quarta-feira, 9 de julho de 2014

Derrotas vergonhosas e vitórias possíveis. E um pouco de recordação

Tínhamos acabado de sair do primário e, como era comum naquele tempo, podíamos optar por fazer um ano de estudos preparatórios ou tentar direto os exames de admissão, espécie de vestibular que nos permitia entrar no curso ginasial.
Era o ano de 1966, eu ainda não tinha completado os 11 anos e, aprovado, entrei direto no primeiro ano do Colégio Santo Antônio, então um dos colégios mais respeitados de BH.
Como os meninos de nossa idade e de nossa época, eu gostava muito de futebol, e o meu gosto pela prática do esporte era, devo admitir, inversamente proporcional à minha qualidade em campo. E, também é importante lembrar que, sendo um colégio que ocupava um terreno de pequenas dimensões, o Colégio Santo Antônio não tinha um campo de futebol. Tinha uma quadra de cimento, para a prática do futebol de salão e onde eram realizadas as aulas de Educação Física.
Pois bem, como todos os colégios, também o Santo Antônio tinha um grêmio estudantil que patrocinava um campeonato interno de futebol a cada ano. E como todos os demais alunos, nós, da 1ª série ginasial ficamos ansiosos para que os quadros e murais começassem a dar informes sobre a realização do campeonato daquele ano.
E não demorou muito para que os preparativos para o campeonato tivessem início e nós, como todos os outros colegas, começássemos a discutir em sala a formação dos times para a inscrição no campeonato. Uma discussão que, vista com olhos de hoje era no mínimo curiosa, já que não tínhamos tempo suficiente para nos conhecermos. Em comum, havia apenas a vontade, enorme, de cada um de nós participarmos dos jogos. Vontade muito maior que a qualidade de nosso futebol.
E formamos o poderoso Antártica, time que contava comigo, o Tarcísio, o Serafim... e outros colegas, que a memória não me permite identificar. E a vergonha impede de identificar com os sobrenomes.
Feita a inscrição no campeonato, e publicada a tabela, fomos informados que nossa estréia seria contra o The Horses, time da 4ª série B, formado pelos alunos mais velhos do turno da tarde, e favoritíssimo a serem os campeões, junto ao The Goldfinger, time de alunos do 3º B ginasial e que enfrentaríamos, na segunda rodada, se bem me lembro.
E chegou o dia tão ansiosamente aguardado de nosso jogo. E, nesse dia, um de nossos colegas não poderia jogar.
-Não tem problema! Tamanha era nossa ansiedade que jogaríamos com um jogador a menos, entrando com três na linha.
Também não me lembro se combinamos que cada um de nós jogaria um tempo no gol, nos revezando, ou se foi o goleiro que não poderia estar em campo. Sei que o jogo foi uma marca no Colégio Santo Antônio.
Perdemos de 37 a zero.
Muito pior e mais vexatório que os 7 a 1 do time brasileiro, ontem.
Da partida, lembro-me pouco, o suficiente para lembrar que nenhum de nós tinha físico para disputar qualquer jogada com os colegas mais velhos. Que o Serafim, em momento que foi jogar no gol se atreveu a tentar interceptar um chute que lhe valeu aparecer no Colégio de mão enfaixada no dia seguinte. Que houve uma hora que, para brincar conosco, o The Horses cometeu um pênalte, que eu perdi. Simplesmente, por não ter forças para chutar a bola e conseguir fazê-la vencer o goleiro adversário.
***
Na semana seguinte, jogamos contra os Goldfinger e levamos outra sapatada, perdendo de 14 a zero.
Nossa participação era tão ridícula, que o Grêmio se reuniu e chegou à conclusão de que não havia a menor condição de dar sequência a um campeonato como aquele.
Nesse meio tempo, jogamos contra outro time, o Tupi, acho que da 1ª ou 2ª série, perdendo de 2 a zero, apenas.
E o campeonato foi suspenso e decidiu-se que daquele dia em diante haveria duas competições, uma para os novatos, nós da primeira e segunda série, outro para os mais velhos, de forma a impedir ou evitar que nós os menores puséssemos nossa integridade em risco.
***
Pois bem, lembrei ontem à noite dessa história, e resolvi registrá-la apenas porque, hoje, não vejo nenhum problema em se perder uma competição ou uma partida, até de forma acachapante como aconteceu com a seleção brasileira ontem.
Problema maior é não se extrair as lições, não se tirar qualquer aprendizado, não reconhecer as falhas e não promover as mudanças necessárias para que tais derrotas não sejam em vão.
No Colégio Santo Antônio, mais que chacota, viramos o motivo de mudanças e alterações que tornaram os jogos mais justos e mais bem disputados. Terminando naquele ano, com o pessoal da 3ª série campeão.
Mas, o Colégio Santo Antônio, já naquele tempo, como ainda hoje, sempre foi lugar de lições inesquecíveis e aprendizado.
***
Que nossa seleção brasileira, o comando de nosso esporte, a midia esportiva toda tenha, a partir de ontem, a humildade que não foi manifesta em nenhum momento dessa Copa, para reconhecer nossa arrogância, nossas inverdades cultivadas ao limite, nossa pretensão de sermos o país do futebol e/ou a pátria de chuteiras, para podermos dar ao futebol o valor e a dimensão que ele, como esporte, merece.
E para que o episódio de ontem, sirva para que nosso país possa melhorar, mais que a conquista do título o faria.



terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobre o canto do hino a capela ou de metade do hino e sobre hinos e os rigores e formalidades do hino nacional

Confesso que é de arrepiar, e deveras emocionante, ouvir a execução de nosso tão bonito, melodioso e extenso hino nacional. Emocionante a ponto de, aos primeiros acordes de sua introdução grandiosa, fazer-nos marejar os olhos, independente das razões, do ambiente, da situação que dá ensejo a sua execução.
Pena é o fato de, em nosso país, ao contrário de tantos outros em que também constitui um dos símbolos oficiais de nossa nacionalidade, o hino ser tratado não como uma música do povo, para ser por ele cantada e cultivada, sempre e a cada momento, como um bem cultural de cada um de nós.
Assim, o hino, por mais belo que seja, não nos traz a sensação de pertencimento que, em minha ignorância, acho que deveria ser o primeiro requisito de que deveria ser impregnado. Porque para mim, o hino de uma nação deveria ser a expressão maior da alma do povo sendo uma de suas posses mais significativas.
Bem diferente de nosso hino, tão sujeito a regulamentações e obrigações, que padece do mal de transmitir a ideia de não nos pertencer. O que faz sua execução deixar de ser a expressão do espírito do povo alegre, informal, zombeteiro, gozador, para tornar-se uma peça a ser executada para as instituições e não as pessoas.
Daí que sua execução, como consta do Wikipedia, ser feita em continência à Bandeira Nacional, ao presidente da República, ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal,  em casos determinados por regulamentos de continência ou cortesia internacional e até, pasmem, ter sua execução permitida na abertura de sessões cívicas, cerimônias religiosas de caráter patriótico e antecedendo a eventos esportivos internacionais.
Tratado como algo tão distante do povo, a que pretende ou que deveria representar, nosso hino chegou ao ponto de ter, conforme a Lei 5.700 de 1971  que dele trata, junto aos demais símbolos nacionais,   a determinação de como se comportar ... com todos devendo tomar atitude de respeito, de pé e em silêncio. Como consta no wikipedia, com “Civis do sexo masculino com a cabeça descoberta e os militares em continência, segundo os regulamentos das respectivas corporações. Além disso, é vedada qualquer outra forma de saudação (gestual ou vocal como, por exemplo, aplausos, gritos de ordem ou manifestações ostensivas do gênero, sendo estas desrespeitosas ou não). Na Seção II da mesma lei, “execuções simplesmente instrumentais devem ser tocadas sem repetição e execuções vocais devem sempre apresentar as duas partes do poema cantadas em uníssono. Portanto, em caso de execução instrumental prevista no cerimonial, não se deve acompanhar a execução cantando, deve-se manter, conforme descrito acima, silêncio”.
Sempre há espaço para as alegações de  que não se deve dar crédito ao conteúdo do wikipedia, dadas as características de ser um site de conteúdo aberto. Ou então, dizer que a lei citada ser  típica do autoritarismo vigente no período do regime militar, em que ela foi sancionada.
Mas, pesquisando sobre o tema, pude descobrir a existência de outra lei, a Lei 8421, de 1992  (governo Collor), que praticamente reproduz as prescrições da lei anterior, em seus artigos 24 e 25.
E aguçando a curiosidade e aprofundando a pesquisa, deparei-me com o site patriotismo.org.br que confesso não ter lido, mas que começa dizendo do respeito que o hino evoca, etc.
Com tal tratamento, bastante distante das características do  povão que diz representar, não é ou deveria ser surpresa para ninguém que outra lei,  a partir de 22 de setembro de 2009, determinasse que o hino torna-se obrigatório em escolas públicas e particulares de todo o país, para ser cantado ao menos uma vez por semana por todos os alunos do ensino fundamental.
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Pois bem, no início desse meu comentário, o que eu queria dizer é que, já por inúmeras vezes, a execução do hino, que cantei a plenos pulmões ou nem tanto, me emocionou a ponto de deixar meus olhos mareados. Algumas vezes, mesmo em uma simples solenidade de colação de grau. Simples para mim, já que toda colação de grau representa uma emoção ímpar para os que chegaram ali por seus esforços e sacrifícios, e conquistaram tamanha vitória.

