É importante deixar claro que nas críticas que Dilma fez à ideia de Marina Silva de dar autonomia ou independência ao Banco Central, não há nada que já não tenha sido dito, discutido, analisado, publicado por vários autores, inclusive em nível internacional.
Trata-se de tema objeto de estudos desde há muito tempo, conhecido pelo nome de teoria da captura, que as agências reguladoras sofrem em relação aos empreendimentos e interesses que ela visa regular.
Importa não esquecer de que o Banco Central, por mais que tenha, em especial em nosso país, outras atividades e atribuições, não deixa de atuar, no que tange à fiscalização do funcionamento das Instituições Financeiras, como uma agência, tanto quanto a ANEEL em relação à energia elétrica, a ANVISA em relação à vigilância sanitária. a ANATEL, ANAC e outras.
Que o papel do Banco Central supere apenas essa função, são outros quinhentos, e embora muita gente gostaria de abrir também à discussão esse tema das finalidades específicas que deveriam ser desempenhadas por aquela Autarquia, não é esse nosso propósito aqui.
Assim a questão já foi tratada aqui mesmo nesse espaço, já há mais de ano, e em linhas muito sumárias e simplistas, poderia ser apresentada da seguinte forma: para poder fiscalizar a fundo as instituições que atuam em um setor de atividade, os reguladores devem ter conhecimento profundo, experiência e vivência naquele setor, dominando o que poderia ser chamado de a cozinha das empresas reguladas, expressão usada para mostrar que o regulador deve conhecer em profundidade e de forma mais íntima o dia a dia das empresas, seus problemas, suas pequenas malandragens, suas jogadas e as várias formas que utilizam para tornar mais elástica a interpretação de normas, etc.
Ora, na profundidade requerida, apenas aqueles que sempre trabalharam e operaram nos entes regulados têm o conhecimento requerido, ou os profissionais dos quadros de carreira e formados, ao longo de anos de vivência nas várias atividades de controle, exercidas pelos órgãos reguladores.
Como pertencer aos quadros de carreira não assegura a lisura do comportamento e o caráter do seu ocupante, como está aí a demonstração cabal dada pelo Engenheiro concursado e de carreira da Petrobras, Paulo Roberto Costa, a conclusão é que apenas alguém saído do mercado, de larga e vasta experiência atuando profissionalmente no setor, tem as especificações necessárias para ocupar o cargo de regulador.
Mas, vindo do mercado, como fiscalizar e até punir, os colegas de ontem? Conhecendo os problemas e dificuldades do setor, como impedir a prática de certos atos que, se não ferem a legislação, são no mínimo bastante questionáveis, por exigirem flexibilidade na interpretação das normas?
E, depois, findo o prazo do exercício no cargo, e cumprido o período de quarentena, como não acreditar que aquele profissional, que conhecia tanto o mercado que foi chamado para ser seu xerife, não irá voltar para o mercado, dotado agora de muito mais conhecimento, inclusive da concorrência?
Ciente de que seu futuro é retornar ao setor em que atuava antes, como esperar que ele vá tomar atitudes que possam contrariar os interesses de quem irá assegurar-lhe trabalho posteriormente?
***
Em suma, trata-se de uma questão que já vem sendo objeto de controvérsias, discussões há muito tempo, mesmo aqui no Brasil, por ocasião, por exemplo, da discussão de legislação fixando a exigência e o período de quarentena para que o ex-dirigente, retorne ao mercado em que operava.
E Dilma ter feito essa afirmação a respeito da proposta de Marina não deveria ser levada como um ataque pessoal, nem uma agressão.
Fosse outro o período que o país atravessa, e não o período que antecede as eleições, e fossem outras as circunstâncias, o que deveria ser feito, mesmo pelos órgãos de imprensa não era rotular e criticar ou elogiar, mas aproveitar para ir atrás de especialistas na área, e aprofundar o debate da questão e dar publicidade a esse tipo de problemas.
Ou seja, a imprensa teria um papel indiscutível a cumprir em favor da informação e da formação e desenvolvimento de atributos tão demandados como a formação política e social do cidadão.
***
No entanto, e não deve estar muito longe de ser verdade, infelizmente, as notícias interpretam a fala de Dilma como sendo um ataque, cujo alvo preferencial é a herdeira do Banco Itaú e assessora da candidata do PSB, Marina Silva. apenas para desmoralizar a campanha da adversária. O que é uma pena!
Primeiro porque permite que Marina reaja e em sua reação se lembre de que nunca antes, na história desse país, os banqueiros ganharam tanto dinheiro, tiveram tantos lucros. Isso, independente e mesmo com a queda da taxa de juros básica da economia, a taxa Selic. Porque nunca é demais lembrar que a queda dos juros básicos, que não representa necessariamente queda das taxas de juros no varejo para operações de financiamento realizadas para consumidores, foi conquistada justo no momento em que as operações de crédito ganhavam mais estímulo e o crédito alcançava volume também recorde em nossa economia. O que permitiu aos bancos ganhos na captação, onde rebaixaram de imediato as taxas de juros pagos, e mais tranquilidade na aplicação, até por força da regulação mais rigorosa imposta pelo próprio BC. Com menos riscos de inadimplência, o que teve uma grande contribuição das operações de crédito consignado, e da própria política de garantia de emprego e melhoria da renda real dos trabalhadores, as parcelas de spread cobradas para servir de proteção a essas ocorrências, permitiram maiores ganhos para as casas bancárias.
E, se de fato como é inegável, o partido no governo, conseguiu tirar 50 milhões de brasileiros de níveis de pobreza, alguns até absoluta, colaborando para a inserção de toda essa massa de pessoas no mercado, a distribuição de renda a que assistimos foi apenas distribuição interior ao rendimento dos salários. Tirando dos maiores salários para dar aos salários menores. Nunca foi uma distribuição de renda que tirava dos que recebem rendas de propriedades (juros, lucros, aluguéis) para aumentar a parcela de todos os que apenas contam com a renda de seu trabalho.
Segundo, porque ao colocar a discussão em um campo fácil de personalizar, esconde ou evita que se abra a discussão muito mais interessante e séria que diz respeito ao financiamento de campanha. Quem está sendo financiado pelos banqueiros? Que interesses esses banqueiros têm em financiar ao candidato A ou B?
Porque embora o ataque possa ser direto à assessora de Marina, filha e herdeira de banqueiro, a quem os bancos, especialmente os internacionais estão financiando, senão o candidato do PSDB? Porque recomendam em seus boletins e relatórios internos que Aécio seja o beneficiário de seus comentários e apostas? Porque pregam o voto no candidato do PSDB como sendo aquela escolha capaz de transmitir tranquilidade, serenidade, previsibilidade aos mercados e, assim capaz de ser merecedor do apoio e financiamentos desse mesmo mercado?
***
Claro que não podemos nos esquecer de questionar se não tem banqueiros também fazendo doações e apostas em Dilma, como fizeram em Lula antes, e na própria Dilma.
O que só ficamos sabendo, uns poucos interessados em esquadrinhar todas as notícias dos jornais, depois das eleições já transcorridas.
E, em relação ainda a financiamento de campanhas, existe mesmo diferença fundamental entre receber o apoio de banqueiros ou de empreiteiros e construtoras?
Será que por serem firmas de engenharia, não sujeitas a controle por agências reguladoras, estariam elas incapacitadas para engendrarem um esquema muito mais amplo de corrupção e de roubalheiras? Ou, como nos sinaliza o escândalo da Petrobras e as denúncias de 3% do total dos contratos sendo objeto de desvios, essas empresas acabam dominando muito mais do aparato do governo, exatamente por não se sujeitarem e tentarem capturar e submeter apenas uma Agência, mas a todos os órgãos de governo a que sua influência é capaz de alcançar, de forma mais devastadora, por mais ampla, complexa e disseminada?
São casos a serem levantados, ao menos para nossa reflexão.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
terça-feira, 9 de setembro de 2014
O tratamento irresponsável de certos órgãos da imprensa e de alguns jornalistas em relação às denúncias de Veja
Eu ia começar o comentário de hoje dizendo que chega a ser cômico assistir aos telejornais noturnos, principalmente aqueles com notícias exclusivas de nosso estado. Mas não é verdade. Não é essa a expressão capaz de exprimir minha reação. Então devo começar essa postagem, dizendo que é, no mínimo constrangedor ouvir como os comentaristas daqui de nossa terrinha se comportam.
Isso, porque, ao invés de realizarem comentários isentos, de alguma forma informativos e, portanto buscando, senão a imparcialidade, alguma objetividade, o que vemos é o analista/comentarista torcedor. Tão apaixonado em seus comentários quanto o torcedor de futebol frequentador de arquibancada dos jogos de seu time do coração.
Chega a fazer corar de vergonha.
Ao menos a mim. Ou ao menos o comentário ontem do analista de política do Jornal Band Minas, o nosso Carlos Lindenberg. Contra quem não tenho nada. Nem contra nem a favor. Mas que serve como referência para esse comentário apenas pela forma que vem analisando os fatos ligados à campanha eleitoral para a presidência da República.
Porque a torcida que faz para o candidato Aécio é tão clara, tão visível, que qualquer comentário que ele possa fazer perde inteiramente a característica que acredito ele deveria ter a preocupação de manter: a da credibilidade.
Ontem por exemplo, ao tratar da repercussão ainda das denúncias do ex-diretor da Petrobras, Paulo Costa, em seu depoimento visando a obtenção do benefício da delação premiada, foi incapaz de chamar a atenção para algumas das questões mais triviais que deveriam ser ao menos mencionadas.
Assim não falou que as denúncias resultaram de um vazamento de informação de um processo sigiloso, o que, no mínimo caracteriza um crime. Não mencionou que o depoimento dura já muitas horas e até dias, o que deve indicar ter muito mais informações relevantes e denúncias para virem a público. Ora, sendo assim, a parte que já veio à luz, se verdadeira e correta, deve ser tomada como bastante suspeita. Não a suspeição relativa a sua autoria apenas, embora essa também seja relevante.
Afinal, se o inquérito e depoimento é sigiloso, deve ficar sob suspeição até mesmo o fato de que o que vazou e foi publicado ser parte autêntica do depoimento.
Supondo que é sim, parte das denúncias do ex-diretor, então a pergunta seguinte é, será que todo o conteúdo foi alvo da publicação da revista Veja ou apenas parte. Justamente aquela parte que prejudica aos candidatos contra os quais a Veja vem se empenhando em criticar?
Quanto aos outros nomes, se existem, porque não foram divulgados? Se tais nomes existem, quem ou porque, estão sendo protegidos? Qual a responsabilidade da revista nesse processo de blindagem, se existir algum processo do tipo?
