segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Domingo de debate

E que debate de nível ruim, por mais que os candidatos e sua claque comentassem ao final, de como foi exitoso.
De um lado, mais agressiva, a candidata Dilma, vitoriosa no primeiro turno. Talvez por ter sido vitoriosa, esperava-se dela uma postura mais amena, cordial. Entretanto, a campanha que vem sendo feita contra ela, ligada a questões religiosas e utilizando massivamente a internet, a levou a partir para cima do adversário, mostrando que não é mulher de aceitar desaforos.
Tentou caracterizar o candidato Serra como sendo, além do artífice das privatizações, o mentor da campanha que visa espalhar o ódio, o preconceito, a divergência. Por diversas vezes, falou da questão da salutar convivência que se dá aqui no Brasil, onde árabes e israelenses sentam-se à mesma mesa.
Em minha opinião, foi esse o rótulo que ela quis pregar em Serra, no debate, sem sucesso. Deixou que o candidato Serra falasse contra a postura de nosso governo, de estabelecer relações com todo e qualquer tipo de povos. Deixou que Serra falasse da amizade de nosso país com governos que apedrejam mulheres, que são contrários à democracia, que financiam grupos ditos terroristas, ou pior, grupos que se aproveitam do caos político interno, para ganhar força nas práticas ilícitas que os sustentam. Serra então teve espaço para atacar nossos vizinhos, com quem temos laços de amizade de longos anos, para acusá-los de estarem facilitando a entrada de drogas e armas em nosso território.
E ligou esse discurso à questão da segurança pública, propondo controle de fronteira mais rigoroso, a partir de instalação de uma Guarda Nacional, e com a criação de um Ministério da Segurança.
Dilma ouviu tudo isso sem reagir como devia, em minha opinião. E porque assim procedeu, embora como já dito acima, tentou mostrar Serra como fomentador de divergências que nosso país abomina ou procura evitar?
Primeiro: em minha opinião, por não ter a prática do discurso, da sala de aula, a Dilma pode conhecer o assunto, entender dele com profundidade, reter todos os números e cifras, mas fala mal. Não transmite segurança no que está dizendo. Não tem a sadia "cara-de-pau" que o professor tem de ter, perante a sua turma de alunos, na certeza de saber mais do assunto que aqueles que estão ali para ouvir e aprender. Essa é a segurança, ao menos do bom professor. Ele, que se preparou, sabe que sempre saberá mais que seu ouvinte. E passa essa certeza e segurança.
Então, Dilma vacila, fala de arranco. Não tem as entonações dos grandes oradores e dos grandes atores de cena.
E ali, estavam todos representando, já que a vida prossegue sendo um grande teatro.
Segundo: porque Dilma estava mais preocupada em rotular Serra de privatista. E, como tal, deu oportunidade para que seu adversário brandisse, por várias vezes, o mesmo argumento, favorável à privatização das telecomunicações. Talvez, a área mais sensível e de maiores benefícios para o povão, a julgar pelo número de celulares existentes.
Dilma foi incapaz de criticar a privatização da área siderúrgica, cada vez mais tomando o rumo da criação do monopólio da Gerdau, em especial se se concretizar a compra da Usiminas por essa companhia, como vem sendo ventilado, até na grande imprensa.
Dilma não falou das privatizações da área da energia, que ela conhece tão bem e que levou a problemas como apagões, etc.
Dilma ouviu Serra falar do presidente Dutra do PT, elogiando a quebra do monopólio da Petrobrás, enquanto estava no cargo de presidente daquela empresa, e não foi capaz de se lembrar do tratamento dispensado, pelo Governo FHC, ao movimento de reivindicação salarial dos petroleiros, que lhes custou a sede.
Terceiro: Dilma poderia ter dito que também os Estados Unidos têm a pena de morte e se não adotam o apedrejamento, utilizam da forca, da tortura, etc. E, de mais a mais, com tanto reforço de fronteira e tantos cuidados, como se explicar que o território americano seja tão infestado por drogas de todos os tipos e poder de destruição?
Dilma não tratou dessa questão, apenas tratada por Plinio no debate da Record, caracterizando os Estados Unidos como um arremedo de democracia porque, como disse o candidato do PSOL, Dilma, como o PT todo veio aos poucos fazendo a transição da esquerda para o centro. E, sem saber onde parar, pode já estar adentrando o espaço de direita, roubando bandeiras do PSDB. Pelo menos, é isso que a gente percebe quando vê os banqueiros, tradicionais aliados do PSDB tão satisfeitos com a política econômica de Lula. Política que insere no mercado de consumo 28 milhões de novos consumidores: a nova classe média. Mas que nunca antes na história desse país, permitiu tantos ganhos e lucros para os portadores dos títulos públicos, que remuneram com base na Selic.
Quanto à Serra, por mais que tenha dito se solidarizar com quem sofre difamações e calúnia, não perdeu a oportunidade de reforçar a questão do aborto. Não perdeu a oportunidade de tentar cativar o voto conservador que implora por melhorias da segurança, como se também a insegurança e a violência não fosse fruto do abismo social e da vergonhosa desigualdade de renda, de propriedade e de condições de acesso aos direitos de cidadania que constituem uma afronta a nosso povo.
Mas Serra adotou uma postura mais simpática, e embora menos agressiva, também firme. E falando melhor, pode ter passado a impressão de estar mais bem preparado e de ser mais capaz.
Agora que o debate não valeu a pena, não trouxe nada de novo, essa é que é a verdade, ao menos a partir de meu juízo.

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