O que eu queria dizer é que não acho nada anormal que o hino leve nossos jogadores às lágrimas, reações emotivas normais, diferentes e nada vinculadas, em minha opinião, com a perda do controle, da racionalidade ou qualquer coisa semelhante.

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O que eu queria mesmo era criticar essa atitude patrioteira de nossa mídia, chamando a atenção para toda a arquibancada cantando o hino a capela, como se mais forte o  hino fosse cantado, mais alto, mais uníssono, mais nosso time ganharia forças para vencer o jogo de início iminente.
De verdade o que eu queria era postar uma crítica à imprensa, que berra aos quatro cantos que a torcida deu um show de patriotismo cantando todo o hino, em desrespeito às regras e vontades da FIFA, patrocinadora e organizadora do evento, para quem apenas as primeiras estrofes do hino deveriam ser executadas. Isso, sabendo-se que o que a torcida em sua rebeldia faz e fez, muito comoventemente e de forma muito bem feita, é cantar a primeira metade do nosso extenso hino.
O que eu queria era ter um início para falar disso: a auê que a mídia faz, o escarcéu que apronta, apenas porque a torcida canta – REPITO a primeira metade do hino.
E até pensei em começar a postagem perguntando se foi decretada a mudança do hino nacional, e quem foi que encurtou nosso hino?
Ou que lei cancelou a existência da metade que fala de deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do sol profundo, fulguras o Brasil florão da América, iluminado ao sol do novo mundo...
Ou do que a terra mais garrida teus risonhos, lindos campos têm mais flores, etc.
***
Queria só poder dizer que a imprensa deveria parar de informar mal. O povo cantou toda a metade do hino. Não o hino todo.
Mas, depois de ver tanta legislação para tratar e regular e enquadrar uma coisa que acho que é tão nossa e que deveria ser tão nossa, mesmo que o hino tenha sido comprado e nada tem em seus versos de popular, ou mesmo que seja de entendimento fácil para a população, acho que o melhor é não fazer a crítica.
Deixa que o povão se expresse, com respeito, mas com alarde, com gritos, assovios, como o povo sabe fazer quando vibra e quando manifesta seu apreço ou seu amor por tudo que lhe diz respeito.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Semifinais da Copa e Neymar Jr.