Também não foi feito comentário algum à questão mais relevante. Nomes foram mencionados e publicados com grande estardalhaço. E se não houver qualquer prova concreta contra eles, ao final de toda a investigação. Fica apenas a palavra do ex-diretor e pronto?
E a reputação das pessoas, fica para sempre comprometida e tudo bem?
Que as pessoas citadas sejam os maiores bandidos, o fato de terem já uma folha corrida é suficiente para que sejam acusados de algo para o que, no caso de não haver provas, sempre ficará como uma mancha?
Diga-se de passagem que uma mancha de gordura, daquelas que se eternizam na roupa e embora lavadas e limpas sempre deixam sua nódoa.
***
Em sua afoiteza, Lindenberg não se preocupou em tratar de nada dessas questões, talvez pouco relevantes para seu candidato, Aécio, que tudo indica ser o maior beneficiário de toda a acusação feita pelo ex-diretor da Petrobras.
Afinal, não apenas o PT e algumas de suas lideranças, ou o PMDB e até o presidente do Senado e da Câmara têm seus nomes destacados, além de governadores, como Sérgio Cabral, Roseana Sarney, além de deputados do PP. Também o nome de Eduardo Campos, e do PSB, o que resvala para a campanha de Marina, foram denunciados e vieram a público.
Nesse caso, pior, sem chance de defesa para o denunciado.
Mas nada disso importa para o comentarista-torcedor, para quem Aécio está com a bola na marca de penalte e pode dar um chute potente, para fazer um belo gol.
Até a referência e analogia ao futebol, reforça o meu comentário de que o analista nada analisa. Apenas torce. Como aliás grande parte da imprensa mineira, toda ela engrossando o cordão dos puxa-sacos ou no bolso do colete do candidato Aécio.
Que vantagens todos esses órgãos terão caso o candidato do PSDB se sagrasse vitorioso é o que me deixa curioso. Além claro de que alguns analistas poderiam vir a ganhar cargos de projeção em um eventual governo peessedebista, o que não deve ser o caso do senhor Lindenberg.
Ou não?
***
Seguramente não é o caso do Peninha, o Luiz Carlos Bernardes que, pouco depois, no programa Palavra Ética, que é apresentado no canal 6 da Net, da tevê fechada, levantava grande parte dos argumentos em que me baseio para fazer as indagações acima.
Ou seja, Peninha lembrou que foi Aécio que, no enterro de Eduardo Campos afirmou em discurso conhecer o homenageado há mais de 30 anos, e sua trajetória sem máculas.
Também falou de como, em Minas, a imprensa não pode se dizer vítima de censura, embora os olhos e interesses do Palácio da Liberdade sempre pesem sobre o que é divulgado ao público. E costuma pesar em prejuízo de todos que possam ter qualquer comentário crítico em relação ao que acontece nessas Gerais, como é exemplo notório o nosso repórter Kajuru.
O programa tratou também da forma cautelosa como deveria ser recepcionada a matéria da revista, já que outros nomes deveriam e devem ter sido citados, embora não divulgados pela Veja. Nomes que podem envolver inclusive o partido do candidato Aécio.
Afinal, a Petrobras tem interesses significativos também em São Paulo, estado que prima por mostrar que, em relação à obtenção de vantagens pessoais, todos os partidos se equiparam. Vide o caso da Allstom, da Siemens, do Metrô, do ex-secretário de governo de Mário Covas, hoje membro do Tribunal de Contas paulista.
Permanece sempre a dúvida e a questão: a Veja não teve acesso a todo o conteúdo do depoimento, ou tendo-o, fez uma seleção para atender a seus propósitos? Que são quais mesmos?
Peninha lembrou que, se se perdeu a importância histórica que teve, inclusive lutando contra o regime militar nos anos 70 e 80, e se se tornou um órgão que se pretende porta-voz da ultra-direita ou da direita do país, o que é legítimo, que ao menos reconheça e declare essa sua posição. Posição que cada um pode ter e manifestar. E que no caso de um órgão da imprensa, não vai permitir que incautos sejam ludibriados. Ou objeto de manipulação.
Grande inspiração teve Bernardes e seu parceiro de programa no dia de ontem. Bem diferente do analista-torcedor, cujo comportamento deve ajudar a entender porque os jornais da Band, tanto como o da Globo perdem audiência em escala crescente, como já foi noticiado.
***
Para acabar esse comentário, gostaria de afirmar que curioso é o fato de que uma série de acusações levantadas em Minas, contra práticas do governo, não são objeto de nenhum furor investigativo nem de Veja, nem de outros órgãos da imprensa.
Aqueles casos que Dilma não quis comentar ontem, apenas afirmando que ela tem o telhado cobertinho, enquanto outros candidatos - leia-se Aécio, claro, têm telhado de vidro.
Assim todos os mineiros já ouviram falar da utilização da Cemig para avalizar operação financeira para órgão da imprensa em dificuldade. Outros já ouviram falar do esquema de sacolas para utilização em supermercados, com a participação do Servas.
Ainda outros já devem ter até ouvido contar histórias do surgimento do famoso museu de Inhotim e da sua transformação em museu natural e ponto turístico de grande relevância para o Estado.
Mas nada disso é investigado, talvez por serem só rumores mal-intencionados. E sem interesse para a campanha política ou sem fundamento algum.
O que nos deixa a ver aviões, helicópteros e aeroportos, antes com chão de pó e agora, asfaltados.
É isso.
***
Que tudo isso sirva, se não para eleger o Aécio, conforme torce o Lindenberg, para que passemos todo o país a limpo: órgãos de governo, esquemas de corrupção, empresas públicas, Petrobras, operações de bancos públicos, financiamentos de campanha e doações generosas para campanhas, empresas corruptoras e agentes corruptores e corruptos de toda espécie e até a imprensa e seus interesses velados.
Isso, porque, ao invés de realizarem comentários isentos, de alguma forma informativos e, portanto buscando, senão a imparcialidade, alguma objetividade, o que vemos é o analista/comentarista torcedor. Tão apaixonado em seus comentários quanto o torcedor de futebol frequentador de arquibancada dos jogos de seu time do coração.
Chega a fazer corar de vergonha.
Ao menos a mim. Ou ao menos o comentário ontem do analista de política do Jornal Band Minas, o nosso Carlos Lindenberg. Contra quem não tenho nada. Nem contra nem a favor. Mas que serve como referência para esse comentário apenas pela forma que vem analisando os fatos ligados à campanha eleitoral para a presidência da República.
Porque a torcida que faz para o candidato Aécio é tão clara, tão visível, que qualquer comentário que ele possa fazer perde inteiramente a característica que acredito ele deveria ter a preocupação de manter: a da credibilidade.
Ontem por exemplo, ao tratar da repercussão ainda das denúncias do ex-diretor da Petrobras, Paulo Costa, em seu depoimento visando a obtenção do benefício da delação premiada, foi incapaz de chamar a atenção para algumas das questões mais triviais que deveriam ser ao menos mencionadas.
Assim não falou que as denúncias resultaram de um vazamento de informação de um processo sigiloso, o que, no mínimo caracteriza um crime. Não mencionou que o depoimento dura já muitas horas e até dias, o que deve indicar ter muito mais informações relevantes e denúncias para virem a público. Ora, sendo assim, a parte que já veio à luz, se verdadeira e correta, deve ser tomada como bastante suspeita. Não a suspeição relativa a sua autoria apenas, embora essa também seja relevante.
Afinal, se o inquérito e depoimento é sigiloso, deve ficar sob suspeição até mesmo o fato de que o que vazou e foi publicado ser parte autêntica do depoimento.
Supondo que é sim, parte das denúncias do ex-diretor, então a pergunta seguinte é, será que todo o conteúdo foi alvo da publicação da revista Veja ou apenas parte. Justamente aquela parte que prejudica aos candidatos contra os quais a Veja vem se empenhando em criticar?
Quanto aos outros nomes, se existem, porque não foram divulgados? Se tais nomes existem, quem ou porque, estão sendo protegidos? Qual a responsabilidade da revista nesse processo de blindagem, se existir algum processo do tipo?
Também não foi feito comentário algum à questão mais relevante. Nomes foram mencionados e publicados com grande estardalhaço. E se não houver qualquer prova concreta contra eles, ao final de toda a investigação. Fica apenas a palavra do ex-diretor e pronto?
E a reputação das pessoas, fica para sempre comprometida e tudo bem?
Que as pessoas citadas sejam os maiores bandidos, o fato de terem já uma folha corrida é suficiente para que sejam acusados de algo para o que, no caso de não haver provas, sempre ficará como uma mancha?
Diga-se de passagem que uma mancha de gordura, daquelas que se eternizam na roupa e embora lavadas e limpas sempre deixam sua nódoa.
***
Em sua afoiteza, Lindenberg não se preocupou em tratar de nada dessas questões, talvez pouco relevantes para seu candidato, Aécio, que tudo indica ser o maior beneficiário de toda a acusação feita pelo ex-diretor da Petrobras.
Afinal, não apenas o PT e algumas de suas lideranças, ou o PMDB e até o presidente do Senado e da Câmara têm seus nomes destacados, além de governadores, como Sérgio Cabral, Roseana Sarney, além de deputados do PP. Também o nome de Eduardo Campos, e do PSB, o que resvala para a campanha de Marina, foram denunciados e vieram a público.
Nesse caso, pior, sem chance de defesa para o denunciado.
Mas nada disso importa para o comentarista-torcedor, para quem Aécio está com a bola na marca de penalte e pode dar um chute potente, para fazer um belo gol.
Até a referência e analogia ao futebol, reforça o meu comentário de que o analista nada analisa. Apenas torce. Como aliás grande parte da imprensa mineira, toda ela engrossando o cordão dos puxa-sacos ou no bolso do colete do candidato Aécio.
Que vantagens todos esses órgãos terão caso o candidato do PSDB se sagrasse vitorioso é o que me deixa curioso. Além claro de que alguns analistas poderiam vir a ganhar cargos de projeção em um eventual governo peessedebista, o que não deve ser o caso do senhor Lindenberg.
Ou não?
***
Seguramente não é o caso do Peninha, o Luiz Carlos Bernardes que, pouco depois, no programa Palavra Ética, que é apresentado no canal 6 da Net, da tevê fechada, levantava grande parte dos argumentos em que me baseio para fazer as indagações acima.
Ou seja, Peninha lembrou que foi Aécio que, no enterro de Eduardo Campos afirmou em discurso conhecer o homenageado há mais de 30 anos, e sua trajetória sem máculas.
