Nos manuais de Finanças Públicas, no capítulo destinado à abordagem do Orçamento e ao processo de sua elaboração, é comum definir-se o orçamento público como a expressão financeira de um plano de ação. Integra, pois, o processo de planejamento governamental, sendo o documento onde a Administração Pública apresenta à sociedade as suas diversas propostas de ação, os custos envolvidos na execução de cada uma delas e de onde virão os recursos para que elas possam ser executadas. Transforma-se em um documento onde o governo reúne as receitas arrecadadas e aloca ou distribui esses recursos.
Sendo o Executivo a instância responsável pela fixação e cumprimento da agenda demandada pela sociedade, o que significa a identificação e hierarquização das necessidades sociais, a proposição das soluções desses problemas e a implantação das ações destinadas a alcançar tal resultado, é ponto pacífico que cabe ao Executivo a responsabilidade por planejar, orçar e executar tais ações.
***
Em nosso país, por força de preceito constitucional, essa responsabilidade pela manutenção de um Sistema de Planejamento e Orçamento é atribuída ao Poder Executivo, que também detém a exclusividade da iniciativa dos seguintes projetos de lei, que integram aquele sistema: Plano
Plurianual (PPA) ; Diretrizes Orçamentárias (LDO); Orçamento Anual (LOA).
***
Fica claro assim que, sendo o Executivo a instância que tem a responsabilidade de atender aos reclamos da sociedade, compete a este Poder definir as propostas que se julga em condições de cumprir em um dado horizonte de tempo e, considerando os recursos com que conta para tanto, que ações está em condições de desenvolver em um ano, por exemplo.
Em outras palavras: é atribuição exclusiva do Executivo listar as ações que deverá desenvolver em prol da sociedade que lhe atribuiu o mandato para cumprir exatamente esse compromisso. E ao Executivo cabe ainda, com exclusividade, apontar o montante de recursos de que dispõe e a distribuição desses recursos entre as várias ações a serem implementadas, de forma a atender da melhor forma ao vasto elenco de problemas e demandas a serem atacados.
Nesse processo, como representante da sociedade cujos interesses é que devem ser atendidos, e mais especificamente para discutir as prioridades, os valores a serem alocados em função das reais necessidades, e principalmente para aprovar a proposta apresentada pelo Executivo e poder, num momento seguinte, exercer o controle necessário a todo processo de planejamento, do cumprimento das execução das ações autorizadas, é que destaca-se o papel fundamental do Poder Legislativo.
Ou seja: além de ser o porta-voz dos interesses da sociedade que foi eleito para representar, e dessa forma, de aprovar as ações que atendam a esses interesses, o poder Legislativo tem o papel fundamental de exercer o acompanhamento e o controle, necessário, das atividades realizadas pelo Executivo e de sua direção, além da fiscalização do emprego dos recursos orçamentários previstos.
Isso significa que não é competência do Congresso propor ações e definir atividades e gastos para serem realizados por outra instância, atendendo o que recomenda o bom senso, ou seja, só se deve cobrar de quem quer que seja, o cumprimento daquilo com que aquele a ser cobrado se comprometeu.
***
Por isso, considero uma incoerência, embora também tenha previsão legal, o instituto do contingenciamento, ou seja o retardamento ou a inexecução de parte da programação de despesa prevista e autorizada na Lei Orçamentária, explicada em função da insuficiência de receitas.
No mínimo, a figura do contingenciamento revela uma má elaboração do plano e dos vários documentos que lhe dão suporte, apresentados pelo Executivo ao Legislativo e à sociedade, ou seja uma falha.
Erro fruto, na maioria das vezes, de uma previsão de receita superior àquela parcela de recursos factível de ser extraída da sociedade em função de sua situação econômica ou financeira, ou da listagem de uma série de ações cujos valores são irrealisticamente projetados, e cuja finalidade é ludibriar a sociedade, por meio da proposta demagógica de se propor a atender a suas necessidades, sem condições reais para tanto.
Em outras palavras, a mim, cheira mais como um espécie de engodo, mera medida politiqueira que visa agradar aos eleitores que acreditam que suas demandas serão atendidas.
***
Por força desse contingenciamento, que ocorre normalmente no início de cada ano, pela emissão pelo Governo Federal de um Decreto limitando os valores autorizados na LOA, relativos às
despesas discricionárias ou não legalmente obrigatórias (investimentos e
custeio em geral), o nosso orçamento é classificado como sendo de caráter meramente autorizativo, ao contrário do orçamento impositivo, onde o Congresso, como representante e agindo em nome da sociedade, aprova o que o Executivo compromete-se a fazer, o que obriga o governante a fazer o que prometeu sujeitando-se a penalidades no caso de descumprimento.
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Claro, tratamos aqui de uma situação hipotética, em que o Congresso representa efetivamente os interesses dos eleitores da sociedade, mais que seus próprios interesses, e de um Executivo que não se preocupa em manter recursos reservados para negociar e comprar apoios para suas propostas e planos, muitas vezes alheios à vontade da sociedade.
***
Por tudo o que foi dito, é que sempre fui favorável a que o Orçamento Público no Brasil passasse a ser elaborado e tratado com a seriedade que merece, mesmo se sabendo que todo o planejamento está sim, sujeito a falhas e correções de rumo posteriores, já que no fundo trata-se de projeções, previsões e as incertezas inerentes ao desconhecimento do futuro. E, imbuído desse espírito, sempre fui favorável a que o Orçamento no Brasil passasse a ser de caráter impositivo e não autorizativo, que é a forma de antecipadamente fornecer a quem se propôs a desempenhar certas atividades, a desculpa para cumprir apenas algumas de maior interesse, em geral politiqueiro, quando não escuso
Entretanto, não posso concordar, e acho que merece muito maior discussão por toda a sociedade, com a aprovação, ainda em primeiro turno, pela Câmara de Deputados à PEC - Proposta de Emenda Constitucional que atribui caráter impositivo, tão somente ao conjunto de emendas parlamentares, essa outra excrecência do processo orçamentário no nosso país.
***
Nitidamente, o que os deputados estão aprovando é a autorização para que o Executivo reserve a eles, recursos subtraídos da resolução de problemas da sociedade para que eles possam exercer livremente, a definição de gastos cujos interesses são ou apenas eleitoreiros, de "compra de apoios políticos" junto a seus eleitores, ou no mínimo, gastos que beneficiam apenas a parte minoritária de uma população muito mais ampla a ser atendida, ou ainda gastos com interesses reais, mas de menor prioridade e relevância social.