Enfim, chegamos à definição das quatro principais seleções dessa edição da Copa do Mundo no Brasil, nesse ano de 2014.
E as semi-finais, cujas datas já estão aí em cima, prometem, mais que muita emoção, dois jogos de nível como, até agora, confesso não ter visto.
Está certo que assistimos a um jogaço entre Espanha e Holanda, quando a seleção da laranja enfiou uma impiedosa goleada por 5 a 1 na campeã mundial. E também foi um jogo de grande intensidade o da goleada da Alemanha sobre Portugal, embora ambos realizados na primeira rodada do torneio, já tão distantes.
Claro que depois aconteceram outros jogos movimentados, emocionantes, com goleadas, como por exemplo o jogo do Brasil contra Camarões, ou jogo do Chile contra a Espanha, ou o conjunto das partidas da Colômbia. Mas, talvez pelo fato de grande parte dos jogos ter se dado entre seleções consideradas favoritíssimas contra outros times com menores pretensões, e talvez principalmente pelo fato de mesmo quando o favoritismo era avassalador, as grandes equipes enfrentaram dificuldades significativas para ultrapassarem os adversários, em minha opinião, essa edição ainda está nos devendo dois jogos em que o futebol saia de alma lavada, e seja o grande vencedor, afinal.
Futebol jogado com classe, categoria, com jogadas tramadas, ensaiadas, e lances de efeito, sem descurar de movimentos táticos capazes de alterarem o jogo durante seu transcurso e PRINCIPALMENTE, sem interferência dos juízes, sem erros absurdos, sem juízes travando o jogo, invertendo lances na intermediária, nitidamente enervando um time, em benefício do outro.
Pois bem, que Alemanha e Brasil sejam capazes de fazer o espetáculo de futebol que todos os espectadores e amantes do futebol mereçam, jogando para a frente, sem medo, sem retrancas e sem trocas de passes laterais, destinadas apenas a deixar o tempo passar, sem qualquer objetividade. Que sejam capazes de fazerem um jogo bonito, sem violência, e para a frente, voltado para o objetivo maior do jogo: o gol.
Por outro lado, que a Holanda recupere a postura de sua primeira partida, contra a Espanha e enfrente uma Argentina que parta para a frente e seja capaz de nos encantar, mesmo prejudicada pela ausência de dois de seus vértices do quadrado mágico de seu ataque: Di Maria e Aguero.
Mas que Messi possa brilhar confirmando e comprovando o porquê de ser considerado o melhor jogador em atividade hoje,
E que Palácio ou Higuaín ou Lavezzi possam suprir a falta de seus companheiros, fornecendo-nos um espetáculo de futebol inesquecível.
***
Com relação às semi-finais, o que gostaria era de comentar, como a Copa é feita de maneira curiosa. Gastamos um tempão, quase três semanas, com jogos todos os dias, às vezes mais que três partidas, em uma verdadeira overdose de futebol e, quando a coisa começa a se definir e as partidas passam a ganhar mais em emoção e técnica, etc. o tempo é muito curto, os jogos espaçados e... pior: os jogadores submetidos a esforços físicos sobre-humanos, especialmente considerando-se que as partidas são no Brasil, de clima tropical, quente, muito seco ou exageradamente úmido, e no horário de almoço...
Porque não aproveitarem, ao menos da fase de quartas de final para a frente e fazer jogos de ida e volta, evitando-se decisões em prorrogações extenuantes e/ou penalidades?
Porque não fazer jogos de ida e volta no intervalo de três dias, inclusive nas semi finais e na final?
Com isso, os vencedores não seriam os times sujeitos à sorte ou a um preparo físico mais privilegiado, até por força de que alguns campeonatos serem mais exigentes que outros, ou o eterno problema de calendário europeu diferente do campeonato em outras regiões do mundo, interferir.
Não seria mais  justo e mais interessante para o próprio futebol uma mudança no formato de mata-mata, mesmo que mantendo a eliminação do time derrotado? Só que derrotado em duas e não em uma partida apenas?
***
Classificamos e estamos na semifinal. Sem Neymar, nosso principal jogador.
Confesso que, como o juiz da partida, que não deu sequer a falta ou cartão amarelo para o colombiano, não vi a intencionalidade e ou o mal caratismo que todo mundo está atribuindo à jogada de Zuniga.
Em relação ao juiz, primeiro devo falar que ele prejudicou a Colômbia muito mais que o Brasil, em minha opinião, invertendo faltas, parando o jogo no meio campo e, principalmente, deixando Fernandinho bater como gente grande, sem qualquer admoestação ao volante brasileiro.
Fernandinho, aliás, está duplamente no lucro, já que devia ter sido expulso no início do jogo contra o Chile pela falta que cometeu. Depois, contra a Colômbia se repetiu o lance e... nada.
Que o juiz era muito fraco e, com a complacência sua, a partida foi ficando travada e pegada demais, ficou claro para todos.
Mas, no lance de Zuniga e Neymar, nem mesmo os jogadores do time brasileiro correram para o juiz ou pediram cartão com mais veemência.
Para mim, o jogador colombiano nitidamente procurava a bola e vinha a toda, olhando para cima. Em direção à bola. Bola que Neymar, para dominar, chegou a abaixar o corpo, o que fez o colombiano trombar e, na trombada, subir, escalando nosso craque.
Que ele tenha posto a perna na frente, para se proteger, é questionável e até pode ser uma jogada considerada temerária. Merecedora de cartão amarelo. Mas, daí a acusar o jogador como têm feito, acho desmedido.
Pior ainda, estarem postando nas redes sociais comentários ofensivos e ameaçadores, ao jogador e à sua família.
Talvez, não fosse Neymar ou algum jogador brasileiro, a reação não fosse tão exagerada.
Já com relação a Neymar, perdemos o melhor jogador, o que desequilibrava, mas menos mal que ele pode se recuperar e irá se recuperar o mais rápido possível. E que, no futuro, dará a volta por cima, mostrando que é sim, capaz de se transformar no maior jogador de futebol do mundo.
Esses são meus votos. E mais que desejos, o meu reconhecimento de que Neymar é sim, um craque. E simples e humilde como são os grandes...

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Como é possível entender????

LUTO

Que se faça uma postagem sem qualquer referência a mais uma vergonha decorrente da Copa, como a queda da alça do viaduto da Pedro I, cuja obra foi apressada para que pudesse ser entregue ainda a tempo da realização dos jogos...? 
Que mais uma vez, sabe-se lá porque os deuses resolveram que seria em BH que a tragédia iria ter lugar, punindo trabalhadores, pais e mães de família, deixando crianças órfãs...?

(Que as famílias das vítimas possam ter a força e o conforto necessários para enfrentarem esse terrível momento por que estão passando...)