Também falou de como, em Minas, a imprensa não pode se dizer vítima de censura, embora os olhos e interesses do Palácio da Liberdade sempre pesem sobre o que é divulgado ao público. E costuma pesar em prejuízo de todos que possam ter qualquer comentário crítico em relação ao que acontece nessas Gerais, como é exemplo notório o nosso repórter Kajuru.
O programa tratou também da forma cautelosa como deveria ser recepcionada a matéria da revista, já que outros nomes deveriam e devem ter sido citados, embora não divulgados pela Veja. Nomes que podem envolver inclusive o partido do candidato Aécio.
Afinal, a Petrobras tem interesses significativos também em São Paulo, estado que prima por mostrar que, em relação à obtenção de vantagens pessoais, todos os partidos se equiparam. Vide o caso da Allstom, da Siemens, do Metrô, do ex-secretário de governo de Mário Covas, hoje membro do Tribunal de Contas paulista.
Permanece sempre a dúvida e a questão: a Veja não teve acesso a todo o conteúdo do depoimento, ou tendo-o, fez uma seleção para atender a seus propósitos? Que são quais mesmos?
Peninha lembrou que, se se perdeu a importância histórica que teve, inclusive lutando contra o regime militar nos anos 70 e 80, e se se tornou um órgão que se pretende porta-voz da ultra-direita ou da direita do país, o que é legítimo, que ao menos reconheça e declare essa sua posição. Posição que cada um pode ter e manifestar. E que no caso de um órgão da imprensa, não vai permitir que incautos sejam ludibriados. Ou objeto de manipulação.
Grande inspiração teve Bernardes e seu parceiro de programa no dia de ontem. Bem diferente do analista-torcedor, cujo comportamento deve ajudar a entender porque os jornais da Band, tanto como o da Globo perdem audiência em escala crescente, como já foi noticiado.
***
Para acabar esse comentário, gostaria de afirmar que curioso é o fato de que uma série de acusações levantadas em Minas, contra práticas do governo, não são objeto de nenhum furor investigativo nem de Veja, nem de outros órgãos da imprensa.
Aqueles casos que Dilma não quis comentar ontem, apenas afirmando que ela tem o telhado cobertinho, enquanto outros candidatos - leia-se Aécio, claro, têm telhado de vidro.
Assim todos os mineiros já ouviram falar da utilização da Cemig para avalizar operação financeira para órgão da imprensa em dificuldade. Outros já ouviram falar do esquema de sacolas para utilização em supermercados, com a participação do Servas.
Ainda outros já devem ter até ouvido contar histórias do surgimento do famoso museu de Inhotim e da sua transformação em museu natural e ponto turístico de grande relevância para o Estado.
Mas nada disso é investigado, talvez por serem só rumores mal-intencionados. E sem interesse para a campanha política ou sem fundamento algum.
O que nos deixa a ver aviões, helicópteros e aeroportos, antes com chão de pó e agora, asfaltados.
É isso.
***
Que tudo isso sirva, se não para eleger o Aécio, conforme torce o Lindenberg, para que passemos todo o país a limpo: órgãos de governo, esquemas de corrupção, empresas públicas, Petrobras, operações de bancos públicos, financiamentos de campanha e doações generosas para campanhas, empresas corruptoras e agentes corruptores e corruptos de toda espécie e até a imprensa e seus interesses velados.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Denúncias de Veja e cuidados para analisar o que nem se sabe se é real, apesar da corrupção na Petrobras
São sérias e extremamente graves as denúncias que a revista Veja publica em seu último número, a respeito dos depoimentos, até então classificados como sigilosos, dados pelo ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, à Polícia Federal.
Primeiro, por se tratar do conteúdo de um depoimento sigiloso ainda não concluso, cujo potencial destrutivo exige que amplas e profundas investigações fossem conduzidas para verificar, antes de mais nada, sua veracidade.
Isso, considerando-se que a matéria da denúncia jornalística seja mesmo o conteúdo ou parte dele, do processo que investiga a empresa petrolífera. Porque claro está que, em se tratando de documento de tamanha importância e gravidade, e considerando-se o momento que o país atravessa, quando falta pouco mais de um mês de eleições, inclusive para o cargo mais importante do país, até mesmo o que vazou merece ser alvo de averiguações.
Devemos admitir que, dada sua reputação, a revista semanal não seria leviana a ponto de publicar um conteúdo que não viesse de fonte muito segura e confiável. Porque sem garantias firmes da autenticidade do material e das insinuações apresentadas, a revista não iria correr riscos de estampar em suas páginas acusações tão pesadas, contra pessoas, partidos, instituições, etc.
Então, tudo bem. A fonte é segura e o material que chegou às mãos da reportagem não é do tipo daqueles famosos "dossiês" fabricado por meia dúzia de malucos, apenas para jogar lama na honra de algumas pessoas, e que acabam manchando apenas a reputação de seus autores, tamanha a incompetência.
Nesse instante, tem início outra questão relevante. O fato mesmo de ter sido dada a declaração a transforma, naturalmente em uma verdade? Ou pior, os fatos denunciados têm condições de serem apurados para se transformarem em provas contra os acusados?
Ora, mesmo sem ser ingênuo, sabemos que algumas rusgas, interesses pessoais não atendidos, uma série longa de motivos podem levar alguém a ampliar ou a dar uma interpretação mais fantasiosa a certos detalhes para poder criar situações que, mesmo não tendo como serem comprovadas, acabam por atingir seu alvo e levantar a suspeita sobre pessoas, empresas, empresários, políticos, etc.
Admitamos até que o diretor está fazendo as denúncias e promovendo as acusações movido exclusivamente pelo interesse de colaborar com o trabalho policial e a aplicação da justiça, e que sabe das penalidades em que incorrerá caso suas declarações sejam uma fraude.
Não seria possível que um dinheiro transferido, um recibo, um comprovante qualquer de pagamento existente e preenchido de forma incompleta ou não preenchido, poderia ter outra causa ou origem, sendo aproveitado agora como um possível documento exatamente por suas deficiências?
***
Acreditemos que as denúncias sejam todas verdadeiras, e que o senhor Paulo Roberto não esteja mais que fazendo aquilo que sua consciência determina. A partir daí, surge outra questão: qual o conteúdo do documento, na íntegra? A revista teve acesso a todo o depoimento ou a pessoa interessada em vazar a informação reservou-se o direito de passar apenas uma parte do mesmo? Que parte? Por que esse recorte? Que parte do conteúdo ficou de fora, não foi apresentado? Por que motivo?
Se teve acesso ao conteúdo integral, a revista publicou todo ele ou apenas parte? Se o fez parcialmente, qual o critério utilizou para fazer a seleção?
Reconhecemos que a revista pode ter procurado atender a suas legítimas motivações, como vender mais, causar mais alarde, maior repercussão, ter maior capacidade de interferir ou influenciar nas eleições?
Confesso que tenho acompanhado com grande preocupação as notícias do caso, usando outros órgãos de imprensa como fonte de informações.
Não leio a Veja, por uma série de motivos, o principal deles por não gostar ou concordar de sua linha editorial. Quanto a seus colunistas, então, melhor nem falar nada.....
Creio que a revista, em sua ânsia de realizar um jornalismo investigativo possa ter descoberto e levantado questões, sem dúvida, de maior relevância para o país e nossos interesses. Afinal, a Petrobras é a maior empresa de nosso país. Símbolo nacional de expressão.
E o patrimônio de nosso povo, não pode e nem deve ser apropriado por alguns gatos pingados, que se julgam donos da Pátria e do poder, quando foram escolhidos apenas para serem nossos representantes.
Embora eu acredite que esses donos do poder, e não me refiro apenas a políticos, tenham sempre se locupletado às custas de nosso patrimônio e da corrupção que grassa, não apenas em nossa sociedade, mas em toda sociedade em que o dinheiro e a ostentação que ele permite e patrocina padece desse mal. A diferença é que aqui, a punição do corrupto ou ladrão descoberto varia com o fruto do ato criminoso. Quem rouba pouco é ladrão. Quem rouba muito vira ícone. Antes barão. Depois ministro, deputado ou senador. Ou então o super-herói de nosso empresariado tupiniquim. Aquele que visando os lucros não admite correr qualquer risco.
Mas, isso são outras questões.
***
Admitindo tudo como certo, até mesmo o vazamento inconcebível de documentos de dentro da Polícia Federal ou do Ministério Público ou da Justiça, já que por seu intermédio passamos a ter conhecimento maior do mar de lama que nos cerca, e polui mais que o óleo cru, não constitui surpresa que, os possíveis envolvidos estejam todos ligados ao partido do governo.
Afinal, sendo a Petrobras uma empresa administrada pelo governo, seria no mínimo ridículo supor que pode ter havido favorecimentos e pagamentos a pessoas ligadas a partidos de oposição, embora até isso também não esteja fora de questão.
Que tenham sido favorecidas as pessoas ligadas ao partido da base de sustentação do governo, não é de se admirar, especialmente lembrando-se de que a base contém o PMDB, partido de maior tradição nesse tipo de envolvimentos que se tem notícia no passado recente.
Pessoas vinculadas ao PMDB, ao PP, ao próprio PT, PSB, não deveriam causar estranheza, infelizmente.
E vou mais longe, pessoas vinculadas antes, a estados em que a Petrobras tenha interesses e atuação mais destacada, já que facilitaria os contatos e os desvios de dinheiro e de conduta.
Não é surpresa verificar constar na lista delatada por Costa, os governadores de estados produtores de petróleo. Nem os políticos que, de alguma forma, pelos cargos que ocupam no Congresso, relataram ou tiveram alguma participação em decisões que envolviam a estatal.
Surpreende é a lista ser tão exclusiva, com tão poucos sócios no clubinho. Ou os nomes publicados são apenas os que a revista achou que atrairia maior atenção e falatório, assunto já tratado antes.
***
Citar o governador já falecido Eduardo Campos como tendo se beneficiado do esquema, sabendo dos vínculos entre o estado de Pernambuco e a companhia, inclusive com a construção de um porto, uma refinaria, é algo mais que esperado. Especialmente porque o governador não pode mais se defender e, como nesse tipo de situação os envolvidos não deixam rastros ou resquícios de sua ação, a questão ficará em suspenso.
Mas, do mesmo jeito que serve para toldar a imagem de Eduardo, atinge também ao seu partido, ainda envolto nas explicações relacionadas à acusação de estar usando um jato de laranjas nas viagens de sua campanha presidencial. O que, de certa forma pode ter relação com lavagem de dinheiro,
E, por tabela, atinge também Marina Silva, a ex-ministra do partido do PT, que se beneficiou da mamata da Petrobras, embora nunca antes da campanha agora, levantasse a voz para fazer qualquer declaração a respeito da empresa. Nem contra, nem a favor. Atinge Marina também como a atual candidata do partido que teve benefícios.