Dessa forma, a PEC institucionaliza o erro de obrigar e responsabilizar a outra instância pelo cumprimento de metas com as quais ele não está comprometido. Além disso dá a decisão do gasto a quem não tem qualquer responsabilidade posterior de prestação de contas do que foi feito com os recursos utilizados, o que abre caminho e facilita a malversação de fundos.
***
Medida de cunho politiqueiro, defendida sob o argumento de que torna os deputados imunes a serem tratados a reboque dos interesses do Executivo, que transforma a Câmara e a negociação da aprovação de projetos de interesse do mandatário em um verdadeiro balcão de negócios e negociatas, na verdade, o que deveria ser discutido e aprovado, para acabar com esse comércio de interesses vergonhoso, cuja existência todos admitem e ninguém nega, é a adoção do caráter impositivo de forma ampla e geral.
Com o estabelecimento de penalidades para as situações em que o Executivo não cumprisse ou entregasse aquilo com que se comprometeu perante a sociedade.
Mas, sem essa outra excrecência que privilegia os deputados e mantém o poder que eles já detêm junto ao grupo de eleitores que, em tese, visam representar.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
terça-feira, 13 de agosto de 2013
É o câmbio, imbecil! parafraseando Clinton
De um lado, inflação. De outro lado, elevação do déficit das contas externas, expresso no resultado negativo das contas de transações correntes do país. Somado a isso, um crescimento pífio da economia e uma política econômica alvo de cada vez maiores críticas pelo apoio à setores selecionados da indústria brasileira, aqueles setores - e empresas, consideradas campeãs nacionais.
Por trás de todos os problemas, como bem demonstrado pelo professor Luiz Carlos Bresser Pereira, como bem demonstrado em sua coluna de ontem para a Folha de São Paulo, a questão do câmbio. Ou melhor: a supervalorização do câmbio, que o professor atribui a duas causas principais: a uma política deliberada para promover a elevação do valor do real, em parte decorrente da atração de somas cada vez mais vultosas de dólares, a chamada poupança externa, com o objetivo de se manter a inflação sob controle; por outro lado, o professor insiste na tese da hipótese da reprodução do fenômeno, em nosso pais, da doença holandesa.
***
É bom recordar que por doença holandesa, entende-se a situação daquele país cujas exportações de produtos naturais ou bens primários é tão elevada e em níveis tão significativos, que possibilita a entrada de montantes vultosos de moeda estrangeira, em geral o dólar, o que acaba por promover a apreciação da moeda doméstica.
Com a moeda nacional valorizada e o dólar em baixa, a economia passaria a expandir suas importações, já que produtos externos, com preços em dólares estariam relativamente mais baratos que os nacionais.
O efeito desse comportamento seria um sucateamento da indústria doméstica que, com preços elevados em razão do valor da moeda, acabaria perdendo competitividade, vendas resultando no fenômeno da desindustrialização.
***
O professor Bresser, que já há algum tempo vem criticando a manutenção da apreciação intencional do real, considera estar ocorrendo no nosso país o fenômeno da doença holandesa, mesmo com o declínio de nossas exportações de produtos primários, minério de ferro, por exemplo, para a China e outros grandes compradores.
***
Entretanto o professor não considera que a depreciação do dólar teve início no período em que o PSDB ocupava o governo, no início do lançamento e consolidação do Plano Real, quando FHC era o mandatário maior do país e ele, Bresser, ocupava a função de ministro do governo.
Afinal, foi a âncora cambial, ou seja, a depreciação da moeda americana uma das principais medidas que permitiram, aproveitando a enorme liquidez internacional que havia no período, manter a inflação sob controle e, portanto, razão do êxito do plano de estabilização brasileiro.
E, é bom que se lembre, todo esse processo contando com o apoio da política monetária de juros elevados, exatamente para incentivar o influxo de capitais para financiamento de nossa economia.
***
O plano Real teve sucesso na interrupção da escalada de preços, o dólar ficou depreciado muito tempo e o Brasil atraiu um montante de poupança externa significativo, situação que não se interrompeu nem quando Lula tornou-se presidente do país em 2003, já que a política de juros elevados, atração de dólares e apreciação do real continuou sendo adotada mesmo pelo petista.
***
Importante é notar que, do ponto de vista da estabilidade, também contribuiu muito para o sucesso das políticas implementadas a abertura comercial patrocinada pelo governo, seja de forma intencional, para permitir o aumento da concorrência com produtos e produtores brasileiros, eliminando a força e o poder de mercado e a capacidade de impor preços desses empresários, seja como a contrapartida para atender aos às exigências de agências e órgãos internacionais ou dos investidores dos capitais que para cá se dirigiam.
***
Pois bem, a lógica do Real desde sempre passou pela apreciação do real e elevação das importações, com ampliação do déficit em contas correntes, o que gerou a crise cambial do início de 99, que quase pôs todo o sacrifício feito pelo plano a perder.
Lembre-se que o pior não aconteceu, especialmente por força de o governo ter alterado seus instrumentos de política, passando a adotar o câmbio flutuante.
A mesma lógica continuou a prevalecer com Lula em seu primeiro mandato, e seu ministro da Fazenda, o médico Antônio Palocci, que viria a se consagrar como o maior defensor dos interesses do capital financeiro no governo petista. Razão que é sempre reverenciado pelos setores empresariais, até os dias de hoje.
***
Mas, ao adotar essa lógica de juros altos, atração de poupança externa, sinal da confiança que os capitais internacionais manifestavam na estabilidade e crescimento da economia brasileira, os resultados obtidos de forma resumida podem ser apontados como:
- balança comercial fortemente superavitária por força da elevação dos preços de minério de ferro e pela expansão descomunal de nossas exportações de produtos primários, especialmente destinados à China, naquele instante apresentando taxas espetaculares de crescimento da produção.
Essa balança comercial positiva, resultado não da elevação das exportações físicas necessariamente, mas por força da elevação dos preços dos produtos exportados por nosso país, mais que compensava a elevação de nossas importações, tanto de bens de consumo, quanto e principalmente de peças, partes, componentes, matérias primas, bens e insumos intermediários, e máquinas e equipamentos.
Além disso, reduzia o impacto das contas de transferências onde despontavam os gastos com remessas de lucros e juros, e o impacto das contas de serviços, com gastos de viagens internacionais, entre outros.
Ou seja: o déficit de contas correntes não cresceu de forma explosiva, por força da elevação de nossas exportações de produtos primários, o que levou o professor Bresser e outros economistas a identificarem o problema da doença holandesa.