***
Mas como é possível entender...

Que a mídia brasileira, que tanto criticou o ranking das seleções de futebol criado e divulgado pela FIFA, alegando entre outras razões a ausência de critérios claros e passíveis de verificação, sem conseguir disfarçar sua insatisfação com a péssima colocação do Brasil, agora patrocina o maior carnaval para repercutir o absurdo de David Luiz, nosso zagueiro ter sido escolhido o melhor jogador da Copa até a fase de oitavas?

Que David Luiz, que em minha opinião devia até ser advertido por conduta antidesportiva, já que saiu comemorando como se fosse ele, o autor de um gol em que não conseguiu alcançar a bola, tocada contra as próprias redes por um jogador chileno,  foi apontado como sendo superior a jogadores do porte de Messi, o próprio Neymar Jr. e James Rodriguez? Logo ele, que nem mesmo foi eleito o melhor jogador das partidas em que esteve em campo, já que Neymar foi considerado – injustamente, em minha opinião - o melhor contra a Croácia, prêmio que deveria ter sido dado a Oscar? Isso para não dizer que Messi foi eleito o melhor em campo em todas as partidas da Argentina, e que o jovem colombiano foi, ao menos o autor das jogadas plasticamente mais elogiadas, inclusive do gol mais bonito?

Que estejam, agora, cobrando de Felipão o fato de ele ser turrão, estar desatualizado, logo ele cujo currículo inclui como uma de suas últimas conquistas o fato de ter conseguido rebaixar o Palmeiras para a segunda divisão do futebol nacional?

Que a mídia esteja  cobrando de Felipão o fato de ter jogado uma responsabilidade muito grande sobre os ombros de seus comandados; logo ele que, quando assumiu a vaga de Mano, em um golpe sujo de que fez parte, como é comum dizer, levemente constrangido, deu uma declaração de que, jogando em casa, com o apoio da torcida, era dever o time brasileiro ser o campeão mundial, o que fez a imprensa comemorar que agora tínhamos no comando técnico do time, um experimentado vencedor, com discurso de vencedor?

Que toda a imprensa, que para combater o governo de plantão e a presidenta candidata á reeleição apostou em que a Copa do Mundo seria um fracasso, com baderna, desordem, manifestações populares temperadas por atos de vandalismo e reação policial violenta; mobilidade urbana completamente caótica, tanto no transporte das seleções nas cidades, quanto em seus deslocamentos entre as cidades-sedes das realização dos jogos; fique  agora surpresa com o fato de que nenhuma de suas apostas se viabilizou. Que muito ao contrário a realização da Copa está se dando de forma tal que tanto a FIFA e os responsáveis pela organização dos eventos, quanto toda a imprensa mundial se curvem para reconhecer que estamos realizando senão a melhor, uma das melhores Copas de todos os tempos.

E como não entender então, que depois de terem vendido o caos em pílulas diárias, a imprensa de forma geral, ou alguns de seus órgãos estarem atônito com o resultado da última pesquisa eleitoral que trouxe a novidade de que a população, não tendo visto as labaredas de fogo tomar conta do circo, ou nem mesmo terem visto de perto o circo e seu picadeiro, passaram a atribuir o bom ambiente que tem caracterizado os jogos ao governo, à presidenta que, por esse motivo, apresenta crescimento nas suas intenções de voto?

Que o fato de Joaquim Barbosa ter pedido, voluntária e precocemente, sua aposentadoria do Supremo, agora que já se preparava para abandonar a cadeira de presidente daquela Corte, em que tanto abusou de seu poder passageiro e temporário, não indica nenhum golpe ou tentativa de tomada de poder de assalto? 

Que sua saída expressa apenas e tão somente seu inegável medo de cair no ostracismo, ele que por meios autoritários e não necessariamente justos, presidiu o Poder Judiciário a que pertencia, indicado exatamente pelo partido que agora alegam estar tramando um golpe contra nossas instituições?

Que em um país em que é unânime o diagnóstico de que a Educação caracteriza a principal mazela de nosso povo, aqueles que pautaram sua vida e sua conduta na incansável luta pela melhoria da qualidade da educação, como são exemplos, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Cristovam Buarque sejam ignorados ou condenados ao esquecimento?

Que a noção de respeito às instituições, uma das noções mais caras e cultivadas das repúblicas democráticas modernas, e que nos Estados Unidos, por exemplo, reservam o tratamento de presidente por todo o período restante de vida, a todo aquele que já ocupou o cargo maior do Poder Executivo, por vontade expressa de seus cidadãos, aqui no Brasil seja tão desprezada, a  ponto de ex-presidentes terem um tratamento sem qualquer respeito e até uma presidenta, no exercício do cargo, ser alvo de palavrões e ataques que apenas desmerecem aqueles que os protagonizaram?

Que os autores e partidários do Plano Real, que comemorou 20 anos nesse início de julho, venham a público para criticar a política econômica do atual governo, acusando a equipe econômica de estar deixando a inflação escapar a seu controle, por força de o índice do IPCA, que mede a aceleração dos preços,  estar há mais de três anos muito superior à meta prometida à sociedade, e perigosamente próxima do teto do intervalo de confiança do sistema de metas? Logo eles que, não satisfeitos de quebrarem o país em 2002, por força de um câmbio completamente equivocado, entregaram uma inflação que atingiu a mais de 12,53% no último ano de seu (des)governo.

Que no último ano de mandato do PSDB e do presidente FHC, não apenas o IPCA apresentou variação de mais de 12,5%, como o próprio INPC também variou mais de 14%, o IGPM mais de 25,3% e o IGP-DI mais de 26,4%, índices que revelam a ocorrência de uma significativa dispersão dos preços e, portanto, conforme afirmação de Pérsio Arida ao jornal Valor Econômico,  uma séria anomalia no funcionamento do sistema de preços - pilar de sustentação do sistema de mercado, mas que nem por isso foi objeto de qualquer alerta ou consideração, naquela oportunidade, como a inflação que se projeta de 6,46% (medida pelo IPCA) para esse ano de 2014.


Que é sempre melhor sentar no próprio rabo e ficar dando opiniões em relação ao dos outros, especialmente se os outros são nossos adversários...

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Atrás de vultos

Perco você nas corredeiras do Rio
nas ondas que desenham o calçadão
logomarca  primitiva e famosa
de Copacabana

Procuro você por entre grãos de areia
como se buscasse agulhas
capazes de tecer agito e vida
E como é vã a busca

Procuro por você
entre os faróis incansáveis 
que fazem mover a Pauliceia desvairada
e no meu desvario
encontro-me e me perco
em minha rotina
entre as montanhas e os bares
os mares
e o vento dos ares
que sopram frio
na noite de minha BH

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Estatúpidas: estatísticas estúpidas no futebol

