terça-feira, 16 de maio de 2017

Atendendo a pedidos, uma análise econômica parcial. E as culpas e méritos da Lava Jato

Dono de um humor ácido, às vezes, e uma ironia capaz de causar, em alguns momentos, um certo incômodo em todos aqueles a quem seus comentários são dirigidos, é inegável que Tarcísio Americano Barcelos, colega de muitos anos do Banco Central e a quem aprendi a respeitar e admirar tem o poder de nos retirar de nosso imobilismo e de nos induzir a realizar uma autoanálise e uma reflexão que, nem sempre desejadas, são sempre necessárias,  por nos levarem a questionar nossas convicções.
Afinal é de nossa tendência, acho eu, preferirmos os elogios sem adjetivações. Puros. Simples,  mesmo que às vezes tolos ou vazios.
Mas, no caso de Tarcísio algumas das críticas têm também um outro objetivo, que é a de nos dar oportunidade de buscar melhorar sempre.
Daí com o tempo, eu ter aprendido a respeitar e entender Tarcísio e seus comentários. E sua ironia.
O que me leva também a ficar ainda mais orgulhoso de saber sua opinião a respeito desses pitacos que eu cometo, de quando em vez.
***
Claro que Tarcísio nem pode nem deve concordar sempre com o teor de minhas opiniões, mas mesmo quando essa concordância não se dá, já é suficientemente bom que, especialmente nesses tempos que estamos vivendo,  de divisões profundas em relação a tantas concepções distintas de o que ter como objetivo e metas, o que  fazer, como etc. na busca de melhorar nosso país e nossa sociedade, possamos manter discordâncias legítimas e sempre civilizadas.
A propósito, lembro-me de um primo, com quem trabalhei no início de minha vida profissional como assessor na Prodemge, Dr. Roberto Pereira da Silva, que então me afirmava que todos tínhamos sempre os mesmos ideais e queríamos alcançar os mesmos objetivos e metas: uma sociedade mais justa, mais solidária, mais equânime.
Segundo ele, a razão das divergências estaria em como chegar lá, ou o que fazer para atingir tais resultados.
Confesso que, embora algumas ocasiões me sentia tentado a concordar com sua visão, acabava sempre retornando à ideia que era sempre objeto de discussões e diagnósticos de nossa sociedade como resultado de seminários, debates, artigos de jornal, palestras, editoriais, livros e opiniões de técnicos, cuja opinião unânime é de que faltava um projeto de nação, quem sabe um projeto de sociedade para o Brasil.
***
Dessa forma, sem um projeto de consenso nacional, a visão do Dr. Roberto acabava se desfazendo no ar. Éramos então, como somos hoje, um país dividido. E a visão e objetivos de nossas classes dominantes eram completamente antagônicas àquela de nossas classes menos privilegiadas. E cada um defendia, como é óbvio o acerto de sua visão, mesmo que sob o grande guarda-chuva do bem para todos.
***
Mas voltemos ao colega que me brinda com o fato de ler, e confessar que sempre lê esses pitacos, os quais são imperdíveis, conforme sua irônica classificação.
Tudo bem. Até para evitar que eu fique escrevendo e obtendo comentários em um gueto do pensamento, o importante é que todos leiam e critiquem os meus pitacos. Mesmo que, como o Tarcísio várias vezes me relatou, parece que há alguma dificuldade no blog, de o leitor poder publicar qualquer comentário.
(Confesso que essa não é uma queixa apenas do colega,  e que já procurei nas configurações verificar se há algum erro de minha parte, em liberar os comentários para quem os deseje fazer. De minha parte, liberei todos e quaisquer comentários, mas parece que não consegui meu intento. Não sei o que estou fazendo de errado).
Mas para não evitar de dar sua opinião o Tarcísio utiliza-se do facebook, como o fez no dia de ontem, em que publicou a seguinte postagem a respeito de análise que eu realizei sobre o primeiro ano de governo temer e o comportamento da imprensa a respeito, principalmente encobrindo, em minha opinião, o fato de que o governo usurpador ampliou o desemprego, resolveu promover o ajuste fiscal ampliando os déficits primários do país, e obtendo aprovações de reformas impopulares por meio do sempre "elogiado" modo de se fazer política em nossas terras, o é dando que se recebe.

"Sem falar na tragédia de 600 milhoes de brasileiros que perderam o emprego devido aos caprichos do juiz de Curitiba. Seria ótimo se você pudesse fazer uma análise econômica parcial em uma próxima edição do imperdível blog "Também Quero Dar Pitaco". Fica a sugestão."

