quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Nem toda onda é renovação; mas todo tsunami é destruição. Está na hora de as rosas serem chamadas de rosas, de rosas, de rosas...

O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem. (Shakespeare)

A rose is a rose is a rose. (Gertrude Stein)
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Iniciamos hoje, com duas citações famosas, a primeira de Romeu e Julieta, a outra, uma variação de frase da mesma autora.
A razão? Buscar inspiração.
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Seguindo pela mesma trilha, nos perguntamos: O que é uma onda?
  1.  uma das elevações formadas nos mares, rios, lagos etc. pelos movimentos de vento, marés etc.; vaga.
  2. POR EXTENSÃO
     água que se agita e se eleva, lembrando a onda; vaga.


Uma consulta a vários outros significados trazidos pelo Google, nos lembra que a 

onda simboliza a potência da natureza, poder e mudança. A onda simboliza também renovação devido a uma ruptura e mudança de ideias, ...

Ou ainda uma moda, uma tendência.
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Inspirado talvez no significado, Dennis Gansel dirigiu, escreveu e atuou no filme Die Welle, cujo título traduzido para o português é A ONDA.
E de que trata o filme, para os que não tiveram a oportunidade de assisti-lo?
Também da internet podemos extrair uma breve descrição. Ali, percebemos que o filme conta uma fábula que tem lugar em uma Escola alemã, de Ensino Médio, quando um professor resolve adotar uma dessas metodologias ativas de ensino, quem sabe uma dessas modernidades que a Pedagogia tanto exalta, e identifica como "a sala de aula reversa".
Pois bem, melhor ler a síntese da internet:

Rainer é um professor a quem foi designada a tarefa de instruir seus estudantes de Ensino Médio sobre o Estado Autocrático durante uma sessão às lições longas. Um professor favorito entre as crianças, Rainer decide deixar seus alunos desenvolver o assunto e pede a eles que construam sua própria autocracia. No entanto, quando as crianças formam um Estado-nação similar com o da Alemanha nazista, os professores não sabem o que fazer.

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Não consegui me conter. De uma crítica, retirei mais esse pequeno trecho:

A Onda é um filme alemão lançado em 2008 onde um professor, escalado para lecionar sobre autocracia, resolve apresentar na prática a formação de um sistema ditatorial em suas aulas. Durante este processo, vemos o impacto nos alunos, em suas relações internas e com outras pessoas da escola, família e cidade, incluindo o próprio professor.
O primeiro tópico a levantar é como o filme mostra o quão sedutor é pertencer a um grupo, mesmo que isso acabe reduzindo a força individual de cada um e distanciando a relação com quem não o pertence. Ainda mais tratando-se de jovens e adolescentes, período onde é muito fácil nos acharmos diferentes e rejeitados.
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Mas, voltando às questões de nosso pitaco hoje, o que é um tsunami?
Mais uma vez, o dicionário da web nos revela que trata-se de 
vaga marinha volumosa, provocada por movimento de terra submarino ou erupção vulcânica.

Mantendo o mesmo padrão da definição anterior, ficamos sabendo que essa expressão japonesa, formada por tsu = porto e nami = onda, significa:

