quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Dez anos de blog, comemoramos o buraco negro do Nobel da Física e da política nacional

 Roger Penrose, Reinhard Genzel, Andrea Ghez foram anunciados, essa semana, como os vencedores do Prêmio Nobel de Física, pela Academia Real de Ciências da Suécia, como reconhecimento por seus trabalhos e descobertas sobre os buracos negros.

O fato de uma mulher estar entre os premiados já é, por si só, motivo de uma menção nesse pitaco. Afinal, a americana Andrea é apenas a quarta mulher a obter tal reconhecimento, em área considerada, erroneamente, masculina.

***

Em razão da complexidade, do desconhecimento, e até algum temor infundado que cercam esses fenômenos, o prêmio teve o mérito de aguçar minha curiosidade, induzindo-me a ir procurar socorro no mestre Google que me apresentou, entre outros, o endereço do site Gizmodo Brasil, hospedado no portal Uol.

Foi lá que tomei ciência de que os buracos negros são produto de uma evolução estelar, ou “o resultado da morte de uma estrela supermassiva”.  

Explicando melhor, é como se uma estrela de dimensão e massa muito maior que o Sol, fosse o local onde se travasse uma batalha: de um lado, forças centrífugas, resultantes de fusões nucleares no interior do astro; de outro lado, uma força da gravidade descomunal, sugando tudo para seu interior.

Ao longo do tempo, o combustível que alimenta as forças direcionadas para fora começam a se esgotar, restando vitoriosa e única a força da gravidade, capaz de fazer a estrela entrar em um processo análogo à autofagia, e começar a contrair-se toda, até entrar em colapso.

Nesse instante transforma-se em um buraco negro, fenômeno que exige massa muito maior que a do Sol e que conta com campo gravitacional de intensa força.

***

Duas observações merecem ser feitas: embora a massa seja um fator importante, cientistas afirmam que o que fator definidor do buraco negro é a sua densidade.

Para ilustrar, para se transformar em buraco negro, a terra toda teria que se contrair até virar uma uva.

Segunda observação: é tamanha a força do campo gravitacional criado que tudo é engolida pelo buraco, dele não conseguindo escapar nem a luz, cuja massa tem valor quase nulo, de onde vem seu nome de buraco negro.

***

No entanto, para não alimentar temores infundados, é o equilíbrio de forças inicial que mantém, por exemplo, os planetas em suas órbitas em torno do Sol, provendo a estabilidade de nosso sistema.

E, segundo cientistas, se fosse possível que um buraco negro substituísse o Sol, na hipótese de ter a mesma massa que ele, a situação de estabilidade não seria necessariamente alterada. Essa estabilidade guarda relação com a distância, o que leva os objetos na Terra, por exemplo, mesmo com massa menor que a do Sol, a sentir mais a gravidade de nosso planeta que a daquela estrela.

***

Por mais interessante que seja conhecer um pouco mais do fenômeno do buraco negro, alguns dos leitores desses pitacos poderiam perguntar a razão de uma postagem como essa.

Começo respondendo que é para marcar a passagem, nesse 7 de outubro, dos 10 anos do blog Também quero dar pitaco.

Tempo em que 127 amigos, e alguns poucos curiosos, se inscreveram e passaram a nos seguir. Período em que 1728 pitacos foram publicados, tratando de assuntos vários, desde assuntos econômicos, a temas políticos e esportivos, até assuntos diversos que marcaram nossa sociedade e nossa vida.

***

Aos amigos leitores, devo expressar minha gratidão, para com sua paciência, sua confiança e, em especial, sua coragem.

Mas devo confessar que, se houve algum ganho real que pude experimentar, tal benefício foi o de me obrigar a ir pesquisar sobre os temas que desejava tratar. Nesse sentido, a importância maior do blog foi me proporcionar os motivos para alimentar minha curiosidade e meu conhecimento.

Como dizem e acredito que vivemos enquanto aprendemos, devo admitir que o que o blog me proporcionou foi aprendizado. E vida.

***

Mas, feito esse auto de fé, voltemos ao tema do blog de hoje, usando o paralelismo com a história do buraco negro.

Afinal, no último 5 de outubro comemoraram-se os 32 anos de nossa Constituição cidadã. Que como cidadão de submundo periférico da América do Sul, não teve ainda reconhecidos todos os seus direitos. Daí alguns artigos não terem sido regulamentados até essa data (o Artigo 192, que trata do Sistema Financeiro sendo um deles; bem como outros que tratam da taxação de grandes fortunas, no sistema tributário) e outros já terem sido alterados, revogados, cancelados, ao menos pela sociedade, como o debate da prisão em segunda instância.

***

Tudo bem, sabe-se que a sociedade humana muda e que a Lei Maior não pode impedir sua evolução. Sabemos que estamos atravessando um momento de mudança, conservador que seja, mas de alterações.

Mas nossa democracia, tenra, tênue, vinha se mantendo viva, dinâmica, efervescente nesses 30 e poucos anos, como uma estrela supermassiva em ebulição, em movimentos de fusões, rupturas, erros e acertos, sempre mantendo o equilíbrio.

***

OK, você venceu: equilíbrio entre os mais ricos e poderosos. Equilíbrio e estabilidade no grau de exploração de outras parcelas de classes ou categorias sociais. E total desequilbirio, mesmo estável, em relação a camadas consideradas então invisíveis, tamanha a importância que lhes era atribuída (ao menos até a pandemia).

***

Mas nossa democracia, essa superestrela, libertária, pujante, rica tanto em termos de sua potencialidade material, quanto de seus valores, sua riqueza cultural, de repente passou a ser objeto de questionamento.

A um só tempo não querendo assumir os deveres, encargos e responsabilidade de construir uma nação justa, digna, o tempo inteiro sob a vigilância e controle da sociedade civil, muitos cidadãos cobravam soluções para problemas, melhorias nas condições de vida, que delegavam a algum ser supremo, heroi da população.

***

Acho aí o primeiro erro, que se eterniza. Ao longo de 30 anos, a população escolheu a figura de herois populares para decidir os rumos de sua vida. Abrindo mão e transferindo para os “salvadores da pátria” as decisões que deveriam ser menos comodamente realizadas.

Entendo que é mais cômodo e menos trabalhoso deixar que outros tomem as decisões sobre nossas vidas. Afinal, se as coisas não derem certo, sempre teremos a quem culpar.  Entendo que assumirmos as rédeas de nossa vida e nosso destino, impõe a todos nós, um sacrifício de entrega, muitas vezes, sem benefício direto e individual para nós mesmos.

***

Entregue as decisões que nos afetavam coletivamente às mãos de poucos “abnegados”, que além de tudo não tinham que prestar contas a nenhuma instância de maior participação popular, não é de admirar que os governantes de ocasião se sentissem no direito de se retribuírem – se locupletarem – pelo trabalho de abnegação e sacrifício, em prol de  uma sociedade distraída.

Às muitas migalhas distribuídas, corresponderam com corrupção. Essa, quando descoberta, gerou no grupo dos acomodados, uma reação sem precedentes. Como se também eles não fossem culpados, por omissão.

***

Ao fim e ao cabo, a corrupção sugou nossas forças e nos sugou junto para a ideia de um governo conservador (como pareciam ser, antigamente, os governos autoritários!).

Não todos, claro. Afinal, ainda temos perto de 70% que tentam reagir à atração da força gravitacional da acomodação e passividade.

***

Aí chegamos ao buraco negro, representado por forças que já existiam no interior de nossa democracia, mas que se alimentando de um discurso de responsabilização dos outros e de propagação do ódio, foi elevado à condição de, mais uma vez, Salvador da Pátria verde amarela. Um mito.

Que como qualquer força pré-existente, só pode crescer nas mesmas atividades escusas e, muitas vezes com fortes traços de ilicitude. Quando não indícios de vinculações espúrias com aqueles que, armados, apresentam-se como “cavaleiros da força”, mesmo que do lado Darth Vader da força.