***
Então, para atender ao colega e a outros leitores que, caso existam, possam comungar com sua opinião, vamos lá.
Não é o Dr. Sérgio Moro, nem poderia ser, o responsável por uma quantidade de desempregados que supera a própria população total do país. Não é a operação Lava Jato, e suas descobertas de tantos crimes cometidos pelos empresários que frequentam a classe social mais refinada de nosso país que tem culpa na elevação dos índices de desemprego grave que nos assola.
A operação só revela aquilo que vários de nós já desconfiávamos, quanto mais fortuna alguém faz nesse sistema econômico em que vivemos, e quanto mais rápido atinge fortunas, mais provável é de que tenha obtido seus bens por métodos não muito toleráveis do ponto de vista ético, para não acusar a ninguém de estar cometendo crimes.
O problema é que a imprensa que tanto destaca a Lava Jato, talvez, e apenas talvez por ser também formada por empresas cujos donos sejam empresários e de fortuna gigantesca construída rapidamente, prefere ignorar que o crime pior é cometido pelo lado responsável pela corrupção ativa, pelo que, do alto de seu poder e até de sua expressão que parece lhe assegurar alguma imunidade, pratica caixa 2, oferece propina, transforma não apenas seus operários ou funcionários em mercadorias. Compra políticos e funcionários públicos e oficiais, e todo tipo de pessoas, sem qualquer constrangimento.
Afinal, agem como acreditam que são os donos do mundo.
Veja que nem digo donos do Brasil, ou de nosso país, ou de nossos políticos, porque a própria Lava Jato está mostrando que os tentáculos de uma Odebrecht, para citar apenas uma, alcançam vários países da América do Sul, América Central, Europa, África e até mesmo os Estados Unidos.
***
A conclusão a que chegamos é que a ação criminosa - que tem sim, inegavelmente a contraparte do corrupto passivo, do que aceitou propina, etc. - não é prática apenas brasileira e, se analisado com a mesma profundidade da Lava Jato, poderíamos perceber que o mesmo fenômeno repete-se em escala planetária, como é exemplo a Coréia do Sul e suas relações promíscuas com a Samsung.
Aliás, para não perder a oportunidade, foi lá na Coréia do Sul que surgiu uma prática de adoção de políticas públicas, caracterizada pela formação dos grupos campeões nacionais tão criticada aqui, recentemente. Mas que permitiu à Coréia dar o salto que retirou o país do atraso e a colocou no rol de países desenvolvidos, do ponto de vista da produtividade e tecnologia.
Interessante que muitos admiram o modelo coreano e seus grandes gigantes, e sempre reclamam de não seguirmos o  modelo de desenvolvimento daquele país, que implica relações entre Estado e empresário que não  fossem de algum grau de promiscuidade, mas criticam quando aqui se adota alguma política semelhante às de lá, como a de seleção de campeões nacionais.
Quer dizer o modelo da Coréia do Sul serve para algumas coisas, mas não para outras.
***
Em minha opinião a questão da corrupção tem origem naqueles que são donos do dinheiro e, por esse motivo, só podem ter como objetivo ter sempre mais dinheiro, ou fazer seu dinheiro valorizar-se sempre, ampliar-se sempre. Por que meios forem necessários, para isso.
Mas, a imprensa aqui não toca nessa questão e apenas atua no sentido de condenar aos nossos políticos, nossos funcionários públicos, o gigantismo do Estado etc.
Não vou defender nossos políticos, a maioria dos quais, indefensáveis e de caráter que é melhor não falar. Até em respeito a um Lula de muitos anos atrás, para quem o Congresso (com que ele tanto compôs algum tempo depois!) era composto de mais de 300 picaretas.
Lula errou. Eram muito mais. E não apenas picaretas, mas vigaristas, ladrões, safados. E outros adjetivos que cada leitor pode complementar à vontade.
***
Dizer que a Lava Jato descobriu toda essa teia de corrupção, mas só lembrar de culpar políticos, ou a eles de preferência, não exime a operação de ser autoritária, conduzida de forma parcial, de estar usando e abusando de métodos ilegais para jogar a opinião pública na direção que é mais conveniente a interesses nem sempre claros, como a dos vazamentos de grampos telefônicos que nem poderiam ter sido efetuados, a rigor; ou a prisão por tempo indeterminado, verdadeira forma de tortura, para levar o investigado a um nível de exasperação que o transforme em delator.
Pior, em minha opinião, que faz do investigado, suspeito, seja o nome que se lhe dê, um delator e, depois, um homem livre para gozar dos frutos dos crimes que ele alegadamente teria cometido.
***
Nesse quadro, com empresários cada vez mais envolvidos nos crimes descobertos pela operação, não é de se estranhar que as empresas que eles representam ou são donos tenham perdido obras, contratos tenham sido interrompidos, e que empregados tenham sido dispensados.
Mas seria a Lava Jato a responsável por esse desemprego? Ou os responsáveis pelo desemprego são todos aqueles que estavam saqueando nossos recursos em proveito próprio e de meia dúzia de pessoas com influência para ajudá-los em seus mal feitos?