Tsunami ou maremoto é uma série de ondas gigantes, que se formam principalmente através de abalos sísmicos. Os tsunamis têm um enorme poder destrutivo, pois ganham muita força quando chegam nas regiões costeiras, formando ondas com mais de 30 metros de altura.
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E qual a razão de estamos nos referindo a tais palavras, expressões e significados?
Por que o país parece estar sendo varrido por uma onda. A onda ultra-direitista, representada pela ascensão, no plano político nacional, de um personagem que até aqui, passados mais de 27 anos de atuação na arena política, conseguiu protagonizar, apenas, situações e cenas de um ridículo capaz de corar até mesmo uma Marianne Le Pen, a líder ultra direitista da França.
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Como são exemplo as fanfarronices, entre as quais se inclui sua proposta ou intenção de fechar o Congresso, quando fazia um discurso da tribuna da Câmara; ou a sua declaração de que o mal da ditadura foi ter torturado ao invés de matar; ou ainda a de que o presidente da República merecia ser fuzilado.
Não precisamos nos estender mais no assunto. 
Nem lembrar de suas frases gentis, em relação a uma colega, a deputada Maria do Rosário, feia demais, em sua opinião, para ser estuprada. Ou então os quilombolas, de mais de 7 arrobas, para poderem ser produtivos...
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Pois não é que, ainda assim, esse candidato que acaba de ser classificado como alguém que "soa como nós", por liderança da Ku Klux Klan consegue fazer a cabeça e arrastar como uma vaga de renovação e mudança de ideias a grande parte da sociedade brasileira?
E olhe que, a julgar resultados de recortes de pesquisas como a do IBOPE, atraindo a maioria dos mais ricos, dos de maior renda salarial (acima de 5 salários), dos que moram nas regiões geográficas de maior desenvolvimento do país e conseguindo cativar grande parte dos que contam com curso superior?
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Qual a razão de tal fenômeno, desse tsunami?
Uma certa fadiga de material em relação à propostas, governos e estilo de vida que, desde o final da segunda guerra, veio criando o que se convencionou chamar de Estado do Bem Estar Social?
Fadiga, talvez, porque depois de promovida a reconstrução da Europa e dos países destruídos pela Guerra; concluída a formação de um mercado de consumo de massas, e finda a etapa de inclusão dos estratos da população com padrões inferiores de renda, esse projeto de social democracia atingiu aos seus limites, sem mais espaço para avançar?
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Quem sabe a questão, que não é apenas do nosso país, não passa por aquilo que Marcos Coimbra, diretor do instituto de pesquisas Vox Populi, sugeriu como hipótese explicativa no programa Entre Vistas, de Juca Kfouri (canal 20, TV Minas, apresentado na noite de ontem): a hipótese de que, agora, a grande maioria das pessoas, tendo acesso a padrões mínimos de vida, não começam a se questionar da validade de os frutos de seu trabalho se destinarem a um Estado que irá, através de políticas compensatórias, ou políticas ativas, destinar a quem preferiu se tornar eterno beneficiário da ação afirmativa estatal?
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A única questão é que essa sociedade mais igualitária nunca se constituiu em nosso país? A miséria nunca foi combatida e a inclusão social, aqui, não passa de uma miragem distante.
Entretanto, no mundo estreitado da comunicação de Mcluhan, transformado em uma aldeia global, ou no dizer de Thomas Friedman, nesse mundo aplainado que vivemos, não há necessidade de estarmos vivendo essa fadiga de material ou de ideias. 
Afinal, estamos vivos no mundo e, só por isso, somos capazes de sentir e reagir como se estivéssemos em um país de elevado grau de democracia europeu.
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Talvez a esses que não se dão conta de como o nosso país é atrasado em relação a seu posicionamento frente a tais limites, é que o discurso da ultra direita representada pelo militar da reserva encontre ecos e tenha algum significado.
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Mas, como uma rosa é uma rosa, e seu nome não lhe retira o cheiro, qualquer que seja, melhor darmos os nomes aos bois, como os bois devem ser chamados, servindo ou não como animal de tração.
O candidato que fala em combater a corrupção é o mesmo que sempre conviveu muito bem no meio em que ela sempre foi presente. 
O candidato que fala em renovar o modo de fazer política é apenas um fascista, autoritário, que vai trair, como já traiu antes, a suas promessas, destinado a transformar esse país, em um estado autocrático, de supremacistas brancos, por mais que dê, agora, declarações tentando se descolar de tais rotulações. 
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Por que, se a onda é renovação, e o tsunami, a energia acumulada por tais movimentos que brotam, quando em vez da terra, é importante lembrar que, os casos mais conhecidos são de devastação. 
E fazem tsunamis rimarem devastação com destruição.
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Como observou Marcos Coimbra, o capitão deputado é um homem popular, vindo da mesma classe social que a grande maioria que compõe o eleitorado do pais, sem privilégios, sem cultura, sem nível intelectual para ser o líder que toda essa parcela da população espera encontrar.
Tal perfil é o que o transforma em carismático, e que permite a ele fazer besteiras, falar bobagens, mostrar total incapacidade para assumir o papel que se espera de um mandatário de um país com tamanha responsabilidade, inclusive continental. 
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Mas, como todos erramos, todos erram, seu lado agressivo, bronco, é apenas mais um elemento que auxilia na sua identificação com parcela do povo. 
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No entanto, é bom lembrar, mesmo com ataques de fogo amigo, "pero no mucho", como o de Cid Gomes, falando quem sabe em nome de seu irmão, o sempre despeitado Ciro, ainda há tempo para que a democracia possa prevalecer.
Que Haddad possa se mostrar mais digno do voto de quem até aqui criticava líderes políticos sem instrução, sem conhecimento, sem experiência, sem um mínimo de capacidade de convívio com contrários e um mínimo de educação. 
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A pesquisa IBOPE mostrou uma onda. Uma moda. Uma tendência. 
Está na hora de os que lutam e têm apreço pela manutenção da democracia, não esmorecerem. E lutarem para que essa onda de destruição seja apenas um alarme falso. 
É isso. 