***
Com juros elevados, para atrair capitais externos, ocorreu uma desvalorização do dólar que, permitindo baratear os custos dos produtos estrangeiros, levou a nossa indústria a importar seus insumos, mais baratos, que dar preferência a comprá-los nas suas cadeias de fornecedores tradicionais. O resultado foi o sucateamento de grande parte das cadeias de fornecedores, o que nos levou, nesse mesmo blog, a comentar que, no futuro, caso o dólar se valorizasse, teríamos dois problemas sérios a enfrentar: a elevação dos custos de produção, e a questão do endividamento externo.
Não foram poucas as vezes que o IEDI - Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, chamou a atenção para o fato de nossa indústria estar sendo sucateada, enquanto se ampliava cada vez mais a dependência de fornecimento de insumos estrangeiros.
Configurava-se assim, o temor de nossa economia encontrar-se às voltas com o mesmo resultado da doença holandesa: a desindustrialização.
Com isso, a indústria deixou de apresentar o crescimento dela esperado e derrubando com ela as taxas de crescimento da economia como um todo.
***
Com uma política de juros elevados as decisões empresariais que em termos microeconômicos recomendavam exatamente a troca do fornecedor nacional pelo externo, cujo produto era mais barato, ainda tiveram outra consequência, também lastreada na teoria e no comportamento racional apontado para os agentes econômicos, do ponto de vista microeconômico: tornou-se mais rentável aplicar o capital em aplicações financeiras, que em inversões produtivas.
De um lado, essa maior rentabilidade assegurada aos papéis do mercado financeiro, essa geração de riqueza fictícia implicava em maior endividamento do governo, ou seja, o aumento da dívida mobiliária interna, já que na base da política de juros elevados, estava a taxa básica da economia, aquela que remunera aos títulos de menor risco, os títulos públicos: a SELIC.
Ou seja, quanto mais ganhavam os aplicadores, mais aumentava a dívida pública interna, com o pagamento de juros crescendo a taxas maiores que a capacidade do governo de geração de superavits primários.
Por outro lado, a economia brasileira não investia e, como consequência suas taxas de crescimento patinavam em valores bem abaixo de outras economias parceiras e até economias vizinhas.
***
Depois da crise de 2007/2008, da recessão experimentada por nossa economia em 2009 e das políticas de sustentação da demanda, de corte keynesiano (vulgar!) adotadas em 2010, responsáveis por nosso crescimento de mais de 7%, mudaram as condições que nos cercam.
Mais recentemente, entre essas mudanças percebe-se um movimento, que não afeta apenas a nosso país, de valorização do dólar.
Com isso, e por força de nossas novas cadeias de fornecedores cujos preços são expressos em dólares, eleva-se o custo de nossa produção e a inflação começa a mostrar sinais de crescimento. Nada que não esteja sob controle, mas o suficiente para a mídia aproveitar para criar o caos, junto aos analistas do mercado financeiro, sempre dispostos a tudo para que o governo eleve, cada vez mais os juros.
Esse efeito da valorização do dólar provoca, então, dois problemas de uma só vez: a elevação de custos e preços, ou inflação; a elevação do valor de nossas importações. Some-se a isso o fato de que, em função da recessão mundial, com destaque para os problemas vividos pela zona do euro, também a China e outros países clientes reduziram suas compras, o que afeta nossas exportações.
A consequência é o surgimento de déficits comerciais o que agrava a elevação dos déficits em conta corrente.
***
Sem a indústria poder crescer, já que seus custos se elevam, a economia patina e, mesmo com o apoio do BNDES, os campeões nacionais não deslancham. E a economia emperra e cresce pouco.
E a expectativa de novos pibinhos permanece.
Por fim, a elevação de juros para contenção do fenômeno da alta de preços, cuja origem não está vinculada direta e imediatamente à elevação da demanda interna, acaba dificultando ainda mais a decisão empresarial de cunho macroeconômico de investir produtivamente (vender para quem, se a demanda está sendo contida? Investir por que, se o retorno previsto é baixo e inferior ao que os juros no mercado financeiro podem proporcionar?)
Mas é bom lembrar, esse juro alto alimenta a expansão da dívida do governo, em momento em que a população está nas ruas, cobrando melhorias em uma série de serviços públicos, o que implica em elevação de alguns gastos e redução do superávit primário.
***
Em síntese: a economia não cresce, a inflação recrudesce ( na verdade, não é isso, mas eu me vi tentado a fazer a rima), a dívida interna se eleva e a situação fiscal do país se agrava, e a indústria patina, enquanto nossa dependência do exterior vai se configurando cada vez mais.
E tudo isso por força da questão bem lembrada pelo Professor Bresser: o câmbio e a política cambial que vem sendo adotada em nosso país.
Por trás de todos os problemas, como bem demonstrado pelo professor Luiz Carlos Bresser Pereira, como bem demonstrado em sua coluna de ontem para a Folha de São Paulo, a questão do câmbio. Ou melhor: a supervalorização do câmbio, que o professor atribui a duas causas principais: a uma política deliberada para promover a elevação do valor do real, em parte decorrente da atração de somas cada vez mais vultosas de dólares, a chamada poupança externa, com o objetivo de se manter a inflação sob controle; por outro lado, o professor insiste na tese da hipótese da reprodução do fenômeno, em nosso pais, da doença holandesa.
***
É bom recordar que por doença holandesa, entende-se a situação daquele país cujas exportações de produtos naturais ou bens primários é tão elevada e em níveis tão significativos, que possibilita a entrada de montantes vultosos de moeda estrangeira, em geral o dólar, o que acaba por promover a apreciação da moeda doméstica.
Com a moeda nacional valorizada e o dólar em baixa, a economia passaria a expandir suas importações, já que produtos externos, com preços em dólares estariam relativamente mais baratos que os nacionais.
O efeito desse comportamento seria um sucateamento da indústria doméstica que, com preços elevados em razão do valor da moeda, acabaria perdendo competitividade, vendas resultando no fenômeno da desindustrialização.
***
O professor Bresser, que já há algum tempo vem criticando a manutenção da apreciação intencional do real, considera estar ocorrendo no nosso país o fenômeno da doença holandesa, mesmo com o declínio de nossas exportações de produtos primários, minério de ferro, por exemplo, para a China e outros grandes compradores.
***
Entretanto o professor não considera que a depreciação do dólar teve início no período em que o PSDB ocupava o governo, no início do lançamento e consolidação do Plano Real, quando FHC era o mandatário maior do país e ele, Bresser, ocupava a função de ministro do governo.
Afinal, foi a âncora cambial, ou seja, a depreciação da moeda americana uma das principais medidas que permitiram, aproveitando a enorme liquidez internacional que havia no período, manter a inflação sob controle e, portanto, razão do êxito do plano de estabilização brasileiro.
