sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

BC tenta conter o crédito e compulsório sobe

Depósito compulsório ou reservas compulsórias é o nome de um instrumento de política monetária bastante usado em nosso país, embora menos que o instrumento do open market que é a operação de compra e venda de títulos úblicos, em geral mais ágil e mais eficiente.
Basicamente o compulsório significa a proporção de recursos que os bancos captaram junto a seus clientes e que deverão manter parado, à ordem ou à disposição do Banco Central, quando não recolhido ao cofre do Banco Central.
Ou seja, dinheiro que os bancos não poderão utilizar para lastrear suas operações de crédito.
Trocando em miúdos, vai ficar menos dinheiro para os bancos emprestarem para seus clientes.
Tecnicamente, a importância do compulsório é o fato de ele afetar o multiplicador monetário, limitando a capacidade que os bancos que recebem depósitos a vista ou conta corrente têm de criar mais dinheiro.
Esse dinheiro que os bancos criam, e que a população não vê, é o "dinheiro" que fica a nossa disposição quando o banco abre uma conta em nosso nome, creditando lá o valor que nos emprestou.
Como a sociedade acredita que o dinheiro depositado existe de fato, e transfere a propriedade desse dinheiro, via o uso do cheque ou outras formas de transferências, como os DOC, TEDs e pagamentos de contas, por exemplo, esse depósito vira dinheiro: moeda ou dinheiro escritural.
E os bancos o criam, porque sabem que poucos são os clientes que vão se dirigir ao caixa bancário ou a uma agência para sacar ou retirar a totalidade de seu dinheiro. Até vá lá que um cliente ou outro possa vir a querer tirar tudo, mas outros estarão depositando seus recursos, ou pagando contas, ou seja, outros, no mesmo instante estarão dando entrada em dinheiro. E o total de entradas compensa muitas vezes o total das saídas.
Esse dinheiro fictício, escritural, permite a liquidação dos compromissos ou das dívidas. Tem o que em economia é o principal atributo da moeda ou do dinheiro: liquidez. Todos aceitam em pagamento ou troca por algum objeto, nos livrando de nossas dívidas.
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Quando o Banco Central aumenta o compulsório, resta menos dinheiro real para dar lastro ao dinheiro escritural, reduzindo a capacidade de o banco criar muito empréstimo e muito depósito, ou seja, muito depósito.
E, com a elevação do compulsório, cujo adicional passou de 8 para 12% sobre os saldos de depósitos a vista e a prazo, estima-se que 61 bilhões a menos de dinheiro poderão alicerçar operações de empréstimos.
Com menos dinheiro, os juros ou o custo do dinheiro irá subir para quem o tomador do empréstimo.
Para os bancos, financiamentos mais caros podem representar um problema. É que alguns bons tomadores passam a fazer cálculos mais cuidadosos e, muitos descobrem que é melhor adiar seus gastos por algum período de tempo, adiando despesas e compras, para juntar uma quantia para comprar o que desejam á vista.
Quem financia a compra de bens, compra um bem e paga 1,5 ou até 2 bens, dependendo dos juros que terá de pagar para a compra a prazo, ou com o dinheiro emprestado junto ao banco.
Assim, a maior parte das pessoas que não estão desesperadas ou muito apertadas, não vai tomar empréstimo. E quem resta para tomar crédito é quem estava muito mal das pernas ou que não tem muito interesse ou muita intenção ou hábito de pagar.
Isso caracteriza o chamado problema da seleção adversa. O banco empresta para quem ele não sabe que não tem interesse em pagar.
E, amplia-se a inadimplência. Os custos bancários sobem e o banco vai querer aumentar ainda mais a sua taxa de juros, para que os bons e poucos pagadores, paguem pela irresponsabilidade dos maus pagadores.
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Por isso, a segunda parte das medidas anunciadas: a que exige que o banco amplie a cobertura de capital para a eventualidade de realizar empréstimos de prazo mais longo, que podem ficar cada vez mais difíceis de serem honrados.
Essa medida significa que o banco vai emprestar, por exemplo, 100 e terá que ter uma quantia maior de seu próprio capital disponível para cobrir esses 100 reais, caso o tomador fique inadimplente.
Se ele não fizesse essa garantia, e o cliente não pagasse a dívida, quem perderia esse dinheiro poderia ser algum depositante, que confiou no banco.
Logo, quando aumenta a cobertura de capital próprio, para dar sustentação ao empréstimo, isso significa que o banqueiro vai estar tirando do dinheiro dele, para emprestar. E, pensando assim, ele vai ter mais cuidado para emprestar e vai emprestar menos.
Afinal, muitas vezes, ele nem tem, no momento, todo o valor exigido como garantia, ou cobertura de capital.
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Do ponto de vista da população, condições mais duras de aquisição de bens, em especial daqueles mais caros: os bens duráveis como eletroeletrônicos, linha branca, linha cinza, etc.
Menor pressão compradora no mercado, impedirá as empresas de quererem aumentar seus preços: afinal, vender passa a ficar mais difícil.
E, com isso, a inflação ficará, em parte, impedida de se manifestar.
Porque em parte?
Porque se a inflação depende dos preços de alimentos e serviços pessoais, como parece ter acontecido em nosso país, nos últimos meses, e sabendo-se que poucas pessoas financiam a compra desses produtos e serviços, então, não há certeza de queda dos preços. Pode ser que os índices de preços não subam, mas não há certeza de que irão cair.
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Enfim, como já havíamos previsto, a economia passará por um tranco, uma desaceleração importante no primeiro ano do mandato Dilma, tentando voltar a inflação esperada para o valor do centro da meta de inflação.
E, para contribuir com isso, o consumo terá que ser reduzido, em parte. Claro, a parte que pega mais as famílias que têm menor poder aquisitivo (que dependem mais de crediário).
É o saco de maldades de Dilma, sendo aberto no primeiro ano, para depois, aos poucos, as bondades poderem ser feitas, sem causar muitos estragos.
De quebra, antecipa-se a uma possível crise de elevação de crédito e bolha de ativos. E troca-se uma inadimplência mais ampla, por uma mais localizada, ou mais restrita, já que alguma elevação desse índice, como mostramos acima, deverá ser sentida.

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