***

Bolsonaro, fortalecido economicamente nas sombras e nas entrelinhas das ações políticas, fortalecido pelo seu oportunismo político, por sua esperteza que lhe permite governar, pelo desgoverno é nosso buraco negro.

Como afirmou Marcelo Freixo, Bolsonaro é o serial killer de nossa Constituição. Ele suga para a escuridão e as trevas qualquer resquício de avanço ou mesmo a mera manutenção de valores democráticos.

***

Não há como se iludir com seus gestos de maior cordialidade, recentes.

Ele é a ilusão do buraco que não ameaça e que atrai, por não parecer estar onde se localiza.

Mas, não por sua pessoa, ainda que negativa e negacionista. Mas por sua prática, de governar sem governar, de fazer e desfazer e afirmar e negar, com a mesma falta de comprometimento com a verdade ou a realidade, ou a ciência. Ou com o povo.

Buraco negro, consegue corroer por dentro as instituições. Consegue promover a desconstrução por simples nomeação para postos chaves de seu desgoverno, pessoas contrárias e com práticas antagônicas ao que lhes era atribuído.

***

E enquanto adota o comportamento do político populista, abre a porteira e deixa passar a boiada.

Cercando-se sempre dos piores auxiliares, em sua grande maioria, com um vício de origem, a julgar pelas qualificações que apresentam à sociedade sempre em currículos fajutos, ampliados por fake courses.

***

Quando o auxiliar parece destacar-se, por algum equilíbrio, o presidente o queima e o transforma em fuligem. Essa fuligem a que o presidente transfere a responsabilidade para sair de mãos abanando, limpas, lavadas.

Enquanto isso, a fuligem fica suspensa no ar interior escuro do buraco cósmico.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Outubro quente, no clima, na temperatura e no debate político. De quebra, link da gravação de um debate sobre Programas de Benefícios Sociais

 Outubro se inicia prometendo... Quente. Tanto em termos climáticos, quanto do fogo que continua ardendo, não apenas no Pantanal. Para uniformizar os problemas, as preocupações, a fuligem e a poluição, ardem as matas no interior de São Paulo e no interior de Minas. 

O incêndio se alastra enfolfando o Parque da Serra do Cipó, parte da Serra do Curral, do Rola Moça, na maior parte das vezes, por culpa do homem. Que intencionalmente ateia fogo para abrir espaços para pastagens e/ou plantio de soja, por exemplo, ou de forma não intencional, mas descuidada, age sem avaliar os resultados previsíveis de seus atos e comportamentos. Isso quando seu comportamento não revela apenas a falta de  educação, quando atira um palito de fósforo ou um resto de cigarro em rodovias, dando origem a um desastre a que o clima seco serve de combustível natural. 

***

Em meio à observação de tanto desastre que ameaça as matas ciliares, as nascentes, a preservação dos nossos cursos d'água para não falar da poluição e fuligem levadas pelo vento, que ameaça, nos centros urbanos, a saúde da população sujeita a respirar um ar de qualidade cada vez pior - confesso que, embora tardiamente, até hoje não consegui entender uma passagem do discurso de Bolsonaro, na ONU. 

Ali, discursando em defesa do comportamento de seu (des)governo em relação à preservação do meio ambiente, da floresta amazônica, de nossos mananciais, da biodiversidade, o presidente afirmou que nossa floresta é úmida e, por isso, não queima. 

***

Ora, agindo talvez como o personagem de Elio Gaspari, Eremildo, o Idiota, ou quem sabe como a saudosa Velhinha de Taubaté, do grande Luiz Fernando Veríssimo, tendo a concordar com o presidente. Não é possível pegar fogo onde há tanta água, tanta umidade, o que indica que o presidente deve estar certo. 

No entanto, tal raciocínio nos faz defrontar com um problema de lógica, obviamente não considerado por esse gênio da raça que nos governa e sua vasta cultura e conhecimento: se a floresta é úmida e não queima, como é que no lado oriental, ali onde os ribeirinhos, caboclos e os índios - especialmente esses últimos- plantam e vivem desde antes da chegada do europeu a nosso país, o fogo se alastra? 

E, seguindo a linha de pensamento que atribui ao comportamento tradicional desses "selvagens" -  que desconhecem as mais avançadas técnicas de cultivo -,  a responsabilidade pelo fogo, como explicar que esse entorno ocidental da floresta ainda não foi extinto, mantendo-se preservado? 

***

Tanto no risível discurso na ONU, quanto em outras várias oportunidades que se apresentam, é de uma  bizarrice atroz os argumentos que esse desgoverno insiste em apresentar para rebater aquilo que considera "acusações mentirosas, levianas, falaciosas" de que somos vítimas. 

Do alto de sua arrogância e incapacidade de pensar mais amplo, nossas autoridades insistem em manter um discurso hipócrita em defesa dos interesses nacionais, em defesa de nossa soberania, ameaçada pelo ataque cerrado desferido por outros povos e países cujo desejo inconfesso é o de se apossar da Amazônia e das riquezas de sua biodiversidade. 

Curioso é que, em todas as medidas que adota em relação a nosso bioma e nossa riqueza, o que fica patente é a miopia dessas nossas autoridades, incapazes de verem oportunidades de geração de riqueza em outras atividades exceto exercidas com base nas práticas tradicionais da monocultura de lavouras comerciais de exportação, como a soja, ou nas atividades pecuárias, ou ainda, de mineração. 

Ou seja: esses que têm a responsabilidade de pensarem e proporem o desenvolvimento de atividades geradoras de riqueza de base tecnológica, mais limpas e menos predatórias, ligadas à indústria de fármacos, química, etc. apenas conseguem enxergar e propor a exploração de atividades vinculadas à exploração extensiva de nosso território. 

***

Pior ainda. Muitas vezes, essas autoridades agem ou se manifestam movidos por rompantes cujo objetivo é aguçar os brios de uma população que se deixa manipular por valores tão abstratos e de tão pouca utilidade, tendo em vista a  melhoria das condições de sobrevivência digna da população brasileira. 

Valores como patriotismo, nacionalismo (em sua visão mais canhestra) são utilizados para encobrir a postura equivocada e omissa do governo que, dessa forma, sente-se apoiado para passar da defensiva ao ataque mais rasteiro aos que os criticam.

***

Argumentam que os europeus, que hoje cobram comportamento responsável de nosso país, foram no passado autores de devastações e agressões ao meio ambiente muito mais prejudiciais. 

Como se os valores de defesa dos recursos de nosso planeta tivessem existido desde sempre, e não fosse, justamente a constatação da degradação provocada pela atividade humana,  que provocasse a necessidade de uma mudança. 

Mudança salutar, não há como negar. Mas cujo reconhecimento, embora tardio, deve ser comemorado como revelador da evolução positiva proporcionada pela experiência humana.  

Nesse sentido, a lógica implícita no discurso de que ao nosso país deveria ser tolerada a exploração irracional e predatória do nosso território, apenas porque outros assim se comportaram no passado, é tosca e suicida para dizer o mínimo. Ambienticida. 

***

Além de ilógico, o argumento ainda contém inverdades. Afinal, afirmar que somos o povo que mais preservou suas florestas, alegando que os europeus destruíram a cobertura vegetal de seus territórios não é apenas mostrar um desconhecimento da própria história econômica da humanidade e da evolução de nossa civilização. 

Significa não assumir que nosso descaso com a questão da ecologia foi, e continua sendo, um dos fatores que explicam o desmatamento da Mata Atlântica, reduzida hoje, a uma ínfima proporção do que era anteriormente.

O que, em termos absolutos, pode significar uma área desmatada maior que alguns dos territórios dos países vítimas de nossos ataques. 

***

O pior é que é essa riqueza ambiental que, mais uma vez, é vítima da porteira agora aberta, para dar passagem à  que interesses econômicos possam vir a explorar e eliminar o pouco que ainda resta de conservação de restingas, de mangues, tão indispensáveis à manutenção de toda espécie de vida.