***
Como não é de surpreender, não atinge apenas o PSDB, o DEM, partidos que por serem oposição, não iriam mesmo estar se aproveitando dos desmandos, embora em nível individual pode ser até que alguns de seus filiados pudessem estar na lista.
Daí a razão para o desesperado Aécio partir, como não poderia ser diferente, para o ataque.
E ele tem razão, porque independente das influências de tal escândalo no resultado eleitoral, a preocupação primeira que deve nos mover, aos homens de bem do país, é saber exatamente o que aconteceu?, como?, quando?, em que valores?, para que destinações?, com os dinheiros da Petrobras.
***
Apenas lamento que Aécio que tanto exige a apuração cabal de todo o escândalo agora escancarado, não tenha a mesma postura de cobrança, doa a quem doer, em relação a outras situações denunciadas e, curiosamente, nunca investigadas com tamanho zelo ou alarde, como o caso do metrô de São Paulo, a formação de cartéis nas obras realizadas por seu partido ainda em São Paulo, na questão do mensalão mineiro, etc.
Porque agindo como age hoje, Aécio demonstra que não tolera corrupção nem que se aproveitem do que é de todo o povo brasileiro. Apenas se o bigode do gato que for flagrado não for do mesmo tipo de corte e pelos do bigode de seus amigos e partido.
Primeiro, por se tratar do conteúdo de um depoimento sigiloso ainda não concluso, cujo potencial destrutivo exige que amplas e profundas investigações fossem conduzidas para verificar, antes de mais nada, sua veracidade.
Isso, considerando-se que a matéria da denúncia jornalística seja mesmo o conteúdo ou parte dele, do processo que investiga a empresa petrolífera. Porque claro está que, em se tratando de documento de tamanha importância e gravidade, e considerando-se o momento que o país atravessa, quando falta pouco mais de um mês de eleições, inclusive para o cargo mais importante do país, até mesmo o que vazou merece ser alvo de averiguações.
Devemos admitir que, dada sua reputação, a revista semanal não seria leviana a ponto de publicar um conteúdo que não viesse de fonte muito segura e confiável. Porque sem garantias firmes da autenticidade do material e das insinuações apresentadas, a revista não iria correr riscos de estampar em suas páginas acusações tão pesadas, contra pessoas, partidos, instituições, etc.
Então, tudo bem. A fonte é segura e o material que chegou às mãos da reportagem não é do tipo daqueles famosos "dossiês" fabricado por meia dúzia de malucos, apenas para jogar lama na honra de algumas pessoas, e que acabam manchando apenas a reputação de seus autores, tamanha a incompetência.
Nesse instante, tem início outra questão relevante. O fato mesmo de ter sido dada a declaração a transforma, naturalmente em uma verdade? Ou pior, os fatos denunciados têm condições de serem apurados para se transformarem em provas contra os acusados?
Ora, mesmo sem ser ingênuo, sabemos que algumas rusgas, interesses pessoais não atendidos, uma série longa de motivos podem levar alguém a ampliar ou a dar uma interpretação mais fantasiosa a certos detalhes para poder criar situações que, mesmo não tendo como serem comprovadas, acabam por atingir seu alvo e levantar a suspeita sobre pessoas, empresas, empresários, políticos, etc.
Admitamos até que o diretor está fazendo as denúncias e promovendo as acusações movido exclusivamente pelo interesse de colaborar com o trabalho policial e a aplicação da justiça, e que sabe das penalidades em que incorrerá caso suas declarações sejam uma fraude.
Não seria possível que um dinheiro transferido, um recibo, um comprovante qualquer de pagamento existente e preenchido de forma incompleta ou não preenchido, poderia ter outra causa ou origem, sendo aproveitado agora como um possível documento exatamente por suas deficiências?
***
Acreditemos que as denúncias sejam todas verdadeiras, e que o senhor Paulo Roberto não esteja mais que fazendo aquilo que sua consciência determina. A partir daí, surge outra questão: qual o conteúdo do documento, na íntegra? A revista teve acesso a todo o depoimento ou a pessoa interessada em vazar a informação reservou-se o direito de passar apenas uma parte do mesmo? Que parte? Por que esse recorte? Que parte do conteúdo ficou de fora, não foi apresentado? Por que motivo?
Se teve acesso ao conteúdo integral, a revista publicou todo ele ou apenas parte? Se o fez parcialmente, qual o critério utilizou para fazer a seleção?
Reconhecemos que a revista pode ter procurado atender a suas legítimas motivações, como vender mais, causar mais alarde, maior repercussão, ter maior capacidade de interferir ou influenciar nas eleições?
Confesso que tenho acompanhado com grande preocupação as notícias do caso, usando outros órgãos de imprensa como fonte de informações.
Não leio a Veja, por uma série de motivos, o principal deles por não gostar ou concordar de sua linha editorial. Quanto a seus colunistas, então, melhor nem falar nada.....
Creio que a revista, em sua ânsia de realizar um jornalismo investigativo possa ter descoberto e levantado questões, sem dúvida, de maior relevância para o país e nossos interesses. Afinal, a Petrobras é a maior empresa de nosso país. Símbolo nacional de expressão.
E o patrimônio de nosso povo, não pode e nem deve ser apropriado por alguns gatos pingados, que se julgam donos da Pátria e do poder, quando foram escolhidos apenas para serem nossos representantes.
Embora eu acredite que esses donos do poder, e não me refiro apenas a políticos, tenham sempre se locupletado às custas de nosso patrimônio e da corrupção que grassa, não apenas em nossa sociedade, mas em toda sociedade em que o dinheiro e a ostentação que ele permite e patrocina padece desse mal. A diferença é que aqui, a punição do corrupto ou ladrão descoberto varia com o fruto do ato criminoso. Quem rouba pouco é ladrão. Quem rouba muito vira ícone. Antes barão. Depois ministro, deputado ou senador. Ou então o super-herói de nosso empresariado tupiniquim. Aquele que visando os lucros não admite correr qualquer risco.
Mas, isso são outras questões.
***
Admitindo tudo como certo, até mesmo o vazamento inconcebível de documentos de dentro da Polícia Federal ou do Ministério Público ou da Justiça, já que por seu intermédio passamos a ter conhecimento maior do mar de lama que nos cerca, e polui mais que o óleo cru, não constitui surpresa que, os possíveis envolvidos estejam todos ligados ao partido do governo.
Afinal, sendo a Petrobras uma empresa administrada pelo governo, seria no mínimo ridículo supor que pode ter havido favorecimentos e pagamentos a pessoas ligadas a partidos de oposição, embora até isso também não esteja fora de questão.
Que tenham sido favorecidas as pessoas ligadas ao partido da base de sustentação do governo, não é de se admirar, especialmente lembrando-se de que a base contém o PMDB, partido de maior tradição nesse tipo de envolvimentos que se tem notícia no passado recente.
Pessoas vinculadas ao PMDB, ao PP, ao próprio PT, PSB, não deveriam causar estranheza, infelizmente.
E vou mais longe, pessoas vinculadas antes, a estados em que a Petrobras tenha interesses e atuação mais destacada, já que facilitaria os contatos e os desvios de dinheiro e de conduta.
Não é surpresa verificar constar na lista delatada por Costa, os governadores de estados produtores de petróleo. Nem os políticos que, de alguma forma, pelos cargos que ocupam no Congresso, relataram ou tiveram alguma participação em decisões que envolviam a estatal.
Surpreende é a lista ser tão exclusiva, com tão poucos sócios no clubinho. Ou os nomes publicados são apenas os que a revista achou que atrairia maior atenção e falatório, assunto já tratado antes.
***
Citar o governador já falecido Eduardo Campos como tendo se beneficiado do esquema, sabendo dos vínculos entre o estado de Pernambuco e a companhia, inclusive com a construção de um porto, uma refinaria, é algo mais que esperado. Especialmente porque o governador não pode mais se defender e, como nesse tipo de situação os envolvidos não deixam rastros ou resquícios de sua ação, a questão ficará em suspenso.
Mas, do mesmo jeito que serve para toldar a imagem de Eduardo, atinge também ao seu partido, ainda envolto nas explicações relacionadas à acusação de estar usando um jato de laranjas nas viagens de sua campanha presidencial. O que, de certa forma pode ter relação com lavagem de dinheiro,
E, por tabela, atinge também Marina Silva, a ex-ministra do partido do PT, que se beneficiou da mamata da Petrobras, embora nunca antes da campanha agora, levantasse a voz para fazer qualquer declaração a respeito da empresa. Nem contra, nem a favor. Atinge Marina também como a atual candidata do partido que teve benefícios.
***
Como não é de surpreender, não atinge apenas o PSDB, o DEM, partidos que por serem oposição, não iriam mesmo estar se aproveitando dos desmandos, embora em nível individual pode ser até que alguns de seus filiados pudessem estar na lista.
Daí a razão para o desesperado Aécio partir, como não poderia ser diferente, para o ataque.
E ele tem razão, porque independente das influências de tal escândalo no resultado eleitoral, a preocupação primeira que deve nos mover, aos homens de bem do país, é saber exatamente o que aconteceu?, como?, quando?, em que valores?, para que destinações?, com os dinheiros da Petrobras.
***
Apenas lamento que Aécio que tanto exige a apuração cabal de todo o escândalo agora escancarado, não tenha a mesma postura de cobrança, doa a quem doer, em relação a outras situações denunciadas e, curiosamente, nunca investigadas com tamanho zelo ou alarde, como o caso do metrô de São Paulo, a formação de cartéis nas obras realizadas por seu partido ainda em São Paulo, na questão do mensalão mineiro, etc.
Porque agindo como age hoje, Aécio demonstra que não tolera corrupção nem que se aproveitem do que é de todo o povo brasileiro. Apenas se o bigode do gato que for flagrado não for do mesmo tipo de corte e pelos do bigode de seus amigos e partido.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Novamente racismo no futebol, espaço generoso para a manifestação de muitos outros preconceitos
Admito que qualquer pessoa no meio de uma massa perca um pouco o autocontrole e passe a agir sob a influência e da forma como agem todos aqueles que estão a seu lado. Já tive a oportunidade de observar isso nos campos de futebol e, confesso que, não raras vezes já me peguei agindo de maneira que não seria o meu comportamento estivesse eu sozinho.
Assim, quantas vezes já vi aquele torcedor que entrou em meio à torcida de meu time, e depois de mostrar que não estava ali por acaso ou desinformado, "convidado" a se retirar por meio de alguns safanões, ainda ironiza, provoca, xinga, agride com palavrões e acaba se envolvendo em alguma briga, inevitavelmente ouvirá o grito, quase uma sentença por seu atrevimento, de todos que estavam próximos apenas assistindo à escaramuça: mata! mata! mata?