E, é bom que se lembre, todo esse processo contando com o apoio da política monetária de juros elevados, exatamente para incentivar o influxo de capitais para financiamento de nossa economia.
***
O plano Real teve sucesso na interrupção da escalada de preços, o dólar ficou depreciado muito tempo e o Brasil atraiu um montante de poupança externa significativo, situação que não se interrompeu nem quando Lula tornou-se presidente do país em 2003, já que a política de juros elevados, atração de dólares e apreciação do real continuou sendo adotada mesmo pelo petista.
***
Importante é notar que, do ponto de vista da estabilidade, também contribuiu muito para o sucesso das políticas implementadas a abertura comercial patrocinada pelo governo, seja de forma intencional, para permitir o aumento da concorrência com produtos e produtores brasileiros, eliminando a força e o poder de mercado e a capacidade de impor preços desses empresários, seja como a contrapartida para atender aos às exigências de agências e órgãos internacionais ou dos investidores dos capitais que para cá se dirigiam.
***
Pois bem, a lógica do Real desde sempre passou pela apreciação do real e elevação das importações, com ampliação do déficit em contas correntes, o que gerou a crise cambial do início de 99, que quase pôs todo o sacrifício feito pelo plano a perder.
Lembre-se que o pior não aconteceu, especialmente por força de o governo ter alterado seus instrumentos de política, passando a adotar o câmbio flutuante.
A mesma lógica continuou a prevalecer com Lula em seu primeiro mandato, e seu ministro da Fazenda, o médico Antônio Palocci, que viria a se consagrar como o maior defensor dos interesses do capital financeiro no governo petista. Razão que é sempre reverenciado pelos setores empresariais, até os dias de hoje.
***
Mas, ao adotar essa lógica de juros altos, atração de poupança externa, sinal da confiança que os capitais internacionais manifestavam na estabilidade e crescimento da economia brasileira, os resultados obtidos de forma resumida podem ser apontados como:
- balança comercial fortemente superavitária por força da elevação dos preços de minério de ferro e pela expansão descomunal de nossas exportações de produtos primários, especialmente destinados à China, naquele instante apresentando taxas espetaculares de crescimento da produção.
Essa balança comercial positiva, resultado não da elevação das exportações físicas necessariamente, mas por força da elevação dos preços dos produtos exportados por nosso país, mais que compensava a elevação de nossas importações, tanto de bens de consumo, quanto e principalmente de peças, partes, componentes, matérias primas, bens e insumos intermediários, e máquinas e equipamentos.
Além disso, reduzia o impacto das contas de transferências onde despontavam os gastos com remessas de lucros e juros, e o impacto das contas de serviços, com gastos de viagens internacionais, entre outros.
Ou seja: o déficit de contas correntes não cresceu de forma explosiva, por força da elevação de nossas exportações de produtos primários, o que levou o professor Bresser e outros economistas a identificarem o problema da doença holandesa.
***
Com juros elevados, para atrair capitais externos, ocorreu uma desvalorização do dólar que, permitindo baratear os custos dos produtos estrangeiros, levou a nossa indústria a importar seus insumos, mais baratos, que dar preferência a comprá-los nas suas cadeias de fornecedores tradicionais. O resultado foi o sucateamento de grande parte das cadeias de fornecedores, o que nos levou, nesse mesmo blog, a comentar que, no futuro, caso o dólar se valorizasse, teríamos dois problemas sérios a enfrentar: a elevação dos custos de produção, e a questão do endividamento externo.
Não foram poucas as vezes que o IEDI - Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, chamou a atenção para o fato de nossa indústria estar sendo sucateada, enquanto se ampliava cada vez mais a dependência de fornecimento de insumos estrangeiros.
Configurava-se assim, o temor de nossa economia encontrar-se às voltas com o mesmo resultado da doença holandesa: a desindustrialização.
Com isso, a indústria deixou de apresentar o crescimento dela esperado e derrubando com ela as taxas de crescimento da economia como um todo.
***
Com uma política de juros elevados as decisões empresariais que em termos microeconômicos recomendavam exatamente a troca do fornecedor nacional pelo externo, cujo produto era mais barato, ainda tiveram outra consequência, também lastreada na teoria e no comportamento racional apontado para os agentes econômicos, do ponto de vista microeconômico: tornou-se mais rentável aplicar o capital em aplicações financeiras, que em inversões produtivas.
De um lado, essa maior rentabilidade assegurada aos papéis do mercado financeiro, essa geração de riqueza fictícia implicava em maior endividamento do governo, ou seja, o aumento da dívida mobiliária interna, já que na base da política de juros elevados, estava a taxa básica da economia, aquela que remunera aos títulos de menor risco, os títulos públicos: a SELIC.
Ou seja, quanto mais ganhavam os aplicadores, mais aumentava a dívida pública interna, com o pagamento de juros crescendo a taxas maiores que a capacidade do governo de geração de superavits primários.
Por outro lado, a economia brasileira não investia e, como consequência suas taxas de crescimento patinavam em valores bem abaixo de outras economias parceiras e até economias vizinhas.
***
Depois da crise de 2007/2008, da recessão experimentada por nossa economia em 2009 e das políticas de sustentação da demanda, de corte keynesiano (vulgar!) adotadas em 2010, responsáveis por nosso crescimento de mais de 7%, mudaram as condições que nos cercam.
Mais recentemente, entre essas mudanças percebe-se um movimento, que não afeta apenas a nosso país, de valorização do dólar.
Com isso, e por força de nossas novas cadeias de fornecedores cujos preços são expressos em dólares, eleva-se o custo de nossa produção e a inflação começa a mostrar sinais de crescimento. Nada que não esteja sob controle, mas o suficiente para a mídia aproveitar para criar o caos, junto aos analistas do mercado financeiro, sempre dispostos a tudo para que o governo eleve, cada vez mais os juros.
Esse efeito da valorização do dólar provoca, então, dois problemas de uma só vez: a elevação de custos e preços, ou inflação; a elevação do valor de nossas importações. Some-se a isso o fato de que, em função da recessão mundial, com destaque para os problemas vividos pela zona do euro, também a China e outros países clientes reduziram suas compras, o que afeta nossas exportações.
A consequência é o surgimento de déficits comerciais o que agrava a elevação dos déficits em conta corrente.
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Sem a indústria poder crescer, já que seus custos se elevam, a economia patina e, mesmo com o apoio do BNDES, os campeões nacionais não deslancham. E a economia emperra e cresce pouco.
E a expectativa de novos pibinhos permanece.