***

Mas, se causas naturais explicam o outubro quente, outros fatores contribuem para a elevação da temperatura. Especialmente no campo político. 

Exemplo disso, é a discussão entre os sinistros do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e o nosso Pinóquio-mor, o sinistro da Economia, Guedes. 

Uma breve listagem de atos, falas e promessas desse que foi escolhido como o Posto Ipiranga desde o início do governo é suficiente para justificar o apelido e revelar a adulteração que sofreu o combustível à venda neste Posto.

Afinal, foi Guedes quem prometeu privatizar todo o patrimônio público, para arrecadar até 1 trilhão de reais. Como foi dele a promessa de eliminar o gigantesco déficit público já no primeiro ano de sua gestão. Como foi ele que afirmou que, graças ao esforço de investimento privado, tanto nacional quanto aquele atraído do exterior, a economia brasileira iria  retomar o seu crescimento. 

***

Sem competência para dar andamento às reformas que prometeu entregar ao governo, preferiu trocar o discurso econômico por ofensas a altas autoridades estrangeiras, fazendo coro no desequilíbrio e na grosseria, ao seu patrão, como forma de mostrar alinhamento, na falta de resultados. 

Preocupado em reduzir o principal gasto público, representado pelo gargalo da Previdência e do pagamento de pensões e aposentadorias, com potencial de colocar em risco até mesmo o limite do teto de gastos, dedicou-se, inutilmente, à aprovação da Reforma da Previdência. 

Seu destempero, a falta de jogo político, somados à arrogância o derrotaram. Não fosse seu Secretário da Previdência, justamente Rogério Marinho e a participação fundamental na figura de fiador de Rodrigo Maia, a reforma não teria sido aprovada. 

***

Não querendo dar sinal de fraqueza, começou a difundir dados de uma falsa recuperação econômica, no final do ano de 2019, desmentida pela pandemia que nos atingiu a partir de fevereiro/março.  

Mas Pinóquio não se deu por vencido e, continuou colhendo derrotas como sua proposta de pagamento de um auxílio emergencial no valor de 200 reais, para amenizar o sofrimento e a própria sobrevivência de milhões de pessoas, consideradas antes invisíveis, excluídas do mercado de trabalho e de consumo.  

Em boa hora, mais uma vez, o Congresso não deixou que tal ideia tivesse curso, elevando para 500 reais o valor do benefício mensal a ser pago, mais tarde elevado para 600 reais para um Bolsonaro interessado em não parecer ter ficado a reboque. 

Nesse instante, Pinóquio prometia uma retomada em V, também inviável. 

***

Tendo sido derrotado em tudo que tentou ou se propôs a fazer, e para não ficar no ostracismo absoluto, retomou as investidas que já havia protagonizado antes, contra seus colegas de equipe técnica e companheiros de Ministério. 

Sua atuação na reunião fundante do Brasil da Falácia, dia 22 de abril, mostra seu grau de desespero e, mais uma vez, falta de humildade, ao se referir à leitura, no original, do livro de Keynes. 

Livro que leu e não entendeu nada, mesmo depois de releituras que alega ter feito. 

***

Mais recentemente, movido por sentimentos pouco nobres, voltou a mirar seu armamento contra Maia, que o derrotou uma vez mais no Fundeb e no adiamento da medida que eliminava a opção de desoneração da folha de pagamentos.

Quando viu a oportunidade de desenhar o programa salvador da popularidade de seu patrão, o renda cidadã, mostrou mais uma vez sua incapacidade, tendo sido atropelado pela área política, representada  por seu ex-secretário, Rogério Marinho, agora sinistro do Desenvolvimento Regional. 

***

Para financiar o programa que se transformou na menina dos olhos da virada populista do governo Bolsonaro, nas reuniões internas da equipe,  sugeriu o uso de fontes que permitissem contornar o obstáculo do limite do teto fiscal de gastos, em verdadeira manobra de ilusionismo, digna de um (mau) prestidigitador. 

Descoberta sua ação, partiu para o ataque àqueles que aprovaram as fontes por ele sugeridas, preferindo lavar as mãos e eximir-se de qualquer responsabilidade quanto ao anúncio das fontes. 

Pois é. Este é o Pinóquio, capaz de grosseiramente partir para o ataque a colegas, apenas por terem destacado sua participação ou omissão, nas discussões no Palácio. 

***

Com outubro tão quente, por seu lado, o presidente para efeito interno, apenas lava as mãos, mostrando maior preocupação com a saúde  de seu ídolo maior, Trump, alcançado pela gripezinha que já matou 145 mil brasileiros. 

Para o mal ou para o bem, parece que Trump se recupera bem, embora a passos lentos, tendo em vista não ter feito uso da medicação recomendada por Bolsonaro: a cloroquina. 

Menos mal. 

***


Sobre o bolsa cidadã e os pontos fortes e fracos de programas de benefícios sociais, fomos convidados para participar de um debate no último sábado, na Rádio Itatiaia, programa Palavra Aberta. 

A seguir, apresento o link da gravação do programa, para aqueles que tiverem interesse: 

https://www.itatiaia.com.br/central-de-audio/13/palavra-aberta.

***

É isso.  


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Histórias que nossos pitacos não contavam ... uma farsa sobre os crimes do bem e crimes do mal

Dizem que o uso do cachimbo faz a boca torta.

O que significa que o hábito faz maravilhas, como vestimenta dos religiosos ou modos e costumes.

E que a sabedoria popular, mesmo não erudita ou formal,  consiste em importante ativo possuído por qualquer povo, de qualquer nacionalidade, em várias circunstâncias e ocasiões.

Nem sempre, entretanto.

***

Para nossa reflexão, e a título de exemplo, analisemos a seguinte situação totalmente hipotética.

Vamos supor, que alguém, dotado de alguma pretensa liderança e nenhum tipo de pudor ou juízo, se lance candidato, como representante da categoria da qual é oriundo e com a qual se identifica.

***

Para dar a esse indivíduo maior grau de complexidade, tornando-o menos superficial e mais próximo do que sabemos ser qualquer ser humano, com suas falhas, fraquezas, crenças, expectativas, desejos, ambições, sentimentos, digamos que desde sua juventude ele frequentou, estudou, conviveu, praticou esportes, se destacou e até se formou em instituições de formação e treinamento militar.

Para evitar que nosso personagem se assemelhe a mero invólucro, sem uma identidade, vamos atribuir-lhe um nome. Quem sabe JaiMe, para já ir nos acostumando...

***

Em seguida,  vamos supor que, em defesa da melhoria de seu soldo, JaiMe se envolve em movimentos de reivindicação que, caso atendidos, resultem em melhora de remuneração de todos os seus colegas de armas.

Imaginemos que, desconhecendo qualquer limite de bom senso e disciplina, e incapaz de controlar seu gigantesco ego e de resistir a qualquer facho de luz, seja de uma lanterna, seja de qualquer holofote, JaiMe se envolva em tais movimentos obtendo algum destaque. Muito,  em razão de suas ideias sempre estapafúrdias, cômicas, risíveis ... insanas.

***

Fruto de tal perfil e comportamento, vamos admitir que nosso personagem se exponha a ponto de acabar sendo punido por quebra de hierarquia, da disciplina, pelo desrespeito às normas que deveriam moldar seu comportamento.

Apenas como pano de fundo, vamos dizer que o país de nossa história acaba de sair de um duro regime ditatorial, contrário aos direitos e à dignidade humana, patrocinador de torturas e tolerante com um amplo esquema de corrupção, tudo sob o manto da defesa da decência e da moralidade. Sob a inocente desculpa da preocupação com a coisa pública: os guardiões da Re(s)-Pública.

Por trás de tantas e tais atrocidades, falsidades e falácias,  os militares. Responsáveis por 21 anos de domínio absoluto exercido por aqueles, constitucionalmente detentores do monopólio das armas: os militares.

