terça-feira, 13 de maio de 2014

A generalização da barbárie e os linchamentos aceitos ou nem tanto.

Antes foi a agressão bárbara, selvagem, o linchamento que culminou na morte estúpida de Fabiane no Guarujá. Local que, conforme observação de um colega meu, acabou dando ao caso uma repercussão inédita.
Afinal, embora saibamos que o município do Guarujá enfrente os mesmos problemas de todas as outras localidades de nosso país, com seus problemas urbanos, sociais, falta de educação e pobreza e desigualdade, etc. pela fama que granjeou no passado, por toda a ostentação que representava, a menção ao balneário evoca sempre a frase irônica de Juca Chaves, de ser o Guarujá a praia em que as mulheres paulistas frequentavam de salto alto.
Agora chega a nosso conhecimento a execução da manicure Ane Kelly Santos, também no interior de São Paulo, em Osasco, por ter roubado R$ 27 mil da pessoa errada. Segundo o noticiário, o dinheiro roubado, bem como seu proprietário, era ligado ao tráfico, razão para que fosse praticado um crime hediondo, com requintes de tortura.
Um detalhe curioso que não me passou despercebido, contido na matéria jornalística que apresentava o monstruoso episódio,  foi o fato de que, efetuada a prisão de uma mulher e três homens acusados pela tortura e assassinato, um dos quais confessou a participação no crime, populares juntaram-se do lado de fora do local onde estavam presos, desejosos de lincharem os prisioneiros.
Em Belo Horizonte no dia de ontem, na região de Venda Nova, a prisão de um suspeito de pedofilia foi realizada após o acusado ter sido vítima de um início de agressão por populares.
E, a cada dia, avolumam-se os casos que vêm a nosso conhecimento, envolvendo a tentativa de se fazer justiça com as próprias mãos. Tanto em nosso país, quanto no exterior.
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Ciente do apelo advindo de matérias que respingam sangue, a imprensa tem dado grande destaque a tais agressões,  embora sejamos justos, o tratamento  dispensado aos casos, pelo menos na televisão, têm se caracterizado pela discrição,
Entretanto, falta no noticiário mais que a divulgação ou repercussão do fato. Falta uma tentativa mais séria e profissional de se analisar as razões capazes de explicar o nível de intolerância a que estamos sendo expostos.
Tudo bem que os jornais televisivos não são o fórum adequado para tratar de tais temas, com o nível de profundidade que exigem. Ou não!
Porque comentários, ora de apresentadores, ora tão somente de populares entrevistados para a matéria acabam sendo levados ao ar e alguns promovem um verdadeiro desserviço à criação de um nível mínimo de convivência social. Equilibrada, sadia e justa.
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O que percebo, então, é que mais que ser no Guarujá, e isso é o que vejo de pior, o caso de Fabiane ganhou grande repercussão por tratar-se de - MAIS - um erro. A jovem mulher era inocente e foi vítima de um boato, tendo sido confundida com um retrato falado que não deveria nunca ter sido objeto de postagem nas redes sociais.
Entrevistado, o responsável pela postagem que não deseja ser identificado, talvez por medo de que também ele seja vítima de um linchamento, afirma que não se sente responsável pela barbárie. Conta que postou o desenho da suspeita, mas ter tomado o cuidado de afirmar que a notícia era um possível boato.
Ora, se a notícia não estava confirmada, podendo ser mero boato, porque lhe dar divulgação?
Apenas para preencher espaço em um dia em que não tinha assunto algum mais sério e importante, para tratar?
Afirma ainda que logo a seguir retirou o retrato da rede, embora como se vê, o mal já tinha sido disseminado.
É verdade que ele não tinha intenção de matar ou de causar qualquer mal à Fabiane. Mas, que contribuiu para o desenrolar da história trágica, não há como negar.
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Mas, se o caso de Fabiane foi um erro, o que dizer dos demais casos de linchamento? De justiçamento? De milicianos fazendo as famosas limpezas de criminosos?
O fato de quem estar sendo vítima ser de fato um assaltante, ou ladrão ou até mesmo um assassino, até mesmo confesso, dá à população o direito de fazer sua própria justiça?
Mesmo sabendo-se que esses julgamentos populares, sempre em ambiente de violenta emoção, acabam sendo julgamentos de exceção, e mais que serem a realização mais célere da justiça acabam transformando-se em verdadeiras execuções? Tão ou mais criminosas que os atos que lhes deram origem?
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Na verdade, como deve sentir-se algum ser humano depois de ter participado de um ato de justiçamento feito pelas próprias mãos? Como um juiz? Como um assassino? Será que tem noção em algum momento, mesmo depois do crime, de todas as consequências de seu ato?
Será que, em algum momento terá dificuldade de colocar a cabeça no travesseiro e dormir sossegado?
Ou será que, como o personagem famoso de Crime e Castigo, de Dostoiévski, não irá mais tarde ser consumido pelo remorso?
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Mas que tipo de sociedade é essa que estamos contribuindo para construir, que é capaz de chegar a um ponto em que parece que a panela de pressão está prestes a explodir?
Em que o estresse atingiu tal ponto que as reações tornam-se cada vez mais irracionais, como tem sido observado por reações no trânsito, nas relações entre homens e mulheres, nas disputas entre as torcidas de futebol, nas discussões entre dois desconhecidos em um bar.
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E curioso que isso acontece, no momento mesmo em que cada vez mais, os meios de comunicação são dominados por programas religiosos, por salmos e cânticos e preces e orações, por religiosos de todo tipo de convicção.
Em que o fervor religioso parece estar em ebulição, com a criação e abertura de igrejas por todos os locais e bairros.
Como entender que quanto mais o transcendente ganha espaço, mais o lado perverso de nossa condição animalesca se agiganta?
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Contribui para isso, sem dúvida, os comentários de jornalistas e outros profissionais que entendem o comportamento irracional, e portanto, sem qualquer elemento de entendimento possível, dentro da razão.
Contribui para isso, também, a espetacularização dos fatos hediondos que, entretanto, dão IBOPE, e garantem audiência e a continuidade de programas que tornam-se não raras vezes, na forma de que algum indivíduo, considerado um não-ser, ganhe destaque na sociedade.
Contribui para tudo isso a falta de educação, de cidadania, a brutal desigualdade em que vivemos, e que certas camadas da sociedade parecem dispostas a manter a qualquer custo, para não ter de abrir mão de privilégios. Exatamente a camada da sociedade mais amedrontada e que, intimamente, mais entra em contradição com suas convicções mais íntimas, sem saber se aprova os atos de justiça que o Estado não consegue prover a tempo e hora, ou se reprova tais comportamentos que nos remetem ao estado natural de selvageria de Hobbes, onde o homem era o lobo do homem.
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A verdade é que questões como a de Pedrinhas, e os assassinatos nas cadeias do Maranhão, também eles justiçamentos; os casos de jovens executados em um sem-número a cada fim de semana, nas periferias das cidades grandes; as ações de violência contra a mulher, como se os homens fossem proprietários de suas companheiras; as ações de violência no trânsito; as batalhas nos estádios, às vezes entre pessoas da mesma torcida; embora passem despercebidas ou sejam, intimamente até aprovadas ou toleradas, são todas expressões de um mesmo conjunto de coisas. Como tal, merecedoras também de um tratamento e um debate mais sério de nossa sociedade.

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