Quantas vezes, honestamente, não nos pegamos acompanhando o coro. Quantas vezes, não gritamos a plenos pulmões: Mata! mata?
E ao jogador adversário que cometeu uma jogada desleal ou depois de uma jogada mais dura, que machucou um atleta de nosso time, quantas vezes nas jogadas seguintes em que ele estiver presente, não será dirigido o coro: Pega!pega?
Quantos de nós não gritou Pega! Quebra!, apenas reproduzindo a selvageria que, em outras circunstâncias gostaríamos de ver coibida?
E o juiz, quantas vezes não mandamos ir tomar .... apenas porque o infeliz cometeu um erro, mesmo que às vezes tão grotesco e resultado de má intenção explícita?
***
A questão é que nós somos assim. Não nos controlamos e, em algumas ocasiões, acabamos nos tornando selvagens, resgatando todo lado animalesco que habita nossas profundezas e que fomos sufocando através de todo um processo de socialização, formação e educação.
E às vezes, esse nosso lado oculto vem à luz. Explode.
E, como toda carga sob pressão, sua explosão é sempre potencialmente arrasadora. Perigosa.
***
Digo tudo isso, a propósito de toda essa polêmica surgida em torno dos torcedores do Grêmio e do time gaúcho, e as ofensas e injúrias de que foram protagonistas contra o goleiro Aranha, do Santos.
E nessa confusa situação, gostaria de fazer algumas observações.
A primeira, a de que acredito que a infeliz e digna de pena, como o próprio Aranha se referiu a ela, moça de apenas 23 anos de idade, que foi flagrada gritando claramente a expressão MACACO, sílaba a sílaba, de fato não seja, em condições normais de sua vida, racista.
Ou por outra, concordo que, por seu comportamento, tenha sim, alguns traços de racismo, mas que não seja capaz de externar esse ranço em situações que não sejam de absoluta tensão ou estresse.
Dito de outra forma. Deve ser, como milhares de pessoas que conhecemos e que são de nosso convívio, alguém que não gosta, procura não conviver, tem restrições a pessoas de origem afro, mas que não são capazes de agredi-los, de atacar, de destratar, sufocando na maioria das vezes sua verdadeira índole. Preferem não ter qualquer contato ou convívio, mas não podendo evitar tais situações, tratam de forma fria e indiferente. Seca. Sem deixar transparecer sua insatisfação por estar naquela circunstância.
Mas ela foi flagrada e virou protagonista de uma ocorrência de que apenas foi parte. Condenável, claro. Mas... a pergunta que não quer calar é: e os outros???
Porque as câmaras flagraram e registraram várias pessoas próximas pulando e fazendo gestos e o que pareciam ser sons guturais, simulando o comportamento de símios.
E esses, que urravam e pulavam movimentando os braços, só por não terem sido filmados e apresentados a todo o país gritando a palavra macaco, esses vão escapar das punições, exatamente as mesmas, que agora cobramos em relação à moça?
Porque não flagrados gritando, podem alegar que apenas entoavam cantos de estímulo ao time e que a coreografia que faziam nada continha de gestual racista.
E como provar que os urros que simulavam, não eram parte de um desses cantos de guerra que inundam e infestam os estádios, muitos até elogiados e solicitados pela imprensa, mesmo que com características e dizeres senão racistas ou injuriosos, bastante violentos.
Não é por não ser do time do Cruzeiro, mas o canto que já foi até matéria de reportagem, elogiosa diga-se de passagem, menciona até algo como ser a besta fera.
Confesso que não sei a circunstância em que a expressão aparece. Não conheço e nem me preocupo em conhecer tal cântico, mas...
***
Para não dizer que citei esse canto de guerra por ser do time adversário, pensando bem, não é homofóbico e passível de condenação também a menção que a torcida do Galo faz ao goleiro Fábio, no canto que passou a entoar depois da Copa. Inclusive com a mesma musiquinha que a torcida argentina tanto entoou?
***
Mas voltando ao caso do Grêmio. O segundo comentário a respeito que gostaria de fazer é que entendo que o Grêmio não poderia ser punido por culpa de comportamento de alguns torcedores que ele não poderia nunca impedir. Afinal, também a censura não é considerada crime?
E no Estado de Direito, cada um não é quem deve responder por seus atos ou desatinos?
E o time gaúcho ainda tem procurado agir para punir a seus torcedores que o envergonham perante ... todo o país (????)
Tem colaborado com a justiça, inclusive entregando as fitas gravadas, a imagens, os torcedores que estavam próximo ao local de onde partiram as agressões.
Punir o Grêmio é, em minha opinião, um exagero, embora também seja de opinião, o que é contraditório, reconheço, que se não se pune o time cuja torcida comportou-se de forma injuriosa, outros torcedores irão repetir os atos. Contando com a mesma tolerância ou complacência dos que, próximos à ocorrência não se manifestaram.
E aqui o terceiro ponto a observar. A imagem da moça que agora todos condenam, com razão, mostra que ela até se encolhia atrás de outra moça, que não falava nada. Mas a tudo assistia ou ouvia, sem reação.
Ao testemunhar a ocorrência de um crime sem intervir ou denunciar, procurando evitar que ele seja cometido, a pessoa está apenas adotando um comportamento de medo, de segurança ou de cumplicidade?
Porque o silêncio naquele caso também não é objeto de qualquer comentário da imprensa?
***
Punido o Grêmio, com a exclusão da Copa do Brasil, os que se silenciaram serão punidos, o que ficaram impassíveis, idem. Os que gritaram e não foram filmados também. Os que nada tinham a ver com toda a situação, a maioria, também. Ou seja, perdem todos.
***
Mas, melhor em minha opinião foi a punição feita ao juiz que, alertado pela vítima de estar sendo agredido verbalmente, de estar sendo vítima de um crime, ainda foi ameaçar Aranha, como se o goleiro é que fosse o responsável por tudo o que acontecia, por estar provocando os torcedores gremistas.
O juiz, que preferiu julgar precipitadamente a situação, optou por condenar o lado mais frágil da história. Talvez por medo da reação da torcida. Talvez medo de uma invasão de campo, quem sabe.
Porque alegar que não ouvia os gritos dirigidos ao goleiro ou os urros e que não via o comportamento, os pulos dos torcedores, não pode ser justificativa. Os fatos estavam lá para quem quisesse enxergar, enxergá-los.
Pior é o infeliz ainda não relatar na súmula após o jogo os eventos, mesmo depois de alertado das agressões por Aranha.
***
Bem, é muito barulho que essa situação está causando, embora felizmente não seja, como na peça de Shakespeare, muito barulho por nada. Aqui o barulho deve ser feito, ampliado, repercutido e ecoar muito para que todos nós, torcedores, frequentadores de estádios, etc. possamos refletir sobre o comportamento que temos adotado. E as modificações que deveríamos promover, para que, ao menos possamos viver em uma sociedade menos agressiva, menos violenta e mais harmoniosa.
Assim, quantas vezes já vi aquele torcedor que entrou em meio à torcida de meu time, e depois de mostrar que não estava ali por acaso ou desinformado, "convidado" a se retirar por meio de alguns safanões, ainda ironiza, provoca, xinga, agride com palavrões e acaba se envolvendo em alguma briga, inevitavelmente ouvirá o grito, quase uma sentença por seu atrevimento, de todos que estavam próximos apenas assistindo à escaramuça: mata! mata! mata?
Quantas vezes, honestamente, não nos pegamos acompanhando o coro. Quantas vezes, não gritamos a plenos pulmões: Mata! mata?
E ao jogador adversário que cometeu uma jogada desleal ou depois de uma jogada mais dura, que machucou um atleta de nosso time, quantas vezes nas jogadas seguintes em que ele estiver presente, não será dirigido o coro: Pega!pega?
Quantos de nós não gritou Pega! Quebra!, apenas reproduzindo a selvageria que, em outras circunstâncias gostaríamos de ver coibida?
E o juiz, quantas vezes não mandamos ir tomar .... apenas porque o infeliz cometeu um erro, mesmo que às vezes tão grotesco e resultado de má intenção explícita?
***
A questão é que nós somos assim. Não nos controlamos e, em algumas ocasiões, acabamos nos tornando selvagens, resgatando todo lado animalesco que habita nossas profundezas e que fomos sufocando através de todo um processo de socialização, formação e educação.
E às vezes, esse nosso lado oculto vem à luz. Explode.
E, como toda carga sob pressão, sua explosão é sempre potencialmente arrasadora. Perigosa.
***
Digo tudo isso, a propósito de toda essa polêmica surgida em torno dos torcedores do Grêmio e do time gaúcho, e as ofensas e injúrias de que foram protagonistas contra o goleiro Aranha, do Santos.
E nessa confusa situação, gostaria de fazer algumas observações.
A primeira, a de que acredito que a infeliz e digna de pena, como o próprio Aranha se referiu a ela, moça de apenas 23 anos de idade, que foi flagrada gritando claramente a expressão MACACO, sílaba a sílaba, de fato não seja, em condições normais de sua vida, racista.
Ou por outra, concordo que, por seu comportamento, tenha sim, alguns traços de racismo, mas que não seja capaz de externar esse ranço em situações que não sejam de absoluta tensão ou estresse.
Dito de outra forma. Deve ser, como milhares de pessoas que conhecemos e que são de nosso convívio, alguém que não gosta, procura não conviver, tem restrições a pessoas de origem afro, mas que não são capazes de agredi-los, de atacar, de destratar, sufocando na maioria das vezes sua verdadeira índole. Preferem não ter qualquer contato ou convívio, mas não podendo evitar tais situações, tratam de forma fria e indiferente. Seca. Sem deixar transparecer sua insatisfação por estar naquela circunstância.
Mas ela foi flagrada e virou protagonista de uma ocorrência de que apenas foi parte. Condenável, claro. Mas... a pergunta que não quer calar é: e os outros???
Porque as câmaras flagraram e registraram várias pessoas próximas pulando e fazendo gestos e o que pareciam ser sons guturais, simulando o comportamento de símios.
E esses, que urravam e pulavam movimentando os braços, só por não terem sido filmados e apresentados a todo o país gritando a palavra macaco, esses vão escapar das punições, exatamente as mesmas, que agora cobramos em relação à moça?
Porque não flagrados gritando, podem alegar que apenas entoavam cantos de estímulo ao time e que a coreografia que faziam nada continha de gestual racista.
E como provar que os urros que simulavam, não eram parte de um desses cantos de guerra que inundam e infestam os estádios, muitos até elogiados e solicitados pela imprensa, mesmo que com características e dizeres senão racistas ou injuriosos, bastante violentos.
Não é por não ser do time do Cruzeiro, mas o canto que já foi até matéria de reportagem, elogiosa diga-se de passagem, menciona até algo como ser a besta fera.
Confesso que não sei a circunstância em que a expressão aparece. Não conheço e nem me preocupo em conhecer tal cântico, mas...
***
Para não dizer que citei esse canto de guerra por ser do time adversário, pensando bem, não é homofóbico e passível de condenação também a menção que a torcida do Galo faz ao goleiro Fábio, no canto que passou a entoar depois da Copa. Inclusive com a mesma musiquinha que a torcida argentina tanto entoou?
***
Mas voltando ao caso do Grêmio. O segundo comentário a respeito que gostaria de fazer é que entendo que o Grêmio não poderia ser punido por culpa de comportamento de alguns torcedores que ele não poderia nunca impedir. Afinal, também a censura não é considerada crime?
E no Estado de Direito, cada um não é quem deve responder por seus atos ou desatinos?
E o time gaúcho ainda tem procurado agir para punir a seus torcedores que o envergonham perante ... todo o país (????)
Tem colaborado com a justiça, inclusive entregando as fitas gravadas, a imagens, os torcedores que estavam próximo ao local de onde partiram as agressões.
Punir o Grêmio é, em minha opinião, um exagero, embora também seja de opinião, o que é contraditório, reconheço, que se não se pune o time cuja torcida comportou-se de forma injuriosa, outros torcedores irão repetir os atos. Contando com a mesma tolerância ou complacência dos que, próximos à ocorrência não se manifestaram.
E aqui o terceiro ponto a observar. A imagem da moça que agora todos condenam, com razão, mostra que ela até se encolhia atrás de outra moça, que não falava nada. Mas a tudo assistia ou ouvia, sem reação.
Ao testemunhar a ocorrência de um crime sem intervir ou denunciar, procurando evitar que ele seja cometido, a pessoa está apenas adotando um comportamento de medo, de segurança ou de cumplicidade?
Porque o silêncio naquele caso também não é objeto de qualquer comentário da imprensa?
***
Punido o Grêmio, com a exclusão da Copa do Brasil, os que se silenciaram serão punidos, o que ficaram impassíveis, idem. Os que gritaram e não foram filmados também. Os que nada tinham a ver com toda a situação, a maioria, também. Ou seja, perdem todos.
***
Mas, melhor em minha opinião foi a punição feita ao juiz que, alertado pela vítima de estar sendo agredido verbalmente, de estar sendo vítima de um crime, ainda foi ameaçar Aranha, como se o goleiro é que fosse o responsável por tudo o que acontecia, por estar provocando os torcedores gremistas.
O juiz, que preferiu julgar precipitadamente a situação, optou por condenar o lado mais frágil da história. Talvez por medo da reação da torcida. Talvez medo de uma invasão de campo, quem sabe.
Porque alegar que não ouvia os gritos dirigidos ao goleiro ou os urros e que não via o comportamento, os pulos dos torcedores, não pode ser justificativa. Os fatos estavam lá para quem quisesse enxergar, enxergá-los.
Pior é o infeliz ainda não relatar na súmula após o jogo os eventos, mesmo depois de alertado das agressões por Aranha.
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Bem, é muito barulho que essa situação está causando, embora felizmente não seja, como na peça de Shakespeare, muito barulho por nada. Aqui o barulho deve ser feito, ampliado, repercutido e ecoar muito para que todos nós, torcedores, frequentadores de estádios, etc. possamos refletir sobre o comportamento que temos adotado. E as modificações que deveríamos promover, para que, ao menos possamos viver em uma sociedade menos agressiva, menos violenta e mais harmoniosa.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Parábola do crente e do hipócrita no poder. O previsível discurso vazio de Aécio; Selic e pesquisas eleitorais
É comum, ao iniciar o dia, que uma de minhas primeiras atividades seja a leitura da Folha de São Paulo para que eu possa me manter mais bem informado sobre as notícias, comentários e análises dos fatos e eventos que foram destaque no dia anterior.
Quase que como regra, começo a leitura pela coluna do impagável José Simão, como que em um ritual para melhorar meu humor e poder depois, já com o fígado desopilado poder me dedicar à leitura das páginas mais densas e ... tensas do jornal, as de política, mundo, economia, etc.
Excepcionalmente hoje, e alterando meus hábitos sem qualquer arrependimento, comecei pela leitura do texto de Contardo Calligaris (caderno Ilustrada, página E10), atraído que fui pelo título sugestivo para o momento que vivenciamos no país: Hipócritas ou Crentes?
Trata-se de uma parábola em que, por hipótese, somos, cada um de nós, completamente permissivos na prática do sexo e, como tal, objeto da preocupação e alvo das medidas, na maior parte das vezes proibitivas, adotadas pelos governos.
Para completar o quadro, existem dois países A e B, com um terço da população completamente indiferente e alheio a tudo e a todos, um terço formado por crentes e outro terço por libertários hipócritas.
Aos olhos dos crentes, somos todos pecadores, para os libertários, para quem tudo é permitido (até beijar você no escuro do cinema, onde ninguém nos vê!!!) basta que haja respeito, de nossa parte, à liberdade de cada um que até ser crente e intolerante é tolerado!
Em um país, o governo é dominado pelos crentes, em outro, pelos libertários.
Com nosso gosto sexual em primeiro plano, onde escolheríamos para morar, no país que nos condenaria ao fogo do inferno em vida ou no libertário?
Segundo Contardo, essa escolha seria desprovida de qualquer sentido. Em ambos os países, seríamos condenados por nosso gosto extravagante. No governado pelos crentes, por serem crentes e não admitirem tal prática, por princípios religiosos.
Em relação ao outro porque, libertários ou não, os governantes iriam precisar do voto do terço crente para se eleger e manter sua governabilidade. E se manter no poder.
Ao fim e ao cabo, nossa fantasia seria proibida em ambos, com a diferença de que no país libertário os governantes seriam todos hipócritas, vendendo um discurso desapegado de sua prática.
***
Vai daí, que Contardo nos coloca a questão: sendo mais honestos, os crentes talvez fossem mais simpáticos e confiáveis, embora em seu meio tivesse os xiitas, que sempre pedem penas mais pesadas para a expiação dos culpados, podendo chegar ao apedrejamento.
E aí? Em quem depositar nossas esperanças e destinos, já que o libertário não engana a mais ninguém e, independente de seu discurso, jogam para a platéia.
***
Infelizmente, essa é a situação que reflete em parte a realidade com que nos confrontamos o povo brasileiro.
Como o autor alerta, qualquer semelhança com o Brasil não é apenas coincidência. É o triste retrato em preto e branco, descorado, de nossa decadência política.
***
Muito bom. Instigante, mesmo. Vale a reflexão: quando o povo vai acordar e tomar o poder em suas mãos, de acordo com seus reais interesses, e sem se deixar enganar por visionários ou hipócritas?
***
Entrevista ontem no Jornal da Globo
Bem fez, em minha opinião, a presidenta Dilma de não comparecer ao Jornal da Globo, evitando de se expor ao linchamento que foi a entrevista concedida ao Bonner e à Patrícia Poeta, e seu cada vez mais fraco Jornal Nacional.
Embora William Waack e sua companheira de bancada tenham mostrado, ao menos ontem, com Aécio, mais elegância e educação que Bonner e sua sanha de querer agredir, mais que questionar.
Quanto ao comportamento do Bonner, gastando inutilmente o nosso tempo, apenas mudando a forma de elaborar a mesma questão para tentar arrancar da presidenta, inúmeras vezes, sua opinião sobre o episódio e as penas do mensalão, que ela já tinha deixado claro na primeira tentativa de que não iria responder, já comentei anteriormente.
Sua agressividade, que ele acredita que tentou imprimir em todas as entrevistas com todos os candidatos, não foi autêntica, já que, com outros ele tolerou as esquivas, e teve mais civilidade.
Talvez também Waack, com a Dilma não fosse tão tolerante quanto foi ontem, com Aécio. Mesmo sendo dever dizer que ele ainda tentou, algumas vezes, extrair do candidato alguma declaração mais concreta e não o conjunto de obviedades vazias que o candidato apresentava.
***
De Aécio, apenas a constatação de que o candidato está cada vez mais previsível. Não apenas no sentido da previsibilidade que o peessedebista parece crer que representa e que basta para acertar a todos os pontos, por exemplo da política econômica que ele tanto critica como estar semelhante a uma terra arrasada.
Questionado sobre que ministérios irá eliminar, tergiversou. Vai deixar aí um número razoável de, talvez, 23.
Sua justificativa é que esse é um número razoável, e que outras funções que devem ser desempenhadas não precisam de ter o status de ministério. No fundo, no fundo, apenas citou a incorporação da Pesca em um superministério da Agricultura ou Agronegócio.
Curiosamente, assim como Collor propôs e executou, de triste memória, se propõe a recriar a superpasta da Infraestrutura, para ser o único centro, locus ou o antro da corrupção.
Ao menos, centralizaria a propina e negociatas... ou não?
Em relação a essa questão de ministérios, já tivemos a oportunidade de comentar aqui que dos 39 ministros de Dilma, 16 apenas têm o título, embora a função sempre tenha existido e sido executada, com outros status. Estrutura mesmo e gastos elevados, portanto, em princípio, apenas as 23 pastas que Aécio já afirmou que irá manter.
Quanto a como vai combater a inflação sem mexer em juros, saiu pela tangente. Para ele, basta vencer e a previsibilidade se encarrega do resto.
Como vai fazer para retomar a trilha perdida pelo PT, na política econômica? O governo dele irá fazer o país crescer. E o país crescerá porque o governo dele não será intervencionista. Não irá promover quebra de contratos. A indústria vai voltar a ter importância, deixando de representar hoje, o que já representava nos tempos de JK, 13% do PIB.
Esse crescimento irá, por óbvio, dar mais segurança aos trabalhadores, e gerar mais empregos, ao contrário do governo Dilma que, em julho, gerou a menor taxa de desemprego da HISTÓRIA (?) do Brasil!!??????
Claro, isso não será da noite para o dia. Vai levar um tempo. Vai levar o tempo para a previsibilidade, seja lá o que isso signifique na cabeça do candidato, surtir efeitos...
Como não saiu desse discurso previsível, mesmo que quando cobrado pela Christiane Pelajo, apenas sabemos que ele acha um absurdo que o governo queira discutir taxa de retorno de empreendimentos privados.
Ao menos fica claro que em seu governo, irá tolerar qualquer lucratividade obtida nos negócios que o Estado deve ao menos agir como provedor, o que sinaliza que irá tolerar a fixação de preços de produtos de utilidade pública, com a inclusão de qualquer mark-up.
Ah! sim. Irá voltar a dar força às agências reguladoras, que irão ajudar a debelar a inflação...
Por ser previsível, irá também corrigir os preços represados dos produtos administrados pelo governo, como energia, combustíveis, mas isso, sem açodamento. Ao longo do tempo para que o realismo tarifário que propõe não ponha mais lenha na fogueira da inflação e os preços voltem a expressar a realidade dos mercados.
Completamente previsível. E vazio. Completamente vazio.
***
Selic e Juros no BC refém
Sob a expectativa de que seu refém, o BC não tentaria fugir a suas determinações, o mercado apostou e... milagre!!! a aposta estava correta, em que a Selic não seria alterada, mantendo-se nos 11%.
Isso, independente de a economia estar apresentando sinais de recessão.
É que a inflação continua resistente à queda e para que a meta não estoure no ano, os juros devem continuar no patamar em que se encontram.
Ok.
Apenas observar que nenhum comentarista lembrou que a inflação vem cedendo, nos últimos meses, apresentando valores declinantes mês a mês. E que a recessão também é circunstancial, já que os indicadores antecedentes já indicam alguma recuperação até mesmo da indústria.
E já que o mercado, conforme a pesquisa Focus espera PIB de 0,5 positivo, o crescimento será pífio, sim. Mas não caracteriza nunca, nem pode caracterizar redução do nível de atividade econômica.
E ainda tem gente que diz que o BC não tem autonomia.
***
Pesquisas
As pesquisas IBOPE e Datafolha indicam ligeira recuperação de Dilma, que ainda vence no primeiro turno e perde para Marina no segundo turno e a queda ladeira abaixo de Aécio.
O que, aos olhos do candidato tucano deve ser também previsível, com seu discurso empolado e oco.
Já Marina mantém-se, transversalmente, iludindo aos vários públicos para os quais se apresenta, rainha da demagogia que é.
Quanto a sua candidatura, e a coluna-parábola de Contardo Calligaris, apenas lembrar que existe sim, e não foi descrito pelo autor, a figura do crente hipócrita.
Que reúne o pior dos mundos. Mas, acreditem, existe, e tem nome.
Atualmente atende por Marina Silva.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
A proposta destinada a queimar Aécio e seu PSDB e uma nova proposta para a política econômica do país
Cada vez mais, embora acredite que seja das atividades humanas mais nobres, torna-se difícil manter o interesse na política e acompanhar sua evolução pela leitura atenta aos jornais, sem sentir algum engulho.
E nem me refiro aqui ao fato de que não é possível ignorar que a midia, os jornais, etc. manipulam e distorcem informações, cometem e divulgam análises viciadas, ao contrário de levar ao público dados e notícias relevantes, de forma a permitir-lhe analisar e avaliar opções, formar opiniões e tomar decisões que contribuíssem para um amadurecimento e maior grau de conscientização do povo.
Esperar tal comportamento seria ingenuidade extremada, em relação a pessoas, órgãos, instituições que, como não podemos nos esquecer têm, representam, difundem e repercutem seus próprios interesses, o que é legítimo em regimes democráticos, em que qualquer espécie de regulamentação corre sempre o risco de ser confundida com a prática da censura.
Mas o próprio exercício da política conforme colocado em prática por seus principais atores é capaz de nos causar reações de nojo, ou no mínimo de perplexidade.
Não pode ser outra a reação perante o comportamento de assessores e pessoas que fazem parte de círculos afins ao senador Aécio Neves que, na esteira do voto útil que vai ganhando corpo junto ao eleitorado do candidato, começam a sugerir que o peessedebista renunciasse a sua candidatura já agora, de forma a assegurar a derrota do PT no primeiro turno, conforme revela notícia do dia de ontem do jornal Valor Econômico.
Mesmo que, para fazer justiça ao jornal e ao candidato, fique claro na publicação o quão improvável seja a aceitação por Aécio de um acordo com Marina, ao menos antes da definição do primeiro turno.
Porque caso viesse a fechar tal acordo, Aécio estaria, em minha opinião, cometendo um suicídio político, além de condenar seu partido, que pela vez primeira lançou um candidato não paulista, a cada vez mais se transformar em um partido bandeirante. E pior, sem o protagonismo que sempre ostentou quando era acusado de se preocupar apenas com os interesses do estado mais rico da federação.
Abandonar a disputa queimaria ainda a figura de Aécio, sempre lembrado pela imagem que vende de garotão de praia, playboy, cujo nome seria associado para todo o sempre com o de alguém avesso às disputas mais renhidas e incapaz de enfrentar grandes combates.
Não parece ser esse o estilo de Aécio, especialmente depois de ter vendido ao eleitorado do país a ideia de ser capaz de formular propostas com a finalidade de ajudar a construir um lugar melhor para todos viverem.
Capitular agora, mais que uma rendição ao poder arrebatador de Marina e seu discurso grandiloquente e vazio, seria reconhecer que nunca pensou no Brasil ou no povo brasileiro, e que seu desejo era tão somente o de derrotar o PT.
Entretanto, como dizem que onde há fumaça, há fogo, quero crer que Aécio entra agora em uma etapa pior de sua campanha: aquela em que tem de enfrentar o fogo amigo (pero no mucho) de seus próprios partidários, especialmente os paulistas.
***
E o que diz a evolução, nunca divulgada, dos dados macroeconômicos?
Enquanto isso, em excelente artigo publicado no caderno Mercado da Folha de 2 de setembro à pagina B6, Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores apresenta uma tabela com dados que são extremamente curiosos.
Dividindo a economia brasileira em três períodos, pós implantação do chamado tripé de política macroeconômica que, conforme os analistas de mercado garantiu a estabilidade econômica, Bráulio apresenta valores e extrai conclusões dignas de reflexão.
Os 3 períodos compreendem 1999/2003, quando a inflação medida pela variação média anual do IPCA foi de 8,9%, com o centro da meta de 5,1% em média; variação do câmbio acumulada sinalizando uma desvalorização do real de 165%, superávit em conta de transações correntes de 1%, e PIB com variação média anual de 1,9%, aquém da variação do PIB mundial de 3,4.
Para o segundo período, de 2004/2008, a variação média do IPCA foi de 5,4%, para o centro da meta alcançando em média 4,7, valorização acumulada do Real de 40% e reversão do resultado em conta de transações correntes. Quanto ao PIB, apresentou variação média de 4,8 ao ano, para um PIB mundial de 4,6%.
O último período, de 2009 até 2014, apesentou variação anual do IPCA de 5,8%, com o centro da meta ficando em média em 4,5%. O real sofreu desvalorização de 24% acumulada e o PIB apresentou crescimento médio de 2,4% contra 3,1% do PIB mundial.
Sem nos esquecermos que o período a partir de 2009 foi escolhido por servir de data para o início das medidas anticíclicas que levaram ao abandono do tal tripé macroeconômico, o autor apresenta alguns exercícios para mostrar que não fosse o câmbio e seu comportamento, o sistema de metas teria se mostrado menos exitoso. Fosse outra a cotação do câmbio, com a moeda mais estável, a inflação teria sido maior no segundo intervalo, próxima de 6%, ou teria atingido algo próximo de 5% caso o real continuasse se valorizando no último dos períodos.
Quanto à evolução do PIB, o autor demonstra que houve importante influência do ciclo econômico global sobre nossa economia, em todos os períodos.
Por fim, questiona se, verificados os dados, não seria hora de deixarmos de dar espaço aos que cobram uma retomada, como a defendida pelo discurso de Marina, por exemplo, dos fundamentos econômicos que se confundem com as bases do tripé.
Em seu lugar sugere, acompanhando proposta embasada em estudos recentes, a adoção de metas de crescimento nominal do PIB, especialmente para economias emergentes.
Qualquer que seja a opinião, vale a recomendação da leitura do artigo e a abertura de espaço para uma discussão mais ampla sobre o tema.
E nem me refiro aqui ao fato de que não é possível ignorar que a midia, os jornais, etc. manipulam e distorcem informações, cometem e divulgam análises viciadas, ao contrário de levar ao público dados e notícias relevantes, de forma a permitir-lhe analisar e avaliar opções, formar opiniões e tomar decisões que contribuíssem para um amadurecimento e maior grau de conscientização do povo.
Esperar tal comportamento seria ingenuidade extremada, em relação a pessoas, órgãos, instituições que, como não podemos nos esquecer têm, representam, difundem e repercutem seus próprios interesses, o que é legítimo em regimes democráticos, em que qualquer espécie de regulamentação corre sempre o risco de ser confundida com a prática da censura.
Mas o próprio exercício da política conforme colocado em prática por seus principais atores é capaz de nos causar reações de nojo, ou no mínimo de perplexidade.
Não pode ser outra a reação perante o comportamento de assessores e pessoas que fazem parte de círculos afins ao senador Aécio Neves que, na esteira do voto útil que vai ganhando corpo junto ao eleitorado do candidato, começam a sugerir que o peessedebista renunciasse a sua candidatura já agora, de forma a assegurar a derrota do PT no primeiro turno, conforme revela notícia do dia de ontem do jornal Valor Econômico.
Mesmo que, para fazer justiça ao jornal e ao candidato, fique claro na publicação o quão improvável seja a aceitação por Aécio de um acordo com Marina, ao menos antes da definição do primeiro turno.
Porque caso viesse a fechar tal acordo, Aécio estaria, em minha opinião, cometendo um suicídio político, além de condenar seu partido, que pela vez primeira lançou um candidato não paulista, a cada vez mais se transformar em um partido bandeirante. E pior, sem o protagonismo que sempre ostentou quando era acusado de se preocupar apenas com os interesses do estado mais rico da federação.
Abandonar a disputa queimaria ainda a figura de Aécio, sempre lembrado pela imagem que vende de garotão de praia, playboy, cujo nome seria associado para todo o sempre com o de alguém avesso às disputas mais renhidas e incapaz de enfrentar grandes combates.
Não parece ser esse o estilo de Aécio, especialmente depois de ter vendido ao eleitorado do país a ideia de ser capaz de formular propostas com a finalidade de ajudar a construir um lugar melhor para todos viverem.
Capitular agora, mais que uma rendição ao poder arrebatador de Marina e seu discurso grandiloquente e vazio, seria reconhecer que nunca pensou no Brasil ou no povo brasileiro, e que seu desejo era tão somente o de derrotar o PT.
Entretanto, como dizem que onde há fumaça, há fogo, quero crer que Aécio entra agora em uma etapa pior de sua campanha: aquela em que tem de enfrentar o fogo amigo (pero no mucho) de seus próprios partidários, especialmente os paulistas.