***

Então, tal qual o despertar de uma longa noite de pesadelos e apesar de todos os seus inúmeros defeitos - e por causa deles-,  a sociedade civil resolve se insurgir e retira dos autores do golpe autoritário, o apoio que um dia lhe assegurou.

Nesse momento, de volta aos quarteis para o cumprimento de sua nobre missão constitucional (a ver, qual, na realidade!!!), os militares sentem-se desprestigiados. Abandonados. Desrespeitados. 

Sem apoio, acusados e mal remunerados.

***

Para redimi-los, em meio a uma campanha eleitoral, surge uma voz. A mesma voz capaz de ecoar e difundir um amontoado de inverdades, mentiras, disparates, falácias. Sempre uma voz dissonante.

Uma voz que, junto aos seus antigos companheiros de farda, soa agora como a voz de um injustiçado. Um perseguido. Um homem expulso da tropa, apenas por defender a honra (e a grana) do conjunto dos fardados.

***

JaiMe se elege e, dado seu perfil, passa a conviver com os ratos que habitam os porões e a rede de esgotos onde vai se instalar e se manter pelos próximos e longos 30 anos.

Ali, usa e abusa do poder de manipular verbas públicas com a contratação de assessores e funcionários fantasmas, cuja remuneração sai do pagamento de impostos de toda a população tomando a direção final do caixa único, ou bolso único, de JaiMe.

***

A tramoia é tão rentável que JaiMe lança toda sua família, seus filhos (mesmo incompetentes), suas ex-mulheres, seus parentes e amigos, no exercício da profissão mais antiga do mundo. (Não, não é a prostituição. Essa é a mais antiga das formas honestas de ganhar a sobrevivência).

Forma-se o clã político, dos Bestialli, sob o comando do capo JaiMe.

***

Mas, não é apenas JaiMe. Todos os seus colegas do baixo clero da Câmara agem da mesma forma: contratam um número elevado de assessores pagando-lhes um rendimento muito acima daqueles recebidos pela ampla maioria da população trabalhadora do país. Em seguida, obrigam tais assessores a devolverem parcela da remuneração que lhes é devida.

Todos locupletam-se, se enriquecem e tornam regra o mau uso do dinheiro público.

***

Talvez, diferente de seus colegas,  JaiMe não peça propinas para aprovar projetos. Afinal, ele nem tem, nem apresenta ou defende qualquer proposta de projeto de lei.  Por absoluta inapetência ou só mesmo falta de tempo.

Talvez ele nunca tenha sido indicado para participar de qualquer comissão importante, das que são formadas com a obrigação de discutir temas como a lei orçamentária. Com todos os benefícios das barganhas aí tratadas.

Talvez Jaime não tenha ganho 211 prêmios consecutivos em loterias oficiais, por um olhar benévolo a ele dirigido por Papai do Céu.

***

Não tendo participado de desvio de recursos, roubos, cobrança e pagamento de propinas, ele está apenas fazendo o que é costume. O que todos fazem. O que explica porque a população não enxerga em seu comportamento qualquer crime.

Muito mais grave, por não ser prática unânime, é o fato de um político se beneficiar de propinas, presentes, agrados, pagos por quem, de forma explícita,  majora o preço de obras públicas, pratica sobrepreços ou frauda concorrências.

***

Afinal, a obra que poderia ter sido feita por metade do valor do orçamento, ou aquela que não foi concluída por falta da revisão de valores, ou da aprovação de aditivos de preços – essa, o contribuinte tem convicção de que foi fruto do desvio de seu suado dinheiro (do seu, do meu, do nosso dinheirinho!).

Isso é crime. Com rastro e digitais. E esse merece ser punido. Com cadeia. Condução coercitiva, algemas. Condenação para toda a eternidade. Haja ou não provas (e não indícios!).

Essa é a exceção.

***

A regra é cada gabinete do Legislativo já contar com dotação orçamentária para a contratação de equipe de assessores, qualquer que seja sua finalidade.

Reservada a verba, se ela vai ser gasta com assessores autênticos, competentes, peritos, ou com parentes, dá no mesmo. Se vai voltar para o bolso do representante do povo ou não, não é objeto de crítica.

Afinal, já está lá mesmo, na previsão. Logo, deverá ser gasta. Em benefício próprio ou não.

***

O problema é que o cidadão comum, dono de imensa sabedoria que conforma o senso e o conhecimento comum, não entende que, se não houvesse tais contratações de simulacros de assessorias, o gasto das casas do povo poderia ser reduzido.

Com menor orçamento para o Legislativo, menor seriam os gastos públicos. O que liberaria recursos para serem utilizados em prol de melhoria da qualidade dos serviços públicos. Ou ainda melhor, com mais e melhores serviços sendo prestados a menores custos. E menores cargas tributárias.

***

O que me leva a questionar, o porquê da existência de crimes que podem, e crimes que não são tolerados. Todos com os mesmos vícios de origem.

***

Mas o povo prefere ver outros políticos, até ex-presidentes, acompanhados de seus filhos e companheiros na cadeia.

E ficam indignados com tanta perseguição feita a JaiMe e aos seus filhos, por essa extrema imprensa, dominada por comunistas e interesses escusos, em movimentos globalizantes de complô contra o país. 

Fugas, mentiras e fantasias. O mundo encantado de um líder quixotesco menor e insignificante

 Primeiro foi Queiroz, que fugiu a vários depoimentos para os quais havia sido intimado pela Polícia, no curso das investigações do escândalo da “rachadinha” na Assembleia do Estado do Rio, mais especificamente no gabinete de Flávio.

Ora alegando ser portador de moléstia grave, ora hospitalizado, com a justificativa de ter se submetido a cirurgia, Queiroz evitava se apresentar para esclarecer as transações financeiras vultosas identificadas por relatórios de órgãos de investigação de crimes financeiros.  

Ex-policial e mantendo estreitos vínculos com grupos milicianos, paramilitares,  Queiroz se valia da boa vontade de parte de seus ex-colegas de ofício, conseguindo se manter em local incerto e não sabido.

Antes tendo se escondido em apartamento no Guarujá, de propriedade da família do advogado da família de Flávio, transformado em seu representante legal, foi mais tarde transferido para outro imóvel de seu advogado, em Atibaia, onde não se furtou a manter agitada agenda de encontros com amigos, churrascos e diversão.

Preso, não explicou porque depositou, junto com sua esposa, 89 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro.  

***

Depois foi Jair, intimado para depor em processo instaurado pela Polícia Federal para investigar eventual interferência sua junto à própria PF, como denunciado pelo ex-juiz, ex-ministro e comparsa, igualmente figura de caráter duvidoso, Sérgio Moro.

Depois de longo tempo em silêncio, em que não foi capaz de denunciar os maus feitos de seu patrão, os quais até contribuía para encobrir,  o descumpridor de leis de Curitiba acusou Jair de tentar interferir em ações em curso  naquele órgão, evitando possíveis incriminações de seus filhos – já nessa ocasião, Flávio e Carlos.

***

Exige a verdade que se registre que já há muito tempo, Jair procurou se esquivar da responsabilidade por implantação de artefatos explosivos em prédios militares, na tentativa de culpabilização de movimentos civis.

Como consequência, escapou da expulsão do Exército, o que lhe deu a oportunidade de ir se esconder nos porões da Câmara, no pântano em que o chamado baixo clero costuma agir.

Lá ficou escondido por mais de 30 anos, aproveitando-se de sua pouca importância e sua postura folclórica.

***

Entretanto, Jair não se furtou de montar o esquema de aproveitamento das verbas públicas, as chamadas verbas de gabinete, para contratação de funcionários fantasmas, divisão de rendimentos de assessores, e até a prática de uma gestão de recursos humanos completamente estapafúrdio e ilegal, com contratações, movimentações de cargos e funções como que em rodízio, inclusive de milicianos e parentes de tais ilibados cidadãos.

