terça-feira, 26 de outubro de 2010

debate bocas

O debate ontem foi na Record. Serra mais agressivo, muito próximo da faixa de desespero. Dilma, mais contida, bem mais contida, talvez já ciente da diferença apontada nas pesquisas de intenção de voto, que a favorece.

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Mais uma vez, Dilma mostrou uma dificuldade muito grande de se expressar, de sair do script preparado. A ponto de embaralhar e se confundir com os termos a empregar ao tratar do tema da questão prisional ou penitenciária, no país.
Como na anedota de quem desmarca a reunião agendada para a sexta-feira, por não saber como se redige o dia da semana, preferiu voltar atrás e alterar a estrutura da frase. Menos mal. Logo em seguida se recuperou e empregou a expressão desejada.
Pode-se argumentar que essa dificuldade é comum, e que o importante é o conteúdo transmitido, bem mais que a forma.
Mas é bom lembrar que pode transmitir insegurança.

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Já Serra embora tivesse demonstrado mais facilidade com as palavras, e maior domínio de palco, mostrou também, por outro lado, falta de conteúdo. Não fora assim, não insistiria, por duas ou três vezes, em mencionar a postura ambivalente, dúbia da sua oponente, trazendo como ilustração a questão, mais uma vez, do aborto.
Subliminarmente o candidato tentava passar e continuar marcando a sua opositora como a imagem que dela tentaram vender, relativa a criancinhas.
Coitada da Dilma! Na juventude, por comunista ou subversiva, comia criancinhas. Agora, em idade mais madura deseja a sua morte.
O que aconteceu? Congestão? A comida lhe fez mal?

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Por várias vezes o candidato Serra trouxe à baila a questão de a presidente do Conselho de Administração da Petrobrás  ter aprovado, durante seu mandato, a privatização da exploração do petróleo, por meio de leilão de lotes de áreas a serem exploradas por empresas privadas, em total de 108, das quais 53 estrangeiras.
Apenas em bloco posterior, quando o assunto já se desviara para outro tema, a candidata, voltando ao tema do petróleo, lembrou que o marco regulatório da exploração do petróleo foi uma das heranças do governo FHC.
Ou seja, sem dar a ênfase que reputo merecida, a candidata assumiu que o que fez foi cumprir a lei e, nesse sentido, permitir que o país tivesse a sua produção de petróleo ampliada.
Mas, perdeu a ênfase. Perdeu o instante. Perdeu, inclusive e mais importante, a oportunidade de fazer uma declaração contundente de suas convicções democráticas, como as do PT, no cumprimento e no respeito ás leis e ao marco regulatório, por pior que pudesse considerá-lo, em vigor.
Está certo que resvalou nessa questão, quando disse que para o pré-sal seu partido preocupou-se em alterar o marco que define as condições de exploração, trazendo-o de volta à responsabilidade exclusiva da Petrobrás.

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Preocupada em pespegar no PSDB a pecha de privatista, ficou mais preocupada em mencionar a entrevista da segunda-feira na Folha, em que o candidato derrotado ao governo capixaba, correligionário do Serra, atacou o modelo de exploração do petróleo do pré-sal, adotado pelo PT, defendendo a volta da prática anterior.
Por várias vezes, mencionou Luís Paulo Veloso Lucas, apenas para que o Serra deixasse claro que não tem autonomia e luz própria, não pensando pela cabeça de ninguém, embora possa escutar as opiniões divergentes.
Também insistente, e inócua, a tática de continuar afirmando que o nome da Petrobrás seria alterado, retirando e substituindo o bras, brasileiro, por um brax, mais internacional.

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Parece que a assessoria de Dilma - se é que a candidata utiliza o recurso do ponto eletrônico, se distrai e perde a oportunidade. Apenas no bloco seguinte de sua declaração de autonomia e independência, a candidata apontou o óbvio: a inadequação de Serra a seu próprio partido, em questões cruciais. E, ao invés de explorar essa questão, claramente vinculada à dificuldades que o candidato teria para aprovar matérias no Congresso, podendo não contar com o apoio nem de seus partidários, partiu para outras considerações.

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Em minha opinião Dilma tentou ser elegante e, acertou no momento em que atacou a agressividade, a falta de elegância e a soberba e arrogância de Serra.
Mencionou que para governar o país, o candidato deve ser mais humilde e reconhecer que depende de outros e não sabe tudo.
Tanto acertou que Serra não se defendeu. Não podia. Fez ouvidos moucos.

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E acertou também quando, mesmo tentando não deixar o nível do debate se desqualificar, mencionou que Serra rasgou a declaração que fez e registrou em cartório, de que não abandonaria o mandato de Prefeito de São Paulo, pela metade.
Mais uma vez, Serra mudou o assunto, sem ter como se defender, ele que provocara a questão de a candidata falar uma coisa e, logo em seguida, mudar.
Referia-se ao MST e, para espanto meu, o antigo líder da UNE mostrou que envelheceu ou que mudou de idéia, agora na defesa dos direitos de propriedade, de forma mais retrógrada. Inclusive, valendo-se da invasão e LAMBANÇA que o MST patrocinou, ao invadir a fazenda onde a Cutrale praticava a velha e conhecida prática da grilagem, mesmo tendo sido ordenada pela Justiça a desocupar a área.
Serra apelou para a lambança do MST que, em minha opinião perdeu o juízo e a oportunidade de denunciar a grilagem da empresa. Embora seja questão para outra discussão, não posso deixar de dizer aqui, que dono de um discurso que privilegia a produção agrícola e a possibilidade de acesso a terra para quem deseja produzir alimentos, o MST meteu os pés pelas mãos ao destruir produção de frutas, laranjas, Alimentos.

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Dilma retrucou mais uma vez com acerto, ao lembrar da tragédia e carnificina de Eldorado dos Carajás, mas deixou que a questão se resvalasse para discussão de menor relevância.

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Em síntese: mais uma vez, poucas foram as propostas apresentadas, se alguma. O que se viu foi a continuidade de um debate requentado, que tem como principal finalidade desqualificar o opositor que apresentar idéias e soluções. Ou discutir questões de fundo para o país.
Entretanto, fico me perguntando: quem ou quantos assitiram ao debate?
Quantos que, assistindo ao debate, não estavam apenas na posição de claque, esperando para ouvir o discurso conhecido de seu escolhido e não interessado em contrapor nenhuma proposta do oponente, com suas convicções?

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Afinal, o debate ajuda a decidir o seu voto? Alterou o voto de alguém ontem, ou nos debates travados antes?
Fica no ar a dúvida: tal como as pesquisas, o debate tem condição de alterar o voto de quem já se definiu e, parece, vai levar a candidata Dilma a se tornar a primeira presidenta do país?
Por que, pelo andar da carruagem, só a explosão de uma bomba muito destruidora, e por isso mesmo muito implausível, poderia mudar o ambiente que vai se conformando, para a alegria de  uns e desespero de outros.

Um comentário:

Fernando Henrique disse...

Paulo,
imagine dois surdos porém não mudos discutindo algo... Pois bem, esta é a visão que eu tenho dos debates..