tudo de positivo que Lula criou no cenário internacional, nos ridicularizar em escala planetária.
***
Situação que, para sermos exatos, tem conseguido alcançar com raro brilho.
O Brasil virou chacota.
E Bolsonaro só pode justificar suas ações utilizando argumentos antiglobalistas, de isolamento de nosso país, ou ainda pior, como forma de criar um campo de batalha, naquilo que seria o equivalente a incentivar uma guerra pelas Malvinas, de forma a, como os militares autoritários e fascistas da Argentina dos anos 70/80, procurar obter coesão interna, à custa de um patriotismo tolo e descabido.
O problema é que as ações de Bolsonaro são sempre contrárias ao que recomenda o bom senso, e se não induzem, acabam sendo interpretadas, como sinais de que a preservação ambiental é conversa de globalistas marxistas, que o governo jurou exterminar.
***
Assim, desde as declarações de que a região amazônica deve ser objeto de exploração predatória (sob uma suspeita ideia de que os índios desejam ter uma vida integralmente aculturada); ou medidas de corte de gastos com a fiscalização ambiental ou as instituições de conservação do meio-ambiente; ou ainda de desmentir dados de pesquisa oficiais, apenas por não serem de seu agrado, trocando diretores de órgão de coleta de informações preciosas e científicas de alta qualidade - o conjunto de decisões de Bolsonaro acaba sendo entendido como um convite para todo aquele que quiser explorar de forma irresponsável e inconsequente nossa natureza.
***
Aos que têm interesses de lucro fácil, não há necessidade de um segundo convite.
***
Enquanto isso, o capitão dispensa a ajuda financeira internacional, sob a alegação de que serve a interesses contrários a nossa soberania.
Seu filho, em vias de ser indicado embaixador nos Estados Unidos, afirma que diplomacia se faz com armas, incentivando ainda mais o lobby da indústria americana.
Bolsonaro só aprova ajuda dos Estados Unidos e Israel, o primeiro dos dois países que já foi até convidado a vir explorar nossas riquezas minerais da selva.
E o mau gosto de tratar toda a questão, séria, como uma questão de primeira dama mais bonita é a peça que faltava para comprovar mediocridade de nosso presidente.
***
Certo está Macron: o Brasil merecia coisa melhor.
Melhor que uma primeira dama charmosa, elegante, jovem, bonita, mas com toda a família envolvida em atos ilícitos e criminosos.
O que assegura que, em termos de folha corrida de antecedentes da família, ao menos, Michelle vence a francesa sem precisar fazer força.
***
Para terminar, um alerta a todos os navegantes, sem maiores condições de pesquisar e aprofundar o conhecimento.
O desmate é feito com a passagem de tratores puxando correntes de ferro.
As árvores abatidas ou arrancadas pelos tratores e máquinas pesadas, devem secar para poder ser utilizadas.
Apenas depois de já aberta a clareira ou os vários campos de futebol, equivalentes, é que a limpeza do terreno é facilitada, caso seja feita por meio do uso do fogo.
Ou seja: a queimada é depois que o desmate já foi feito.
E a madeira já está seca.
E o terreno pronto para o agronegócio irresponsável avançar contra a vida.
***
É isso.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
Guedes, o posto Ipiranga, o blefe do acerto de suas ideias e as denúncias de comportamento irregular de que sempre é acusado e de que sempre se safa
"Ainda é tempo de impedir que o fanatismo ideológico do senhor Guedes destrua 90 anos de história da economia brasileira, para atender ao interesse de um pequeno grupo de banqueiros, financistas e agroexportadores, passando por cima do interesse do “resto” da sociedade brasileira".
Com esse parágrafo de alerta, o professor José Luís Fiori, professor titular de Economia Política Internacional do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisador conceituado e autor de vários livros, conclui seu artigo "O ditador, a sua "obra" e o grande blefe do senhor Guedes", cujo link para acesso ao texto integral passo a seguir:
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591628-o-ditador-a-sua-obra-e-o-grande-blefe-do-senhor-guedes-artigo-de-jose-luis-fiori
***
Como no caso de recomendação de leitura de um artigo de análise crítica, o "spoiler", antes de funcionar como um estraga prazeres pode atiçar a curiosidade do leitor, vou antecipar aqui que o artigo começa analisando a política econômica instaurada no Chile do ditador Pinochet, no período de 1973 a 1990, sob o comando de Sergio de Castro, então no papel de superministro.
***
Como se sabe, no período, as políticas adotadas transformaram o Chile em verdadeiro laboratório de implantação de políticas ultraliberais, inspiradas por Milton Friedman e seus colegas da Escola de Chicago.
Como salienta o professor Fiori, tal experiência, sempre apresentada como um êxito retumbante, apenas se sustenta com base em uma descrição da história falsificada, capaz de permitir comparações espúrias, e de forte caráter ideológico, que não encontra suporte nos dados reais.
***
Dessa forma, o artigo procura, de forma bastante, sucinta traçar um perfil da economia chilena antes do fatídico golpe de 11 de setembro, capaz de caracterizá-la como uma economia extremamente simples, primária exportadora, com base na produção de cobre, além de madeira, peixes, frutos e vinho.
O acesso a todos os demais produtos necessários, inclusive alimentos, petróleo, etc. se fazia por meio de importações, o que tornava as características econômicas, demográficas, geopolíticas daquele país extremamente simples.
Adicionalmente, o Chile podia ser considerado um país isolado do resto do mundo.
***
Independente de tais características, foi aí que os liberais de Chicago resolveram experimentar todo seu estoque de reformas liberais, reformas que para serem colocadas em prática, aproveitaram-se de que a feroz e sanguinária ditadura chilena impôs um Toque de Recolher a toda a população, que se estendeu de 1973 até 1985.
***
Mesmo sob tais circunstâncias, as estatísticas permitem identificar dois subperíodos, um de 1973 até 1982, e outro deste ano até 1990.
O primeiro deles, sob a inspiração dos Chicago Boys, gerou uma crise de dimensões tão catastróficas que Pinochet demitiu o ministro Sergio de Castro, e começou a reverter várias das medidas até então adotadas.
Segundo o artigo, o PIB chileno caíra 13,4%, o desemprego alcançou os 19,6% e 30% da população passou a sobreviver de assistencialismo.
***
Se o Chile hoje apresenta crescimento invejável, situação econômica estável, tornando-se referência para outros países em estágio similar de desenvolvimento, tais conquistas só foram possibilitadas pelas medidas adotadas após a ditadura, de 1990 até 2019.
***
Vale destacar que, por ter participado de equipes de trabalho e assessoria do programa ultraliberal, cujo resultado foi ter levado o Chile ao fim do poço, é que o senhor Guedes é considerado um economista de renome e expressão.
Sem querer questionar sua capacidade intelectual, reconhecida por muitos, a questão maior trata de ele se apresentar surfando uma onda liberal que arrastou o Chile para um caos econômico, mas mais importante ainda, social.
***
E adota tal comportamento, de guru, ou Posto Ipiranga do capitão do presente desgoverno, assentado em uma farsa, ou melhor, uma fábula que a mídia ajuda a propagar, sabe-se lá com que tenebrosas intenções.
O Chile liberal foi um fiasco!
Guedes, ao que consta não teve papel de grande projeção!
Suas políticas pró mercado, no fundo nem podem ser assim chamadas, já que são mais pró grandes empreendedores, muito longe da ideia de mercados competitivos dos livros escolares.