***

Mas, não podemos deixar de lembrar que Jair também fugiu a todos os debates da campanha eleitoral, o que lhe permitiu esconder sua incapacidade de manter uma conexão mínima com seus dois neurônios, a maior parte do tempo desligados.

Afinal, não apenas Jair tem limitado vocabulário, como uma completa e reconhecida ignorância de qualquer tema que não seja ligado a piadas de mau gosto, com conotação sexual, invariavelmente ligado – quem sabe,  aos seus desejos mais íntimos? – a questões de homofobia, transfobia, misoginia, racismo estrutural e, vá lá, um discurso conservador em prol da família, do nacionalismo e patriotismo e de armas.

***

Devo reconhecer que Jair sabe se safar, e como tal, sabe o que falar e quando, para agradar ao seu núcleo duro e burro de seguidores. Aí incluídos os evangélicos, os cristãos e até os americanófilos de todo tipo, além dos próprios americanos, de quem se orgulha em ser sabujo.

E sua fala, mesmo desconexa, cala fundo junto a certos setores de pessoas incapazes de perceber o mundo como um ambiente social diversificado e rico, por essa mesma diferenciação.

São pessoas que continuam eternamente participando de marchas do terço, e movimentos em favor da Tradição, família e propriedade.

***

Jair só não escapou da facada, para a qual rumou intrépido e destemido: sua maior arma eleitoral. A responsável por sua vitimização e postura de esquiva aos debates.

***

Estarei cometendo grave injustiça, mas acho que ali, naquele momento, Jair começou a perceber a sabedoria e o oportunismo de Lula, ao utilizar-se de armas que permitiram ao petista chegar ao poder: o vitimismo do nordestino, do operário acidentado em trabalho, do que persevera e vence.  Talvez até enriqueça.

***

Mais recentemente, Jair tenta escapar das perguntas incômodas e capazes de justificar os 89 mil depositados por Queiroz na conta de Michelle, sua mulher.

Embora aqui, também devamos reconhecer que ele já havia fugido antes, alegando desconhecer fatos que marcam a família de sua esposa: a prisão da avó, falecida, por tráfico de drogas; a condenação da mãe (sua sogra) por falsidade ideológica. Ora, quem não conhece fatos familiares tão triviais, não seriam 89 mil, na conta de sua mulher que seriam de seu conhecimento.

Ainda mais quando se sabe que ele nunca soube do enriquecimento de suas ex-mulheres e parentes da mãe de seus filhos, todos um zero à esquerda.

***

Não é só. Tenta ganhar tempo e evitar de se apresentar para depor pessoalmente na investigação da PF, desrespeitando decisão do Ministro do STF, Celso de Mello.

No caso, ao procrastinar o depoimento, e tentar fazê-lo por meio outros, um batalhão de advogados e assessores responsáveis pela  redação do depoimento que devia ser seu, arrasta a decisão para depois da aposentadoria de Celso de Mello.

Assim, consegue nomear alguém terrivelmente evangélico, conservador, patriota, e companheiro de cervejada com ele.

Ao menos uma coisa devemos reconhecer sempre: Jair mente, mas não se esconde, já que seu ego não cabe em si.

***

Mas dadas as características ou o perfil de seu candidato, difícil não imaginar que isso poderia ser também um crime, de tentativa de intervenção em outro poder: o próprio Supremo.

***

Na mesma linha do pai, Flávio é outro trânsfuga. E foge à acareação com seu acusador e financiador, ex-amigo e suplente, Paulo Marinho.

Dá a desculpa de estar doente, depois de se vangloriar de estar curado. E a postura aprendida com Queiroz de estar em outro local, na data agendada, e participando de eventos sociais, comemorando,  como o mostram fotos postadas em suas redes.

***

Flávio mente, e tenta escapulir, também esperando que um novo ministro no STF poderá lhe ser favorável nos pleitos relativos a manter o foro privilegiado, necessário para paralisar a investigação dos crimes por ele perpetrados, em especial, a rachadinha.

***

Depois de todo esse histórico, falar o que do discurso de nosso Messias, para a abertura da sessão da ONU, ontem.

***

Acho até que há um equívoco em que incorrem os analistas e críticos do discurso de ontem.

É que tais analistas cobram, esperam um discurso de estadista. Esquecem que Bolsonaro é apenas um governante. Chinfrim.

Minúsculo e estupenda e estupidamente obtuso.

***

Aliás, equívocos e esquecimentos têm predominado em meio à pandemia, que nos atrai a atenção e permite que o condenado Ricardo Salles tente passar a boiada, e em meio a tanto desatino de um antigoverno.

Se não fosse isso, já teria sido dada muito mais atenção à data de 22 de abril. Por acaso aquela em  que se comemora a descoberta do Brasil. A primeira.

E agora, pós-Bolsonaro ou pós-desastre, a que se comemora a segunda descoberta do Brasil profundo, e toda sua sordidez.

***

Voltemos ao tema principal.

Poderia D. Quixote em sua loucura poética, apaixonada,  não enxergar cavaleiros armados, dispostos a atacarem Dulcineia, em moinhos de vento.

Sancho Pança, seu escudeiro, teria alguma força para convencer o cavaleiro da triste figura que sua confusão era mais triste que a figura?

***

Poderia ser esperado um discurso de estabelecimento de relações internacionais mais altivas, mais harmônicas, mais salutares, de alguém que não consegue respeitar e cumprir a máxima de Tolstoi  e não consegue se tornar universal, por não conseguir cantar sua aldeia?

Bolsonaro não é Messias. Melhor JA IR se acostumando com isso. Não é governante de um país digno de fazer parte do concerto das nações mais respeitadas do mundo.

Não consegue nem governar seu país e liderar seus eleitores. Exceto uma massa que lhe serve de claque, para a qual toda sua atenção é dispensada e toda sua mensagem é transmitida.

***

Por essa sua cegueira, essa postura submissa, serviçal e tacanha, ele não consegue enxergar as labaredas de fogo que o circundam e em que ele mergulha.

Esperar de quem não se preocupa em coordenar e liderar um combate contra uma pandemia, tornando-a menos letal e avassaladora; de quem prefere se  vitimizar e culpar a todos pelos desastres que sua inação, somada à ação delituosa de seus apaniguados, incentiva; de quem é apenas louco, sem a envergadura moral de um Quixote, é delírio.

Não dele: nosso.

Que se já não esperávamos muito de sua torpe figura, agora temos certeza do acerto das leis de Murphy: não há nada que não possa piorar. Indicando que qualquer coisa que pode ocorrer de mal, irá ocorrer, ao menos por um mandato de desgoverno.

***

Esperar grandeza de Bolsonaro, suas políticas, seu governo e seus discursos é, aí sim, querer acreditar em moinhos de vento inimigos e agressivos.

Razão porquê minha maior dúvida nesse momento não é de como reagirá a comunidade internacional e parte de nossa sociedade a tanto desatino e postura risível. Que nos expõe a todos ao deboche internacional.

Mas, saber o que leva gente de alguma formação intelectual (ausente em seu líder) a não conseguir tirar a viseira para enxergar o mal em que seu voto impensado, ou a defesa extrema de valores que lhes são caros, mesmo equivocados, conduziram o país.

***

Porque Bolsonaro apenas mente. Fantasia. Foge. Foge da realidade e se abraça ao fogo, cuja fumaça impede que sua insignificância seja visualizada mais cruamente.

 

 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A relação muito estranha de Bolsonaro e os militares; o capacho Alcolumbre rasteja e assume a responsabilidade que não é dele; FHC, melhor obedecê-lo e esquecê-lo de vez....

Minha ingenuidade me faz dar crédito ao que os persistentes bolsotários difundem aos quatro cantos: a extrema imprensa, de fato, não noticia nada de positivo sobre Jair, o Messias.

Tudo bem, que não exista praticamente coisa alguma a noticiar. Mas, concordo com os adoradores de mito: então não deviam publicar apenas o que é negativo.

