terça-feira, 4 de junho de 2013

Incertezas e Cenários para a economia brasileira

Menos de uma semana depois da decisão do COPOM de elevação em 0,5 ponto percentual da taxa básica de juros, a Selic, e em meio ainda às análises desenvolvidas para estimar as consequências dessa decisão para a economia brasileira, outro dado divulgado na data de ontem, acrescenta mais elementos complicadores a nosso panorama.
Trata-se da divulgação dos dados do comércio exterior, em especial relacionados ao comportamento da balança comercial no mês de maio, que alcançou um superávit de US$ 760 milhões, o maior resultado alcançado no ano.
Entre as explicações de tal número encontra-se o maior embarque mensal jamais realizado de soja em grão em toda nossa história, no valor de US$ 4, 2 bilhões, auxiliado pela recuperação na exportação de minério de ferro, o que ressalta, uma vez mais e de forma preocupante, a nossa condição de país exportador de commodities.
Com o resultado de maio, o deficit comercial no ano alcança o recorde de 5,4 bilhões de dólares quando incluída a conta de petróleo e derivados,  a pior marca desde 1993. Sem a inclusão dessa conta, o déficit até maio estaria na casa de US$ 800 milhões, o primeiro para o período desde 2001, e o pior desde 1998.
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Já foi suficientemente destacado por toda a mídia que a dubiedade de informações se deveu à mudança na forma que a Petrobrás passou a informar à Receita as importações realizadas no ano de 2012.
Tal alteração, que ajudou a explicar o saldo comercial positivo (19,4 bilhões de dólares) no último ano, está sendo incluído agora em 2013, o que explica o excesso contábil do déficit comercial de 4,6 bilhões de dólares. Em maio, o registro relativo à importação do ano passado, foi de 1,1 bilhão de dólares.
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Ainda assim, é sobremaneira preocupante o resultado de maio, livre do imbróglio do petróleo. Principalmente em função de alguns elementos que foram acrescentados pela secretaria de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, como a elevação de importações de petróleo e derivados, consequência da forte expansão de consumo de combustíveis no Brasil; e a perda da competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Essa última, ilustrada pela queda de 1/3 nas importações dos Estados Unidos de produtos manufaturados brasileiros e na redução das importações feitas pela Argentina.
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De minha parte, a preocupação justifica-se em função de resquícios da memória  dos anos 70, quando a economia brasileira debatia-se entre dois problemas antagônicos: o descontrole inflacionário, de um lado, e o desequilíbrio externo, por outro. Ainda me lembro do professor Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda, tendo que justificar sua política de "stop and go", elegendo como principal vilão da economia brasileira a ser combatido, ora o monstro da inflação, ora o desajuste externo.
Também me vem à memória, as medidas que levaram anos depois, na década de 80, a cunharem a expressão de que a gestão da economia brasileira se assemelhava com a história do rabo que balançava o cachorro, dirigida muito mais para estancar o déficit externo (em conta corrente) que os problemas internos, em que se despontava a aceleração inflacionária.
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Essas evocações ao século passado, se fazem ao mesmo tempo em que resgato texto que reputo a melhor análise e explicação dos motivos do êxito do Plano Real nos anos 90, o capitulo A Macroeconomia do Plano Real, do excelente livro coordenado por César Benjamin, A OPÇÃO BRASILEIRA.
Nele se lêem os seguintes trechos:



" No início dos anos 90, a situação do sistema financeiro internacional evoluiu mais uma vez para um excesso de liquidez, provocado principalmente pela desaceleração econômica nos países desenvolvidos. Novamente o Brasil adaptou sua economia para absorver capitais (agora de curto prazo), às custas, como veremos, de grave fragilização de seu balanço de pagamentos. Além disso, dessa vez, não tem sequer condições de dirigir a maior parte desses capitais para o investimento produtivo"

",... quando nos ajustamos para importar capital a inflação permaneceu baixa ou foi contida..."

" ... tornaram possível sustentar temporariamente uma combinação explosiva, normalmente inviável – a sobrevalorização do câmbio e a abertura comercial."