***
Fundamentando sua trajetória e ideias em uma visão corrompida - caso da economia chilena, não é de se estranhar que sobre o ministro pesem outras questões, de caráter moral até.
Como sua participação em gestão de fundos privados (e públicos) de investimento.
Ou, como agora noticiado pela Folha, sua participação ou a presença na gestão de empresas envolvidas em pagamentos efetuados a escritório de fachada, suspeito de esquema de propina no Paraná.
***
Curiosamente, trazido ao conhecimento público ontem, a transação da empresa de Guedes, embora documentada foi considerada pela Lava Jato como não fortemente embasada em provas, o que permitiu que ele não fosse incluído, com seus sócios, na rol de acusados.
***
O que faz com que eu compare a Lava Jato, e Guedes, mais uma vez ao uso do VAR no futebol.
Pois, como tem lances que o VAR é chamado para auxiliar o juiz a evitar um erro ou uma injustiça, outros casos passam sem sua sinalização. Como foi o caso da vergonhosa penalidade cometida pelo goleiro são paulino no jogador do Ceará.
Penalidade clara, que o juiz de campo interpretou como lance normal, e que o juiz de vídeo também preferiu interpretar a favor do time mais rico, de maior projeção e renome.
***
Para não perder a deixa, já que estamos tratando de um ultraliberal e suas políticas, incluo abaixo um outro link, extraído de artigo publicado na Folha de São Paulo, caderno Ilustríssima de domingo último, de autoria de dois professores e pesquisadores.
O link é:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustríssima/2019/08/anarquismo-ultraliberal-e-so-uma-moda-dizem-pesquisadores.shtml.
Discutindo a impossibilidade de existência do tal anarcapitalismo, fusão de ideias anarquistas com as liberdades de mercado, os autores, cujo texto recomendo enfaticamente, revelam a característica absolutamente anticapitalista do conceito de anarquismo.
E vão desenvolver a ideia de que o Estado, por mínimo que seja, é algo típico e indissociável de uma sociedade de classes, hierarquização, e de diferenciação, como a sociedade capitalista.
Ou seja, sem capitalismo não há Estado, e vice-versa.
***
O que nos remete à antiga discussão, menos do papel do Estado, e mais do interesse de classe que está na alma dessa instituição.
Porque, mais assistencialista ou não, mais interventor ou não, mais enxuto ou não, no fim, o Estado apenas procura resguardar, proteger e ampliar os processos de reprodução da classe mais privilegiada, as elites financeiras do capital.
***
Em minha opinião, grande parte da disputa e da tentativa de se refundar um novo aparelho de Estado se dá como reflexo da luta ou da disputa intercapitalista.
Agora, com algum tipo de dificuldades para as atividades produtoras, ligadas à produção industrial, e até mesmo à atividade do complexo agrícola ou agrário, tendo em vista que nossa política econômica está sob inspiração e cuidados de um financista.
***
É isso.
Com esse parágrafo de alerta, o professor José Luís Fiori, professor titular de Economia Política Internacional do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisador conceituado e autor de vários livros, conclui seu artigo "O ditador, a sua "obra" e o grande blefe do senhor Guedes", cujo link para acesso ao texto integral passo a seguir:
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591628-o-ditador-a-sua-obra-e-o-grande-blefe-do-senhor-guedes-artigo-de-jose-luis-fiori
***
Como no caso de recomendação de leitura de um artigo de análise crítica, o "spoiler", antes de funcionar como um estraga prazeres pode atiçar a curiosidade do leitor, vou antecipar aqui que o artigo começa analisando a política econômica instaurada no Chile do ditador Pinochet, no período de 1973 a 1990, sob o comando de Sergio de Castro, então no papel de superministro.
***
Como se sabe, no período, as políticas adotadas transformaram o Chile em verdadeiro laboratório de implantação de políticas ultraliberais, inspiradas por Milton Friedman e seus colegas da Escola de Chicago.
Como salienta o professor Fiori, tal experiência, sempre apresentada como um êxito retumbante, apenas se sustenta com base em uma descrição da história falsificada, capaz de permitir comparações espúrias, e de forte caráter ideológico, que não encontra suporte nos dados reais.
***
Dessa forma, o artigo procura, de forma bastante, sucinta traçar um perfil da economia chilena antes do fatídico golpe de 11 de setembro, capaz de caracterizá-la como uma economia extremamente simples, primária exportadora, com base na produção de cobre, além de madeira, peixes, frutos e vinho.
O acesso a todos os demais produtos necessários, inclusive alimentos, petróleo, etc. se fazia por meio de importações, o que tornava as características econômicas, demográficas, geopolíticas daquele país extremamente simples.
Adicionalmente, o Chile podia ser considerado um país isolado do resto do mundo.
***
Independente de tais características, foi aí que os liberais de Chicago resolveram experimentar todo seu estoque de reformas liberais, reformas que para serem colocadas em prática, aproveitaram-se de que a feroz e sanguinária ditadura chilena impôs um Toque de Recolher a toda a população, que se estendeu de 1973 até 1985.
***
Mesmo sob tais circunstâncias, as estatísticas permitem identificar dois subperíodos, um de 1973 até 1982, e outro deste ano até 1990.
O primeiro deles, sob a inspiração dos Chicago Boys, gerou uma crise de dimensões tão catastróficas que Pinochet demitiu o ministro Sergio de Castro, e começou a reverter várias das medidas até então adotadas.
Segundo o artigo, o PIB chileno caíra 13,4%, o desemprego alcançou os 19,6% e 30% da população passou a sobreviver de assistencialismo.
***
Se o Chile hoje apresenta crescimento invejável, situação econômica estável, tornando-se referência para outros países em estágio similar de desenvolvimento, tais conquistas só foram possibilitadas pelas medidas adotadas após a ditadura, de 1990 até 2019.
***
Vale destacar que, por ter participado de equipes de trabalho e assessoria do programa ultraliberal, cujo resultado foi ter levado o Chile ao fim do poço, é que o senhor Guedes é considerado um economista de renome e expressão.
Sem querer questionar sua capacidade intelectual, reconhecida por muitos, a questão maior trata de ele se apresentar surfando uma onda liberal que arrastou o Chile para um caos econômico, mas mais importante ainda, social.
***
E adota tal comportamento, de guru, ou Posto Ipiranga do capitão do presente desgoverno, assentado em uma farsa, ou melhor, uma fábula que a mídia ajuda a propagar, sabe-se lá com que tenebrosas intenções.
O Chile liberal foi um fiasco!
Guedes, ao que consta não teve papel de grande projeção!
Suas políticas pró mercado, no fundo nem podem ser assim chamadas, já que são mais pró grandes empreendedores, muito longe da ideia de mercados competitivos dos livros escolares.
***
Fundamentando sua trajetória e ideias em uma visão corrompida - caso da economia chilena, não é de se estranhar que sobre o ministro pesem outras questões, de caráter moral até.
Como sua participação em gestão de fundos privados (e públicos) de investimento.
Ou, como agora noticiado pela Folha, sua participação ou a presença na gestão de empresas envolvidas em pagamentos efetuados a escritório de fachada, suspeito de esquema de propina no Paraná.
***
Curiosamente, trazido ao conhecimento público ontem, a transação da empresa de Guedes, embora documentada foi considerada pela Lava Jato como não fortemente embasada em provas, o que permitiu que ele não fosse incluído, com seus sócios, na rol de acusados.