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E o que diz a evolução, nunca divulgada, dos dados macroeconômicos?
Enquanto isso, em excelente artigo publicado no caderno Mercado da Folha de 2 de setembro à pagina B6, Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores apresenta uma tabela com dados que são extremamente curiosos.
Dividindo a economia brasileira em três períodos, pós implantação do chamado tripé de política macroeconômica que, conforme os analistas de mercado garantiu a estabilidade econômica, Bráulio apresenta valores e extrai conclusões dignas de reflexão.
Os 3 períodos compreendem 1999/2003, quando a inflação medida pela variação média anual do IPCA foi de 8,9%, com o centro da meta de 5,1% em média; variação do câmbio acumulada sinalizando uma desvalorização do real de 165%, superávit em conta de transações correntes de 1%, e PIB com variação média anual de 1,9%, aquém da variação do PIB mundial de 3,4.
Para o segundo período, de 2004/2008, a variação média do IPCA foi de 5,4%, para o centro da meta alcançando em média 4,7, valorização acumulada do Real de 40% e reversão do resultado em conta de transações correntes. Quanto ao PIB, apresentou variação média de 4,8 ao ano, para um PIB mundial de 4,6%.
O último período, de 2009 até 2014, apesentou variação anual do IPCA de 5,8%, com o centro da meta ficando em média em 4,5%. O real sofreu desvalorização de 24% acumulada e o PIB apresentou crescimento médio de 2,4% contra 3,1% do PIB mundial.
Sem nos esquecermos que o período a partir de 2009 foi escolhido por servir de data para o início das medidas anticíclicas que levaram ao abandono do tal tripé macroeconômico, o autor apresenta alguns exercícios para mostrar que não fosse o câmbio e seu comportamento, o sistema de metas teria se mostrado menos exitoso. Fosse outra a cotação do câmbio, com a moeda mais estável, a inflação teria sido maior no segundo intervalo, próxima de 6%, ou teria atingido algo próximo de 5% caso o real continuasse se valorizando no último dos períodos.
Quanto à evolução do PIB, o autor demonstra que houve importante influência do ciclo econômico global sobre nossa economia, em todos os períodos.
Por fim, questiona se, verificados os dados, não seria hora de deixarmos de dar espaço aos que cobram uma retomada, como a defendida pelo discurso de Marina, por exemplo, dos fundamentos econômicos que se confundem com as bases do tripé.
Em seu lugar sugere, acompanhando proposta embasada em estudos recentes, a adoção de metas de crescimento nominal do PIB, especialmente para economias emergentes.
Qualquer que seja a opinião, vale a recomendação da leitura do artigo e a abertura de espaço para uma discussão mais ampla sobre o tema.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Entrevista de Armínio, não diz nada e afirma tudo em seus silêncios
Muito interessante a entrevista do caderno principal da Folha, no dia de ontem, com Armínio Fraga, o já nomeado ministro da Fazenda de um eventual e improvável governo Aécio.
Primeiro, por ser a prova cabal de que é possível sim, falar de forma técnica e não dizer nada. Senão vejamos: perguntado se haverá mudança na regra de reajuste do salário mínimo, caso Aécio vença, saiu pela tangente, ao afirmar que Aécio já declarou que a política de aumento real do salário continua, lembrando, inclusive, que a fórmula pode promover reajustes baixos, caso a variação do PIB, um dos componentes da regra de cálculo não apresente variação importante. Como se espera um crescimento do PIB praticamente nulo para esse ano, essa é a alternativa mais provável.
Adicionalmente, considerando-se que o reajuste tem validade para um ano, e que seu cálculo repõe a inflação do ano anterior mas não faz qualquer estimativa para a esperada para o ano em curso, ao observador atento não escapará a possibilidade de o novo salário poder sofrer perdas em seu poder de compra ao final do primeiro ano, caso o governo perca o controle da inflação e esta venha a atingir níveis mais elevados que a do ano anterior.
Ainda na mesma resposta, Armínio afirma ter sido mal interpretado ao afirmar que os salários tinham subido muito, em geral, dando a entender que também ele considera isso desejável.
Apenas, acrescenta a necessidade de que o país apresente também, no mesmo período, ganhos de produtividade.
Ora, o que isso significa, senão o velho discurso que joga a responsabilidade da inflação sobre aumentos de salários reais não acompanhados por ganhos de produtividade. Ou seja, o mesmo argumento que, durante anos a fio, especialmente de governos autoritários, manteve os salários arrochados enquanto esperavam o bolo crescer, em face do fermento do aumento da produtividade. Política que gerou o aumento da concentração de renda e da desigualdade degradante que caracterizou nosso país ao menos até o surgimento do governo Lula.
***
Mas, o que aconteceria com os salários caso a produtividade não apresentasse o crescimento esperado por Armínio? Seria mantida a regra atual ou, por força dos requisitos por ele apresentados, a fórmula teria de ser alterada?
Mas, o que aconteceria com os salários caso a produtividade não apresentasse o crescimento esperado por Armínio? Seria mantida a regra atual ou, por força dos requisitos por ele apresentados, a fórmula teria de ser alterada?
Mais importante ainda, que medidas ele adotaria para conseguir levar o setor empresarial a obter os aumentos de produtividade necessários, levando-se em consideração que, no primeiro momento, se propõe a retirar o apoio do crédito subsidiado do BNDES aos empresários, acenando com uma arrumação da casa por parte do governo que inclui até mesmo uma reforma tributária?
Porque desonerar exportações, investimentos, além de simplificar a tributação, medidas que ele afirma ter grande impacto, significa transferir para outros setores da sociedade o ônus do financiamento das atividades do governo, ou aprofundar radicalmente as reformas que ele prega sob o nome de pacto extraordinário, de delegar áreas do governo para o controle do setor privado.
Ora, mais privatização, nesse momento, implicaria em o governo se desfazer do controle da Petrobras, dos bancos públicos sob o argumento de focar mais em saúde e educação, áreas que já sofrem a influência da presença do capital privado, há muito tempo.
Ele dá a entender que tudo pode ser resolvido com a supervisão por parte do governo e seu poder de regulação. Como se a literatura, mesmo a internacional, não estão já repletas de demonstrações do problema da captura do agente regulador, por parte dos regulados.
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Questionado sobre a questão da Previdência, e o ônus suportado por ela, em face da fixação do salário mínimo pela atual regra, novamente sai pela tangente, ao afirmar que, como ministro, apenas deverá elaborar e apresentar para a sociedade o orçamento e sua tendência de evolução.
Para não dizer que não afirmou nada, sai atirando que a política hoje adotada embute um populismo exacerbado e ponto.
Ora, então a política é ruim, e ele deverá apresentá-la dessa forma para a sociedade, inclusive com as consequências de sua manutenção: o descalabro das contas públicas.
Logo, democraticamente e sem qualquer manipulação, suponho, a população é que será chamada a aprovar ou não a continuidade da política que provoca o estouro das contas da Previdência e do governo.
Posso estar enganado, mas na segunda resposta ele responde a primeira: o salário mínimo deve ser alterado por razões vinculadas à saúde da Previdência, e não a qualquer outra questão, como a da inflação, ou da redistribuição de renda que ela induz.
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Questionado sobre a situação dramática da Previdência e de seus problemas de médio e longo prazo, inicia a resposta, respondendo que o governo já conta com uma estratégia bem mapeada, que se inicia pela reforma política - aquela mesma que Aécio no debate da Band, cobrado, afirmou ser um absurdo, porque a presidenta Dilma encaminhou ao Congresso proposta de que sua aprovação passasse por um plebiscito que definiria os pontos objeto de alterações.
Agora vemos que também Aécio deseja a reforma, apenas que sem qualquer consulta ao povo, para que apenas os partidos convenientemente acomodados no governo possam dar suas contribuições. Ou não?
Mas, à reforma política seguirá a administrativa, e a reforma tributária. E segue por aí.
Lá pelas tantas, lembra-se da questão apresentada, sobre a Previdência, para então, afirmar que como o tema se presta ao populismo, qualquer afirmação irá levar o PT a acusá-lo de arrochar salários e aposentados.
E prossegue para afirmar que com as pessoas vivendo mais, a questão da idade de aposentadoria tem de ser revista, sem deixar de abordar a questão das pensões, que ele julga dever ser alterada.
Embora concorde com ambas as situações, a idade tem de ser revista já que as pessoas vivem mais e estão mais tempo na idade ativa, graças aos avanços da medicina, e as pensões deveriam mesmo ser discutidas para eliminar privilégios injustificáveis, é inegável que ele deixa no ar uma acusação de populismo que não pode ser aceita.
Afinal, toda a imprensa tem dado espaço e destaque para o fato de que, indo na direção contrária à dos movimentos sindicais que apoiam o PT, seu partido, Dilma já afirmou que não muda o fator previdenciário, criação do governo do PSDB. Fator previdenciário que limita o valor do benefício para aqueles que, mesmo atendendo às condições exigidas, são penalizados por serem ainda considerados mais jovens.
Exatamente na direção que o assessor deseja.
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Por fim, questionado sobre a questão que ganhou algum destaque graças à Marina, relativa à autonomia do Banco Central, afirma que acha que o Banco não deve ter independência, mas apenas autonomia operacional, ideia que consta do projeto de Aécio.
Curioso é que, ao tratar da existência ou não de tal autonomia nos dias de hoje, reconhece que sim, embora diga que não.
Ao menos isso é o que se depreende quando se lê que ele acha, que há uma percepção de que o Tombini, presidente do BC, vem sofrendo muita pressão.
Bem, como quem sofre pressão é aquele que não está fazendo o que foi exigido, ou determinado, ou cobrado e, mesmo contrariamente ao recomendado em termos de resultado da economia, os juros se mantêm em patamares elevados, pouco civilizados, então Tombini tem espaço para agir, contra tudo e o desejo de todos do governo. Ou Armínio desejava uma taxa de juros ainda maior?
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Para terminar, é importante saber que, caso Aécio não seja eleito, Armínio garante que não vai passar para o lado de Marina. O que nos assegura que dele e de suas divagações estamos livres.
E para aproveitar a deixa, duas observações adicionais.
Na página 3, do caderno principal, a Folha de 1 de setembro traz também um artigo que critica Armínio, pela sua arrogância no debate, ao tentar desqualificar os argumentos de seus oponentes, apenas por terem objetivos distintos dos que professa.
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Por último, está impagável a coluna no caderno Ilustrada de Gregório Duvivier, do Porta dos Fundos e colunista da Folha às segundas, fazendo uma paródia da letra de Chico Buarque da Terezinha.
Gregório nos remete à chegada de três Terezas, todas dignas de, assustado, o povo brasileiro dizer não.
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