Iniciei o pitaco concordando com os eleitores do capitão, portadores de dois neurônios, mesmo que não sejam capazes de utilizá-los, porque juro que procurei, em vários sites algum comunicado, um apenas que fosse, uma nota, uma menção de Bolsonaro, a respeito da perda de ninguém menos que o Chefe do Centro de Inteligência do Exército, o general Sydrião.

***

O mutismo talvez tivesse como causa o fato do ex-capitão não saber que existe um Centro de Inteligência no Exército. Talvez até mesmo alguns militares  (quem sabe poucos!) próximos de Bolsonaro tremam de pavor de ouvirem qualquer menção ao uso dessa faculdade humana.

Talvez por força de o general ter sido uma das vítimas da Covid-19, ao que parece, vitimado por não ter feito uso da poção mágica da cloroquina bolsonariana.

***

Mas, para um general alçado a cargo de tamanha importância, e destacado para participar de comitiva oficial que, em nome do governo brasileiro, prestou apoio humanitário à Beirute, a capital do Líbano, vítima de explosão causada pela irresponsabilidade de autoridades líbias, ao menos uma referência deveria ter sido feita.

Afinal, não nos esqueçamos: Bolsonaro não apenas esteve presente no funeral de Pedro  Lucas Ferreira Chaves, o soldado Chaves, tragicamente morto em acidente em treino de saltos de paraquedas, como ainda fez comovido pronunciamento.

Ninguém há de discordar que a morte de um jovem é sempre motivo de tristeza.

Mas o que teria acontecido, de 21 de junho até essa data, que fez Bolsonaro não ter prestado homenagens a um general?

Ou o compromisso do ex-capitão, convidado a se retirar do Exército, andou enfrentando turbulências?

***

O general Sydrião, de quem nunca tinha ouvido falar, ganhou destaque nos jornais da extrema imprensa, menos como homenagem e mais como sinal de mais uma derrapada do chefe das Forças Armadas.

Mas, transmito ainda assim aos familiares, meu pesar. Carlos Sydrião, embora já nos mais elevados postos da carreira militar, tinha apenas 53 anos.

Poderia até dizer que partiu ainda, na flor da idade.

***

 

Enquanto isso,  a desoneração da folha

Trato desse asssunto apenas por ter ficado deverasmente surpreso com a reação de algums dos apresentadores das bancadas de nossos telejornais noturnos, em releção ao comportamento de Davi Alcolumbre, o presidente do Senado Federal.

Refiro-me especialmente ao jornalista Eduardo Oinegue, do Jornal da Band, o sucessor de Boechat.

Ao dar voz a todos os empresários dos setores que aguardam ansiosamente o momento de dar sua contribuição patriótica à retomada da economia, pela manutenção dos níveis de emprego, desde que o Legislativo derrube o veto de Bolsonaro à prorrogação da desoneração da folha de pagamentos, Oinegue, mas não apenas ele, resolveram culpar a Alcolumbre, por não colocar o veto em pauta e votação.

***

Devo, mais uma vez no pitaco de hoje, afirmar que não tenho nem conhecimento, nem relação de qualquer espécie com Alcolumbre. Ou com Maia. O que atribuo à proteção divina, que creio me acompanhar.

Mas, daí a acusar Alcolumbre de estar prejudicando as empresas e os empresários, a economia e o próprio país, por não colocar a questão em pauta, acho que é algo no mínimo estranho.

Para prosseguir meu raciocínio, admito que Alcolumbre não está pautando nada contrário aos interesses do governo, em prejuízo ... vá lá, dos próprios interesses do país, de forma a obter o apoio oficial a sua manobra indecente destinada a assegurar sua reeleição como presidente do Legislativo.

Não sou ingênuo:  Alcolumbre pensa tão somente em seus interesses particulares e conveniências.

E a reeleição é alvo de todo político que conseguiu obter o primeiro mandato. Mesmo que seu discurso fosse de crítica a tal instituto.

Caso de Lula. E caso também de Bolsonaro, essa excrecência. Até caso de Fernando Henrique, que comento a seguir.

***

Sob meu ponto de vista, desinformado e limitado, e sem tirar qualquer crítica aos elevados e republicanos interesses do presidente do Senado, porque não a Band não fez menção ao fato, mais que patente de que foi Bolsonaro que vetou o que a casa do povo (risos abafados!) já havia decidido.

Então, em uma linha lógica de responsabilização, primeiro e soberano encontra-se Bolsonaro. O Messias que pensa em – e deverá - isentar as igrejas evangélicas de dívidas de 1 bilhão junto ao Fisco.
***

A esse respeito, igreja ou não, várias das correntes evangélicas se preocupam em zelar pela fé e crença de seus seguidores, mas não se descuram de zelar também pelas condições materiais de darem sequência a sua missão espitual.

São conhecidos e antigos, os casos de negócios empresariais desenvolvidos com altos lucros, por igrejas para não deixarem de multiplicar os talentos, cumprindo ensinamentos das próprias Escrituras.

**

Em minha opinião, já manifesta antes: devia pagar e sonegou é bandido.

Ao menos até que obtenha o perdão...

***

Mas, foi Bolsonaro quem iniciou o problema e se isso é deixado de lado, é porque os empresários que o financiaram e tanto acusavam as maracutaias petistas é que estão agora sendo vítimas de seu candidato. Em mais um estelionato do mito.

***

Antes que me esqueça: foi o governo Dilma quem teve a ideia original de desonerar a folha de 6 – seis – setores grandes empregadores de mão de obra, numa tentativa de evitar desemprego em massa.

Foi o Congresso das pautas bombas de Aécio e cupinchas que levaram a que os setores beneficiários atingissem mais de 50 setores, provocando um verdadeiro rombo nas contas públicas.

Afinal, o que deixava de ser carreado pelas empresas para a Previdência, o governo tinha de cobrir.

***

Agora, mais uma vez, o mito passa ileso. E a culpa recai em Alcolumbre.

Como recai em Maia, pelo fato de, sabe-se lá por quê tipo de ameaças ou interesses, estar conivente em deixar na gaveta os vários pedidos de impeachment de Bolsonaro, por crimes de todo tipo, responsabilidade e contra a saúde pública. Para não falar de rachadinhas, funcionários fantasmas, intervenção em instituições da República, etc.

O último agora, as manifestações contrárias à obrigatoriedade legal, que ele mesmo assinou (sem ler e sem o saber!) de a população se submeter à vacinação.

***

Para encerrar, duas questões:

Por que o governo que tem autoridade para retirar projeto de lei que ele mesmo encaminhou ao Congresso, ou MP, não pode também retirar vetos?

Quem pode o mais não pode o menos, para atender a tanta grita do poder econômico?

***

Por que a casa que mais representa a vontade soberana do povo ou seja, a CASA DA DEMOCRACIA, dá tantos poderes autoritários, ditatoriais, antidemocráticos aos que as dirigem?

Por que de Alcolumbre a decisão de pautar ou não a questão do veto? Por que de Maia, a vontade exclusiva, como fora com Eduardo Cunha, de tirar da gaveta os pedidos de impedimento de um dirigente que apenas desmerece e envergonha nossa República.

Por suas manifestações de mera opinião, ou não!!!

***

FHC, quem te viu e quem te vê.

E há ainda quem te dê espaço e até, como Elio Gaspari, tenta mostrar que você sabia das consequências perversas da aprovação do instituto da Reeleição.

Agora vem dar de bom moço, arrependido, qual Madalena.

Mas, Elio lembra bem que que não queria a reeleição, não faria o populismo cambial que foi a marca de seu segundo reinado...

***

Por mim, acho que é muito alarde para um homem que negou sua própria história.

Afinal, quem mandou que esquecessem o que havia escrito foi o seu avultado ego.

Quando você irá retomar o conselho, e pedirá finalmente que te esqueçam de vez????