Há muitos anos atrás, estivemos meu irmão e eu com meus avós passando alguns dias de férias em São Lourenço, sul de Minas.
O mês era julho, de um frio intenso, mas o Parque de Águas daquela cidade, com seu lago, seus barcos e seus pedalinhos nos faziam esquecer da baixa temperatura de inverno.
Ali, em São Lourenço, conhecemos um senhor idoso, um velhinho, que ficava muitas vezes conversando com os funcionários do Hotel e, algumas vezes com os hóspedes.
Vivia ele de apostar no jogo do bicho e foi com ele que aprendi a numeração e quadras dos animais do jogo de azar.
Jogando todo dia, embora pouco, o velhinho invariavelmente ganhava algum valor, recuperando a aposta feita.
Instruído por nosso avô de que o resultado mais provável de qualquer fezinha era perder o dinheiro gasto, e que o ganho maior de qualquer jogo de azar era a experiência, morria de curiosidade de saber como o velhinho estava sempre conseguindo acertar algum palpite.
Até que, vencido pela curiosidade, perguntei a ele o método que ele adotava.
Para minha surpresa, ele tirou do bolso do paletó um folha de papel com anotações de resultados de jogos de vários dias consecutivos e explicou-me que acompanhava a cada dia os bichos que estavam sendo sorteados. Quanto a suas apostas, revelou-me que optava por jogar naqueles que já estavam há algum tempo sem aparecer, como se os estivesse chamando.
Tive ali, no ano de 1968, sem o saber, minha primeira lição de estatística e da famosa lei dos grandes números, da probabilidade.
Aquela que diz que, depois de um número muito grande de experimentos, a probabilidade de um evento se realizar é a probabilidade de qualquer outro evento. Ou seja: a chance de cair a face três de um dado acaba a mesma de dar a face 1 ou a face 5, se você repetir a experiência milhares de vezes. No limite, de 1/6.
O que não assegura, que ao se efetuar o lançamento de um dado por 3 vezes, não seja possível que a face três surja por duas ou até mesmo três vezes...
O que é a lição mais importante da estatística em minha opinião: a de que a estatística é a melhor ferramenta para te explicar o que foi a trajetória passada de qualquer evento. Mas continua sendo incapaz de prever o futuro imediato, com exatidão.
O que a torna um excelente farol para iluminar o passado. Mas mantém a estrada à frente às escuras...
***
Lembro-me dessa história porque pouco tempo depois, com a criação da Loteria Esportiva, sob os auspícios da Caixa Econômica Federal, nesse país em que são proibidos os jogos de azar, a lição do velhinho ainda era muito viva em minha memória.
Lembro-me também que com a Copa do Mundo de 1970 e a criação que surgiu sob sua inspiração da criação da revista Placar, algum tempo depois me atrevi a ligar para a redação sugerindo que eles dessem informações para cada um dos vinte seis clubes que compunham os treze jogos da cartela, destacando de cada um o resultado de seus últimos jogos.
Estava, inegavelmente, influenciado pela estatística do velhinho de São Lourenço, cujo nome acho que nunca soube ou voltei a lembrar.
Quem me atendeu do outro lado da linha me informou que essa ideia já estava sendo discutida e que, dentro em pouco, iriam fornecer as estatísticas dos jogos de cada time, inclusive com a indicação de probabilidade de algum resultado.
***
Ao relatar essa passagem e esse telefonema, de forma alguma minha intenção é a de reivindicar qualquer participação ou reconhecimento por uma ideia ou sugestão que, afinal, como fui informado na ligação, já vinha sendo discutida na redação.
Aliás, a esse respeito, nunca a revista fez qualquer referência, o que serve para confirmar que o assunto já devia sim, estar sendo objeto de análise.
***
Se comento esse tema, é por dois motivos. Primeiro uma homenagem a minha adolescência, ao velhinho e à agradabilíssima cidade de São Lourenço.
Em segundo lugar, para poder comentar dessa tendência que hoje infesta como praga a imprensa esportiva.
Refiro-me em especial a jornais, em que se destaca a Folha de São Paulo, com seus gráficos, estatísticas, infográficos, etc. que, com o perdão da palavra, enchem o s@#o! do leitor. Ou pelo menos o meu.
Ainda agora, por exemplo, nesses dias e horas que antecedem o jogo contra a Colômbia, os jornais estão infestados de comparações como o número de chutes de cada time, o número de acertos de chutes em direção ao gol, o número de escanteios, de cartões, de escanteios, de desarmes ou de faltas, que parecem mais falta de assunto para tratar o jogo.
Ou como diria outro, falta de um poeta da crônica esportiva como era Armando Nogueira, por exemplo, papel que Tostão tenta fazer às vezes: despertar o lirismo e a beleza poética e estética do futebol. Sua plasticidade, sua quebra total de padrões, o que o torna tão mágico e atraente. O que torna o futebol indecifrável e só faz com que seu magnetismo se amplie.
Fazendo um parênteses, há algo mais surreal que, por exemplo, a Argentina que martelou durante todo o segundo tempo de jogo, e durante 28 minutos da prorrogação - embora sem mostrar muita gana ou precisão nos chutes a gol, marcar um gol suado, sofrido e até o goleirão da Suíça abandonar o ferrolho e partir para a área adversária, tentando o gol de empate?
E pior, que outro esporte poderia trazer a emoção da bola na trave, no último lance do jogo, mandada pelo atacante suiço, em jogada que, em minha opinião ele errou o que desejava fazer?
Ou alguém poderia sequer imaginar a emoção em que estaria envolvida a prorrogação de Estados Unidos e Bélgica, depois de um jogo modorrento.
***
Pois é. A imprensa, precisando vender e ocupar espaço ou criar assunto, dá hoje uma atenção desmedida a essas estatísticas, a ponto de um Afonso Alberto em seu programa aqui em BH ficar o tempo todo, do alto de sua aparência de arrogância - e da imagem de "dono da bola" que passa, mesmo sem o querer- ficar perguntando quem tem 5 Copas, como se conquistas passadas assegurassem naturalmente as vitórias futuras?
Ora o Brasil é o time com mais conquistas de Copa do Mundo. A Colômbia não tem nenhuma. A Colômbia sempre foi um time freguês do nosso. Mas e daí???
Isso significa que nós já temos a vitória assegurada?
Então, porque ficar comparando James Rodriguez, o melhor jogador da Copa até o momento, com Neymar, como se ficar identificando que ambos têm 22 anos, ou chutaram tantas ou quantas vezes a gol, ou desarmaram mais ou menos, ou são os artilheiros com 4 ou 5 gols, fizesse a diferença.
Na verdade até faz. Para explicar o passado. Não para explicar o que vem pela frente, já que incerto e escuro o futuro.
Afinal, como professor de Economia, hoje, cada vez mais continuo acreditando que a Estatística é o farol que ilumina para trás. E o futuro ainda há que ser sonhado e construído...

terça-feira, 1 de julho de 2014

As vergonhas de uma BH que não sabe receber turistas

Primeiro foi a notícia de que um argentino teve o dedo da mão quebrado, por não ter largado a bandeira de seu país, justo quando iria ter início a Copa do Mundo e a seleção argentina ultimava os preparativos para sua chegada à Cidade do Galo, nessa aprazível capital mineira.