***
Claro, sem ter expectativas de que a operação já chegou ao seu limite, e não ao seu final, frise-se, o ambiente de novas licitações, novas concorrências, novas contratações só pode estar prejudicado. E, nesse clima de incerteza e insegurança em relação  ao que ainda está por vir, é sabido que as empresas não procuram se expandir. Não contratam mão de obra. Não investem.. Não crescem. Ampliam o desemprego.
A culpa é da Lava Jato? Por caminhos tortos, sim. Mas melhor esse desemprego se contribuir para sanear o país. Embora não vá conseguir sanear o mundo e nem atingirá as empresas estrangeiras que adotam os mesmos comportamentos em outros países.
***
Tudo isso, entretanto, não tem nada a ver com a minha afirmação de ontem, de que o governo temer, vendido como a última pílula salvadora do pote de remédios, para tirar o país da crise em que Dilma e o PT o lançaram, tenha aumentado o número de desempregados.
Admito que o governo temer não fez muito mais para contribuir para sua elevação que já tinha sido feito por Dilma e sua política de sujeição aos interesses do mercado.
Mas, é verdade que o governo usurpador manteve juros acima do nível considerado mais adequado, por mais tempo que o necessário, conforme os próprios analistas de mercado.
Ao cortar gastos públicos de forma indiscriminada, em medida que seria necessária em alguns casos, acabou ampliando o declínio da demanda agregada, já comprimida pela queda de renda e de consumo das famílias, e de investimentos de empresários que não vêem um ambiente de confiança que os inspire a investir. Dessa forma, contribuiu sim para a queda do nível de atividade e sua consequência natural: o desemprego.
Mas o governo foi mais além. Vendeu em alguns momentos uma imagem de que a economia precisava de um ajuste brutal, e levou a população à adoção de comportamentos de maior contenção de gastos, de maior responsabilidade financeira, cujo resultado embora não condenável, não consegue ser revertida nem quando o governo começa a aliviar o crédito, promover reduções de juros, ou liberar recursos do FGTS.
Ou seja: as medidas para estimular a economia, adotadas agora, encontram o povo tão atemorizado por toda a imagem que foi criada de caos econômico, que grande parcela da população apenas quer evitar compras.
***
Mas, deixemos de lado a questão do emprego. Vamos ao outro ponto da análise de ontem. O governo e a imprensa toda elogiam a possível recuperação econômica recém iniciada.
Afinal o índice do Banco Central que antecipa o PIB assinala que houve crescimento de 1,12% no trimestre, o que nos permite comemorar a saída da recessão.
Será?
O próprio índice do Banco Central, em março, mostrou queda em relação a fevereiro, no cômputo mensal.
O jornal Valor Econômico traz várias opiniões de analistas afirmando que a expectativa para o próximo trimestre é de retorno a índices negativos de atividade. Ou seja, o índice positivo alcançado no primeiro trimestre foi acidental, nada sustentado.
Causado por uma super safra, extraordinária como há muito tempo não era vista no Brasil, à qual se une um câmbio favorável por motivos que, em outras circunstâncias seriam objeto de crítica: os juros elevados, a atração de capitais externos, a desvalorização do dólar. Até mesmo a confiança que os investidores externos demonstram no governo temer.
***
Para a indústria o cenário é tétrico, já que perdemos vendas no exterior. Mas o resultado no caso de commodities agrícolas, onde somos produtores e vendedores importantes, independente do preço, tudo isso é positivo. Amplia a renda em reais de nosso agronegócio.
***
Mas está lá no Valor, nos comentários dos analistas, nossa recessão talvez ainda não tenha sido debelada, apesar de todo o esforço de marketing do governo e toda a campanha de otimismo fingido que a mídia tenta nos impingir.
***
Quanto ao sucesso maior do governo, que continua assistindo a quedas sucessivas da arrecadação tributária, que continua vendo os investimentos privados patinando e que consegue obter receitas extraordinárias com medidas como repatriação, programas de perdão de dívidas ou juros, como a renovação do Refis, já que não há recursos para investimentos em obras necessárias de infraestrutura, assinale-se é o combate à inflação, que tivemos a oportunidade já de comentar.
O êxito no combate à inflação é apenas decorrência de uma política de aprofundamento do desemprego, face à manutenção de elevadas e desnecessárias taxas de juros.
Ah! Claro. Temos que admitir que se tudo isso é fruto do governo temer, justiça seja feita, o usurpador está tentando melhorar o emprego, gastando com reformas inúteis no Alvorada, com a contratação de babá pelo serviço público e ampliando os gastos com cartão corporativo, como noticia vez ou outra a imprensa, tudo para continuar vendendo a imagem sempre elegante daquela que é nosso orgulho nacional, por tudo que tem de pura, recatada e do lar.
***
Espero que minha análise tenha sido parcial, como solicitada pelo colega Tarcísio. E que tenha deixado mais uma vez evidente, a razão de os pitacos deste que aqui escreve, serem considerados imperdíveis.


Nenhum comentário: