sexta-feira, 16 de março de 2018

Um Brasil militarizado - Prenúncio ou Intuição?

Depois de sete anos ininterruptos de blog, e sem aviso prévio, resolvi fazer o que poderia ser chamado de período sabático, destinado ao descanso e à reflexão, tão necessária nesses tempos conturbados e polarizados por que passa o país e o mundo. Nesse tempo, achei por bem não fazer qualquer postagem, nem comentário sobre nenhum assunto, mesmo aqueles que pudessem ter alguma relevância, para desgosto e queixas de alguns poucos amigos. 
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Quis o destino que eu decidisse retomar as postagens com o discurso que proferi, como paraninfo, de mais uma turma que colava grau como bacharéis em Ciências Econômicas, pelo Centro Universitário Una, na noite de 14 de março, quarta feira última.
O tema do discurso, infelizmente, tratava da militarização a que estamos assistindo em nosso país, especialmente, a partir da intervenção parcial promovida pelo governo federal, apenas relativa às questões de segurança pública no Rio de Janeiro.
Desgraçadamente, enquanto eu discursava, era assassinada naquela cidade maravilhosa, de forma covarde e brutal, a vereadora Marielle Franco, a guerreira em prol das lutas e defesa dos direitos humanos. 
Premonição ou intuição?
Não sei. E gostaria de poder voltar atrás, se não para evitar a coincidência, ou a previsão sombria, para que a voz da mulher negra da Maré não fosse calada de forma tão vil.
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Publico abaixo o discurso como previsto inicialmente, e retomo o blog. Como forma de demonstrar que sua voz não foi silenciada em vão. 
Outras vozes surgirão e ecoarão o discurso sempre necessário de Marielle. 
Até que o país seja o que nós brasileiros sonhamos.
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Eis o texto:

O Brasil que eu quero é um país em que todos os jovens, mulheres, homens, tenham a liberdade de sonhar, a possibilidade de estudar e a felicidade de, um dia, participarem de uma festa de colação de grau, como a desta noite. Alguns de vocês,  provavelmente sendo os primeiros de suas famílias a avançarem nos estudos e a concluí-los.
O Brasil em que cada um, possa ter a força, o apoio moral ou financeiro, o estímulo, o exemplo que lhes foi transmitido por seus pais, avós, amigos, namoradas/namorados, mulheres e maridos, companheiros, que apenas ilustra, independente do grau formal de instrução de cada um deles, a sabedoria e o conhecimento que  a vida lhes permitiu acumular.
Um país que tenha maior respeito por todos os seus cidadãos: pretos, pobres, letrados ou analfabetos, ricos, brancos, mulheres, homens ou transexuais; católicos, crentes, evangélicos, judeus, kardecistas, umbandistas ou ateus; moradores em palácios e mansões, ou cidadãos sem teto.
Aliás, quero não! Exijo. Um Brasil em que todos possam se manifestar: ter voz e serem ouvidos. Em que a dignidade seja a condição primeira de tratamento dispensado a todos os nossos semelhantes. Onde a democracia seja plena e os direitos respeitados em sua integralidade.