Por fim, a elevação de juros para contenção do fenômeno da alta de preços, cuja origem não está vinculada direta e imediatamente à elevação da demanda interna, acaba dificultando ainda mais a decisão empresarial de cunho macroeconômico de investir produtivamente (vender para quem, se a demanda está sendo contida? Investir por que, se o retorno previsto é baixo e inferior ao que os juros no mercado financeiro podem proporcionar?)
Mas é bom lembrar, esse juro alto alimenta a expansão da dívida do governo, em momento em que a população está nas ruas, cobrando melhorias em uma série de serviços públicos, o que implica em elevação de alguns gastos e redução do superávit primário.
***
Em síntese: a economia não cresce, a inflação recrudesce ( na verdade, não é isso, mas eu me vi tentado a fazer a rima), a dívida interna se eleva e a situação fiscal do país se agrava, e a indústria patina, enquanto nossa dependência do exterior vai se configurando cada vez mais.
E tudo isso por força da questão bem lembrada pelo Professor Bresser: o câmbio e a política cambial que vem sendo adotada em nosso país.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Texto de despedida
Atendendo a solicitações de amigos, posto hoje a nota em que me despedi de todos os colegas com quem tive a oportunidade e o prazer de trabalhar nos últimos 18 anos e 9 meses, no Banco Central do Brasil.
Já cheguei velho a essa casa, embolorado, e à medida que caminhava ia percebendo que mudava. A cada passo, ia tornando-me cada vez mais arejado. Ia rejuvenescendo. E a cada momento, tal qual uma criança, fui percebendo que era apenas uma folha em branco. Pronta para ir deixando gravadas as marcas indeléveis do aprendizado.
Aqui aprendi. A cada dia. A cada instante. À medida que o tempo passava e eu me sentia cada vez mais remoçado.
Por entre as pedras que margeavam o caminho, foi descobrindo atalhos. Em cada atalho, um amigo. Em cada amigo, uma experiência. Em cada vivência, uma lição.
E, prestes a completar a maioridade, percebi estar apto a sair de casa e ganhar o mundo. A renovar as esperanças e sonhos. Pronto pra recomeçar. Pronto para sair disseminando o que aprendi e semear as alegrias e vitórias que conquistei.
Os amigos e companheiros que fui fazendo ao longo do trajeto, em agradecimento, levo-os comigo. Certo de sua infinita capacidade de se multiplicarem e se desdobrarem, recriando-se e renovando-se para permanecerem como guias e referências para outros calouros, sem nunca se afastarem de sua característica de batedores. Marchando à frente. Desbravando novos caminhos. Anunciando novas e duradouras conquistas. Ao arrastá-los comigo, em novas empreitadas, sei que também me multiplico e, assim facetado, alegro-me em sentir invadir-me o sentimento da dúvida, alimento dos que buscam continuar procurando crescer e se aprimorar. Afinal, esse é o caminho da evolução. E é nesse caminho, que gostaria de prosseguir minha jornada.
Finalmente, a todos com quem tive a honra de conviver e com quem pude trabalhar, aprender, me divertir, sorrir, brincar, conversar durante todo esse período, meus agradecimentos.
Desde já, a certeza de que, de todos, levo muitas saudades.
Abraços,
Até breve
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Galo, Botafogo, decisão na cara ou coroa; roubalheira dos juízes e inflação em queda: vários pitacos em um só
Mais uma vez, de forma escandalosa e, por uma estranha coincidência contra o Botafogo, o Galo foi garfado pela arbitragem, no Horto, no último dia 7.
Mais uma vez, porque já vem de longe, as críticas às arbitragens e a favorecimentos a um time, que as partidas entre ambos enfrentam. No mínimo desde a palhaçada praticada pelo Botafogo em 1967, quando derrotado em Minas, em jogo de volta pela então Taça Brasil, desceu no Galeão com o volante Carlos Alberto de perna gessada, reclamando das agressões sofridas por seus atletas em campo e às quais o juiz assistiu passivamente.
Diga-se de passagem que, na verdade, não houve a agressão que a imprensa carioca, bairrista como sempre, arquitetou com a direção do clube carioca, como forma de tentar se justificar perante sua torcida.
Bem o final dessa história é que, na ocasião, o clima criado pelo Botafogo e imprensa foi tal que o jogo decisivo da "negra" ou o terceiro jogo da melhor de três, que constava do regulamento naquela época, foi adiado, face à recusa do time carioca de voltar a Minas para disputá-la.
A jogada do Botafogo foi derrotada e o time carioca voltou a Minas onde se deu nova partida, terminada com o empate de zero a zero.
O Galo, no sorteio de cara ou coroa, representado por seu capital Décio Teixeira, foi vitorioso. Deu coroa.
***
Mas, não podemos esquecer de outra, no Rio, quando Tchô foi calçado dentro da área, de forma inequívoca, com o juiz não marcando a penalidade que, sendo convertida, classificaria o Galão para a final. O juiz, Carlos Eugênio Simon, hoje comentarista de arbitragens da Fox Sports, prestou um grande serviço ao time carioca. E, como sempre, prejudicou ao Galo.
***
Agora, foi em Minas, Belo Horizonte, dentro do Horto, e mais uma vez, dois penalties não foram dados, ambos sobre Luan. O segundo tão vexatório que nem compensa ficar discutindo. Depois de uma furada do defensor do Bota.
E com isso, a reação do Galo foi frustrada, com o Atlético conquistando apenas um empate.
Empate com o próprio Luan, no minuto final, o que permitiu um sabor de vitória, mas...
Que Kalil possa brigar pelos direitos do Galo, apresentando algum tipo de reclamação formal contra os árbitros, e pedindo sua punição, embora, se sabe que a CBF, como restou comprovado no ano passado, não é muito de punir juízes que prejudiquem aos times que com ela não mantêm relações de compadrio.
Especialmente se o time prejudicado é o Galão da massa, como o campeonato do Flu no ano passado deixou claro.
***
E a inflação caiu, para o patamar mais baixo de um mês de julho, em anos.
Com a baixa dos preços de alimentos e a queda nos preços de ônibus urbanos, sendo os argumentos utilizados para justificar o índice de 0,03% alcançados.
O que nos dá razão nos comentários sobre o tema que fizemos ao longo de todo esse ano, quando afirmávamos que a inflação era de choque de alimentos e, portanto, não havia necessidade de se elevar os juros, como o mercado financeiro e seus analistas de plantão demandavam e até exigiam.
Tudo bem, de choque de oferta de alimentos ou não, temos de reconhecer que a elevação da Selic tem, ao menos o efeito de se evitar sua propagação por outros produtos e setores da economia brasileira. A custo, claro, de maior restrição a um possível e necessário crescimento. Mas, o fato é que a Selic subiu e todos, de forma unânime não responsabilizaram a política monetária pelo êxito do resultado. O que já é algo positivo.
Dizer que os preços dos alimentos se reduziram é, apenas, reconhecer que nova safra está entrando no mercado, especialmente para os produtos considerados vilões do aumento anterior.
O que é resultado comum e previsível na atividade agrícola ou agropecuária.
Quanto às passagens de ônibus urbanos, que muitos atribuem sua redução às manifestações de junho, há que se tomar algum cuidado.
Afinal, em uma cidade como São Paulo, por exemplo, as passagens não teriam qualquer explicação na queda da inflação, uma vez que o início das manifestações se atribui à tentativa de impedir o aumento de entrar em vigor.
Ora, se o aumento não chegou a entrar em vigor, não poderia ter elevado os índices. E a decisão de anular tais aumentos também não poderia, agora, ser usada como argumento para justificar a queda.
E, só a título de lembrete: as passagens caíram, na maioria das cidades, porque foi feito o repasse da redução da carga de tributos incidentes sobre o preço das tarifas para a população. Redução determinada pelo governo federal, Dilma à frente, e que as empresas de ônibus, com a conivência de prefeitos e outros mandatários políticos estavam embolsando.
É isso.
Mais uma vez, porque já vem de longe, as críticas às arbitragens e a favorecimentos a um time, que as partidas entre ambos enfrentam. No mínimo desde a palhaçada praticada pelo Botafogo em 1967, quando derrotado em Minas, em jogo de volta pela então Taça Brasil, desceu no Galeão com o volante Carlos Alberto de perna gessada, reclamando das agressões sofridas por seus atletas em campo e às quais o juiz assistiu passivamente.
Diga-se de passagem que, na verdade, não houve a agressão que a imprensa carioca, bairrista como sempre, arquitetou com a direção do clube carioca, como forma de tentar se justificar perante sua torcida.
Bem o final dessa história é que, na ocasião, o clima criado pelo Botafogo e imprensa foi tal que o jogo decisivo da "negra" ou o terceiro jogo da melhor de três, que constava do regulamento naquela época, foi adiado, face à recusa do time carioca de voltar a Minas para disputá-la.
A jogada do Botafogo foi derrotada e o time carioca voltou a Minas onde se deu nova partida, terminada com o empate de zero a zero.
O Galo, no sorteio de cara ou coroa, representado por seu capital Décio Teixeira, foi vitorioso. Deu coroa.
***
Mas, não podemos esquecer de outra, no Rio, quando Tchô foi calçado dentro da área, de forma inequívoca, com o juiz não marcando a penalidade que, sendo convertida, classificaria o Galão para a final. O juiz, Carlos Eugênio Simon, hoje comentarista de arbitragens da Fox Sports, prestou um grande serviço ao time carioca. E, como sempre, prejudicou ao Galo.
***
Agora, foi em Minas, Belo Horizonte, dentro do Horto, e mais uma vez, dois penalties não foram dados, ambos sobre Luan. O segundo tão vexatório que nem compensa ficar discutindo. Depois de uma furada do defensor do Bota.
E com isso, a reação do Galo foi frustrada, com o Atlético conquistando apenas um empate.
Empate com o próprio Luan, no minuto final, o que permitiu um sabor de vitória, mas...
Que Kalil possa brigar pelos direitos do Galo, apresentando algum tipo de reclamação formal contra os árbitros, e pedindo sua punição, embora, se sabe que a CBF, como restou comprovado no ano passado, não é muito de punir juízes que prejudiquem aos times que com ela não mantêm relações de compadrio.
Especialmente se o time prejudicado é o Galão da massa, como o campeonato do Flu no ano passado deixou claro.
***
E a inflação caiu, para o patamar mais baixo de um mês de julho, em anos.
Com a baixa dos preços de alimentos e a queda nos preços de ônibus urbanos, sendo os argumentos utilizados para justificar o índice de 0,03% alcançados.
O que nos dá razão nos comentários sobre o tema que fizemos ao longo de todo esse ano, quando afirmávamos que a inflação era de choque de alimentos e, portanto, não havia necessidade de se elevar os juros, como o mercado financeiro e seus analistas de plantão demandavam e até exigiam.
Tudo bem, de choque de oferta de alimentos ou não, temos de reconhecer que a elevação da Selic tem, ao menos o efeito de se evitar sua propagação por outros produtos e setores da economia brasileira. A custo, claro, de maior restrição a um possível e necessário crescimento. Mas, o fato é que a Selic subiu e todos, de forma unânime não responsabilizaram a política monetária pelo êxito do resultado. O que já é algo positivo.
Dizer que os preços dos alimentos se reduziram é, apenas, reconhecer que nova safra está entrando no mercado, especialmente para os produtos considerados vilões do aumento anterior.
O que é resultado comum e previsível na atividade agrícola ou agropecuária.
Quanto às passagens de ônibus urbanos, que muitos atribuem sua redução às manifestações de junho, há que se tomar algum cuidado.
Afinal, em uma cidade como São Paulo, por exemplo, as passagens não teriam qualquer explicação na queda da inflação, uma vez que o início das manifestações se atribui à tentativa de impedir o aumento de entrar em vigor.
Ora, se o aumento não chegou a entrar em vigor, não poderia ter elevado os índices. E a decisão de anular tais aumentos também não poderia, agora, ser usada como argumento para justificar a queda.
E, só a título de lembrete: as passagens caíram, na maioria das cidades, porque foi feito o repasse da redução da carga de tributos incidentes sobre o preço das tarifas para a população. Redução determinada pelo governo federal, Dilma à frente, e que as empresas de ônibus, com a conivência de prefeitos e outros mandatários políticos estavam embolsando.
É isso.
A chacina de São Paulo e o que as buscas da internet revelam e os pais não sabem...
Um recesso rápido, para ter tempo de colocar as coisas no lugar, nesse início de semestre letivo e.... estamos de volta. Com a promessa de maior constância, agora que estamos com mais tempo disponível durante o dia.
Entretanto, ainda estamos vivendo um período de adaptação à nova vida, de aposentado do Banco Central, onde vivemos experiências e emoções significativas e que ficarão marcadas para todo o sempre.
Mas, voltando aos pitacos, algumas observações rápidas. Primeiro sobre o caso que vem chamando a atenção de todo o país, e até do exterior, da tragédia que envolveu a família de policiais militares em São Paulo.
***
E começo dizendo que, embora sempre tenha sido contrário à facilitação do acesso à posse de armas pela população, por acreditar que a liberação dessa posse seria uma das principais causas de vários acidentes e situações que poderiam terminar de forma desastrosa, não acho nada anormal que, no caso de uma família de policiais, mais que acesso facilitado, os filhos fossem treinados no manuseio dessas armas .
Afinal, ciente de ataques vários feitos por organizações criminosas de toda espécie e origem aos policiais militares, seria uma medida de segurança dos próprios filhos e familiares, ensiná-los a se defenderem, no caso da eventualidade de um ataque.
Como se sabe, a existência da arma causa, muitas vezes, acidentes com consequências funestas, em função do desconhecimento e da falta de experiência em sua manipulação. Logo, ensinar aos filhos, que por dever de ofício do pai ou pais teriam acesso e contato constante com as armas, a melhor maneira de lidar com elas, seria plenamente justificável e até prudente.
Por outro lado, a possibilidade de toda a família e de sua residência ser vítima de uma ataque de criminosos, em minha opinião também seria motivo suficiente para ensinar os filhos, a partir de certa idade e da verificação de os filhos demonstrarem certo grau de discernimento e maturidade, a se defenderem, treinando-os para atirarem.
Creio que isso se encaixaria plenamente à noção de se permitir aos filhos a sua legítima defesa. E até a defesa de entes queridos.
***
O mesmo raciocínio serve para justificar a preocupação desses pais em ensinar aos filhos como, no caso de uma necessidade ou urgência - caso de um ataque, por exemplo, ter condições de tentar alcançar um socorro médico, ou se deslocar até o hospital ou pronto-socorro mais próximo.
Afinal, quem nunca ouviu o comentário de que, um atendimento no momento oportuno poderia ter evitado um óbito?
***
Mas, tudo isso que abordo acima, achando muito natural esses dois elementos presentes na chacina dos policiais militares de São Paulo, não me impede de uma constatação curiosa e de levantar uma questão, não sobre o crime em si, mas sobre as circunstância todas que o envolvem.
Trata-se de entender como uma família, descrita como tão unida e feliz pelos vizinhos, apresentando uma aparência de tanta normalidade independente do drama familiar expresso pela doença congênita do menino, onde o filho era tão apegado ao pai, seu herói, à avó, que ajudava a criá-lo desde novo, repito, como entender que esse adolescente acessasse sites da internet, sem que seus pais se preocupassem em verificar o conteúdo desses sites acessados.
***
Ou seja: minha maior preocupação aqui, já que não sou nem da polícia civil encarregada da investigação, nem da perícia técnica, nem tenho a vocação mórbida para ficar escarafunchando detalhes ligados a situações de gosto tão duvidoso é, para além do caso em si, o que podemos extrair do caso.
E o que salta a meus olhos é algo trivial: não conhecemos ninguém, de fato. Nem a nós mesmos. E nem àqueles com que convivemos, sejam parceiros, cônjuges, e até filhos ou amigos.
E esse desconhecimento ainda é ampliado pelo fato de que, por vários motivos, também não nos preocupamos em procurar aprofundar o nosso conhecimento sobre o que as pessoas que nos cercam fazem, o que as interessa, o que pensam, como encaram o mundo, quais seus sonhos, suas decepções...
No caso de pais, até entendo a necessidade de se dar maior liberdade para os filhos, para que eles possam aprender a viver por sua própria conta, uma vez que não somos eternos e os cuidados acabam tendo de ser encerrados em um momento. Especialmente, o momento que são os filhos que devem assumir as rédeas de sua própria vida, com todas as consequências daí advindas.
Mas, temos evitado de fazer isso. Em nome dessa liberdade que não se deseja invadir, vários pais se descuidam dos filhos e, sentindo-se sem função, passam a se dedicar, cada vez mais a si mesmos. Processo que, em minha opinião, Rosely Sayão, na Folha tem abordado com frequência.
Contudo, nosso tema aqui é outro: pais que não têm ideia de o que os filhos fazem, quando sentados à frente da telinha do computador. Com quem trocam mensagens, com quem se comunicam, o que falam, o que expressam, o que sentem.
***
É no mínimo curioso que o jovem Marcelo - e não estou aqui querendo acusá-lo, num caso ainda com tantos detalhes desconhecidos e obscuros - tivesse trocado a sua foto no perfil do Facebook, por outra de um assassino profissional, mesmo que de ficção, ou virtual.
É também curioso que tivesse pesquisado situações tão bizarras como a de chacinas familiares, como agora descoberto e constatado em seu computador. Ou que tivesse feito pesquisas, no mínimo estranhas sobre como ou que substâncias usar para proceder à atos de dopagem.
Nem vou me referir a conversas com amigos, ou convites para fugirem de casa depois de matarem os pais, porque essas conversas eu as considero como meras "viagens", coisas completamente inconcebíveis, à primeira vista, mas que em alguns momentos os jovens protagonizam, até como forma de chamarem a atenção.
Mas, vá la. Caso tais conversas fossem avante, chegando ao conhecimento de pais ou professores, o que acho que também não aconteceria, normalmente, e caso se juntasse as peças do quebra-cabeças que estava ainda sendo armado, juntando essa informação à outras das consultas via internet, provavelmente o que se suspeita que aconteceu poderia ter sido evitado.
Ou não: já que, na verdade, estamos todos atônitos e tentando buscar explicações para o que não tem mais solução.
Entretanto, ainda estamos vivendo um período de adaptação à nova vida, de aposentado do Banco Central, onde vivemos experiências e emoções significativas e que ficarão marcadas para todo o sempre.
Mas, voltando aos pitacos, algumas observações rápidas. Primeiro sobre o caso que vem chamando a atenção de todo o país, e até do exterior, da tragédia que envolveu a família de policiais militares em São Paulo.
***
E começo dizendo que, embora sempre tenha sido contrário à facilitação do acesso à posse de armas pela população, por acreditar que a liberação dessa posse seria uma das principais causas de vários acidentes e situações que poderiam terminar de forma desastrosa, não acho nada anormal que, no caso de uma família de policiais, mais que acesso facilitado, os filhos fossem treinados no manuseio dessas armas .
Afinal, ciente de ataques vários feitos por organizações criminosas de toda espécie e origem aos policiais militares, seria uma medida de segurança dos próprios filhos e familiares, ensiná-los a se defenderem, no caso da eventualidade de um ataque.