3 comentários:

Unknown disse...

Engraçado que quando assisti o filme "A onda", sem imaginar o que se tornaria a realidade no Brasil. Eu pensei como o o humano entra nos ciclos de tempo. Vivem uma ditadura, lutam contra a ditadura, obtém Vitória sobre a ditadura. E uma geração a frente volta a flertar com a ditadura. E eu nem acreditava que estava ali na porta. As redes sociais acusam todos e tudo que pensa diferente deles de comunista. Até o maior crítico do PT, Reinaldo Azevedo virou comunista. A Globo virou comunista. O triste é saber como é o final desse filme.

Tarcísio disse...

Meu caro PC, invejo sua crença de que ainda há uma opção democrática para nosso país. Só me resta torcer por um lindo dia de Sol no último domingo desse fatídico Outubro. Quem sabe rola até uma Praia?!

Anônimo disse...

Meu caro,
você foi muito feliz na construção da metáfora! De fato estamos diante de um tsunami, sabemos o que vai acontecer, só não sabemos a extensão da tragédia que está por vir. Mas precisamos, de fato, resistir.
Esta onda conservadora tem âmbito global e , pelo menos na minha opinião, oriunda de pequenos e persistentes abalos nas últimas 2 décadas.
Quando um inexpressivo deputado (que por 27 anos de mandato, não foi capaz de apresentar nenhum projeto digno de nota), autor de frases de absoluta ignorância, inconsistência e sentimentos anti-democráticos, ganha notoriedade é necessário pensarmos no que propiciou tudo isso.
De fato o país tem uma elite econômica perversa, mas muito bem articulada e representada. Haja vista a bancada ruralista, bancada evangélica, bancada da bala, etc... parlamentares, legitimativamente eleitos. Os demais segmentos da população (em especial os de trabalhadores, intelectuais independes, etc..) estão pulverizados e, frequentemente, sem articulação, desprovidos de uma identidade ou interesses comuns. A população está sempre a espera de líder carismático que a livrará do atraso e penúria; aprendizado oriundo de uma cultura cristã, pautada em salvação universal e crença em uma cultura paternalista.
Há uma máxima que professa "a esquerda só une na prisão", que parece estar confirmada mais uma vez. Na resistência à ditadura, o PCB foi se fragmentando, primeiro em PCdoB e posteriormente em diversas organizações, algumas sofrendo novos "rachas"... enfraquecendo o movimento de resistência ao totalitarismo. Penso que a reação de Cid Gomes, bem como o posicionamento pré-campanha do PT, representa em parte esta situação.
Caso se confirme em 28.10 os resultados da última pesquisa, nós estaremos em uma prisão! Quem sabe possa-se tirar algum aprendizado...
As origens do ex-capitão, bem como suas bravatas, cria conexão com a classe média conservadora, de cunho pequeno-burguesa. Facilita a comunicação ao simplificar fenômenos complexos e sua solução. Esta classe sócio-econômica, de forma geral, tem sua formação política baseada em meios de comunicação populares (jornais, tv e revistas), sem capacidade, ou vontade, de desenvolver qualquer senso crítico.
Com a DEforma do ensino proposto pelo golpista, a tendência será de piorar... infelizmente...
A democracia (em seu sentido pleno) está morrendo; através da brutalidade representada pelo ex-capitão, o surgimento de uma plutocracia representada por certo Novo (meu temor para 2022)...
Mas resistir não é uma opção, é nossa obrigação.
Grande Abraço.

Fernando Moreira