segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Observações sobre as notícias econômicas que são a mesma coisa, mas que são tratadas como se fossem coisas distintas

Enquanto isso, o PIB trimestral cai pela segunda vez consecutiva, embora em valores que merecem alguma consideração. Afinal, é verdade que a queda do primeiro trimestre, é muito insignificante, dando a oportunidade para que revisões de dados possam alterar a situação.
Mas, e aí é que a coisa fica feia: o valor da queda de 0,2% já é uma revisão, uma vez que o dado originalmente anunciado era o seu contrário: 0,2% de crescimento.
No segundo trimestre, o valor de 0,6 negativo, é mais difícil de sofrer mudança que influencie em seu sinal. Pode alterar-se, claro, mas o valor de redução é mais firme.
A que atribuir tal comportamento do PIB? Crise internacional? Sim, existe e nos afeta, especialmente pela redução da demanda de nossas commodities pela freada no crescimento chinês. Some-se a isso, a situação econômica muito delicada da Argentina, nosso principal parceiro no Mercosul, e um dos principais mercados para nossa indústria automobilística.
Crise interna? Também é uma das causas. Tanto a crise real, que vem mostrando redução gradual nas estatísticas de geração de novos empregos, o que serve sempre de alerta para os trabalhadores, especialmente afetando suas expectativas de manutenção de emprego e renda. Aliado a essa situação há que se considerar ainda o fato de que o consumo puxado por bens de maior valor agregado já encontrou seus limites, uma vez feita a primeira compra, dificilmente a demanda irá continuar apresentando o crescimento do primeiro momento, em que as famílias que chegavam a mercado estavam ávidas pela aquisição de tais bens.
Além disso, é bom lembrar que as taxas de juros foram todas majoradas, principalmente nas linhas destinadas ao consumo popular, por força de o Banco Central ter sido constrangido a elevar a Selic.
Não nos esqueçamos que, todo o mercado e os analistas econômicos, foram unânimes em exigir que o Banco Central agisse, leia-se aumentasse os juros, para debelar a inflação, perigosamente próxima do limite superior da meta de inflação.
Ora, com a elevação das taxas de juros, surgem imediatamente algumas consequências: aumento da inadimplência, que vem praticamente se mantendo estável, o que indica a preferência das famílias por liquidarem seus compromissos anteriormente assumidos; redução da demanda de crédito, mais caro; redução de compras a prazo, junto ao comércio; elevação dos gastos públicos com pagamento da conta de juros.
Ou seja: não é de se espantar que o consumo e a demanda caiam, até porque era com esse intuito que o mercado todo exigia que o BC adotasse política monetária mais rígida e contracionista. É esse resultado, de queda da demanda que faz a inflação ceder, afinal. Nada mais que aquela situação que o próprio Mantega, denominou de a paz dos cemitérios.
Curioso, ou nem tanto, dados seus interesses inconfessáveis, é o mercado cobrar juros maiores em um momento e no momento seguinte passar a criticar a redução do crescimento do PIB.
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Quanto à elevação de gastos públicos e o resultado muito ruim obtido no resultado do orçamento fiscal, no mês de julho, não é também tão surpreendente, o que não significa que não seja preocupante. A própria queda da demanda, resultante do juro mais elevado, leva a queda da arrecadação fiscal, já suficientemente reduzida por políticas do governo, tentando incentivar aos empresários a retomarem investimentos.
Investimentos que não são lançados, também por que os empresários, sabem que juros maiores atraem mais capital externo com desvalorização do dólar e valorização do real. Em outras palavras, preços internos mais caros e menos mercado para os industriais enfrentarem os preços artificialmente mais baixos dos produtos importados.
Sem mercado interno assegurado e sem mercado externo, em crise, investir para aumentar a produção para vender para quem???
Se cai a receita de impostos, ao contrário a despesa pública não se reduz. Até se eleva, já quem em crise, é mais comum de a população apresentar mais problemas de saúde, etc.
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Então, não há nada que seja tão extraordinário nos resultados que vêm sendo divulgados para as variáveis da economia brasileira.
Que é vítima ainda da crise interna mais fundamental, a de confiança. Provocada, curiosamente, mais pela imprensa e o pessimismo que ela insiste em destilar, que por qualquer outra razão.
Porque é inegável que, se o mercado cobra do governo certas medidas, de resultados facilmente previsíveis quando a imprensa se nega a publicar as exigências do mercado e suas consequências, basta que o governo adote a medida cobrada, que toda a população vai ser induzida a achar que a situação vai se acertar e melhorar.
Ora, logo em seguida, a imprensa dá ouvidos e voz aos mesmos analistas de antes, aqueles que cobravam as medidas adotadas, mas que agora criticam o pequeno crescimento da produção, o descalabro das contas públicas, etc.
A impressão que fica é que uma coisa não é consequência nem vinculada à outra. O que ajuda a imprensa e aos mercados a continuarem promovendo medo e pavor nas pessoas comuns, de forma a que o terrorismo criado as faça ser contra o governo. Afinal, o governo é que parece ser muito fraco ou ruim, já que nem resolve o problema da inflação, nem os outros problemas que os analistas de mercado insistem em manter como coisas separadas.
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Em minha opinião, como tenho dito aqui várias vezes, é a crise fabricada pela midia. E, sem qualquer espanto ou surpresa, constato que, em um momento grave como esse que está sendo forjado, o nome de Armínio Fraga, volte a ser protagonista. Agora e mais uma vez, como homem forte do PSDB. O que só me faz lembrar sem qualquer saudade de sua política de terrorismo eleitoral - contra Lula, de 2002.
Sempre Armínio, cuja fisionomia até me lembra a do personagem da charge de Péricles: o amigo da onça.

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