***
O que faz com que eu compare a Lava Jato, e Guedes, mais uma vez ao uso do VAR no futebol.
Pois, como tem lances que o VAR é chamado para auxiliar o juiz a evitar um erro ou uma injustiça, outros casos passam sem sua sinalização. Como foi o caso da vergonhosa penalidade cometida pelo goleiro são paulino no jogador do Ceará.
Penalidade clara, que o juiz de campo interpretou como lance normal, e que o juiz de vídeo também preferiu interpretar a favor do time mais rico, de maior projeção e renome.
***
Para não perder a deixa, já que estamos tratando de um ultraliberal e suas políticas, incluo abaixo um outro link, extraído de artigo publicado na Folha de São Paulo, caderno Ilustríssima de domingo último, de autoria de dois professores e pesquisadores.
O link é:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustríssima/2019/08/anarquismo-ultraliberal-e-so-uma-moda-dizem-pesquisadores.shtml.
Discutindo a impossibilidade de existência do tal anarcapitalismo, fusão de ideias anarquistas com as liberdades de mercado, os autores, cujo texto recomendo enfaticamente, revelam a característica absolutamente anticapitalista do conceito de anarquismo.
E vão desenvolver a ideia de que o Estado, por mínimo que seja, é algo típico e indissociável de uma sociedade de classes, hierarquização, e de diferenciação, como a sociedade capitalista.
Ou seja, sem capitalismo não há Estado, e vice-versa.
***
O que nos remete à antiga discussão, menos do papel do Estado, e mais do interesse de classe que está na alma dessa instituição.
Porque, mais assistencialista ou não, mais interventor ou não, mais enxuto ou não, no fim, o Estado apenas procura resguardar, proteger e ampliar os processos de reprodução da classe mais privilegiada, as elites financeiras do capital.
***
Em minha opinião, grande parte da disputa e da tentativa de se refundar um novo aparelho de Estado se dá como reflexo da luta ou da disputa intercapitalista.
Agora, com algum tipo de dificuldades para as atividades produtoras, ligadas à produção industrial, e até mesmo à atividade do complexo agrícola ou agrário, tendo em vista que nossa política econômica está sob inspiração e cuidados de um financista.
***
É isso.
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
REFLEXÕES E PESADELO, mais um discurso de paraninfo em colação de grau da Una, ontem. Antes alguns comentários necessários
Tão estapafúrdias as atitudes, a postura e as declarações de Bolsonaro que, confesso, as palavras me fogem. Dessa forma, sinto a maior dificuldade em postar alguma análise ou comentário, razão do intervalo de tempo desde minha última publicação no blog.
No entanto, como diziam as camisetas de Collor, o tempo é o senhor da razão. E todo analista acaba se beneficiando de um certo distanciamento do calor dos acontecimentos.
Afinal, o tempo consegue amainar as paixões, impedindo que tenhamos nossa visão e capacidade de interpretação dos fatos (muito) alterados por nossas expectativas ou sonhos.
***
E, convenhamos, são tão esdrúxulas as declarações de Bolsonaro a respeito da contribuição de cada um de nós para reduzir a emissão de gases que provocam o aquecimento global; ou sobre a pequena ou quase nula importância de uma ajuda financeira internacional de algo como R$ 130 milhões de reais, agora interrompida pela Noruega, colaboração que ele desdenha com sua costumeira e já comprovada grosseria e falta de educação, ou o respeito manifesto por ele à opinião - DEMOCRÁTICA - do povo argentino, nossos vizinhos, que não haveria blog ou coluna de jornal, ou algum comentarista sério que tolerasse ficar martelando um mesmo e único assunto, dias a fio.
***
Apenas os humoristas, talvez, se tiverem estrutura suficiente e condições de competitividade podem aproveitar as deixas, os "cacos" desse personagem burlesco, nonsense, à procura de um autor, ou de um roteiro quem sabe?
O que justifica o fato de a maior parte dos colunistas da grande imprensa, já terem escrito algum artigo com uma profissão de fé: não continuar ocupando sua atenção e nossa paciência com esse tsunami de asneiras.
***
O que nos leva, a todos, a nos perguntar atônitos: o que está por trás deste discurso tão destrambelhado?
Seria apenas o fato de ele ter o cérebro dominado por muita ... desculpem-me os poucos leitores, e apenas por muita merda. Caso ele tenha mesmo algum vestígio de cérebro!
***
E, para além da tese de que ele está apenas forçando e reforçando o discurso junto à manada de idiotas que o consideram um mito, o que lhe asseguraria uma participação de ao menos 20 a 25% de eleitores, parcela bastante interessante para assegurar-lhe a presença em um segundo turno eleitoral, contando com a pulverização de candidaturas da centro direita à extrema esquerda.
Sob essa hipótese, mais uma vez iríamos assistir a toda uma grande maioria de pessoas comuns, cuja cabeça foi, ano pós ano, programada para rejeitarem qualquer que seja o espectro de algo que possa estar vinculado à esquerda, ou mais propriamente, rotulada de comunismo.
***
Como ninguém nega, ao longo de mais de 70 anos, especialmente nossa mídia foi pródiga de criar e alimentar a ideia de que o comunista, antes de mais nada, é alguém que, sem querer ou gostar de trabalhar, de forma autoritária, deseja apenas distribuir todas as coisas que o trabalhador sério, comum, conquistou com seu suor e tanto sacrifício.
Isso, sem contar que os regimes e governos de cunho mais socialista são sempre identificados com governos autoritários e, pior, capazes apensa de generalizarem e distribuírem a pobreza.
***
Não. Não vou aqui falar de excrecências, algumas vezes divulgadas pelo método boca-a-boca entre a população de menor grau de educação formal e cultura, de que comunista faz mal a criancinhas ou às freiras das congregações religiosas, uma vez que não tementes a Deus.
***
Na verdade, embora ninguém tenha sequer lido um mínimo - já que não leem nada mesmo, a ideia e imagem deturpada difundida pela grande imprensa acaba apenas criando estereótipos equivocados. A ponto de levar maioria da população a temer o socialismo, mesmo que todos digam admirar os países nórdicos, ou a social democracia europeia.
Governos tão de esquerda, ou até mais que o de Lula, para citar apenas uma das personalidades vendidas como uma das "bestas do apocalipse".
Tudo bem que longe de ser santo, Lula ainda era um mero operário que ascendeu socialmente, roubando as oportunidades de gente de linhagem muito mais nobre e mais alta estirpe.
***
Voltando ao tema inicial, acho que Bolsonaro, por mais mentalmente incapaz que seja, tem sim e representa um projeto de poder, autoritário, anti-democrático, excludente, e que privilegia uma minoria que se pretende representante de uma supremacia branca, misógina, de privilegiados.
Bolsonaro é o idiota útil, para levar a sociedade civil e os mecanismos de proteção dos direitos e da justiça social ao cansaço.
***
Obtido o resultado, talvez seja afastado como fazemos com o bagaço da laranja já toda sugada.
Independente disso, nosso Bozó serve para nos distrair enquanto personagens de caráter mais duvidoso e intenções muito mais destrutivas, como nosso ministro Guedes, faz avançar reformas como a da Previdência, ou a tributária, ou ainda as medidas contra a burocratização.
