quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O futebol, a ética e/ou a falta dela, no Jornal da Globo

Voltei de meu cochilo justo na hora em que William Waack apresentava os gols da quarta feira. Era o último quadro do jornaleco televisivo que ele e Christiane Pelajo apresentam todas as noites, antes do programa cada vez mais insurpotável (e sem audiência) do Jô.
Para a apresentação dos gols, como de praxe, chamaram a presença e colaboração de um comentarista esportivo da emissora. Não fiquei sabendo o nome do comentarista, ainda no torpor da sonolência.
Apresentaram os gols das quatro partidas da noite e, embora não me lembro, devem ter tecido mais mil e um elogios ao artilheiro eleito o Garoto do Placar da noite, no programa que sucede à transmissão futebolística e antecede ao Jornal.
Ontem, o escolhido, para variar foi Ronaldo. O Fenômeno. Menos talvez pelo gol em si. Mais pelo fato de ser sempre o escolhido.
Tudo bem. Vi alguns lances, passes de calcanhar, corridas... Até mesmo uma escapada e um pique que um garoto de 20 anos teria dificuldade em protagonizar, Ronaldo tentou. Tentou não, deu. Alcançou a bola e, bisonhamente, acabou caindo ao chão, dentro da área, já ao final do jogo. Sob as vistas de Maldonado, que nem se preocupou em disputar diretamente o lance.
Mas, ontem Rafael Moura do Goiás marcou duas vezes, no empate que seu time conseguiu arrancar, ao final do jogo, contra o Avaí, pela Sulamericana.
Claro, ao fazer dois gols na casa do adversário, o Avaí sai com grandes chances de passar para a fase semi-final, disputa que será travada com o vencedor do jogo decisivo entre Palmeiras e o Galo.
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Mas não era do jogo do Goiás, nem da Sulamericana, nem de meu GALO, nem de Obina, nem de Ronaldo que eu queria tratar.
Meu assunto é o jornal e a ética. Ou falta dela.
Porque mostrados os gols, os lances; feitos os comentários, surgiu o comentário irônico do William. Fulano, e o lance do jogo Palmeiras e Atlético?
O lance? Vamos descrevê-lo. A bola foi lançada à esquerda do ataque palmeirense, onde estava Lincoln. O ex-atleticano recebeu, invadiu a área e foi calçado por Jorge Campos, zagueiro atleticano.
Incontinente, o juiz apontou a marca da cal. Pênalti.
E aí, o auxiliar de linha, ou segundo árbitro, nomes mais glamorosos que estão agora utilizando para se referir ao bandeirinha chamou a atenção do juíz.
Ouvindo a transmissão do jogo pelo rádio, momentos antes, lembro que o locutor da Itatiaia ("a rádio do futebol de Minas"), comentou que o bandeirinha poderia estar delatando ao juiz algum lance de agressão que ele tivesse visto.
Mas não. Terminada a conferência entre os árbitros, o juiz resolveu voltar atrás em sua decisão e anulou a marcação do pênalti.
Admitindo o erro, o bandeirinha, que não havia levantado seu instrumento de trabalho, contou ao juiz que a posição do jogador Palmeirense era de total e completo impedimento.
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O lance foi mostrado mais uma vez pela Globo. A preocupação, entretanto, foi de mostrar: que houve o pênalti. Dois: que o bandeirinha não havia levantado a bandeira para assinalar o impedimento enquanto a jogada se desenvolvia. Três: que só depois do pênalti marcado, o bandeirinha faz a observação ao juiz. E, finalmente, que o juiz volta atrás.
Mais uma vez na tela, focaram o bandeirinha correndo sem levantar o bastão.
E o que fizeram, tanto o comentarista da Globo, quanto o apresentador com ar estupidificado?
Elogiaram a postura e o comportamento; a hombridade e a humildade do juiz de linha que reconheceu que errou e recuou em seu erro?
Fizeram algum tipo de comentário deixando claro quão raro é esse procedimento, tanto na vida em geral, quanto no futebol, uma vez que ao admitir seu erro, o juiz pode dar ensejo até mesmo a uma punição, por admitir uma falha clamorosa?
Não!
O que vi e ouvi, confesso que de certa forma com um misto de decepção e nenhuma surpresa, foi o comentarista chamar a atenção para que houve sim o impedimento. Ponto!
Ponto não, vírgula. Mas ele não deu nada.
E o irônico e "gozador"Waack (até o nome dá sono!) perguntando se o bandeirinha não ficou foi arrependido, já que o lance não foi um lance morto, tendo consequências mais graves e decisivas???
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Posso estar enganado, afinal estava ainda meio grogue de sono, mas no ar, a imagem que me passou foi a de que estavam, de certa forma, culpando o juiz por ter voltado atrás. Afinal, se já tinha mesmo seguido a jogada, o certo era tocar para a frente...
Minha impressão é que estavam criticando a situação que, afinal, prejudicou e impediu a vitória - não especificamente do Palmeiras, mas de um time de São Paulo.
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Neste momento, e com essa sensação, lembrei de todos os especialistas que insistentemente, recomendam não ter aparelho de televisão instalado no quarto de dormir, de forma a que nada possa vir a perturbar que se tenha um sono reparador e confortante.
Recomendação que se estende em um arco de alianças que engloba tanto a classe de cientistas do sono, de médicos, em um espectro, quanto a visão mais esotérica, por exemplo, do feng shui.
E, sem ficar fazendo caraminholas quanto à questão de por onde passou a ética naquele patético final de jornal, desliguei a tevê e fui dormir.
Lamentando, por um lado, não ter dormido direto. Por outro, agradecendo por ter podido desligar o aparelho e deixar de contribuir para o processo de distribuição de renda, da minha renda para a Cemig.

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