Como se sabe, a existência da arma causa, muitas vezes, acidentes com consequências funestas, em função do desconhecimento e da falta de experiência em sua manipulação. Logo, ensinar aos filhos, que por dever de ofício do pai ou pais teriam acesso e contato constante com as armas, a melhor maneira de lidar com elas, seria plenamente justificável e até prudente.
Por outro lado, a possibilidade de toda a família e de sua residência ser vítima de uma ataque de criminosos, em minha opinião também seria motivo suficiente para ensinar os filhos, a partir de certa idade e da verificação de os filhos demonstrarem certo grau de discernimento e maturidade, a se defenderem, treinando-os para atirarem.
Creio que isso se encaixaria plenamente à noção de se permitir aos filhos a sua legítima defesa. E até a defesa de entes queridos.
***
O mesmo raciocínio serve para justificar a preocupação desses pais em ensinar aos filhos como, no caso de uma necessidade ou urgência - caso de um ataque, por exemplo, ter condições de tentar alcançar um socorro médico, ou se deslocar até o hospital ou pronto-socorro mais próximo.
Afinal, quem nunca ouviu o comentário de que, um atendimento no momento oportuno poderia ter evitado um óbito?
***
Mas, tudo isso que abordo acima, achando muito natural esses dois elementos presentes na chacina dos policiais militares de São Paulo, não me impede de uma constatação curiosa e de levantar uma questão, não sobre o crime em si, mas sobre as circunstância todas que o envolvem.
Trata-se de entender como uma família, descrita como tão unida e feliz pelos vizinhos, apresentando uma aparência de tanta normalidade independente do drama familiar expresso pela doença congênita do menino, onde o filho era tão apegado ao pai, seu herói, à avó, que ajudava a criá-lo desde novo, repito, como entender que esse adolescente acessasse sites da internet, sem que seus pais se preocupassem em verificar o conteúdo desses sites acessados.
***
Ou seja: minha maior preocupação aqui, já que não sou nem da polícia civil encarregada da investigação, nem da perícia técnica, nem tenho a vocação mórbida para ficar escarafunchando detalhes ligados a situações de gosto tão duvidoso é, para além do caso em si, o que podemos extrair do caso.
E o que salta a meus olhos é algo trivial: não conhecemos ninguém, de fato. Nem a nós mesmos. E nem àqueles com que convivemos, sejam parceiros, cônjuges, e até filhos ou amigos.
E esse desconhecimento ainda é ampliado pelo fato de que, por vários motivos, também não nos preocupamos em procurar aprofundar o nosso conhecimento sobre o que as pessoas que nos cercam fazem, o que as interessa, o que pensam, como encaram o mundo, quais seus sonhos, suas decepções...
No caso de pais, até entendo a necessidade de se dar maior liberdade para os filhos, para que eles possam aprender a viver por sua própria conta, uma vez que não somos eternos e os cuidados acabam tendo de ser encerrados em um momento. Especialmente, o momento que são os filhos que devem assumir as rédeas de sua própria vida, com todas as consequências daí advindas.
Mas, temos evitado de fazer isso. Em nome dessa liberdade que não se deseja invadir, vários pais se descuidam dos filhos e, sentindo-se sem função, passam a se dedicar, cada vez mais a si mesmos. Processo que, em minha opinião, Rosely Sayão, na Folha tem abordado com frequência.
Contudo, nosso tema aqui é outro: pais que não têm ideia de o que os filhos fazem, quando sentados à frente da telinha do computador. Com quem trocam mensagens, com quem se comunicam, o que falam, o que expressam, o que sentem.
***
É no mínimo curioso que o jovem Marcelo - e não estou aqui querendo acusá-lo, num caso ainda com tantos detalhes desconhecidos e obscuros - tivesse trocado a sua foto no perfil do Facebook, por outra de um assassino profissional, mesmo que de ficção, ou virtual.
É também curioso que tivesse pesquisado situações tão bizarras como a de chacinas familiares, como agora descoberto e constatado em seu computador. Ou que tivesse feito pesquisas, no mínimo estranhas sobre como ou que substâncias usar para proceder à atos de dopagem.
Nem vou me referir a conversas com amigos, ou convites para fugirem de casa depois de matarem os pais, porque essas conversas eu as considero como meras "viagens", coisas completamente inconcebíveis, à primeira vista, mas que em alguns momentos os jovens protagonizam, até como forma de chamarem a atenção.
Mas, vá la. Caso tais conversas fossem avante, chegando ao conhecimento de pais ou professores, o que acho que também não aconteceria, normalmente, e caso se juntasse as peças do quebra-cabeças que estava ainda sendo armado, juntando essa informação à outras das consultas via internet, provavelmente o que se suspeita que aconteceu poderia ter sido evitado.
Ou não: já que, na verdade, estamos todos atônitos e tentando buscar explicações para o que não tem mais solução.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Além das Vidraças
Foi-se o tempo
A preguiça e a necessidade de levantar cedo
E sair, mesmo com frio
Ou o sol nascendo no interior de nossos olhos
Atrás do para-brisa do carro
Foi-se o tempo de chegar à janela
E do oitavo andar
Ou de outro andar mais elevado qualquer
Olhar para a praça em frente
Para ver pretensos atletas correndo
Exercitando-se
Aproveitando o sol
Enquanto os velhinhos
Empurrados por seus cuidadores
Podiam curtir a quaresmeira florida
A pata de vaca
Ou o ipê imponente,
Tornando a paisagem colorida e amiga
Foi-se o tempo de ficar contando os minutos
Para ganhar a garagem e atravessar os portais
Que permitiam ganhar o mundo e a liberdade
Da rua.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Temores
Temo em me
aposentar
E ficar
assim
Como alguns
colegas que observo
De quando em
vez
Manifestando-se
nas redes do antigo emprego
Ou postados
nas filas de bancos
Esperando
seu momento de ocupar a atenção
Dos gerentes
Ou ocupando
o tempo raro
E precioso dos
caixas
Apenas em
busca de informação
Que não os
deixe se sentirem solitários
Temo em me
aposentar
E ficar
desfilando os horrores
De dores que
me esmere em inventar
Temo em me
aposentar
E ficar
pelos cantos da casa
Reclamando
da arrumação desatenta da doméstica
Ou da
ausência dela
Cada vez tão
mais cara
Cada vez
mais joia rara
E tendo que
fazer eu
Aquilo que
encontrava antes pronto
E acabado
Temo em
ficar pelos bares
Ou por
lugares onde possa afogar
Minha
inutilidade completa
E cada vez
mais percebo
Que temo em
me aposentar
E perder o
encantamento de meus tempos de criança
Quando o
ócio era tempo de crescimento
E diversão
E o mundo do
trabalho
Somente uma
distante preocupação
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