Bem, Guedes é tão mais perigoso, e destila certas ideias que, à primeira vista, parecem tão mais benéficas à população em geral, que merece que voltemos a escrever mais rotineiramente, ao menos para discutir certas banalidades, frivolidades, e frases retóricas, que ele emite. Frases que agradam aos ouvidos distraídos, mas que são completamente vazias de sentido. E pior, capazes de distorcer a realidade.
***
Cito apenas um exemplo: em evento na última semana, nosso ministro da perversão e Economia defendeu o fim das deduções do Imposto de Renda. A alegação é que tais deduções beneficiariam apenas os privilegiados, já que o pobre enfrenta o atendimento precário do SUS, onde não paga nada, não pega recibo e não pode abater nada do imposto que recolhe...
Ao contrário, os mais favorecidos pegam recibos que, às vezes, nem tiveram algum serviço real a lhe dar conteúdo e significado, servindo apenas para que tais pessoas possam pagar menos imposto.
***
Dito assim, parece que o ministro está coberto de razão. E o fim das deduções falsas não é apenas uma questão de melhorar os esquemas de fiscalização, mas uma questão de justiça social e distribuição equitativa de ônus.
***
O sinistro apenas não falou que a Constituição assegura, a todos os brasileiros, atendimento gratuito à saúde. E se nosso sistema de saúde não dá conta de atender a ninguém, a nenhuma das classes sociais, o correto seria verificar como arranjar recursos para suprir nossas carências na área. Não sem antes deixar claro que, em nossa opinião, melhor que gastar curando, é gastar com prevenção à saúde. O que implica, por exemplo, saneamento, etc. Todas essas políticas públicas que o sinistro deseja destruir, sob o mau argumento de que funcionam em caráter precário.
***
Ora, quem tem condições paga o médico particular ou o plano privado de assistência médica - tão a gosto do ministro liberalóide, o que é flagrante descumprimento da nossa Lei maior. Daí, a dedução é uma compensação, um reconhecimento de que a legislação está sendo desrespeitada e que aquele contribuinte pode, pois, reaver, parcialmente ou até de forma insignificante, o montante gasto por culpa da ausência de governo e de políticas de governo.
***
Não vou me alongar mais.
Volto ao tema posteriormente. Em postagens que prometo tornar mais amiúde.
***
O resto da postagem traz o discurso que proferi ontem, como paraninfo da turma de Ciências Econômicas, na solenidade da colação de grau relativa à turma concluinte no 1º semestre de 2019.
Eis o discurso.
Reflexões e Pesadelo
No entanto, como diziam as camisetas de Collor, o tempo é o senhor da razão. E todo analista acaba se beneficiando de um certo distanciamento do calor dos acontecimentos.
Afinal, o tempo consegue amainar as paixões, impedindo que tenhamos nossa visão e capacidade de interpretação dos fatos (muito) alterados por nossas expectativas ou sonhos.
***
E, convenhamos, são tão esdrúxulas as declarações de Bolsonaro a respeito da contribuição de cada um de nós para reduzir a emissão de gases que provocam o aquecimento global; ou sobre a pequena ou quase nula importância de uma ajuda financeira internacional de algo como R$ 130 milhões de reais, agora interrompida pela Noruega, colaboração que ele desdenha com sua costumeira e já comprovada grosseria e falta de educação, ou o respeito manifesto por ele à opinião - DEMOCRÁTICA - do povo argentino, nossos vizinhos, que não haveria blog ou coluna de jornal, ou algum comentarista sério que tolerasse ficar martelando um mesmo e único assunto, dias a fio.
***
Apenas os humoristas, talvez, se tiverem estrutura suficiente e condições de competitividade podem aproveitar as deixas, os "cacos" desse personagem burlesco, nonsense, à procura de um autor, ou de um roteiro quem sabe?
O que justifica o fato de a maior parte dos colunistas da grande imprensa, já terem escrito algum artigo com uma profissão de fé: não continuar ocupando sua atenção e nossa paciência com esse tsunami de asneiras.
***
O que nos leva, a todos, a nos perguntar atônitos: o que está por trás deste discurso tão destrambelhado?
Seria apenas o fato de ele ter o cérebro dominado por muita ... desculpem-me os poucos leitores, e apenas por muita merda. Caso ele tenha mesmo algum vestígio de cérebro!
***
E, para além da tese de que ele está apenas forçando e reforçando o discurso junto à manada de idiotas que o consideram um mito, o que lhe asseguraria uma participação de ao menos 20 a 25% de eleitores, parcela bastante interessante para assegurar-lhe a presença em um segundo turno eleitoral, contando com a pulverização de candidaturas da centro direita à extrema esquerda.
Sob essa hipótese, mais uma vez iríamos assistir a toda uma grande maioria de pessoas comuns, cuja cabeça foi, ano pós ano, programada para rejeitarem qualquer que seja o espectro de algo que possa estar vinculado à esquerda, ou mais propriamente, rotulada de comunismo.
***
Como ninguém nega, ao longo de mais de 70 anos, especialmente nossa mídia foi pródiga de criar e alimentar a ideia de que o comunista, antes de mais nada, é alguém que, sem querer ou gostar de trabalhar, de forma autoritária, deseja apenas distribuir todas as coisas que o trabalhador sério, comum, conquistou com seu suor e tanto sacrifício.
Isso, sem contar que os regimes e governos de cunho mais socialista são sempre identificados com governos autoritários e, pior, capazes apensa de generalizarem e distribuírem a pobreza.
***
Não. Não vou aqui falar de excrecências, algumas vezes divulgadas pelo método boca-a-boca entre a população de menor grau de educação formal e cultura, de que comunista faz mal a criancinhas ou às freiras das congregações religiosas, uma vez que não tementes a Deus.
***
Na verdade, embora ninguém tenha sequer lido um mínimo - já que não leem nada mesmo, a ideia e imagem deturpada difundida pela grande imprensa acaba apenas criando estereótipos equivocados. A ponto de levar maioria da população a temer o socialismo, mesmo que todos digam admirar os países nórdicos, ou a social democracia europeia.
Governos tão de esquerda, ou até mais que o de Lula, para citar apenas uma das personalidades vendidas como uma das "bestas do apocalipse".
Tudo bem que longe de ser santo, Lula ainda era um mero operário que ascendeu socialmente, roubando as oportunidades de gente de linhagem muito mais nobre e mais alta estirpe.
***
Voltando ao tema inicial, acho que Bolsonaro, por mais mentalmente incapaz que seja, tem sim e representa um projeto de poder, autoritário, anti-democrático, excludente, e que privilegia uma minoria que se pretende representante de uma supremacia branca, misógina, de privilegiados.
Bolsonaro é o idiota útil, para levar a sociedade civil e os mecanismos de proteção dos direitos e da justiça social ao cansaço.
***
Obtido o resultado, talvez seja afastado como fazemos com o bagaço da laranja já toda sugada.
Independente disso, nosso Bozó serve para nos distrair enquanto personagens de caráter mais duvidoso e intenções muito mais destrutivas, como nosso ministro Guedes, faz avançar reformas como a da Previdência, ou a tributária, ou ainda as medidas contra a burocratização.
Bem, Guedes é tão mais perigoso, e destila certas ideias que, à primeira vista, parecem tão mais benéficas à população em geral, que merece que voltemos a escrever mais rotineiramente, ao menos para discutir certas banalidades, frivolidades, e frases retóricas, que ele emite. Frases que agradam aos ouvidos distraídos, mas que são completamente vazias de sentido. E pior, capazes de distorcer a realidade.