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Bolsonaro e o papel de grande pai. Grande líder, dedicado à família e aos amigos. Pai dos mais ingênuos e desesperançados

 O retorno de Bolsonaro ao que ele nunca deixou de ser é apenas a desconstrução, mais uma, da personagem que ele vinha procurando representar, algumas vezes com algum êxito.

No entanto, mais uma vez, como na parábola do sapo e do escorpião, é impossível esperar que a natureza não vá se manifestar.

E a natureza do chefe do Executivo, eleito por menos de 58 milhões de eleitores brasileiros em segundo turno (55% dos votos válidos mas tão somente 27% da população) não é só bastante conhecida, desde os tempos em que, ainda deputado, conseguia alguma projeção apenas quando usava o mandato popular para agredir, fazer provocações, atacar, promover ameaças (algumas bem passíveis de serem tipificadas como crimes), quando não elogiava o que mais asqueroso um ser humano pode ter como elemento de seu caráter: a utilização da força, do poder, da institucionalidade do Estado para submeter aqueles que divergem de seus pontos de vista. Os praticantes da tortura.

***

Porque a tortura é a apropriação indevida do aparelho de Estado, do conjunto de forças que a sociedade criou para protegê-la, contra essa própria sociedade, de forma cruel e desumana.

Prática muito diferente daquela dos valentões e mais preocupados em se mostrar pela força dos músculos que pela dos neurônios, como ocorre com grande parcela dos eleitores de Bolsonaro, adeptos da luta corporal, de sair na mão até para mostrarem toda sua pretensa superioridade e masculinidade.

***

Mas, enquanto deputado, como cada vez vai ficando mais transparente, Bolsonaro tinha tão somente a preocupação de praticar pequenos desvios de conduta, atos corriqueiros entre seus pares, todos sempre em prejuízo dos interesses republicanos e do caixa governo. Atos que o imaginário popular aceitaria como contravenções mais que como crimes.

Na Câmara por quase 30 anos, ao que parece, Bolsonaro preferia o anonimato do baixo clero, o aconhego de seu gabinete, evitando a projeção conquistada pelos que sempre se preocupam em discursar da tribuna sobre temas diversos e importantes e até mesmo a apresentação de algum projeto de lei, produto mais visível de seu trabalho.

***

Como mostram os indícios, Bolsonaro preferia gerir os pequenos trambiques, de notas de compra de combustíveis, ou os esquemas de contratações, recontratações, alterações funcionais em seu gabinete, possibilitando a montagem de um esquema de divisão de verbas, em benefício próprio.

***

No entanto, se há um fato que deve ser sempre reconhecido e destacado, esse é a sua fidelidade. Fidelidade à família, em especial aos filhos, mas inclusive às mulheres, mesmo ex. Fidelidade aos amigos, contratados pelo gabinete, sem qualquer obrigação de estarem presentes, nem mesmo a de terem definido o local em que cumpririam sua jornada.

Tamanha dedicação é que permitiu a Bolsonaro a montagem de uma rede de apoio, capaz de lhe trazer dividendos e ganhos, muitos dos quais impossíveis de serem objeto de identificação e rastreamento.

***

Ligado a alguns crimes e um amplo esquemas de contravenções, sempre pela utilização de amigos laranjas, não é de se surpreender que Bolsonaro tenha conhecido e até se aproximado de alguns esquemas mais questionáveis, para os quais, ampliando sua teia, não teria como deixar de arrastar seus filhos.

***

Aos olhos do público, aparecia como alguém distante do centro de poder e dos esquemas de corrupção vultosa. Aos olhos do público, era o político carismático, de educação e formação cultural pouco sofisticada, capaz de declarações tão bombásticas e esquisitas, engraçadas por serem incapazes de colocadas em prática.

***

Por trás, suas ligações o colocaram em contato com as milícias. Com o corpo policial privado que, na ausência do Estado, se aproveita da fragilidade de nossa sociedade, para extorqui-la.

Não creio que Bolsonaro tenha capacidade para liderar qualquer milícia. Acho-o mais apto a servir de ponta de lança, garoto propaganda das ideias e práticas que os grupos de crimes organizados manipulam.

***

Representando bem o papel a ele determinado, Bolsonaro recebe em troca alguns favores, como a campanha boca a boca, a boca de urna, a ameaça velada, a ordem do comando em relação ao voto, que não deve ser questionada, e parcela dos dinheiros que os grupos de achaque à população, especialmente mais vulnerável geram.

***

É ai que entram os vários depósitos feitos para pagamento de contas de seus filhos, todos em dinheiro em espécie; ou as transações imobiliárias, de seus filhos, escudados em prejuízos fabricados em lojas comerciais de doce sabor. É aí que entram os cargos negociados em várias instâncias e conquistados por meio do voto para os vários zeros à esquerda que são os seus 01, 02, 03, e suas ex-esposas. Também elas recebedoras de muito dinheiro em depósitos em suas contas e aquisições imobiliárias de altos valores.

***

Daí a explicação para o empréstimo de Bolsonaro a seus mais chegados amigos e apoiadores, e os depósitos, em pagamento, que esses depois efetuam nas contas da família, seja dos filhos, seja da atual mulher.

***

Claro, em uma situação em que se começa a desvendar essa teia de relações de negócios, com movimentos tão interessantes de recursos, quanto estranhos, Bolsonaro percebe que o risco ao seu feudo é cada vez maior. As investigações chegam cada vez mais próximas.

E não é por outro motivo que, nesse momento, fecha-se sobre si mesmo e sobre sua família. Deve protegê-la como for possível. Deve conseguir afastar das vistas do público e de sua opinião mais curiosa, sua mulher, seus filhos, seus amigos, seus advogados, a mulher de seus amigos. Enquanto isso, usa de seus poderes para acenar favores e cargos a todos aqueles que têm a incumbência  e até a competência legal de investigarem as ações presidenciais mais suspeitas.

***

Nesse meio tempo, o silêncio. A mudança de postura. A usurpação de obras de outros governos; de benefícios à população cujos valores só se tornaram possíveis por interferência – mal vista, em primeiro momento – de outros agentes, como os deputados da Câmara; a popularidade em alta; as viagens, as visitas em que aparece como o tosco que é, com uma imagem (talvez cultivada) para parecer mais próximo do homem do povo.

Nesse meio tempo, as promessas, o negacionismo, as mentiras, ou apenas a mentira que repetida muitas vezes se transforma em realidade: a de não devastação e existência de queimadas na Amazônia e no Pantanal.

***

O Brasil arde em chamas, de vergonha, e Bolsonaro passeia sua estupidez risonha.

Não sem, aproveitar para passar a boiada, para armar a população, com decretos de desburocratização que permitem a aquisição e porte de armas em maior quantidade, de maior poder de fogo; que facilitam a compra, utilização de armas, por força de afrouxamento de restrições legais. Que determina o fim da marcação que permita o rastreamento da origem das armas, etc. etc.

Tudo isso, atendendo a reivindicações, não da população mais pacata, mas das milícias, dos representantes do poder militar nas comunidades onde as forças de segurança preferem chegar por terceirizados.

***

Em meio a tudo isso,  um repórter qualquer surge para interromper seu sossego e se dispõe a questionar os recursos que, sem qualquer pudor se ofereceram para irrigar as contas de sua esposa. Os depósitos que, sem explicação plausível, seu ajudante de ordens fez a sua mulher. Pior, os depósitos que a mulher do ajudante de ordens fez para a sua mulher.

O que poderia esperar esse repórter intrometido, curioso em excesso, em pleno domingo no Planalto Central? Ainda mais em passeio ecumênico, que envolvia ida à Catedral?

***

Não bastasse mais uma vez escamotear dados e agir para desmontar estruturas de apoio a crimes que implicam violações de direitos contra mulheres, menores, etc.

Bolsonaro tinha que voltar a ser o que sempre foi. E ameaçar bater, “encher de porrada” quem ameaçou o recesso de seu lar, sua família, o grupo de seus amigos milicianos.