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O que me deixa preocupado é exatamente o fato de, no momento em que o COPOM volta a elevar a taxa da SELIC para 8% , de forma a combater a inflação, em consonância com o receituário previsto no programa de metas de inflação, os governos de importantes países praticam política monetária francamente expansionistas, seja o "quantitative ease" nos Estados Unidos, seja no Japão (que lhes permitiu crescer 3% no primeiro trimestre desse 2013, depois de longo período de crescimento pífio), seja na zona do Euro (malgrado as resistências da Alemanha). 
Ora, no momento de alta liquidez internacional, ou uma excessiva liquidez, e frente a recessão econômica dos países mais desenvolvidos, prevista para durar ao menos até 2017, a elevação da Selic soa como uma nova adaptação da economia brasileira para absorver capitais, com a consequente fragilização da nossa posição externa. 
Isso, em um momento em que a indústria nacional patina sem conseguir avançar e que é notória sua defasagem tecnológica e suas fragilidades, que mesmo uma recente ação do governo, tentando desvalorizar nossa moeda foram capazes de gerar efeitos positivos.
Pior: mesmo que a indústria estivesse em condições de exportar, ainda assim enfrentaria o problema da queda das compras de nossos parceiros comerciais, afetados por severa recessão e políticas de contenção drástica da demanda. 
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Assim, o cenário que vejo é de que a elevação da Selic irá atraír para o Brasil grandes volumes de capitais externos, o que irá causar nova sobrevalorização do real. 
Essa desvalorização do real estimulará ainda maior aquisição de insumos intermediários e matérias primas no exterior, ampliando nossas importações e trazendo maiores constrangimentos à nossa balança em transações correntes. Inegavelmente, uma das consequências potenciais desse processo será a geração de um aprofundamento da desnacionalização da indústria de fornecimento de peças, partes, componentes, além da  indústria de bens de capital, fragilizando ainda mais nossa economia.
Tal fragilização se vincula à transferência para fora de nosso território de muitas das decisões estratégicas, de mercado e financeiras dessas empresas, o que nos torna, ao país e até ao governo ou o Estado, refém. 
Em tomando a direção de nossa economia, o influxo de capitais dificilmente irá se dirigir à aplicação produtiva, financiando projetos de investimentos, seja por toda a já decantada falta de confiança no governo da presidenta Dilma e seu viés fortemente intervencionista, classificado como uma postura não confiável ao ambiente de negócios, seja pelo fato de que desde Keynes nos anos 30, sabe-se que nenhum empresário  investe sem ter confiança de que terá demanda suficiente que justifique os riscos atrelados às decisões cruciais de investir e, depois de colocar em operação seu empreendimento: a decisão de produzir. 
Lembre-se que a decisão de produzir implica em gastos antecipados por parte do empresário, que sem expectativa de recuperação de seu capital avançado, por força das incertezas do ambiente econômico, não serão concretizados.
Mesmo que esse capital viesse para financiamento das obras de infraestrutura, reconhecidos gargalos que entravam o funcionamento de nossa economia, deve-se recordar que vários leilões de privatização ou parcerias público privadas tentadas, como o das obras de ampliação de Confins, aqui em Minas, ou do famoso trem bala ligando Campinas ou São Paulo ao Rio, não tiveram qualquer proposta. 
A alegação, além daquela da falta de confiança em um governo cujo discurso é contrário à livre iniciativa, é de que a taxa de retorno prevista para as obras é muito reduzida e não atraente.
E aqui é bom lembrar de outro risco, caso o governo venha a ceder e eleve e assegure taxas de lucratividade para as obras necessárias: trata-se da experiência histórica das estradas de ferro e suas companhias que constituíram verdadeira sangria aos cofres públicos por terem assegurado pelo governo o pagamento de uma taxa de lucratividade. Ou da história ainda confusa das privatizações recentes da energia elétrica que assegurava um nível de demanda e retorno às empresas de eletricidade, de tal forma que, com a queda da demanda induzida pelo governo quando do apagão havido em 2001, obtiveram o direito de cobrarem uma taxa adicional de compensação das perdas previstas. 
Ou seja: no caso das ferrovias, a solução foi a estatização das companhias, depois de o povo, via receita fiscal pagar seus lucros. No caso da energia elétrica, mais uma vez, a consequência foi cobrar direto de cada consumidor, ou do povo.
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Eliminadas essas opções resta-nos a opção de esses capitais tomarem o rumo de nosso país, para jogar mais recursos no mercado financeiro e suas várias e perigosas inovações, o que poderia alimentar um processo de transformação cada vez maior, de nossa economia em um grande cassino. 
Nesse caso, a pressão sobre o Banco Central seria muito grande. E a regulamentação para reduzir a especulação que teria lugar, teria de ser toda revista e muito consistente. 
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Claro, tudo isso é apenas um cenário, como informado no início. Possível, mas que ainda não está acontecendo e pode nem vir a acontecer, caso os Estados Unidos prossigam em sua caminhada recém iniciada para a recuperação econômica, o que tem sido o motivo de os fluxos de capital estarem tomando a direção daquele país, valorizando o dólar em todo o mundo e frente a todas as moedas, o real inclusive.
Se as notícias continuarem positivas, também pode ter início uma política de elevação de juros naquele país, o que iria ampliar o movimento de capitais para lá direcionados. Dessa forma, o dólar poderia ser valorizado, e nós teríamos que lidar com outro problema, caso nossas exportações para o parceiro preferencial americano não reagisse: novas políticas amargas e até algumas de cunho recessivo, para combater a inflação que poderia voltar a ocupar o centro de nossas atenções. 
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Como indicado por Keynes, a situação é de incerteza ampla. E, para não perder a oportunidade, se já está assim, agora, imagina na Copa!!!

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