***
Cito apenas um exemplo: em evento na última semana, nosso ministro da perversão e Economia defendeu o fim das deduções do Imposto de Renda. A alegação é que tais deduções beneficiariam apenas os privilegiados, já que o pobre enfrenta o atendimento precário do SUS, onde não paga nada, não pega recibo e não pode abater nada do imposto que recolhe...
Ao contrário, os mais favorecidos pegam recibos que, às vezes, nem tiveram algum serviço real a lhe dar conteúdo e significado, servindo apenas para que tais pessoas possam pagar menos imposto.
***
Dito assim, parece que o ministro está coberto de razão. E o fim das deduções falsas não é apenas uma questão de melhorar os esquemas de fiscalização, mas uma questão de justiça social e distribuição equitativa de ônus.
***
O sinistro apenas não falou que a Constituição assegura, a todos os brasileiros, atendimento gratuito à saúde. E se nosso sistema de saúde não dá conta de atender a ninguém, a nenhuma das classes sociais, o correto seria verificar como arranjar recursos para suprir nossas carências na área. Não sem antes deixar claro que, em nossa opinião, melhor que gastar curando, é gastar com prevenção à saúde. O que implica, por exemplo, saneamento, etc. Todas essas políticas públicas que o sinistro deseja destruir, sob o mau argumento de que funcionam em caráter precário.
***
Ora, quem tem condições paga o médico particular ou o plano privado de assistência médica - tão a gosto do ministro liberalóide, o que é flagrante descumprimento da nossa Lei maior. Daí, a dedução é uma compensação, um reconhecimento de que a legislação está sendo desrespeitada e que aquele contribuinte pode, pois, reaver, parcialmente ou até de forma insignificante, o montante gasto por culpa da ausência de governo e de políticas de governo.
***
Não vou me alongar mais.
Volto ao tema posteriormente. Em postagens que prometo tornar mais amiúde.
***
O resto da postagem traz o discurso que proferi ontem, como paraninfo da turma de Ciências Econômicas, na solenidade da colação de grau relativa à turma concluinte no 1º semestre de 2019.
Eis o discurso.
Reflexões e Pesadelo
Senhoras e
senhores, prezados alunos, boa noite.
Meu
discurso hoje tem uma estrutura diferente. Trata-se de um conjunto de reflexões
que partilho com vocês.
Nessa noite
não vou falar de Marielle. Não vou perguntar quem mandou matar Marielle, nem
vou perguntar se alguém tem notícias do Queiroz.
Tampouco
vou falar das delícias de uma sociedade dominada por milícias. Ou de um governo
que se preocupa, a cada instante, em eliminar direitos sociais, governando em nome
de uma minoria: as elites vinculadas ao grande capital.
Para o
povo, o conselho de manter estoques...
***
De início,
parabenizo a todos vocês que concluem, vitoriosos, mais essa etapa da vida, e a
todos aqui presentes - familiares, mães, pais, companheiros, parceiros, filhos
e amigos-, que lhes proporcionaram as condições necessárias a essa conquista, ajudando-os
a preservar a sanidade e a serenidade. Recebam todos minhas homenagens.
Mas, em
meio a tantas e justas comemorações, não podemos nos alhear do ambiente que nos
envolve e que, se não se confunde com a realidade paralela de Matrix, revela uma
sociedade cada vez mais distópica, como o demonstra a experiência de Jean
William, o tenor paulista, considerado um dos talentosos e promissores nomes da
cena erudita brasileira.
Apadrinhado
pelo maestro João Carlos Martins o cantor, que já se apresentou para o papa
Francisco, o príncipe Albert 2º de Mônaco, e nos mais famosos palcos da Europa
e Estados Unidos, como o famoso Avery Fisher Hall, no Lincoln Center, em Nova
York tem sido vítima de ameaças e ofensas nas redes sociais, apenas por ter o
nome semelhante ao de um ex-deputado, hoje fora do país.
***
Eu mesmo,
em minha insignificância, ao fim de uma solenidade de colação de grau fui alvo
da brincadeira de mau gosto de alguns poucos presentes, que me fizeram o sinal
de arminhas com as mãos.
Tais episódios
trazem-me à memória uma tirinha em
quadrinhos, publicada há muitos anos nos jornais, que tinha o Reizinho
como personagem, de que me sirvo para uma primeira reflexão.
Na história,
Reizinho observava o movimento de uma minúscula formiga, filosofando que valor
teria a vida de alguém tão frágil, tão pequeno, tão insignificante. Para ele, pisar
naquele reles inseto apenas poria fim a um sofrimento, uma nulidade. Mas,
enquanto se decidia quanto a que atitude adotar, nos quadrinhos seguintes o ilustrador ampliava seu foco, se elevando e se
distanciando das duas figuras. Até o quadrinho fnal, em que a terra era um
pontinho em meio ao cosmos e nem se distinguiam mais a formiga ou o vulto de Reizinho,
meras partículas de poeira na imensidão do espaço.
***
A segunda
reflexão me transporta à sala de aula e à imagem do vidro, que utilizo para divagar
sobre a verdade. Por que como a verdade, o vidro é uma estrutura única, concreta, sólida, mesmo
que transparente. Mas o que se vê através dele depende da posição de início do observador.
O que eu vejo, olhando de fora para o
interior, é diferente do que vê quem está olhando de dentro para fora.
Se a
realidade concreta e palpável de ser vidro não se altera, muda a interpretação.
O que deveria nos obrigar, como professores, analistas, cidadãos, a olhar,
sempre, a raiz da divergência de nossas opiniões em relação à interpretação de
outras pessoas de nosso convívio.
***
O que exige
uma explicação, já que respeitar a visão dos outros não significa abrir mão de
defender, com unhas e dentes, como meus alunos bem o sabem, o pensamento que eu
possa ter em algum momento. Mesmo ciente de que meu raciocínio pode mudar em
seguida. Evoluindo. Aperfeiçoando-se.
***
Razão
porque, ainda que envaidecido de ter sido escolhido paraninfo da turma, como o
Reizinho, devo admitir minha insignificância como professor.
Não se
trata de cansaço, de fadiga de material! A verdade é que estou convencido que,
em todos esses anos em salas de aula, não demovi um aluno que fosse de suas
ideias originais. Mesmo quando elas não existiam.
O que me
permite entender o significado e a experiência contida na frase da professora
emérita Maria da Conceição Tavares, para quem: “Os mestres, parece que nasceram
para serem humilhados pelos alunos”.
***
No entanto,
os professores temos sido acusados de participar de uma conspiração destinada a
promover uma lavagem cerebral, visando fazer a cabeça de nossos alunos, de
forma a inculcar-lhes uma visão de mundo
nem sempre aceita.
Se existe
tal conspiração, confesso que, ao fim e ao cabo, sempre me senti sozinho, isolado.
Talvez por ter estado, sempre, na defesa do lado derrotado. O que não me abate.
Antes, me enche de orgulho, especialmente quando percebo que do lado derrotado,
e sem se queixar, estiveram todos os meus ídolos.
Pessoas que
nunca se abateram e, movidos pela fé, sempre buscaram construir um mundo
melhor.
***
Capazes de acreditarem que “Quando o muro separa, uma ponte une; Se a
vingança encara, o remorso pune; Você vem me agarra, alguém vem me
solta.... Você corta um verso, eu
escrevo outro; você me prende vivo, eu escapo morto; De repente olha eu de
novo, perturbando a paz, exigindo o troco”. Porque, como descrito por Paulo César Pinheiro
em Pesadelo, “E se a força é sua, ela um
dia é nossa, olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando, que medo
você tem de nós.”