E, pode até aproveitar para se justificar junto ao eleitorado tipo gado que o acompanha. Afinal, com a mulher, a família, os negócios da gente, qualquer cidadão brasileiro sabe que ninguém deve mexer.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Os desinformados. Ou como o casal Bolsonaro fez de Lula e D. Marisa seu padrão de comportamento. E enquanto o Líbano merece auxílio humanitário, o conselho ao povo brasileiro é de ir tocando a vida

 Nunca antes na história desse país tivemos um governante tão desinformado.

Refiro-me a Lula, que nunca soube dos acordos e pagamentos do mensalão; não sabia dos esquemas de desvios e corrupção nas empresas estatais, que entregava de porteira fechada aos partidos do centrão, sua base de apoio; dos negócios de seu filho Lulinha, a Gamecorp, Telemar, Cia. Petrópolis e com a Oi, agora falida.

Pior, não sabia dos negócios de Marisa Letícia, sua esposa, que com economias do período em que trabalhava como vendedora da Avon conseguiu adquirir um apartamento no Guarujá, financiado pela Cooperativa de Bancários de São Paulo, sem que se soubesse a ligação de D. Marisa com aquele setor.

Ignorante ou desinteressado, Lula não sabia do interesse de Marisa em permutar o apartamento tipo por um triplex, nem dos planos secretos de Marisa para decoração do imóvel.

Da mesma forma, mas aí com justificativa, não sabia que a Odebrecht adquirira um terreno para a construção de um prédio que seria doado para servir de sede ao Instituto Lula.

***

E, apesar da morte de D. Marisa, ou até por isso mesmo, algumas pessoas sem quaisquer escrúpulos, sem noção de empatia, ou movidos apenas por sentimentos que mesclam inveja, despeito, arrogância, e sobretudo sua sordidez, invadiram as redes sociais para ironizarem, criticarem, fazerem troça e memes da alienação, ou da célebre ignorância ou desconhecimento do presidente.

***

Como Collor, ainda presidente, estampava nas camisetas que trajava para suas famosas corridas pelas manhãs de domingo em Brasília, ‘o tempo é o senhor da razão”.

Afinal, a passagem do tempo ensina.

E o aprendizado que o tempo proporciona se manifesta mais uma vez.

As pessoas de personalidades tacanhas, medíocres,  que postam em suas redes sociais, sem maiores avaliações mensagens de ódio, de condenação e agressões em suas redes sociais se redimem.

Aceitam, agora, que ninguém possui o dom da onisciência.

Razão porque não se deve condenar Bolsonaro, por não saber de todos os cheques depositados pelo casal Queiroz e Márcia, no montante de R$ 89 mil, na conta de Marcela, a primeira dama.

***

Ocupado em fazer campanha eleitoral, mostrar arminha com as mãos, fazer tiradas de humor duvidoso ( eu não sou coveiro ou eu sou Messias, mas não faço milagres!),  posar de garoto propaganda de cloroquina ou ameaçar a cada instante desferir o golpe de misericórdia em nosso Estado de Direito, não sobra tempo ao presidente para governar.

Ou o presidente apenas não tem interesse, aptidão, capacidade para assumir as responsabilidades que pleiteou e que lhe foram incumbidas por parte significativa do eleitorado.

***

Ou o que é pior: sua atenção está mais focada, como sempre esteve, em estabelecer e manter relações íntimas com indivíduos e grupos vinculados às milícias,  com quem mantém vinculações muito próximas, senão familiares.

Daí, creio não incorrer em erro ao admitir a existência de justificativas suficientes para o fato de Bolsonaro, ainda deputado, desconhecer a existência de movimentação atípica de assessores e funcionários em seu gabinete, ou de ignorar que mantinha funcionários na folha de pagamentos que nunca foram ao gabinete, funcionários fantasmas, como a 'personal training' filha do Queiroz, ou a Val do Açai.

Daí ele não saber de toda a confiança que Flávio depositava em Queiroz, ou do esquema das rachadinhas no gabinete do filho, como também é lícito supor que não devia mesmo saber que sua ex-mulher adquirira à vista e em dinheiro, um apartamento no Rio.

***

Felizmente, agora, as redes e seus usuários, especialmente os bolsotários, aguardam tranquilamente o resultado das investigações, se forem realizadas. Esperam as explicações do seu ídolo, cada vez mais eloquentes, à medida que a família se cala.

Curioso, para alguém que já protagonizou tanta bravata, que já ameaçou intervir – “Vou intervir” (conforme publicado na Revista Piauí), ver agora reinar o silêncio próprio da paz dos cemitérios.

***

Por falar em cemitérios, quando o país atinge mais de 100 mil vítimas da Covid-19, é digno de menção a irresponsabilidade que o chefe do Executivo assume, ao jogar nos ombros de governadores e prefeitos a culpa por terem adotado medidas de contenção social fracassadas.

Derrotadas principalmente pelo comportamento sociopata do chefe do poder que deveria liderar, capitanear, centralizar e coordenar os esforços dispersos de autoridades de menor jurisdição.

***

Aqui, parece-me então que a mortalidade a que assistimos é o resultado desejado de políticas genocidas, destinadas a cancelar vidas reais. A exterminar parte da população brasileira, aquela parte mais miserável, mais pobre, com menos condições de vida digna. Aquela população de pretos, pobres, vários jovens, das comunidades das periferias das grandes cidades.

***

Só assim é possível entender as manifestações feitas para marcar a fatídica marca, e o conselho que dá  à população do que devemos fazer: “vamos tocar a vida”. Só assim faz sentido o lamento pelas mortes, por cada morte, “seja qual for a causa”.

***

Essa hipótese ganha cada vez mais força, se compararmos a reação de Bolsonaro frente às 100 vítimas no nosso país, com as lamentáveis 160 mortes pela explosão havida em Beirute.

As 160 vítimas de lá foram alvo de condolências, orações, promessas e agora envio de doações de alimentos, respiradores, EPIs para hospitais, máscaras,  e medicamentos, que não incluem, seguramente a cloroquina.

Tal ajuda humanitária, digna de todo nosso elogio, poderia parecer um escárnio à população brasileira.

E confirma-se como tal, ao convidar para chefiar a delegação ninguém mais que Temer.

***

Para concluir, nem o ex-assessor de Guedes aceita as contas apresentadas pelo ministro que ocupa a Economia.

Que merece mais o epíteto de sinistro, já que, não satisfeito de sempre propor medidas de precarização dos direitos dos trabalhadores, de corte de direitos dos mais pobres, em prol dos mais ricos, ainda vem com esse discurso falso em torno da proposição de uma contribuição sobre pagamentos digitais.

Com tal novo imposto, além do aumento da carga tributária, da criação de mais distorções em razão do caráter de cumulatividade do tributo, e do aumento da regressividade condenada por todos os analistas, o que o ministro parece desejar é impedir o avanço indiscutível das transações do e-commerce, das plataformas e operações comerciais e financeiras que se utilizam das novas tecnologias digitais, condenando-nos ao atraso.

***

Em não sendo essa a intenção, difícil acreditar, como estudos estão mostrando e o professor Marcos Cintra foi um dos pioneiros em chamar a atenção, que o novo imposto conseguirá compensar a queda de arrecadação pela redução de outros encargos ou tributos que incidem sobre a folha de pagamentos ou mesmo o alívio no imposto de renda dos assalariados.

Isso seja com a alíquota ampliada, de 0,4% por operação, seja com a sugerida, menor, de 0,2%.

***

Como Guedes apesar de defender o Estado mínimo, não deverá querer asfixiar e levar o Estado à situação de falência, o que é mais crível é que o novo imposto irá se somar à carga considerada elevada de tributos que oneram a sociedade.

***

Uma sociedade com a proposta de passar a tributar aos livros, reservando o reino da cultura, da literatura, das artes, do conhecimento, do saber, apenas aos ricos. Talvez para compensar e se contrapor à Bíblia, que fez clara opção ao destinar aos pobres o reino dos céus.