Em segundo lugar, houve a notícia da invasão da cidade pelos colombianos, para alegria dos comerciantes instalados, principalmente no Mercado Central, que elegeram nossos vizinhos como os que mais gastaram em produtos artesanais e até em nossa cachacinha.

Aí houve a notícia da prisão de 16 colombianos, que resolveram fazer arrastão pelas ruas de BH.

Enquanto tudo isso acontecia na capital das Alterosas, um grupo de chilenos, sem ingresso, forçava a entrada na arena Maracanã e, após cenas de depredação e violência, acabaram sendo presos, com 85 deles sendo deportados.

Até então, não ouvi ou li nada a respeito de maiores confusões entre turistas que nos visitam para acompanharem os jogos e nossos patrícios. Claro que provocações e alguma confusão deve ter havido, mas nenhuma capaz de ganhar as manchetes dos jornais, dada sua insignificância ou pequena dimensão.
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Foi então que, para mostrar o espírito cordato e amistoso do nosso povo mineiro, houve a vergonhosa briga das garrafadas na Savassi, local de concentração de todos quanto vêem visitar nossas Minas Gerais e torcer por seu time.
O que obrigou a PM a agir com alguma firmeza, efetuando a prisão de um belo-horizontino e precisando agir com presteza para socorrer a outro, também mineiro, agredido selvageria com que nós, mineiros, mostramos que sabemos e estamos habituados e preparados para receber aqueles que querem ver as obras de Aleijadinho, nossas cidades históricas, etc.
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Nesses momentos, ocorre-me a mim que sou mineiro, e nascido nessa BH, a questão do caráter ou temperamento do povo criado nas montanhas e que, por esse motivo, e pelo difícil acesso de estrangeiros a estes sítios, aprendeu a cultivar uma desconfiança que virou a marca do povo, talvez a característica definidora da alma dessas gentes.
Gente brava, leal, acima de tudo honesta, mas desconfiada como só...
E lembro-me da história que ouvi de antepassados, justificando a alcunha de nossos conterrâneos, principalmente daqueles que habitavam a cidade primaz de nossas Minas,  Mariana e seus gaveteiros.
Diz a lenda que ao estarem todos reunidos à mesa e ao ouvir o tropel dos animais de carga e transporte, os donos das casas grandes abriam os gavetões sob o tampo da mesa e escondiam ali a comida, para que não tivessem que dividir com os visitantes a refeição.
Vem daí, provavelmente, a fama de pão duro do mineiro, para o bem ou para o mal. E o reforço da ideia de que o mineiro desconfiado sempre acreditava que as visitas queriam apenas explorar da sua hospitalidade.
Mas, como disse, essa é a lenda...
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Agora, show de educação, de espírito de cordialidade foi a atitude dos presentes ao Mineirão, ao ouvirem o hino chileno ser cantado a capela, como ela a torcida daqui e de todo o país se orgulha de fazer.
Pois bem. Eu já tinha observado e até comentado como o povo chileno, reconhecidamente educado, civilizado e politizado, estava dando uma demonstração de civismo, ao cantar o seu hino até o final, da mesma forma que nós brasileiros estávamos fazendo, até em reação à forma desrespeitosa como a FIFA trata os hinos dos países, interrompendo-os sem qualquer motivo aceitável.
Mas tinha de ser em Minas e nessa terra que tanto se acha culta, dona das letras, terra dos poetas e músicos, etc. etc., que tinha que ocorrer a vergonha maior dessa Copa, mesmo ainda longe de a competição chegar a seu final e sabendo que a coisa ainda pode ficar pior já que ainda está previsto mais um jogo para nossa cidade.
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A vergonha que me dá ser mineiro nessa hora. A vergonha de ser nascido aqui, onde tantas pessoas ao invés de se comportarem de forma educada, civilizada, cordial, como em tantos outros estados e cidades que assistiram a partidas do Chile, acharam ser de bem ou de bom tom, vaiarem a segunda parte do hino chileno, é tão grande que só mesmo escrevendo e postando esse desabafo.
Mesmo que o meu comentário seja injusto, já que apenas 50 a 60 mil pessoas estúpidas estavam presentes nessa hora que nos cobre de vergonha e, mesmo dentro do estádio, alguns presentes devem ter tido comportamento diferente dessa turma que nos fez mais uma vez ocupar as manchetes de todo o mundo, pena que pelo lado negativo.