Não quero um Brasil tutelado por ídolos, heróis, santos, pela mídia ou pelos donos do saber, fardados ou não.  Nem dominado pelos militares, e pela força das armas.
Vindo para essa solenidade, na condição de paraninfo, passou por minha cabeça a ideia de que essa homenagem que me fizeram meus afilhados, agora colegas, representa em parte um reconhecimento, em parte uma punição. Afinal, ser paraninfo é ter que preparar e lecionar uma última aula, quando todos estão festejando.
Sem ter a certeza de ser a pessoa mais indicada para ministrar aula de tamanha importância, começo alertando-os, à moda de Manoel de Barros, que
“Tenho o privilégio de não saber quase tudo.
 E isso explica...
o resto.”
Também pude observar, pesaroso, como nosso país foi ficando mais pobre com o passar do tempo, com a perda de pessoas que orgulhariam a qualquer um de nós, seus conterrâneos e que não têm nem mesmo sua memória e história cultuada. Afinal, se hoje fui eu o indicado como paraninfo, há aproximadamente 50 anos, nos dias da assinatura do famigerado AI-5, que liquidava com todos os direitos civis e as liberdades individuais no país, uma turma de bacharéis de Direito, em Goiânia, teria como paraninfo o professor, mineiro, Heráclito Fontoura.
Teria, se antes da solenidade, os militares não prendessem o sexagenário Dr. Justiça, Heráclito Fontoura Sobral Pinto.
Antes de prosseguir devo declarar que minhas posições e opiniões são, em grande maioria, contrárias à do Dr. Sobral, um homem conservador que apoiou discretamente o golpe militar. Diria até que se fosse hoje, já o teria bloqueado no facebook. Mesmo sabendo que reacionário ou conservador, o dr. Sobral defendeu, entre outros, Luis Carlos Prestes, na ditadura de Getúlio, além de vários presos políticos na ditadura de 64. Presos cujo crime foi ter opinião. Mesmo diferentes da opinião dele.
O Dr. Sobral apoiou o golpe na certeza de que os comunistas estavam dominando o governo”, apoio que não durou nem duas semanas. Manifestou-se contra o que acontecia, quando viu que os militares agiam para implantar uma ditadura no país.
Para ele “o maior desastre brasileiro era os militares terem proclamado a República, porque passaram a julga-se donos da República”. Dizia: “enquanto a presidência da República e os cargos eminentes do país continuarem nas mãos dos militares ... nós estaremos nessa situação terrível que nos encontramos: de falência e de corrupção.”
Vivemos no país um momento grave, em que parcela de nossa população pede intervenção militar, e parte dos cidadãos de maior grau de educação formal e mais ricos, declara voto em um militar para a presidência da República.
Um militar que, ao lançar sua candidatura, afirmou que “ não adianta mais tirar de quem tem para dar para quem não tem, porque daqui a pouco quem tem não tem mais e quem não tem não tem de quem receber”.
Isso em um país em que 1% dos mais ricos se apropriam de 23%  das rendas, com o 0,5% mais ricos absorvendo 8,5% da renda nacional. Um padrão de distribuição de renda e de riquezas apontado pela ONU como a principal causa de nosso atraso. Um atraso que um Relatório do Banco Mundial estima em 260 anos, para que nossos estudantes atinjam o nível de leitura de estudantes de países desenvolvidos
E o que justifica o desejo de intervenção militar, que já acontece disfarçadamente no Rio? Seria porque, como acreditam, os militares são os únicos preparados para dirigirem o país por serem patriotas,  e estarem dispostos a morrer pela Pátria? Será por que estudam os problemas brasileiros e conhecem as regiões do país, já que sempre estão sendo transferidos? Por serem realmente os cidadãos honestos, embora não seja a farda, mas a educação que vem do berço que torna um cidadão honesto?
Temo que a resposta é que os que clamam pelos militares, iludem-se. Deixam-se levar pela ideia de que os militares irão assegurar e manter o fosso da diferença entre eles, a elite, e o povo em geral. Nesse sentido, os militares são importantes, como nos têm mostrado as ações nas comunidades do Rio ou na vila Kennedy, onde todos são revistados, têm mochilas reviradas, são fotografados e identificados. Um sucesso.
Ações que estão longe de serem adotadas em Copacabana, Leblon, Ipanema, praias onde moram as pessoas mais privilegiadas do Brasil, em que a droga em latas vem a nado, pelo mar.
O que me remete à frase de  Michelle Alexander, professora de direito de Ohio, em referência à situação atual dos Estados Unidos: países que prendem pobres e negros são ‘falsas democracias’.
Democracia que era o sonho de luta do professor Sobral Pinto. Uma democracia sem adjetivos de qualquer espécie. Democracia apenas como um valor universal.
Caros formandos, é tempo de construirmos uma democracia que envolva o povo e sua sabedoria, ilustrada aqui por seus familiares.
Hora de construirmos um sociedade mais justa, mais fraterna e mais igualitária. Onde todos possam participar e serem considerados iguais.
Antes que o tempo sofra as transformações que já se prenunciam no horizonte, e a ciência dos homens consiga criar e reproduzir células em maior velocidade que as que nosso corpo é capaz de destruir a cada instante. Hora em que nossos cérebros serão tratados como chips e downloads de nuvens serão a forma de incorporar conhecimento. Instante em que teremos nos transformado em humanoides, avatares, transhumanos.
Quando não nos restará nem a morte como descanso. E que nossa desumanização nos trará a mesma sensação conhecida hoje pelos miseráveis de nossas cidades: a da invisibilidade de não cidadãos. Apenas trapos.
É tempo de fazermos algo por nossos semelhantes, sem nos perguntarmos o que nosso gesto trará de benefícios para cada um de nós, mas o que os benefícios poderão trazer para eles.
Boa sorte.
Obrigado.

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