***
O que nos
traz à última reflexão, baseada em um filme italiano do final dos anos 1970:
Pasqualino Sete Belezas. Órfão de pai e mãe, o jovem do interior da Itália,
como irmão mais velho tornou-se o guardião da honra de sete irmãs, até quando
descobriu que um aventureiro abusara de uma delas.
Para lavar
a honra da família, Pasqualino se vinga,
matando e esquartejando o rapaz em sete partes, cada uma delas despachada em
malas para um destino distinto. Preso e tratado como herói, foi condenado a
muitos anos de cadeia. É inesquecível a
cena de sua chegada à cela, alvo da reverência e respeito de todos os demais
prisioneiros. Exceto um, um ancião que já perdera a conta de há a quanto tempo estava
preso.
Curioso, Pasqualino
quis saber que crime tão hediondo aquele senhor poderia ter cometido. Ao que o
velho respondeu: eu pensei.
***
Além da
reflexão, a história serve para mostrar como a defesa dos valores da democracia
e da justiça social, nem sempre bem vistos ou tolerados, devem exigir sempre
nossa atenção. O que permite que eu transmita um conselho para meus afilhados de
Ciências Econômicas, esta maltratada área das Ciências Sociais, citando uma vez
mais a professora Conceição Tavares:
“Se não se preocupa com ajuste social, com
quem paga a conta, você não é um economista sério. Você é um tecnocrata.”
***
Concluo com
a consciência tranquila de não ter feito qualquer menção ao governo de nosso
país. Desde cedo, aprendi que não devemos discutir o que não entendemos. Não há
como discutir uma realidade distorcida.
Afinal, distópico ou não, Matrix é apenas um filme de
Hollywood.
Vão ser
cientistas sociais. Vão transformar o mundo. Vão ser felizes.
terça-feira, 23 de julho de 2019
Vamos usar o VAR para Bolsonaro
Não há mais uma partida de futebol que não tenha sua presença incômoda.
E, convenhamos, até de forma correta, o árbitro de vídeo, que atende pela sigla VAR se transformou em mais que apenas um figurante, em um personagem chato. O personagem principal. Que atrapalha o andamento e ritmo do jogo.
No afã de impedir ou evitar todo e qualquer erro ou falha humana, o VAR está sempre lá. Onipresente.
Impedindo que a torcida se manifeste espontaneamente na hora do "momento maior do futebol", o gol, constrangida agora a uma verificação pelo juiz de vídeo, pelo juiz de campo, quanto à legalidade do lance.
***
Há casos em que o sofrido torcedor - conhecido pelos apelidos de geraldino ou arquibaldo antes de mais uma trapalhada patrocinada pela entidade máxima do nosso futebol, FIFA ou CBF e sua decisão de elitizar o esporte mais popular do mundo, transformando os estádios em arenas - deve esperar minutos preciosos para poder vibrarem com a confirmação do gol.
Aliás, é forçoso reconhecer que o VAR está conseguindo atingir o anticlímax: em muitas ocasiões, a torcida vibra pela desconsideração do gol, pelo gol anulado.
***
No início do pitaco de hoje, comparei aquilo que era para ser uma ferramenta para aumentar o brilho do jogo, a um personagem de teatro, um ator. Mesmo que canastrão.
Engano meu.
Como a maioria dos analistas, cronistas esportivos e integrantes das inúmeras mesas de debates de futebol admitem, o VAR se comporta mais como alguém que adentra o palco, invade o cenário e interrompe a exibição, interferindo no andamento e na dinâmica do texto representado. E isso, com a intenção de esclarecer para a plateia atônita alguma fala, algum gesto. Quando não para voltar a história alguns instantes antes, e passar a explicar, melhor dizendo, interpretar a trama a peça.
***
Como vários dos amantes do futebol, confesso que aplaudi o surgimento da ferramenta.
Acreditava que, em alguns lances - como da bola que ultrapassou a linha do gol; do impedimento claro, antes da conclusão da jogada; como da expulsão por atitude antiesportiva, não vista pelo juiz, ou a marcação da falta dentro da área-, o espetáculo sairia beneficiado, pela possibilidade de impedir injustiças flagrantes.
***
Entretanto, tão logo entrou em funcionamento, de forma concomitante, os "velhinhos do Board da FIFA" já resolveram que não ficariam de fora de mudança de tal magnitude. E, para não perderem a oportunidade de aparecer, alteraram algumas regras.
Como, por exemplo, a do impedimento. Que agora passa a ser anotado depois de concluído o lance e não quando do lance em andamento.
Ora, o mero ato de aguardar a definição da jogada, mesmo que com alguns segundos apenas de intervalo entre o fato e a conclusão, provoca uma sensação ruim, de perda de tempo, já que vários lances que acontecem, são vistos e registrados, acabam sendo anulados.
Como se a vida pudesse voltar atrás e uma borracha pudesse anular o que, de fato, aconteceu.
***
E pior.
Temerosos de serem punidos ou sujeitos a punição por erros cometidos, mesmo que involuntariamente, os juízes, auxiliares, árbitros de campo, preferem acomodar-se e deixar "as águas rolarem e o barco seguir", para depois, em havendo necessidade, interromper o jogo, ficar vendo a telinha lateral ao campo, e decidirem o que valeu ou não, de tudo que o torcedor viu, sentiu, vibrou.
***
Importante lembrar que uma das justificativas do uso do VAR era evitar a cena de jogadores em bolinho sobre o árbitro, reclamando, ofendendo, exigindo a marcação de algum lance discutível.
Pois esse comportamento não foi abolido. E em minha opinião apenas ficou mais grave. E o uso opcional do VAR pelo juiz tem contribuído ainda mais para o surgimento de reclamações e acusações de favorecimento.
Acusações que ganham agora mais força, com o apoio do emprego ou não do instrumento.
***
Razão por que, utilizando da experiência de outros esportes em que o uso da tecnologia tem sido muito benéfico, a ponto de se tornarem exemplo para o futebol, acho que o uso do VAR deveria ter um limite.
Algo do tipo, cada time poderia ter dois ou três desafios ao longo de uma partida, ou de um tempo de futebol.
Tendo que, a partir daí, saber a hora de pedir a intervenção do vídeo, a hora de desafiar o ponto, para não perderem uma oportunidade de fazerem valer seu direito em momento mais oportuno.
***
Ora, se funciona como desafio, no volei, no tênis, não haveria como não trazer alguma melhoria para o futebol, deixando claro que os lances de se a bola entrou ou não, de alguma agressão que possa ter havido, etc. não deixariam de ser comunicadas ao árbitro principal.
***
POR QUE O VAR?
Mas, não se iludam aqueles que puderem achar estranho que o pitaco hoje trate de tema tão banal quanto o do árbitro de vídeo.
Na verdade, não estamos apenas falando de futebol. Como diz a propaganda de um canal esportivo, não é só futebol...
***
A ideia é aproveitar o uso do VAR para poder voltar atrás e corrigir a quantidade de trapalhadas que esse imbecil eleito presidente do Brasil reconheça-se, de forma democrática, consegue produzir.
Com grande mérito do personagem, também é necessário admitir.
Porque a impressão que se impõe é a de que Bolsonaro parece uma linha de montagem. De bobagens.
Isso sem falar em liturgia do cargo, em assumir as responsabilidades de quem, desde eleito deixou de ser líder de um partido ou de uma massa de eleitores, para se tornar presidente de todo o país.
O que me leva a crer que a ficha não caiu para ele, ainda. Se é que podemos aguardar que isso vá acontecer algum dia.
***
Mais recentemente, se houvesse o VAR, poderíamos não ter registrado para a história que o presidente de todos os brasileiros trata os nordestinos como paraíbas. Uma gíria que, para os cariocas, de onde provém o presidente serve para designar todo mundo que nasceu da Bahia para cima.
Acontece que, no caso de Bolsonaro, e sua estúpida impulsividade - ou ele acha que estava sendo apenas engraçado-, a expressão faz lembrar a forma de referência pejorativa como alguns cariocas (a minoria, felizmente!) se refere ao nordestino de forma geral.
Um termo do mesmo tipo condenável que aquele adotado por alguns paulistas, quando se referem à "baianada" de algum indivíduo ou a algum comportamento de "baiano".
***
O problema aqui não é de mimimi, ou de politicamente correto. Trata-se de um presidente da República, por mais plantadora de bananas seja esse república. Referindo-se de forma inapropriada, especialmente a um adversário político a quem está desejando tratar a pão e água.
E tendo como agravante que essa pessoa tratada como desafeto pelo presidente, não é apenas uma pessoa comum, já que representa, tanto quanto Bolsonaro para seu público em nível mais amplo, a mesma importância para todo o povo do Maranhão.
***
Dá-lhe VAR. E nós poderíamos não ter de assistir a cenas de constrangimento como o do presidente negando que exista fome no Brasil.
Ou criticando o fato de que os dados sobre desmatamento sejam falsos. Ou pior, manipulados.
Enquanto seu governo prossegue na sua generosidade com os empresários do agronegócio, ampliam a lista de uso de produtos tóxicos no plantio, e ele se preocupa em nomear seu filho embaixador do Brasil nos Estados Unidos.
***
Alguns irão talvez, pensar que o presidente já utilize o VAR, tamanha a quantidade de asneiras que despeja e, depois, tem de se fazer a maior ginástica para reparar, reinterpretar, despejar mais besteiras (em quantidade), em substituição às mais graves ditas anteriormente.
***
Foi assim, com o "golden shower", com o ministro do STF terrivelmente evangélico, com a fome no Brasil, e agora com o INPE.
Mas nesses casos, o presidente não volta atrás apenas. Por mais difícil que possa ser para entender, ele vai além.
Como no caso do INPE, agora acusado de não poder divulgar dados, sempre divulgados antes, para não prejudicar relações comerciais do país com outras nações, defensoras do meio ambiente.
***
Não nos esqueçamos que esse idiota que ocupa a presidência do país ameaçou abandonar o Acordo de Paris, para seguir ao seu modelo de autoridade, Trump; fez pouco caso dos acordos comerciais com a União Europeia, por não respeitar o Mercosul.
Também foi ele que deixou claro, várias vezes, que não se importava com a recusa de países como a Noruega em continuar financiando fundos em prol da Amazônia, o que sob sua ótica era apenas a demonstração cabal de nações que queriam vir explorar a virgindade de nossas riquezas naturais.
***
Isso de um presidente que se insurgiu contra a propaganda do Banco do Brasil, tratando da diversidade, mas aprova a da Embratur que convida turistas estrangeiros a virem "amar".
Na lógica já exposta pelo próprio presidente, não há nada muito anormal, se o turista vier para namorar nossas mulheres.
O que não combina com seu modo de pensamento obtuso é que vendamos a imagem de que no Brasil, há uma população, não inexpressiva de GLBTs+.
***
Mas, para quem está preocupado com Bruna Surfistinha e o que isso evoca de nossa moral e costumes, não é muito estranho ver o presidente ficar contra os números. Quando ele deveria ficar contra o desmatamento.
***
E enquanto ele comete todas essas asneiras, o país segue às tontas, razão porque para terminar, retomo a questão do VAR.
Porque como tem ficado claro pelos comentários dos entendidos (se é que alguém entende!), o VAR deve sempre voltar e examinar a origem toda do lance. Foi assim por exemplo, que se manifestaram em relação ao pênalti claro sofrido por Elias, do Galo, no papelão que foi o jogo contra o Fortaleza. Tudo porque na origem da jogada, havia sido cometida falta no lateral do time cearense.
O que significa que o por mais claro que tivesse sido, o pênalti não deveria ter sido marcado.
***
Acontece que na origem de nossa história republicana, não houve debate, não houve apresentação de propostas. Houve apenas muita agressividade, muita declaração rancorosa, contra .... nunca a favor de nada.
Tudo centrado em uma facada que....
***
É isso.
E, convenhamos, até de forma correta, o árbitro de vídeo, que atende pela sigla VAR se transformou em mais que apenas um figurante, em um personagem chato. O personagem principal. Que atrapalha o andamento e ritmo do jogo.
No afã de impedir ou evitar todo e qualquer erro ou falha humana, o VAR está sempre lá. Onipresente.
Impedindo que a torcida se manifeste espontaneamente na hora do "momento maior do futebol", o gol, constrangida agora a uma verificação pelo juiz de vídeo, pelo juiz de campo, quanto à legalidade do lance.
***
Há casos em que o sofrido torcedor - conhecido pelos apelidos de geraldino ou arquibaldo antes de mais uma trapalhada patrocinada pela entidade máxima do nosso futebol, FIFA ou CBF e sua decisão de elitizar o esporte mais popular do mundo, transformando os estádios em arenas - deve esperar minutos preciosos para poder vibrarem com a confirmação do gol.
Aliás, é forçoso reconhecer que o VAR está conseguindo atingir o anticlímax: em muitas ocasiões, a torcida vibra pela desconsideração do gol, pelo gol anulado.
***
No início do pitaco de hoje, comparei aquilo que era para ser uma ferramenta para aumentar o brilho do jogo, a um personagem de teatro, um ator. Mesmo que canastrão.
Engano meu.
Como a maioria dos analistas, cronistas esportivos e integrantes das inúmeras mesas de debates de futebol admitem, o VAR se comporta mais como alguém que adentra o palco, invade o cenário e interrompe a exibição, interferindo no andamento e na dinâmica do texto representado. E isso, com a intenção de esclarecer para a plateia atônita alguma fala, algum gesto. Quando não para voltar a história alguns instantes antes, e passar a explicar, melhor dizendo, interpretar a trama a peça.
***
Como vários dos amantes do futebol, confesso que aplaudi o surgimento da ferramenta.
Acreditava que, em alguns lances - como da bola que ultrapassou a linha do gol; do impedimento claro, antes da conclusão da jogada; como da expulsão por atitude antiesportiva, não vista pelo juiz, ou a marcação da falta dentro da área-, o espetáculo sairia beneficiado, pela possibilidade de impedir injustiças flagrantes.
***
Entretanto, tão logo entrou em funcionamento, de forma concomitante, os "velhinhos do Board da FIFA" já resolveram que não ficariam de fora de mudança de tal magnitude. E, para não perderem a oportunidade de aparecer, alteraram algumas regras.
Como, por exemplo, a do impedimento. Que agora passa a ser anotado depois de concluído o lance e não quando do lance em andamento.
