quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Politicamente correto e modernamente hipócrita

Recebi hoje um email enviada pela Liliana, colega e amiga, contendo um texto postado por Luiz Antônio Simas, sobre a postura do politicamente correto.
Confesso que desconheço o local onde foi postado o texto, e nem mesmo se é de autoria do Luiz Antônio, mas concordo em gênero, número e grau com a crítica nele contida, à questão de como o politicamente correto tem levado a algumas pessoas da sociedade a cometerem excessos ou adotarem comportamentos que reputo completamente hipócritas.
Se o cravo brigou com a rosa, tornou-se símbolo de um pensamento machista - segundo o texto, podendo até mesmo sujeitar o cravo à lei Maria da Penha; ou se Samba Lelê, que precisava de umas boas palmadas, pode enquadrar seu responsável na legislação que trata dos direitos da infância e do adolescente; alterar as letras das canções de roda, baseadas no folclore, tradição e cultura do nosso povo é no mínimo, uma sandice.
Não pela qualidade de gosto extremamente duvidoso das sugestões de substituição das letras, mas por tentar esconder nossa história, o que fomos, como pensamos e vivemos, como se nosso passado nos envergonhasse.
Justo esse passado que, por tudo que significou e representa, permitiu a que evoluíssemos e percebêssemos que deveríamos adotar mudanças comportamentais, em especial no trato com aqueles que sendo iguais a nós mesmos, são entretando diferentes.
Iguais na essência. Diferentes na forma ou na roupagem.
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Estava evitando tratar do tema, já suficientemente comentado pela imprensa e causador de reações sem fim, que levou à censura aos livros de Monteiro Lobato, que ensinou a tantos de nós o prazer da leitura. Que nos ensinou como as viagens da imaginação são, às vezes, muito mais ricas, bonitas e interessantes que as viagens reais que tanto nos enriquecem e nos fazem aprender e crescer.
Viagens reais que nos permitem crescer na medida mesmo que podemos nos deparar e confrontar nossos padrões de vida e cultura, com os padrões diferentes de outros povos e lugares.
Ora, se viajar é uma oportunidade única de vivência e encantamento, o que dizer das viagens de nossa imaginação. Por mares e lugares nunca dantes navegados.
Por lutas e trabalhos como os 12 de Hércules, ou pelo sítio do Pica-pau Amarelo, onde se passavam as caçadas de Pedrinho, e onde Narizinho aprontava das suas. Tudo sob as vistas de D. Benta e do anjo de gente que toda meninada sonhava em ter em sua casa, trabalhando ou não, crédula ou não, ignorante ou não, mas cheia de bondade, representada pela preta velha e gorda, figura que sempre identifiquei com a personagem e seu ar bonachão, de tia Anastácia.
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Proibir os livros de Monteiro Lobato pela acusação de serem racistas e colocarem a preta velha em papel servil é tão ridículo, como daqui a pouco sugerir-se que se queimem os livros e histórias do período da escravidão no Brasil. Ou seja, proibir-se a divulgação da própria História de nosso país.
E quem desconhece a história, ao invés de se tornar melhor, apenas fica tentado a repetí-la, mais à frente.
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E daqui a pouco, vão descobrir que os retirantes nordestinos trazem uma imagem ruim e alimentam uma carga de preconceitos muito grande contra os irmãos do Nordeste, inspiradores do Cangaço e até mesmo de Gabriela, aquela rapariga(?), aquela heróina, mulher brasileira, do cheiro de cravo e da cor de canela.
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Mais que evitar o tema pelo que guarda de ridículo, devo também dizer que me omito por medo. Medo de ser preso e condenado por crime de racismo só porque, quando tinha 1 ano de idade, talvez pouco mais ou menos, querendo fazer um carinho em minha babá, a preta Chica, tive que por minha roupinha branquinha sobre seu rosto negro, para lhe pespegar um beijo.
Confesso, era só um carinho. E nem me lembraria disso ou saberia do ocorrido, se a própria Chica, entre orgulhosa e espantada, não tivesse relatado minha peripécia à minha mãe.
Mas, a hipocrisia hoje é tão sem noção. Ou sem limites, que vai saber....

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