Ora, o mero ato de aguardar a definição da jogada, mesmo que com alguns segundos apenas de intervalo entre o fato e a conclusão, provoca uma sensação ruim, de perda de tempo, já que vários lances que acontecem, são vistos e registrados, acabam sendo anulados.
Como se a vida pudesse voltar atrás e uma borracha pudesse anular o que, de fato, aconteceu.
***
E pior.
Temerosos de serem punidos ou sujeitos a punição por erros cometidos, mesmo que involuntariamente, os juízes, auxiliares, árbitros de campo, preferem acomodar-se e deixar "as águas rolarem e o barco seguir", para depois, em havendo necessidade, interromper o jogo, ficar vendo a telinha lateral ao campo, e decidirem o que valeu ou não, de tudo que o torcedor viu, sentiu, vibrou.
***
Importante lembrar que uma das justificativas do uso do VAR era evitar a cena de jogadores em bolinho sobre o árbitro, reclamando, ofendendo, exigindo a marcação de algum lance discutível.
Pois esse comportamento não foi abolido. E em minha opinião apenas ficou mais grave. E o uso opcional do VAR pelo juiz tem contribuído ainda mais para o surgimento de reclamações e acusações de favorecimento.
Acusações que ganham agora mais força, com o apoio do emprego ou não do instrumento.
***
Razão por que, utilizando da experiência de outros esportes em que o uso da tecnologia tem sido muito benéfico, a ponto de se tornarem exemplo para o futebol, acho que o uso do VAR deveria ter um limite.
Algo do tipo, cada time poderia ter dois ou três desafios ao longo de uma partida, ou de um tempo de futebol.
Tendo que, a partir daí, saber a hora de pedir a intervenção do vídeo, a hora de desafiar o ponto, para não perderem uma oportunidade de fazerem valer seu direito em momento mais oportuno.
***
Ora, se funciona como desafio, no volei, no tênis, não haveria como não trazer alguma melhoria para o futebol, deixando claro que os lances de se a bola entrou ou não, de alguma agressão que possa ter havido, etc. não deixariam de ser comunicadas ao árbitro principal.
***
POR QUE O VAR?
Mas, não se iludam aqueles que puderem achar estranho que o pitaco hoje trate de tema tão banal quanto o do árbitro de vídeo.
Na verdade, não estamos apenas falando de futebol. Como diz a propaganda de um canal esportivo, não é só futebol...
***
A ideia é aproveitar o uso do VAR para poder voltar atrás e corrigir a quantidade de trapalhadas que esse imbecil eleito presidente do Brasil reconheça-se, de forma democrática, consegue produzir.
Com grande mérito do personagem, também é necessário admitir.
Porque a impressão que se impõe é a de que Bolsonaro parece uma linha de montagem. De bobagens.
Isso sem falar em liturgia do cargo, em assumir as responsabilidades de quem, desde eleito deixou de ser líder de um partido ou de uma massa de eleitores, para se tornar presidente de todo o país.
O que me leva a crer que a ficha não caiu para ele, ainda. Se é que podemos aguardar que isso vá acontecer algum dia.
***
Mais recentemente, se houvesse o VAR, poderíamos não ter registrado para a história que o presidente de todos os brasileiros trata os nordestinos como paraíbas. Uma gíria que, para os cariocas, de onde provém o presidente serve para designar todo mundo que nasceu da Bahia para cima.
Acontece que, no caso de Bolsonaro, e sua estúpida impulsividade - ou ele acha que estava sendo apenas engraçado-, a expressão faz lembrar a forma de referência pejorativa como alguns cariocas (a minoria, felizmente!) se refere ao nordestino de forma geral.
Um termo do mesmo tipo condenável que aquele adotado por alguns paulistas, quando se referem à "baianada" de algum indivíduo ou a algum comportamento de "baiano".
***
O problema aqui não é de mimimi, ou de politicamente correto. Trata-se de um presidente da República, por mais plantadora de bananas seja esse república. Referindo-se de forma inapropriada, especialmente a um adversário político a quem está desejando tratar a pão e água.
E tendo como agravante que essa pessoa tratada como desafeto pelo presidente, não é apenas uma pessoa comum, já que representa, tanto quanto Bolsonaro para seu público em nível mais amplo, a mesma importância para todo o povo do Maranhão.
***
Dá-lhe VAR. E nós poderíamos não ter de assistir a cenas de constrangimento como o do presidente negando que exista fome no Brasil.
Ou criticando o fato de que os dados sobre desmatamento sejam falsos. Ou pior, manipulados.
Enquanto seu governo prossegue na sua generosidade com os empresários do agronegócio, ampliam a lista de uso de produtos tóxicos no plantio, e ele se preocupa em nomear seu filho embaixador do Brasil nos Estados Unidos.
***
Alguns irão talvez, pensar que o presidente já utilize o VAR, tamanha a quantidade de asneiras que despeja e, depois, tem de se fazer a maior ginástica para reparar, reinterpretar, despejar mais besteiras (em quantidade), em substituição às mais graves ditas anteriormente.
***
Foi assim, com o "golden shower", com o ministro do STF terrivelmente evangélico, com a fome no Brasil, e agora com o INPE.
Mas nesses casos, o presidente não volta atrás apenas. Por mais difícil que possa ser para entender, ele vai além.
Como no caso do INPE, agora acusado de não poder divulgar dados, sempre divulgados antes, para não prejudicar relações comerciais do país com outras nações, defensoras do meio ambiente.
***
Não nos esqueçamos que esse idiota que ocupa a presidência do país ameaçou abandonar o Acordo de Paris, para seguir ao seu modelo de autoridade, Trump; fez pouco caso dos acordos comerciais com a União Europeia, por não respeitar o Mercosul.
Também foi ele que deixou claro, várias vezes, que não se importava com a recusa de países como a Noruega em continuar financiando fundos em prol da Amazônia, o que sob sua ótica era apenas a demonstração cabal de nações que queriam vir explorar a virgindade de nossas riquezas naturais.
***
Isso de um presidente que se insurgiu contra a propaganda do Banco do Brasil, tratando da diversidade, mas aprova a da Embratur que convida turistas estrangeiros a virem "amar".
Na lógica já exposta pelo próprio presidente, não há nada muito anormal, se o turista vier para namorar nossas mulheres.
O que não combina com seu modo de pensamento obtuso é que vendamos a imagem de que no Brasil, há uma população, não inexpressiva de GLBTs+.
***
Mas, para quem está preocupado com Bruna Surfistinha e o que isso evoca de nossa moral e costumes, não é muito estranho ver o presidente ficar contra os números. Quando ele deveria ficar contra o desmatamento.
***
E enquanto ele comete todas essas asneiras, o país segue às tontas, razão porque para terminar, retomo a questão do VAR.
Porque como tem ficado claro pelos comentários dos entendidos (se é que alguém entende!), o VAR deve sempre voltar e examinar a origem toda do lance. Foi assim por exemplo, que se manifestaram em relação ao pênalti claro sofrido por Elias, do Galo, no papelão que foi o jogo contra o Fortaleza. Tudo porque na origem da jogada, havia sido cometida falta no lateral do time cearense.
O que significa que o por mais claro que tivesse sido, o pênalti não deveria ter sido marcado.
***
Acontece que na origem de nossa história republicana, não houve debate, não houve apresentação de propostas. Houve apenas muita agressividade, muita declaração rancorosa, contra .... nunca a favor de nada.
Tudo centrado em uma facada que....
***
É isso.
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